Entrevista com Dr. Luiz Miller
de Paiva, Presidente da Nacional
de 1984 a 1986
A ABMP-SP orgulhosamente
apresenta a íntegra da entrevista que foi realizada no consultório
do Dr. Luiz Miller de Paiva, Presidente da Nacional de 1984 a 1986.
Mas muito mais do que isso, o Professor Miller foi uma das pessoas
responsáveis pelo surgimento do movimento da Psicossomática.
Não temos como engrandecer e agradecer todo o esforço
do nosso tão querido professor Miller. A entrevista foi realizada
pelas psicólogas Aliene S. G. dos Santos e Cynthia Lays Koloszuk
em 2003 e transcrita pela segunda.
Entrevistadoras:
Professor Miller, o que despertou o seu interesse pela Psicossomática?
Dr.
Miller: Morávamos num alojamento anexo ao
Hospício, como estudantes residentes de Psiquiatria e trabalhávamos
também na enfermaria de Ginecologia, isso no Rio de Janeiro.
Observávamos a conduta de certas mulheres antes da menstruação,
que mudavam completamente o comportamento no pré-mênstruo,
mas depois normalizava. Imaginamos então que pudesse haver
uma correlação entre o psíquico e os hormônios
e foi daí que surgiu o nosso interesse em estudar esses fenômenos.
Tínhamos nesse momento, um colega muito estudioso que estava
fazendo livre docência, o Antonio Augusto Quinnet de Andrade
que já faleceu infelizmente e que fazia pesquisas e então
estudávamos com ele esses problemas. Ele fazia um esfregaço
vaginal e estudava exatamente as doenças ginecológicas
através das dosagens dos estrogênios; ficamos muito
interessados nisso. Foi daí que começou mesmo o nosso
interesse pela Psicossomática. Até anteriormente,
tínhamos exemplos de Psicossomática através
do médico da família.
Entrevistadoras:Que não existe mais hoje infelizmente!
Dr.
Miller: É.
Entrevistadoras:Quando seu interesse pela Psicossomática foi
despertado, que autores o senhor procurou e que contatos o senhor
buscou?
Dr.
Miller: Bom, em primeiro lugar fomos procurar o
Dr. Paulo Pinto Viegas de Belo Horizonte, porque ele tinha feito
um estágio com o Goldzieher de Nova Yorque. Goldzieher tinha
publicado um trabalho mostrando uma coisa muito interessante. Observando
o esfregaço vaginal, estava negativo, não tinha hormônio;
não tinha estrogênio; as mulheres se apaixonaram, apareceu
o esfregaço positivo, com hormônio. Isto demonstrou
a correlação entre o psíquico e o endócrino,
pelas experiências do Goldzieher e ele foi o mestre do Paulo
Pinto Viegas. Então fomos a Belo Horizonte aprender com o
Paulo Pinto Viegas e fizemos então um trabalho em conjunto,
sobre Hipertensão Arterial enviado para o Congresso Pan-americano
de Medicina, de 1964.
Entrevistadoras:Qual a sua memória pessoal e profissional no
campo da Psicossomática?
Dr.
Miller: A tese que ajudamos, cuja pesquisa foi feita
na Enfermaria de Ginecologia, foi muito importante, porque a ginecologia
sempre interessou-nos muito, principalmente a Ginecologia endócrina.
Os professores Bernardinelli e Caprillione, com seus livros, conferências
e reuniões clínicas, estimularam muito nossas pesquisas
no campo da Psicossomática.
Depois
do Rio de Janeiro viemos para São Paulo, para aprender Endocrinologia
no Instituto Butantã com o professor Ribeiro do Vale, aí
então começou o estudo psicossomático propriamente
dito. Começamos a estudar Endocrinologia, porque o Professor
Leal Prado de Carvalho tinha recentemente vindo do Canadá,
onde foi assistente do “Selye”. Nós fizemos então,
estudos sobre a origem emocional e endócrina da Hipertensão
Arterial; trabalho que nós levamos para o Congresso Pan-Americano
de Saúde e depois para o Congresso Pan-Americano de Endocrinologia
em Copenhague. Nesse congresso de Copenhague nós levamos
outro trabalho juntamente com Ribeiro do Vale sobre tensão
pré-menstrual e hormônios. Descobrimos que muitas mulheres
que tomavam hormônio e tomavam diurético para emagrecer
não obtinham resultados positivos, pois fatores emocionais
não permitiam que o diurético surtisse efeito e a
tensão pré-menstrual também permanecia. Resolvemos
então ministrar hormônio masculino, a Testosterona,
para as mulheres nesse período pré-menstrual, o que
aumentava a libido, melhorava a depressão e melhorava espetacularmente
a tensão pré-menstrual, mas não ocorria emagrecimento.
Outra
pessoa que foi importante em nossos contatos com a Psicossomática,
foi o Capisano. Ele e a esposa eram muito católicos e eu
os conhecia da igreja da Consolação que ele freqüentava
com a família e eu também. Eu me lembro que nos encontrávamos
e conversávamos e desde aquele tempo ele estava muito interessado
em Medicina Psicossomática. Ao mesmo tempo, no Rio de Janeiro,
o Professor Perestrello começou a se interessar também
por Medicina Psicossomática. Então, tentaram formar
uma sociedade. Capisano formou aqui em São Paulo e Perestrello
no Rio de Janeiro.
Entrevistadoras:Em que ano foi isso?
Dr.
Miller: Em 1946 se não me engano. Não
temos muita certeza, mas acreditamos que foi por volta de 46. Ocorreu
então, que o Perestrello trouxe de Londres o presidente da
Sociedade Internacional de Psicossomática, que era o Professor
Balint. Nós nos reunimos lá no Rio de Janeiro e nessa
reunião se fundou a sociedade do Rio de Janeiro, mas quem
tem o mérito da fundação da sociedade no Brasil
são os dois; Capisano em São Paulo e Perestrello no
Rio ao mesmo tempo. Isso porque todos nós estávamos
imbuídos na Psicossomática, pelos conhecimentos da
Clínica em geral e da Endocrinologia. Então, foi em
conjunto, numa necessidade, que todos os clínicos sentiam
de encontrar respostas através da Psicossomática,
trocando experiências e conhecimento.
Bom,
aí infelizmente houve uma dissociação no sentido
Rio/São Paulo. Então, o que ocorreu? Ocorreu é
que após a ruptura o Perestrello ficou no Rio de Janeiro,
dez anos com a sociedade inativa, sem funcionar e nós aqui
em São Paulo fizemos então a Associação
Paulista de Psicossomática por assim dizer, com reuniões
de estudo e troca de experiências e instalando o primeiro
curso de Psicossomática na Escola Paulista de Medicina, documentado
através de fotos. Capisano e eu íamos também
para o interior para dar cursos de Psicossomática, em Piracicaba,
Jaú, Bauru, e numa série de cidades.
Entrevistadoras:Professor, os cursos eram sempre nas faculdades de
Medicina?
Dr.
Miller: Sempre nas faculdades de Medicina. Demos
em outros Estados também, como Paraná na cidade de
Londrina e no Rio Grande do Sul. Fizemos também Conferências
Psicossomáticas cuja data não me recordo, mas que
estão todas documentadas em uma pasta de documentos que separei
para vocês.
Continuando
as minhas memórias de aprendizagem, devo reconhecer que aprendi
muito na Argentina com Rascovsky. Tivemos excelentes sessões
de terapia de grupo com Rascovsky, Garba e com outros endocrinologistas
e psicanalistas argentinos. Aprendemos muito, sobre Psicanálise
com os argentinos e aprendemos muito de Endocrinologia, pois o Prêmio
Nobel de Medicina era do Professor Houssay da Argentina, apesar
dele ser um obsessivo de difícil trato.
Bom,
nós temos que salientar também Maria Langer. É
uma pena que Maria Langer morreu como comunista. Revoltada com as
injustiças sociais que presenciava ela fugiu da Argentina
por questões políticas e se refugiou na Nicarágua
onde morreu. Era uma mulher inteligentíssima, mas deixou
um livro publicado chamado "Maternidade e Sexo", que é
um colosso, um dos melhores livros que eu já li e que muito
nos entusiasmou.
Outros
indivíduos que nos entusiasmaram em Psicossomática,
além desses já citados, foram o Caldero Barcia do
Uruguai que muito nos ajudou, principalmente em Ginecologia e Obstetrícia
e o Balint através de seu livro “Basic Fault”
(A Falta Básica).
Sem
deixar de citar a grande influência no início da nossa
carreira, de José Ribeiro do Vale do Instituto Butantã
pelas pesquisas endócrinas e Tales Martins que também
foi um grande Endocrinologista, pois acreditamos que a Psicossomática
está muito ligada à Endocrinologia.
Entrevistadoras: Hoje existe todo um agito em torno da Psiconeuroimunologia
como se fosse algo novo e vocês pioneiros da Psicossomática
já trabalhavam em pesquisas, na área de endocrinologia
nos anos cinqüenta, comprovando as relações entre
o físico e o psíquico.
Dr.
Miller: Isso! A Neurociência! Pela história,
nós já fazíamos neurociência há
muitos anos atrás. Você vê que a própria
Sociedade de Psicanálise da qual somos membros, convida outros
indivíduos para fazer palestras sobre Neurociência
e esquecem de Miller e Capisano.
Entrevistadoras: Esquecem dos pais da criança! Voltando à
nossa pergunta, há mais algum nome que o senhor gostaria
de citar?
Dr.
Miller: Quem nos ajudou muito na compreensão
da Psicossomática foi Dick Ready, um obstetra da África
do Sul que praticou o “parto sem medo”. Então
vimos o quanto aprendemos de Psicossomática com relação
à Obstetrícia com o Dick Ready. Aprendemos muito também
com o uruguaio Caldero Barcia que dosou hormônios de uma mulher
calma e de uma mulher nervosa em trabalho de parto e descobriu que
na mulher nervosa havia excesso de Epinefrina o que provocava espasmos
no cólon, impedindo o parto normal e levando a uma Cesárea.
Tivemos ajuda também, dentro da Psicossomática de
William Steckel com dez livros escritos, excelentes para quem quer
começar a estudar Psicossomática. Outro ajutório
que tivemos na Psicossomática foi de Margareth Mead, quer
dizer, através dos livros dela, como “Adolescência
em Samoa”. Com eles pudemos compreender a psicologia feminina,
de maneira muito mais clara e que pôde ser aplicada com os
pacientes no divã e no grupo.
Bom!
Não podemos deixar de citar a aprendizagem que tivemos na
Sociedade de Psicanálise, com Melanie Klein, Bion e Virgínia
Bicudo, que nos auxiliou muito neste sentido.
Ao
lado de Rascovsky, nós não podemos esquecer de Angel
Garba da Argentina. Dos Estados Unidos, quem muito nos auxiliou
foi Helen Deutsch, juntamente com Franz Alexander, que foram os
primeiros de quem tivemos conhecimento nos Estados Unidos e muito
nos auxiliaram no conhecimento da Psicossomática.Tereza Benedett
também foi muito importante, aliás, a minha tese é
sobre o trabalho dela, sobre o esfregaço vaginal e as alterações
hormonais.
Quanto
a nossa trajetória profissional, vamos entregar a vocês
uma pasta contendo os documentos da nossa participação
em Congressos, livros publicados, cursos, etc...
Junto
com o movimento Psicossomático, nós tivemos também,
concomitantemente o desenvolvimento da Terapia Analítica
de Grupo, quando pudemos contar com o auxílio dos doutores
Blay, Capisano, Bockman e Pocci nesse sentido.
O
resultado de nossas pesquisas em Psicanálise você pode
ver neste livro, que está pronto, mas ainda não pude
publicar, onde faço uma correlação entre pintura
e Psicanálise. Não pudemos publicar, porque contém
a reprodução de pinturas de vários autores,
desde as primitivas até as contemporâneas, mas ficamos
sabendo que agora existe uma lei de nome francês, que não
me lembro o nome e que possibilitaria a publicação.
Entrevistadoras: A Lei Rouanet.
Dr.
Miller: Isso! E agora já seria possível
publicar, só precisamos encontrar alguém interessado.
Entrevistadoras: Qual a sua escola preferida?
Dr.
Miller: Nós temos algumas escolas preferidas,
mas não somos obsessivos numa escola só. Por exemplo,
a Escola Inglesa, incluindo Melanie Klein, Bion, Winnicott, tem
nossa preferência, porque estudamos muitos anos Psicanálise.
Mas nos Estados Unidos, temos um indivíduo excepcional, que
conhece Psicossomática a fundo e que poucos conhecem, Grotstein.
Ele tem um livro maravilhoso já traduzido em português.
Ele foi convidado para uma conferência em São Paulo
sobre Psicanálise, quando ele foi mais psicossomatista que
psicanalista, deixando aturdidos os ouvintes que não tinham
conhecimento de Psicossomática. E ele tinha conceitos muito
bons. Tivemos supervisão com o Grotstein e foi excelente,
principalmente em matéria de Psicossomática. Seus
conceitos são muito especiais, por isso é um autor
preferido e foi quem prefaciou o nosso livro “Psychosomatic
Psychiatry” que faz um estudo das psicoses e dos Borderlines,
quando contei também com o apoio de amigos pessoais como
o Hélio Amâncio de Camargo e o Mário Pacheco
de Almeida Prado, que muito nos auxiliaram no conhecimento da Psicossomática.
O
Leon Cabernett, que nos ajudou muito num estudo mais profundo do
Complexo de Édipo e as alterações Psicossomáticas
decorrentes de outros conflitos.
Tivemos
a oportunidade de conhecer e convidar para vir a São Paulo,
Gunther Ammon da Alemanha, com seus estudos e sua escola, que nos
auxiliou sobremaneira. Então vou contar para vocês
um fato que ocorreu na Faculdade de Medicina num desses encontros,
entre Gunther Ammon, Mario Pacheco de Almeida Prado, Amina Maggi
e eu Miller de Paiva. Gunther Ammon batia na mesa e dizia:- Naine,
Naine, Naine! Isso porquê ele achava que o ego esburacado
era conseqüência de uma mãe má e nós
achávamos que não precisava haver uma mãe má,
bastava que a criança sentisse a mãe como má,
mas ela não precisaria ser efetivamente má. A importância
estava na percepção da criança e não
na realidade, mas ele não aceitava e afirmava que a mãe
precisava ser má para isso ocorrer. No entanto foi ótima
a aprendizagem que tivemos com o Gunther Ammon na Escola de Medicina.
Anos depois nos encontramos na Rússia num congresso e ele
já estava a nosso favor. Ele era uma pessoa muito generosa
e pagou o Congresso na Rússia porque nossos colegas de lá
não tinham dinheiro para pagar. Aprendemos com Gunther Ammon,
no Instituto de Psiquiatria de lá, sobre os medicamentos
antidepressivos, que controlavam a má circulação
cerebral.Eles estavam muito adiantados nesses estudos e nosso aproveitamento
foi muito bom. Mas friso novamente, tudo era obra do Gunther Ammon,
porque ele fez uma escola, onde não fazia apenas um exame
clínico do paciente, só uma psicoterapia, mas ele
fazia a milieu thérapie (terapia no meio, integrada) onde
o paciente era examinado por um clínico, por um psicanalista,
por um radiologista, um psicólogo, um terapeuta comunitário,
abarcando todo o problema psicossomático. Incentivava também
a prática de esportes e fisioterapia. Hoje sou fã
do Gunther Ammon e seu trabalho, apesar dele ser narcísico,
egocêntrico, ele também é generoso, dividindo
seus conhecimentos. Ele ficou muito nosso amigo e estive várias
vezes na Alemanha a convite dele.
Entrevistadoras: Como o senhor vê os rumos atuais da Psicossomática?
Dr.
Miller: Eu sou fã da Endocrinologia, da Neuroendocrinologia.
Eu acho que os rumos dados pela Neuroendocrinologia estão
permitindo um esclarecimento imenso sobre o âmago das doenças
psicossomáticas. Agora, por outro lado eu sou um entusiasta
também da meditação profunda. Eu fiz amizade
com o Yujiiro Ikemi, que conhecemos através de congressos
de Psicossomática e que trabalha com Meditação.Ele
mostra coisas muito interessantes! Ele era um gentleman.Encontrando
com ele a primeira vez, ele apresentou um trabalho de cura espontânea
de um caso de câncer de estômago. Os cirurgiões
abriram, viram que era câncer, fecharam e mandaram o paciente
para casa. O sujeito se dedicou a Seicho-no-ie e ficou bom. Dois
anos depois eu encontrei com ele em Madri e perguntei:- Escuta,
e aquele paciente? Ele respondeu:- Está vivo! Aí ele
se dedicou ao estudo do câncer e publicou um livro. O livro
veio para nós o ano passado, pois éramos muito amigos.
Ele tem, documentados, setenta casos de pacientes curados do câncer.
Então somos entusiastas nesse sentido, porque o Ikemi mostrou
isso e também vimos casos antigos de pessoas com câncer,
que de repente estão curadas e a pessoa está bem.
Em
Neurociência, aconteceu uma coisa interessante; no livro do
Ramachan, ele cita o caso de uma pessoa que teve um trauma na região
occipital e foi presa várias vezes. Quem ia tirá-la
da cadeia era seu neurologista. Por quê? Porque o trauma que
o sujeito teve impedia-o de ver a palavra toda. Quando olhava para
a palavra "women" só via "men" escrito
e entrava no banheiro feminino e então era preso por atentado
ao pudor.
Entrevistadoras: E as atividades que o senhor e o Professor Capisano
faziam de intercâmbio com a Argentina? Parece que o senhor
convidou o Chiozza para vir à sua casa... Como eram esses
trabalhos? Quem começou?
Dr.
Miller: O que eu posso dizer? Esse trabalho quem
começou foi um grupo com o Capisano e o Chiozza e a escola
dele, da Argentina. Ele constituiu uma das melhores escolas de Psicossomática
do mundo! Sozinho ele é formidável, em conjunto com
argentinos é uma calamidade! Estava na época, presidente
da Associação de Psicossomática daqui e pagamos
a estadia de um venezuelano ou chileno, não sei bem, para
participar de um congresso. Vieram nesse congresso, quarenta argentinos
trazidos pelo Chiozza e o pior é que oferecemos um jantar
para eles na nossa casa e o Chiozza reuniu o grupo dele e foi ter
conosco, na nossa casa, depois do jantar, reclamando como é
que havia sido paga a viagem do venezuelano e não pagamos
a deles. Eu respondi que era porque não havia dinheiro suficiente
e ele sabia disso. Não pudemos pagar para quarenta pessoas.
Achamos uma falta de educação máxima da parte
dele. Não tinha cabimento, nos cobrar em nossa própria
casa durante um jantar de confraternização.
Entrevistadoras: Há outra coisa que gostaríamos de saber:-
Quais as mudanças que aconteceram da Psicossomática
de seu tempo até a Psicossomática atual? (negritar!!!)
Dr.
Miller: A mudança da Psicossomática
se deu de uma maneira muito intensa quando entrou a Psicanálise
no meio. A Psicanálise proporcionou o conhecimento do âmago
dos processos psicossomáticos.
Entrevistadoras: E quem iniciou essa corrente psicanalista?
Dr.
Miller: Maria Langer e os argentinos que já
citei e no Brasil o Valderedo de Oliveira, o Perestrello com a mulher,
a Maria Alzira, o Julio de Mello Filho, o Capisano e Miller de Paiva.
A mudança foi gritante em relação à
Psicanálise.
Hoje
em dia, através da Ressonância magnética, foi
um colosso o avanço no campo da Psicossomática, pois
veio mostrar entre outras coisas, que o obsessivo tem uma alteração
mental. É estrutural e a ressonância mostra. Então
a ressonância magnética veio dar um esclarecimento
fantástico na patogenia da Esquizofrenia, na Psicose maníaco-depressiva
e na Depressão. Quando fizemos nossa tese de livre docência,
provamos que a depressão é decorrente de uma alteração
hormonal e hoje isto pode ser comprovado através da ressonância
magnética, que era impossível de se fazer naquele
tempo.
Entrevistadoras: Qual foi o título de sua tese de livre docência
mesmo?
Dr.
Miller: Foi o “Comportamento da mulher”.
Entrevistadoras: Então todas as suas teses foram sobre tratamentos
de mulheres? Foi em Ginecologia ou Endocrinologia?
Dr.
Miller: Foi. Em geral, tinha outras coisas, mas
o comportamento da mulher foi abordado de uma forma integral.
Entrevistadoras: Que conselhos o senhor daria aos profissionais que
estão começando a trabalhar hoje em Psicossomática?
Dr.
Miller: Em primeiro lugar uma análise didática.
A Grupo Análise que é mais barata e mais eficaz. Eu
sou fã de Grupo Análise, mas não para o esquizofrênico.
O esquizofrênico é muito difícil, ele precisa
de uma análise individual, mas para os indivíduos
hipomaníacos, obsessivos, para infidelidade conjugal, conflitos
familiares, briga de casais, somatizações das mais
variadas, você usa a grupo análise brilhantemente porque
é uma coisa simples. Jesus fez algum milagre sozinho? Nunca!
Ele só fazia quando havia uma entourage. O milagre de Lourdes
se fez sozinho? Não! Havia uma entourage. O psiquismo grupal
é tão importante para todo mundo. É o que o
Kaez chama de O Todo. O Kaez é outro indivíduo que
eu admiro e usou o psiquismo grupal. O psiquismo grupal faz o grupo
ser um todo, por isso nós mudamos a Técnica de Psicoterapia
em Grupo para Psicoterapia de Grupo. Porque em grupo você
analisa o indivíduo e de grupo você analisa o conjunto
e o conjunto é muito importante para a melhoria. Por isso
que muita gente em São Paulo faz Psicoterapia de Grupo mal.
Pouca gente faz bem feito. Por quê? Porque a maioria não
entende de psiquismo grupal. O aparelho psíquico grupal tem
que ser formado. É importantíssimo para a solução
de problemas profundos, porque isto é indispensável
e o terapeuta deve estimular o ódio assassino do grupo voltado
para ele. Se não estimula o ódio assassino, não
há cura, e esse ódio é estimulado através
da análise de sonhos.
O
insight acontece no grupo. Isso é grupo e o grupo participa.
Então é um entusiasmo formidável! Eu sou fã
de Grupo Análise, de preferência duas vezes por semana.
Quanto
aos argentinos, com quem fizemos Grupo Análise também,
nós devemos muitos favores e aprendizagem. Pessoalmente somos
muito gratos, porque nos fizeram uma homenagem em um Congresso exatamente
sobre nossos trabalhos aqui no Brasil. Fomos homenageados na Argentina,
numa reunião excepcionalmente boa cientificamente e eles
foram muito delicados com a gente.
Entrevistadoras: Professor, a Alina sua filha, falou que o senhor
recebeu um prêmio num Congresso de Ginecologia há cinco
anos.
Dr.
Miller: Me parece que não foi um prêmio,
foi uma homenagem, porque eu fui o primeiro que abordou a causa
da T.P.M (Tensão pré-menstrual), mas ninguém
nunca reconheceu isto, aí fomos homenageados nesse congresso.
Entrevistadoras: A Alina disse que há trinta anos o senhor
já falava, mas ninguém dava valor.
Dr.
Miller: Brasileiro é assim! Se não
é estrangeiro, não tem valor. Já dissemos anteriormente,
que os médicos têm uma resistência muito grande
para as questões psíquicas. Para trabalhar com Psicossomática
tem que ser analisado, ter paciência e um trabalho metódico
contínuo. Isso é indispensável! É preciso
ter conceitos de forma integral para poder ajudar o paciente.
Apresentamos
no Hawaí um estudo de como ensinar Psicossomática.
Todas as faculdades são falhas! Todas! Até nos Estados
Unidos e Inglaterra são falhas! Então agora demos
sugestões para a Escola Paulista, mas eles não ligaram.
Um dos professores pediu novamente um projeto para apresentar para
o conselho que ainda não teve coragem de mudar. Isso há
dez anos atrás. Mas hoje surgiu uma nova proposta:- Você
for ensinar, já tem uma cadeira que aborda todas as outras
cadeiras. Um paciente então é estudado pelo professor
de Histologia, de Anatomia, de Farmacologia, etc... Entendeu?
Entrevistadoras: De maneira integrativa!
Dr.
Miller: Isso! Já é um progresso! Mas
a principal questão é da estidade. Ninguém
tem doença. Há doentes. Cada um tem sua própria
doença. Isto é estidade. Especificação
de cada pessoa. Coisa que se você não levar em conta
você não consegue tratar paciente nenhum. Cada paciente
é um indivíduo com suas própria características.
O que nos deu uma nova visão das coisas foi em 1956, quando
freqüentamos os cursos do Conselho Médico Psicológico
Ibero Americano, quando pela primeira vez trabalharam juntos: o
médico, o psicólogo e o psiquiatra. Estavam reunidos
também grandes mestres como: Selye, Balint, Danilo Perestrello,
Durval Marcondes, todos reunidos lá em Buenos Aires. Perestrello
foi um dos instrutores no Brasil do método Balint, além
da Medicina da Pessoa.
Entrevistadoras: Professor Miller, nós gostaríamos de
saber qual foi a sua impressão e sentimento ao receber o
troféu “A lágrima vertida” que foi oferecido
aos pioneiros paulistas, no último Congresso Paulista de
Psicossomática?
Dr.
Miller: Claro! Fiquei
muito contente, emocionado e grato.
Entrevistadoras: Em nome da diretoria da Associação
Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional São
Paulo, na atual gestão da Psicóloga Maria Rosa Spinelli,
gostaríamos de agradecer sua atenção e colaboração
através desta entrevista, para esclarecer sobre a história
da Psicossomática em São Paulo.
O Dr. Luiz Miller de Paiva mantém Grupo
de Supervisão e Estudos às quartas-feiras, das 12h00
às 14h00 horas na Rua Campo Verde, 439, Jardim Paulistano
e atende em seu consultório da Avenida Brig.Faria Lima, 1713,
8º andar, Jardim Paulistano.