Entrevista com o professor
Dr. Helladio Francisco Capisano,
sobre a História da Associação de Medicina
Psicossomática
em São Paulo (realizada em Dezembro de 2003)
Antes, uma palavra
de nossa Presidente, àcerca do passamento do Prof. Dr. Capisano,
que por sua convivência por muitos anos com essa grande pessoa
e como continuadora de seus esforços, tem a palavra dos nossos
corações.
"Para
quem não conheceu Capisano, veja os seus artigos, e sua realização:
a Psicossomática no Brasil.
Para quem quer conhece-lo: conheça a Associação
Brasileira de Medicina Psicossomática em São Paulo.
Para quem quer admira-lo ainda que não o tenha conhecido:
entenda o que é seguir um ideal.
Para quem quer imita-lo : defenda a idéia, re-escreva fenômenos,
doe ao outro o que sabe e viva em grupo.
Para quem quer um ideal e não sabe o que seguir: siga o Mestre
e admire e respeite o "processo do homem".
Saiba viver, enquanto muitos possam não acreditar que isto
ainda seja possível. Continue vivendo Capisano em nossas
mentes e em nossos corações, olhamos para você
para que você olhe para nós.
Com carinho,
Maria Rosa Spinelli
Presidente da ABMP-SP.
ABMP-SP:
Professor Capisano, em nome da diretoria da Associação
de Medicina Psicossomática, regional São Paulo, na
gestão da Psicóloga Maria Rosa Spinelli, Solange Lopes
de Souza e eu, Cynthia Lays Koloszuk, psicólogas, gostaríamos
de entrevistá-lo a respeito dos primórdios da Psicossomática
em São Paulo, para resgatar e homenagear as figuras dos fundadores.
Dr.Capisano:- No
passado nos preocupávamos com casos clínicos. Nem
eu nem o Miller, nunca tivemos qualquer preocupação
com a fundação burocrática da Medicina Psicossomática,
superficialidade que não nos atingia. Havia grande interesse
clínico. O que você acha dessa doença, fusão
de corpo com o psiquismo? Como vamos lidar com isso? Sempre com
interesse na investigação, nunca no sentido de dizer
se fui eu ou outro que fundou a Medicina Psicossomática.
Quando? Onde? Como? Burocracia secundária, interessando a
administradores, não a pesquisadores! Acho que isso é
secundário.
ABMP-SP:
É secundário, mas para as pessoas que atualmente estão
ligadas a trabalhos, à pesquisa dentro da Psicossomática,
é importante o referencial teórico para entender a
forma de pensar de cada pesquisador e tirar daí a sua contribuição.
Dr. Capisano:- Conteúdos
clínicos são fundamentais, base de toda investigação,
sustentando que qualquer doença psicossomática é
causada pelo superego agressivo e destruidor do próprio paciente!
ABMP-SP:
O senhor poderia esclarecer melhor a idéia da fundação
da sociedade?
Dr. Capisano:- A
idéia da fundação da Associação
Brasileira de Medicina Psicossomática e da Sociedade de Medicina
Psicossomática de São Paulo se desenvolveu na cátedra
de Terapêutica Clínica da Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo, no serviço de Gastroenterologia,
em minha residência na rua Santarém, 299, e em meu
consultório na rua Itacolomy, 601, 3º andar. Tenho registro
no dia 24 de outubro de 1955, data de uma de nossas reuniões
de discussão de casos clínicos. Completamos cinqüenta
anos no próximo ano, em 2005.
ABMP-SP:
O que despertou o seu interesse pela Psicossomática?
Dr. Capisano:- Uma
sucessão de acontecimentos imprevisíveis a partir
de minhas atividades durante doze anos de Clínica Médica.
Posteriormente, meu interesse maior se concentrou nas doenças
do aparelho digestivo, ingressando no Serviço de Gastroenterologia
do Hospital das Clínicas, sob a direção de
José Fernandes Pontes. Com ele constatamos no ambulatório
desse serviço, um percentual de 78% de pacientes com queixas
funcionais sem qualquer alteração de estrutura em
toda a extensão do tubo digestivo. Estava aberto o caminho
para a investigação psicossomática!
ABMP-SP:
Na própria anamnese diferenciada?
Dr. Capisano:- Não.
Na anamnese habitual me foi possível perceber a importância
de ouvir o paciente , sem quebrar o curso de seu pensamento com
perguntas. Ouvi-lo respeitando suas pausas de silêncio.Não
é preciso fazer perguntas, elas ocorrem depois, num interrogatório
dirigido. Se faço perguntas inicialmente, estou me metendo
no relato que o paciente está fazendo. Minha intromissão
com perguntas, só vai atrapalhar, quebrando o curso do pensamento.
Passei a tomar uma conduta de ouvir uma história e de ter
paciência nos intervalos, nas pausas clássicas. Vou
ficar ouvindo sem perguntar coisa nenhuma, senão eu nunca
poderia ter o histórico de ninguém. Foi isso que me
fez mudar completamente e fazer essa prática.
ABMP-SP:
Só depois o senhor faz a anamnese padrão?
Dr. Capisano:- Após
a identificação do paciente, faço o seu histórico
sem perguntas, depois procedo o interrogatório dirigido de
todos os aparelhos, sem nenhuma distinção, incluindo
hábitos, antecedentes, doenças anteriores em ordem
cronológica, de forma minuciosa, com dados, exames, estrutura
familiar. Para vocês terem uma idéia, lhes forneço
o modelo que uso.
ABMP-SP:
E com a teoria da Psicossomática, quando o senhor entrou
em contato?
Dr. Capisano: -
Vamos ver... O meu interesse pela Clínica Psicossomática
foi reforçado por Juan Rof Carballo, da Espanha. Eu estive
com ele na Espanha, depois ele esteve aqui também. Eu conheci
o Rof Carballo numa viagem que fiz ao exterior, quando me tornei
amigo dele. Fui muitas vezes à Madrid e ele esteve aqui em
São Paulo, quando tivemos vários contatos, com troca
de conhecimentos teóricos básicos. Homem de uma erudição
extraordinária, além de conhecer muito bem a língua
espanhola, sabia inglês e falava correntemente o alemão.
As bases teóricas que eu conheci inicialmente de patologia
psicossomática foram reforçadas com ele. Um dos primeiros
livros de patologia Psicossomática foi escrito por Rof Carballo.
ABMP-SP:
É uma relíquia! Essa informação é
importante, pois estamos fazendo também o levantamento bibliográfico
dos livros que foram importantes na sua formação e
na do Dr. Miller no campo da Psicossomática.
Dr. Capisano:- Tinha
interesse pela Psicossomática e de repente eu descubro um
homem na Espanha, em Madrid, que se dedicava muito a essa patologia.
Convidei-o para vir ao Brasil para uma conferência. A troca
de experiências, começou em São Paulo, com pesquisas
e estudos sobre Patologia Psicossomática, feitas pelo Miller
e eu.
ABMP-SP:
Qual a especialidade do Dr. Juan Rof Carballo?
Dr. Capisano:- Especialidade?
Ele fazia Clínica Médica, porque Medicina Psicossomática
não é especialidade.
ABMP-SP:
O senhor era Gastroenterologista?
Dr. Capisano:- Primeiro
fiz doze anos de Clínica Médica, depois fiz um curso
de cinco anos para me tornar especialista em Gastroenterologia.
Depois desses cinco anos, obtive o título de especialista
e entrei na Sociedade de Gastroenterologia como membro. Fui em seqüência,
ao longo dos anos, secretário adjunto, secretário
geral, presidente e presidente honorário. Tive todos os títulos
em Gastroenterologia. Tinha sobretudo os doentes com queixas sem
alterações de estrutura, que me fizeram despertar
o interesse pelo psiquismo. A Gastroenterologia foi o ponto de partida
para eu começar a fazer a minha análise pessoal, com
o Dr. Ciro Ferreira de Camargo.
ABMP-SP:
A primeira?
Dr. Capisano:- Sim,
a primeira com Ciro Ferreira de Camargo; quatro anos. E foi a partir
da Gastroenterologia que eu me interessei pelos problemas psíquicos
em qualquer paciente. Depois mais tarde, entrei no Instituto de
Psicanálise de São Paulo, quando na oportunidade,
fiz análise com a Dra Adelaide Lucy Koch, durante sete anos.
A ultima que me submeti com grande proveito, terminei há
cinco anos atrás. Foi com o Dr. Yutaka Kubo. Tenho muito
a lamentar, pois ele morreu dia oito deste mês e eu fiquei
profundamente abalado.
ABMP-SP:
Quanto tempo durou a sua ultima análise?
Dr. Capisano:- Quatro
anos, concluida há cinco anos atrás.
ABMP-SP:
Como aconteceu o seu desenvolvimento profissional dentro da Psicossomática?
Dr. Capisano:- Eu
tive o meu desenvolvimento dentro da Universidade de São
Paulo. Organizei um grupo de estudos no Hospital das Clínicas
e obtive o título de professor adjunto de Medicina Psicossomática
na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa e de
lá fui ser professor titular de Psicologia Médica
e de Medicina Psicossomática na Faculdade de Medicina da
Fundação Universitária do ABC, quando introduzi
Psicologia Médica no 1º, 2º e 3º ano do curso
de formação e Medicina Psicossomática no 4º
e 5º ano e Psiquiatria no 6º ano. ABMP-SP: Durante quantos anos o senhor esteve à
frente da Universidade do ABC?
Dr. Capisano:- Como
professor titular e diretor, dez anos. O que eu gostaria de destacar,
como recurso de magnífica aprendizagem, nesses dez anos,
foram peças teatrais que escrevemos sendo representadas pelos
alunos. As peças tinham como tema, assuntos relacionados
com a patologia psicossomática, abordando as diversas fases
do desenvolvimento: fase oral, anal, genital, adolescência,
idade adulta, peças escritas pelos próprios alunos
do curso de Medicina, encarregados da representação
teatral na universidade para os demais colegas.
ABMP-SP:
E o senhor tem isso tudo registrado?
Dr. Capisano:- Não!
Ficou tudo lá.Não as tenho comigo. Uma pena! Eram
peças muito boas! Só uma peça que eles não
quiseram escrever, que era sobre o envelhecimento. Escrevi e eles
fizeram a representação teatral. Os jovens nunca envelhecem!
ABMP-SP:
Essa o senhor guardou?
Dr. Capisano:- Não!
Também deixei lá. Interessante, eu não tinha
preocupação com a história, em guardar registros
do que fazíamos lá. Eu só estava preocupado
em difundir idéias, transmitir o que eu sabia.
ABMP-SP:
Mas é muito importante o registro, pois as pessoas são
influenciadas pelas coisas escritas, para ler, pensar e discutir.
Dr. Capisano:- Deixa
então eu lhe mostrar o que eu estou fazendo agora. Após
quarenta e três anos, para divulgação da Medicina
Psicossomática, nos propomos ao longo de 2004, a uma coletânea
de conferências, com o concurso de doze pessoas escolhidas,
com o propósito de elaboração de um livro.
Entre os autores estão: Décio Gilberto Natrielli,
Luiz Miller de Paiva, Carlos Saltini, Luiz Antonio Castelo Branco
Naufal, Plínio Montanha, Milton Della Nina, Yussaka Sussumi,
José Julio Tedesco, Paulo Renato Bentivegna, Bockmann de
Faria e Yoshiaki Ohki. E veja bem, estávamos falando de quarenta
e três anos atrás e eu estou fazendo isto para o próximo
ano, para aqueles que estão sempre em atividade, enquanto
for possível!
E veja bem, estávamos falando de quarenta e três anos
atrás e estou fazendo isto para o próximo ano. Então,
isto aqui é para aqueles que como eu estão sempre
em atividade, enquanto puder.
ABMP-SP:
Qual é o pensador da Psicossomática do qual o seu
trabalho deriva em termos teóricos? Tem um autor que o senhor
estudou mais que os outros?
Dr. Capisano:- Sem
dúvida o Dr. Rof Carballo.
ABMP-SP:
Qual a sua linha de trabalho? O senhor é Kleiniano?
Dr. Capisano:- Não!
Sigo minha própria linha, valorizando muitos autores que
estudei como: Freud, Melanie Klein, Kohut, Winnicott, enfim, todos
autores. Eu tenho grupos de estudo de Winnicott às quintas
feiras, já há vários anos, mas não sou
daqueles que se apegam a um autor. Devo estudar todos, mas não
vou me agarrar a ninguém! Depois, com o tempo, eu quero ter
a experiência de ser eu e que qualquer manifestação
que faça durante anos serei o autor, pela bagagem adquirida
ao longo dos anos. Importa o que sinto, o que falo, independente
de estar citando Freud, Melanie Klein, Winnicott,Meltzer e muitos
outros.
ABMP-SP:
Qual a sua visão do homem?
Dr. Capisano:- Quando
falo do homem, tenho que falar de mim mesmo, porque sou homem ,
voltado para a vida, sempre com o propósito, de estar sempre
interessado em investigar e agora em publicar um livro. Tenho coisas
publicadas, inclusive junto com colegas argentinos. Com eles tivemos
encontros, cada três anos, ora em São Paulo, ora em
Buenos Aires.
ABMP-SP:
E como foram esses encontros, professor?
Dr. Capisano:- Tive
muitos contatos em Buenos Aires com Luiz Chiozza. Ele aglutinou
um grupo de trinta argentinos que vieram para cá e depois
reuni um grupo de médicos do Brasil que foram para lá.
Nós fizemos cerca de três encontros Brasil/Argentina
em Buenos Aires e em São Paulo, todos publicados.
ABMP-SP:
Inclusive num desses encontros o senhor foi homenageado.
Dr. Capisano:- Sim!
Uma delicada manifestação que muito me honrou.
ABMP-SP:
O senhor nos mandou um livro desses encontros.
Dr. Capisano:- Sim!
Eu acho o desenvolvimento Brasil/Argentina muito importante. Infelizmente,
depois o Sergio Heisenberg morreu, outro ficou doente, outro se
desligou do grupo. As pessoas foram indo, não houve energia
para poder continuar. Do Rio de Janeiro, ao meu ver, tiveram interesse
muito grande, duas figuras, Abraham Ekstermann e Julio de Mello
Filho. O Danilo Perestrello esteve aqui, mas com interesse, não
tanto pela Psicossomática, mas pela política. Ele
queria ser presidente, para a livre docência que conquistou
com muito brilho no Rio de Janeiro.
ABMP-SP:
O livro que ele escreveu, era com material dele ou das trocas que
vocês fizeram?
Dr:- Capisano:-
Não, só dele. Era um homem muito agradável,
mas não se interessava muito pela Psicossomática.
ABMP-SP:
Como eram seus contatos com ele? Eram freqüentes?
Dr. Capisano:- Tínhamos
grande amizade. Eu estive com ele várias vezes em São
Paulo e outras no Rio de Janeiro por ocasião das jornadas
em Psicologia Médica ou em Congressos de Medicina Psicossomática.
ABMP-SP:
A primeira jornada no I Congresso de Medicina Psicossomática,
quem organizou? Foi o senhor?
Dr. Capisano:- Fui
eu com o Luiz Miller de Paiva.
ABMP-SP:
Existe coisa publicada?
Dr. Capisano:- Não!
O que tem publicado é o encontro Brasil/Argentina. Agora
eu estou escrevendo uma coisa, que vai sair aqui. Estou fazendo
uma introdução e estou fazendo uma proposta: _ Por
quê Medicina Psicossomática? Quer ver o título?
Estou fazendo isso para tentar excluir o rótulo de doenças
psicossomáticas. Finalizando, ao tentar entender que não
há doença sem participação afetiva ou
em outros termos, em toda a manifestação somática
existe o equivalente psíquico, permito-me supor que não
há mais razão para se usar o rótulo de doenças
psicossomáticas, pois já vai muito distante o conceito
rígido e único de enfermidade resultante exclusivamente
de alterações das estruturas orgânicas.
ABMP-SP:
Como o senhor define enfermidade?
Dr. Capisano:- Eu
escrevo isso. Eu tenho alguma coisa escrita aqui: _ Saúde:
enfrentar, manejar e dar soluções integradoras aos
conflitos. Isto é saúde!
Desvio de saúde: _ Interação distorcida entre
mundo interno e mundo externo, deformando a percepção
da realidade. Doença: _ Ocorre quando o indivíduo
é vencido por ponderável quantidade de estados de
conflitos albergados e não resolvidos. Era isso que você
queria ouvir? Aqui eu tenho também alguma coisa sobre personalidade
normal. O que seria uma pessoa normal? Normal é a pessoa
livre de sintomas em primeiro lugar, em segundo, não perturbada
por conflito mental, em terceiro, com satisfatória capacidade
de trabalho e quarto, apta a amar alguém que não a
si mesma.
ABMP-SP:
O senhor acredita ser condição “sine qua non”,
para aprender a amar o outro, primeiro ter amado a si mesmo?
Dr. Capisano:- Primeiro,
para sobreviver, ama-se a si próprio, depois vem o amor ao
próximo.
ABMP-SP:
Como é que se aprende a amar a si próprio na sua opinião?
Dr. Capisano:- Aprendi
com minha mãe e com meu pai, duas pessoas extraordinárias,
alicerces de minha vida, com minha eterna gratidão.
ABMP-SP:
O senhor acredita que se aprende através de um outro ser
significativo ou que é uma função materna?
Dr. Capisano:- Função
materna, fundamentalmente!
ABMP-SP:
Função materna sempre?
Dr. Capisano:- Sempre!
Para mim sempre! Pela minha experiência, sim! Eu tive pai,
mãe, que adoro até hoje. Meu pai morreu com oitenta
e sete anos, minha mãe morreu com noventa e oito anos. Formaram
os dois um casal extraordinário! Em toda a minha vida tive
uma adoração excepcional e um apoio dos dois continuamente
comigo. Registro uma coisa que sempre desejo saber: _ Como é
que não consigo ver meu pai brigando com minha mãe?
Nunca! Desde menino eu tinha essa curiosidade. Passaram-se os anos.
A vida toda e eu nunca os vi brigar! Como é que eles se entendiam
tão bem? Era uma coisa que eu não sabia. Tinham uma
harmonia muito grande. Era excepcional! O que eu recebi do meu pai
e da minha mãe, foram os alicerces básicos de toda
a minha vida. Eu tive muito amor pelos dois e eles me prestigiaram
demais em toda a minha vida. Eu tenho uma irmã três
anos mais velha, já falecida, outra três anos mais
nova e um irmão dez anos mais novo. Todos com qualidades
admiráveis de amor, de estima e de grande consideração.
E eu dizia na frente de meu irmão e de minhas irmãs
: _ Papai e mamãe, escandalosamente me privilegiavam .Porquê?
ABMP-SP:
Então Freud estava certo quando afirmou que o filho predileto
sempre encontra êxito na vida...
Dr. Capisano:- Sorrindo:
_É. Mas minha irmã Áurea, a mais velha, foi
uma pianista exemplar. Fez todos os cursos de especialização.
Dava aulas, participou como solista, dando concertos no Teatro Municipal
de São Paulo , no teatro Santana, Record, Cruzeiro do Sul
e na Radio Educadora Paulista. Tinha muita técnica e estudava
desde criança com minha mãe em cima, quatro horas
de manhã, quatro horas à tarde e duas horas à
noite. Quem estuda dez horas por dia só pode ser uma exímia
pianista. Minha mãe, suponho, queria ser pianista, como não
foi, eu sempre dizia que ela se tornou pianista junto com minha
irmã.
Minha irmã tocava na sala de visitas e eu tinha meu quarto
lá no fundo da casa, onde eu estava acostumado a estudar,
desde jovem, no tempo do ginásio, até a universidade,
ouvindo minha irmã tocar piano. Quando parava a música
eu estranhava e parava também. Então até hoje,
quando escuto solos de piano, tenho tudo guardado na memória,
pois minha irmã era concertista exímia.
Mas voltando ao assunto das doenças psicossomáticas,
presumo que o tema tentando excluir o rótulo de doenças
psicossomáticas possa gerar controvérsias, incertezas
e hostilidades, mas faz parte do processo de conhecimento. Esta
posição teórica é diferente daquela
que abracei há mais de quarenta anos. Debates são
necessários, embora difíceis os seus obstáculos,
inclusive as estratégias defensivas destinadas a não
permitir mudanças. Devemos possuir um campo bastante amplo
para acolher argumentos de distintas posições na procura
de controvérsias como estímulo ao desenvolvimento
sem a pretensão de pai para filho, como se lê em Freud:
_ “Você deveria ser assim como seu pai”. Ao apresentar
isoladamente esboço de uma idéia que é: _ “Excluir
o rótulo de doenças psicossomáticas”,
não significa mudança nos propósitos de quem
segue a muitos anos, a clínica em Medicina Psicossomática.
É uma idéia que me veio à cabeça, mas
eu posso mudar ao sabor de meus conhecimentos e de tudo que o mundo
me oferece.
ABMP-SP:
Como é que aconteceu a sua escolha pela área da saúde?
Dr. Capisano:- Deve
ter sido nos últimos anos do curso científico. Eu
estudei no Liceu Nacional Rio Branco, à rua Dr. Vila Nova,
hoje Colégio Rio Branco. Foi lá que eu comecei a me
interessar pela Medicina. E quando eu estudava Medicina, muitos
colegas me perguntavam porque eu não fazia Direito. Você
tem que fazer Direito também, dizia um colega do Rio Branco,
sempre muito grato pelas composições literárias
que eu fazia para ele nos dias de provas escritas.
ABMP-SP:
Hoje há médicos se especializando em Direito. Como
é que o senhor partiu para a Psicanálise? Por quê
tomou esse rumo?
Dr. Capisano:- Nunca
pensei no meu futuro. Os acontecimentos se sucediam sem previsões.
Quando estava estudando Clínica Médica, passando para
a Gastroenterologia, trabalhando no ambulatório do Hospital
das Clínicas, depois que fiz a primeira estatística
no ambulatório de Gastro, descobrindo que 82% dos pacientes
que freqüentavam o ambulatório tinham queixas no tubo
digestivo, somente funcionais, isto é, sem alterações
de estrutura, comecei a me interessar pelos aspectos psíquicos.
A prática da clínica em Gastroenterologia, levou-me
à minha primeira análise com o Dr. Ciro Ferreira de
Camargo. Daí partiu o meu interesse de entrar para o Instituto
de Psicanálise, quando fiz análise com a Dra Adelaide
Lucy Koch. A impressão que eu tenho é de estar sempre
me atualizando nos conflitos que estão sempre presentes.
Com essa função de analista, é preciso se atualizar
e resolver os conflitos que estão presentes na nossa vida,
a cada momento. Por isso faço uma comparação
muito grosseira: temos de nos afiar do ponto de vista intelectual,
do ponto de vista de nossa análise pessoal, como o açougueiro,
que toda madrugada, lá pelas cinco horas da manhã,
antes de começar seu trabalho, vai ao açougue e começa
a afiar as suas lâminas, as suas facas para poder depois cortar
a carne, servindo seus fregueses. Ele está sempre afiando
as suas facas e nós temos que afiar nossas mentes, resolvendo
nossos conflitos, para depois cuidar dos outros. Aquele que não
afia sua mente não pode cuidar dos outros.
ABMP-SP:
O senhor tem preferência por algum autor?
Dr. Capisano:-Antes
de Bion, tenho admiração e gratidão profunda
por Mario Yahn, Ciro Ferreira de Camargo,Adelaide Lucy Koch, Virginia
Bicudo, Ligia Amaral, Durval Marcondes e Yutaka Kubo! De tudo o
que li na minha vida, e tenho a impressão de que um homem,
com contribuições generosas, extremamente inteligentes,
na época atual, embora já tenha falecido, é
Bion. Tenho uma porção de autores que aprecio, como:
Freud, Melanie Klein, Meltzer, Winnicott e muitos outros.
ABMP-SP:
Quando o senhor teve contato com a obra de Bion?
Dr. Capisano:- Quando
ele esteve aqui no Brasil, pelo menos três vezes. Extraordinário!
Era curioso. Quando ele esteve a primeira vez fazia-se uma pergunta
para ele que não dava uma resposta direta à pergunta,
mas respondia o que aquela pergunta provocava nele. A gente não
entendia nada. A resposta era o que as minhas palavras despertavam
nele, como uma música. Então ele falava o que sentia.
Eu não conseguia entender, porque aquilo não era uma
resposta para mim. Nas ocasiões posteriores que ele veio,
respondia as perguntas formuladas, de forma compreensível,
direta.
ABMP-SP:
Gostaríamos que o senhor falasse agora da sua relação
com Grupo/Análise, como ela começou?
Dr. Capisano:- Começamos
com Miller de Paiva e depois o interesse foi tão grande que
começamos a organizar grupos, tanto ele como eu, com outros
colegas interessados, e fundamos o Instituto de Psicoterapia Analítica
de Grupo.
ABMP-SP:
Isso foi antes da Psicossomática ou na mesma época?
Dr. Capisano:- Não
me lembro de datas, mas o Instituto veio depois da Psicossomática.
E ele funcionava, como você sabe, no Instituto Oscar Freire.
Eu consegui, com o professor Flaminio Fávero, a concessão
das instalações do Instituto aos sábados pela
manhã, onde nós começamos a ter os grupos.
Eu creio que a experiência grupal foi extraordinariamente
boa, trazendo vitalidade, e percepção muito grande.
No grupo, quando falam a,b,c e d, vou responder a esse grupo, desde
que eu seja capaz de ligar a fala de a, com b, com c e com d, extraindo
alguma coisa que liga todos e que finalmente eu estou dizendo alguma
coisa ao grupo, sem falar o nome de qualquer integrante do grupo.Eu
posso dizer que muito mais que o trabalho bipessoal, o adestramento
de percepção conseguido através da análise
pessoal é aprofundado e adquirimos a perspicácia de
ver não só o profundo, mas no sentido horizontal,
que se vê e se capta no grupo. Essa experiência é
só o grupo que dá. Como achei que essa experiência
era extremamente eficaz eu a introduzi na Faculdade de Medicina
do ABC, desde o primeiro ano. Quando era professor de Psicologia
Médica e de Medicina Psicossomática eu tive dez colaboradores,
entre eles estava o Miller, o Bockmann, Domingos Sapienza e outros.
A proposta era de um assistente com dez alunos, para serem acompanhados
do primeiro ao sexto ano. Então a minha idéia era
que nós médicos, ao ingressarmos na Faculdade de Medicina,
temos a pretensão consciente de tratar dos futuros pacientes,
mas na verdade, nós ingressamos na universidade porque somos
doentes. O processo grupal permitiria sair depois do curso médico,
menos doentes.
ABMP-SP:
O senhor ainda pensa assim?
Dr. Capisano:- Penso
da mesma maneira hoje. Qualquer estudante de Medicina vai dizer
que deseja ser médico para cuidar dos outros, mas ele não
sabe que está lá para poder cuidar de si mesmo. Essa
descoberta ocorreu depois de muito tempo.
ABMP-SP:
Como o senhor descobriu isso? Em si mesmo?
Dr. Capisano:- A
descoberta em mim mesmo foi quando eu comecei em Gastroenterologia
e fiz a minha primeira análise. Comecei a descobrir que as
dificuldades conflitivas eram minhas e que não poderia cuidar
dos pacientes se não cuidasse de mim.
ABMP-SP:
Na sua opinião, qual foi o principal obstáculo que
enfrentou como presidente de regional?
Dr. Capisano:- O
meu obstáculo não foi com pessoas. O meu interesse
estava na difusão de idéias e o obstáculo foi
com os meios de comunicação e difusão. No passado
tínhamos espaço nas rádios, nos jornais, mais
tarde pela televisão. Depois só desinteresse.
Eu me recordo dando entrevista sobre o trabalho em grupo no rádio
e a tv Globo demonstrou interesse, me convidando há muitos
anos atrás a fazer uma demonstração de uma
sessão de grupo que seria exibida no horário do programa
de domingo, o “Fantástico”.
ABMP-SP:
E o senhor fez o programa?
Dr. Capisano:- Quando
recebi o convite eu concordei e disse: _ Estou pronto para fazer
uma demonstração de como funciona o grupo. Eu havia
imaginado representações de pessoas que podiam reproduzir
uma sessão de grupo. Eu tinha tudo isso articulado, mas a
direção do programa veio a mim e começou a
dizer como é que eu tinha que fazer e qual o tema que tinha
de ser desenvolvido, de acordo com o que a televisão esperava,
então eu disse: _ Passe bem! Não vou fazer isso! E
não fiz! Sabe por quê? Porque ou eu faço aquilo
que eu sei que é .Não faço o que vocês
querem que eu faça. Eu não vou fazer nenhuma exibição
programada pela própria televisão. Grupo é
aquilo que eu sei que é e não aquilo que vocês
estão imaginando que seja.
ABMP-SP:
O que eles alegaram ao lhe fazer essa proposta?
Dr. Capisano:- A
proposta? Os pacientes tinham que falar o que a televisão
propunha, seguindo um roteiro. Recusei e o programa não foi
realizado.
ABMP-SP:
Como o senhor vê os rumos atuais da Psicossomática?
Dr. Capisano:- Depois
que eu saí da Faculdade de Medicina, onde eu fui professor
e diretor, entraram outros e mudaram tudo. Tiraram a Psicologia
Médica e a Medicina Psicossomática. Eu senti uma tristeza
enorme! Ficou só a Psiquiatria . Não sei como está
hoje, mas não ter Psicologia Médica desde o 1º
ano é uma calamidade! O estudante precisa ser acompanhado
do 1º ao 5º ano. Eu tenho ex-alunos que demonstram interesse
pela Psicossomática até hoje. Mas atualmente não
posso te dizer como está a situação nas faculdades.
ABMP-SP:
Que conselho o senhor daria a quem deseja estudar Psicossomática?
Dr. Capisano:- Aquele
que está estudando deve esperar primeiro o que deve acontecer
dentro dele. Eu não faço nenhum aconselhamento porque
conselho não funciona para ninguém. É ele quem
vai descobrir dentro dele. Eu posso propor que ele na medida possível
faça sua análise pessoal e grupal. Isto é uma
recomendação não é um conselho.
ABMP-SP:
O senhor acredita que a análise individual ou grupal é
para todo mundo? Todo mundo se beneficia com a análise?
Dr. Capisano:- Não!
Eu acho que graças a Deus há muita gente que não
precisa nem de uma nem de outra. Nós temos um percentual
de população normal muito grande. Essa história
de dizer que todo mundo é doente é conversa mole.
Eu posso dizer que fui um dos doentes que se beneficiou, ficando
menos doente. Mas agora, generalizar e dizer que toda a população
precisa de análise individual ou grupal eu acho isso uma
tolice muito grande, porque eu tenho visto muita gente, bastante
equilibrada, e muitas famílias muito harmoniosas. Dizer que
todo mundo precisa é uma generalização tola!
Graças a Deus há um grande número de indivíduos
e de famílias, que jamais precisariam de análise.
ABMP-SP:
Que mudanças significativas ocorreram na sua vida, decorrentes
da sua trajetória profissional?
Dr. Capisano:- Foram
mudanças que sofri, particularmente nos últimos dez
anos. Depois de ter lido todos autores e suas experiências,
eu passo a viver a minha experiência pessoal. O que passa
a importar agora, sou eu, o que penso, junto a esse paciente ou
com o grupo. Não quero saber de autores, de referências
de A ou B. Agora eu ganhei experiência na minha vida. Depois
de tantos procedimentos analíticos que fiz, agora chegou
a minha vez de ser eu mesmo tratando meus pacientes. Sinto-me muito
bem! Não estou sozinho. Sou eu e tudo o que aprendi em toda
a minha vida. Não estou preso ao que Bion disse, Winnicott
falou, etc...Tenho que passar tudo na peneira.
ABMP-SP:
Gostaríamos que o senhor falasse agora, livremente, dos aspectos
mais significativos que o senhor registrou na sua relação
com a Psicossomática.
Dr. Capisano:- Bom!
Eu posso dizer que há um registro muito importante em Madri,
com Rof Carballo, um registro muito importante na Argentina com
Chiozza e um registro muito importante com Luiz Miller de Paiva
em São Paulo, Brasil. Com o Miller de Paiva tenho convivência
de ordem pessoal de mais de quarenta anos, juntos em Congressos,
Encontros, Reuniões, Discussões de caso a perder de
vista. Ele é um homem muito estudioso, tem arsenal de conhecimentos
invejável. Eu não conheço ninguém que
tenha conhecimentos da investigação, da literatura
e da bibliografia em Psicossomática mais que o Miller. Próximo
dele, talvez o Abraham do Rio de Janeiro. Mas Luiz Miller é
homem impar, como figura humana, como indivíduo capaz, que
tanta utilidade trouxe, inclusive para mim e para as pessoas que
vem ensinando. Mestre excepcional!
ABMP-SP:
E a sua relação com a Sociedade de Psicossomática
ao longo desses anos?
Dr. Capisano:- Eu
acho que foi muito boa! Há anos venho insistindo: _Se há
interesse por assuntos voltados à Medicina Psicossomática,
discutam casos clínicos. Acabem com discussões vazias!
Eu acho que é preciso se interessar fundamentalmente pela
discussão dos casos clínicos. Deveria haver propostas
de reuniões semanais, mensais, de Psicossomática.
A entidade deveria reunir interessados que se dispusessem a discutir
casos clínicos. Eu acho que é o melhor que se pode
fazer. Eu estou recebendo colegas em minha residência todas
as quintas feiras das 18:15 às 20:00 horas. Venham! Não
se acanhem!
ABMP-SP:
Como deveriam ser essas discussões?
Dr. Capisano:- Alguém
iria aventar o seu caso clínico e todas as pessoas comentariam
esse caso livremente. Não seriam discussões políticas.
Eu nem sei que ano eu fui presidente disso ou daquilo. Hoje eu ouço
essas coisas, gestão de A, gestão de B, gestão
de C...Ah! Mas isso é Psicossomática administrativa,
não é Psicossomática clínica! Para discutir
casos clínicos me convidem que eu estarei presente!
ABMP-SP:
O primeiro grupo que se reunia para discutir casos de Psicossomática
era formado pelo senhor, os doutores Miller, Bockmann, Pocci, Bernardo
Blay e outros?
Dr. Capisano:- Isso!
O Blay foi uma perda irreparável! Ele era muito meu amigo;
eu gostava muito dele. O Bockmann também era outro do grupo,
muito trabalhador, com grande experiência em Psicossomática
e em grupo e de uma simplicidade, humildade e modéstia extraordinária.
Bockmann é um homem notável, muito culto e uma pessoa
que também deve ser entrevistada.
ABMP-SP:
O senhor gostaria de acrescentar alguma coisa?
Dr. Capisano:- Eu
faço um apelo aos responsáveis pela Psicossomática,
não só em São Paulo, como no país todo,
que estimulem a investigação, que tragam casos clínicos,
que cuidem da discussão e que convoquem os colegas para reuniões
que podem ser mensais, semestrais, seja o que for. Pelo Instituto
de Psicossomática, que fundei há mais de trinta anos,
nos reunimos para discussões clínicas na primeira
segunda-feira do mês. Diariamente atendo pacientes, em análise
individual ou em grupo. Tenho também um grupo de Winnicott
às quintas feiras. Trabalho para mim é vida! Me dá
uma alegria enorme poder trabalhar, pois faço aquilo que
gosto. O trabalho aviva muito a mente. Precisamos pensar, fazer
associações para estar ativos e lúcidos.
ABMP-SP:
Como foi para o senhor participar dessa entrevista?
Dr. Capisano:- Foi
muito bom! Fiquei muito contente com as perguntas e me senti muito
bem! Obrigado!
ABMP-SP:
Gostaríamos de agradecer a sua gentileza e sua atenção
em nome da direção da Associação de
Medicina Psicossomática – Regional de São Paulo.
Transcrição e digitação:- Psicóloga
Cynthia Lays Koloszuk.
Formatação e publicação:- Psicólogo
João Paulo Correia Lima