Entrevista
com
o Dr. Júlio de Mello Filho (realizada em Dezembro de 2003)
A
ABMP-SP com muito orgulho e satisfação apresenta a
entrevista com o Dr. Júlio de Mello Filho, que foi realizada
na residência do seu irmão, aqui em São Paulo,
pelo Psicólogo João Paulo Correia Lima, no dia 14
de agosto de 2004. Presidente da Nacional de 1980 a 1982, o Dr.
Júlio de Mello Filho foi, muito mais do que isso, não
só uma das pessoas responsáveis pelo surgimento do
movimento da Psicossomática, como também um dos seus
principais divulgadores, com seus livros, palestras e, como gosta
de chamar, suas "peregrinações" pelo Brasil.
Além disso, soma um grande número de inovações
e estudos teóricos, como demonstram os seus mais recentes
livros e novidades como a consulta conjunta e suas contribuições
para o estudo do Lúpus Eritematoso Sistêmico.
Basta perguntar quem não foi influenciado ou marcado pela
leitura do seu "Psicossomática Hoje" que teremos
uma boa idéia de sua importância. Os tapes da entrevista
estão na Sede da Regional São Paulo. A transcrição
é quase literal, com pequenas omissões e correções.
Entrevista
ABMP-SP:
Antes de mais nada, muito obrigado de nos conceder essa entrevista...
Júlio
de Mello Filho: Com muito prazer...
ABMP-SP:
Sem dúvida, vai enriquecer muito o nosso site... a primeira
coisa que eu acho que é natural a gente pensar, com uma carreira
como a do sr., tão longa, é pensar como foi que se
aproximou da Medicina em geral e em especial o que despertou a atenção
para a Psicossomática em particular. A história da
paixão...
JMF:
Bom, em primeiro lugar, como é que eu me aproximei da Medicina...
penso que foi por conta da minha experiência com doenças
na minha família. Doenças comuns, mas que mataram
pessoas, levaram seres queridos, isso me marcou muito. Eu era adolescente
quando perdi minha avó paterna e perdi meu avô materno.
A morte do meu avô foi muito chocante, ele morreu de enfarte,
relativamente moço e eu senti muito a morte dele. Era meu
segundo pai, era uma pessoa muita querida. Eu acho, imagino - não
foi uma coisa muito consciente - em função dessas
experiências de morte eu comecei a pensar em fazer Medicina,
tentar vencer a batalha contra a morte... Outra influência
muito importante foi de um tio meu, Edigaldino, que era um clínico
geral e era ao mesmo tempo o pediatra da família. E ele atendia
a mim e mais meus quatro irmãos com muito amor, com muita
dedicação. Era um médico de primeira, de muito
bom humor, sempre sorridente, sempre amoroso. A pessoa dele me impressionou
muito. Eu até gostava de ficar doente porque ele iria nos
tratar... era um pouco assim... Isso me marcou muito. Eu pensava,
mesmo mais conscientemente, em ser médico também,
em ser um médico clínico e tratar das pessoas. Isso
foi influência marcante...Então eu iniciei o curso
médico mais ou menos em idos de 1950, em Recife, na universidade
federal de Pernambuco. Iniciei lá no Nordeste... a faculdade
era muito boa. Tirei um bom lugar no vestibular. Comecei com muito
entusiasmo. Saí-me melhor do que eu esperava, não
valorizava tanto a minha pessoa naquela época. Então,
comecei com muito entusiasmo. Mas, logo no primeiro ano eu tive
um tropeço muito sério, que marcou toda a minha carreira
e a minha vida: eu não suportei o anfiteatro de Anatomia.
E me custava muito lidar com homens mortos, cadáveres, com
partes de cadáveres. Eu achava aquilo um trabalho horroroso,
o trabalho com a morte, o tempo todo a morte presente eu não
conseguia tirar aquilo da minha mente. E fui desenvolvendo um horror
pela Anatomia. Eu queria estudar Anatomia, sabia que era importante,
era um estudo interessante ao mesmo tempo, mas prá mim aquele
contato no anfiteatro, todo mundo lá, estudando peças
de cadáveres, era uma coisa muito chocante prá mim.
E eu desenvolvi mesmo uma fobia ao anfiteatro, não conseguia
ir lá. Ia à faculdade, mas não conseguia penetrar
no anfiteatro. Os meus colegas, num clima mais maníaco, de
euforia de vestibular, estavam tolerando bem aquilo. Faziam muitas
brincadeiras. Lembro-me que botaram um pênis dentro do bolso
do paletó de um amigo meu. Eu fiquei chocado com aquilo e
todo mundo achou engraçado. Uma defesa maníaca generalizada.Então,
a minha família me vendo assim, naquela situação,
com medo de assistir às aulas me sugeriu uma consulta com
um psiquiatra em Recife. Minha família tinha um bom padrão
cultural, não tinha preconceito, me sugeriram uma consulta
com um psiquiatra chamado Otávio de Freitas Júnior,
que era um grande psiquiatra, um homem de muita cultura. Tinha feito
a formação dele na França e foi muito importante
o contato com ele, pois me mostrou que aquilo era uma coisa reativa,
que aquilo ia passar. Me fez uma psicoterapia de apoio, que foi
importante prá mim, ele já conhecia muitas coisas
da Psicanálise. E foi através dele que tomei contato
com a Psicossomática, me apresentou livros de Psicossomática,
livros do Mira y Lopes, famoso psicólogo espanhol, que estava
radicado no Brasil naquela época... me apresentou seus livros...
ABMP-SP:
Os Quatro Gigantes da Alma....
JMF:
É... aquele tipo de coisa... que me deu os primeiros rudimentos
de Psicossomática. Ele conhecia muito Psicossomática,
na França. E era assistente do professor Delér, na
França. E então aquele contato me vitalizou e me deu
uma base de Psiquiatria, de Psicanálise e de Psicossomática.
Eu me interessei muito pela Psicossomática. Eu já
tinha experiência de interesse por doenças do corpo.
Percebia na minha família que algumas doenças do corpo
eram ligadas a problemas mentais – eu sempre tive essa percepção
– e aí eu tinha uma base científica prá
entender aqueles fenômenos...
ABMP-SP:
O sr., então, já intuía a relação...
JMF:
Sim, já intuía a relação entre as doenças
e as crises familiares, que eu exponho no meu livro lançado
agora, “Doença e Família” (bibliografia
no final da entrevista). Era já alguma coisa que eu percebia
naquela época.
ABMP-SP:
É interessante como a gente amadurece as idéias, as
intuições durante toda a vida...
JMF:
É... gente vai amadurecendo, dando substrato a elas... substrato
científico, cultural.... Então, eu me revitalizei
naquele meu contato com Otávio de Freitas, voltei a assistir
minhas aulas, tive bom êxito na minha psicoterapia e uns três
anos depois eu estava viajando para o Rio de Janeiro, estudante
ainda, prá fazer formação analítica.
Interessei-me muito pela Psicanálise e vim fazer a formação
no Rio, porque não tinha no Nordeste. No Brasil só
havia núcleos em São Paulo e no Rio de Janeiro. Matriculei-me
aqui, na Escola de Medicina e Cirurgia, hoje, UniRio. Eu senti muita
falta no resto do curso médico da minha faculdade de Pernambuco.
E vim prá cá e encontrei uma realidade muito difícil.
Embora a minha família fosse de classe média, não
tinha dinheiro prá fazer formação analítica,
que já era caríssima naquela época, era mais
cara ainda, né... Era atividade só prá ricos.
Então, eu fiquei estudando, esperando me formar, quando eu
atingi o meu sexto ano médico, fiz vários concursos
prá
pronto socorro do Rio e de Niterói, passei em todos eles
e consegui iniciar a minha formação analítica,
fui fazer minha análise didática, ainda estudante
de medicina...
ABMP-SP:
Custeada pelo Pronto Socorro.... Então, esse foi realmente
um pronto socorro...
JMF:
Foi... foi um pronto socorro prá mim também... exatamente...
E eu me formei e me localizei no serviço do Prof. Magalhães
Gomes, que era um grande serviço de clínica médica
da Faculdade Nacional de Medicina, hoje UFRJ, e em pouco tempo me
tornei assistente do Prof. Magalhães. E já lá,
na Santa Casa, eu comecei a fazer grupos Balint... idos de 50 e
60, mais ou menos.
ABMP-SP:
E era uma novidade, então...
JMF:
Era... era sim! Os grupos Balint, que eu conheci através
do Perestrello, que conheci na Santa Casa. Foi através dele
e do Abraham Eksterman que eu cheguei à obra de Balint e
resolvi fazer grupos Balint na Santa Casa. E levei essa experiência
inteiramente pioneira lá para o Pedro Ernesto. Porque depois
eu fui transferido para o Hospital Pedro Ernesto. Foi nessa época
que eu conheci o Perestrello e me entusiasmei muito pelas idéias
dele, que toda doença era Psicossomática, pela grande
cultura que ele tinha. O Abraham Eksterman também... se tornou
meu amigo, pessoal mais ou menos da minha idade, grande cultura
médica. Comecei a conviver muito com os dois. E foi através
deles que eu entrei na Associação Brasileira de Medicina
Psicossomática. Houve um simpósio, uma reunião,
em 1965, famosa essa reunião, marcante, com a vinda de Balint
para o Brasil. Ele veio passar uma semana conosco. Fez uma palestra
muito interessante. A palestra dele se tratava de dois casos clínicos
simplesmente. Com simplicidade não fez nenhuma conferência
magna com nós esperávamos, apenas apresentou dois
casos. E nesses dois casos ele mostrou todo o desafio da Medicina
em levar ou não o elemento psicológico na formação
das doenças. Duas posições inteiramente diferentes:
ou levava em conta ou não levava. Então, foram os
meus contatos iniciais com a Psicossomática. Depois, eu continuei
a estudar. Conheci a obra de Alexander. Não pude continuar
com essa atividade no Hospital Pedro Ernesto, porque minha bolsa
terminou e o diretor da faculdade, com aquela posição
típica dos médicos da época disse que: -“Não...
Psicossomática não é uma prioridade nossa...não
vamos lhe recontratar..” porque eu queria formar um núcleo
de Psicossomática na UFRJ, queria formar um grupo realmente
oficial em toda a faculdade. E aí, veio a resposta: - “Não...
isso não é prioridade...” e me pediu que desse
horário integral, e eu não podia, pois tinha outros
empregos e aí eu me afastei do Hospital Pedro Ernesto, mas
voltei à Santa Casa. E continuei lá como clínico,
era basicamente clínico, mas era também ligado à
Psicossomática.
ABMP-SP:
Continuou tentando fundar um núcleo de Psicossomática...
JMF:
É. Não fundei lá meu núcleo de Psicossomática,
mas fundei meu núcleo de colagenoses. Eu me interessei muito
por doenças do colágeno: lúpus e esclerodermia.
Em pouco tempo eu estava conhecido no resto do Brasil pelo meu trabalho
com colagenoses. Trabalho de ponta. E eu então fui desenvolvendo
esse trabalho com muito entusiasmo...
ABMP-SP:
Professor, sabemos que existe toda uma filosofia positivista ou
cartesiana que cria um certo embaraço intelectual para a
comunidade científica de um modo geral aceitar o pensamento
psicossomático. Mas, penso que essa é uma visão
muito superficial e a evidência contrária é
muita. E quando vemos que uma evidência muito grande está
sendo desprezada, imaginamos que existam processos psicológicos
subjacentes. Qual é a fonte dessa resistência em relação
à Psicossomática em seu ponto de vista, professor?
JMF:
Têm várias fontes... Têm fontes inclusive históricas.
Quando Descartes dividiu o homem em rés extensa e rés
cogitans e disse que essas duas partes não se comunicavam.
Que uma coisa era a mente e outra coisa era o corpo e que essas
coisas permaneciam sem uma integração. E sequer com
uma comunicação. E Descartes era o maior filósofo
na Idade Média e o pensamento dele impressionou muitas pessoas,
médicos, filósofos, etc. É a base, portanto,
histórica. E tem uma base que está no próprio
médico. Acho que o médico em geral, ele quer ser médico
para praticar uma medicina do corpo... ele não quer praticar
uma medicina da alma. Ele já escolhe a medicina prá
tratar do corpo, para ver o corpo. Ele não quer ver a alma.
Já tem uma questão de base do médico. Quase
de estrutura, de personalidade. E ao mesmo tempo, no curso médico,
ele vai encontrar o tempo todo essa divisão. O primeiro ano,
com Anatomia, só o corpo é apresentado: “esse
vai ser seu objeto de estudo....” E depois continua com uma
série de matérias – Fisiologia, Histologia,
Embriologia – sem um embasamento psicológico. Isso
é feito só no segundo ou terceiro ano das melhores
faculdades. Na faculdade padrão se vai inserir a Psicologia
Médica muito tarde. Então, quando isso acontece ele
já está acostumado a pensar só em termos de
um pensamento anátomo-fisiológico. Num pensamento
racionalista, cartesiano, como você disse... causa e efeito...
a causa tem sempre que ser descoberta... patologia de Virchow: toda
causa é descoberta através da dissecação
anatômica – microscópica – você vai
descobrir ali a fonte da doença. Se não ver, não
existe doença. Doença tem que ser demonstrada visualmente
pelo microscópio. Então, é toda uma estrutura
de muitos séculos que existe que até que nós
estamos conseguindo fazer brechas nessa estrutura, apenas brechas...
mas, já é alguma coisa. Os progressos da Psicossomática
nos últimos anos, a esse respeito, foram muito grandes. Com
o advento da psicoimunologia nós estamos crescendo muito
e já temos um substrato científico respeitável
pela comunidade médica. Eu digo algum, porque é apenas
um início de esboço de reação que nós
temos, de penetração, de integração...
ABMP-SP:
Nessa sua caminhada pela Psicossomática, o senhor citou algumas
influências. Balint foi a maior delas ou teve alguma outra
importante?
JMF:
As maiores influencias foram Balint e Alexander...
ABMP-SP:
Franz Alexander...?
JMF:
Sim... os trabalhos de Freud sobre histeria também... os
trabalhos de Ferenczi sobre patoneurose. Eu tive algumas influências
marcantes. Mas, talvez a influência melhor para estruturar
o corpo de estudos da Psicossomática foi Alexander. Porque
ele realmente que esquematizou as coisas, que descreveu, que estudou
a coisa em minúcia... foi uma influência marcante essa.
ABMP-SP:
Um livro infelizmente meio esquecido, não?
JMF:
É... um livro muito pouco divulgado aqui no Brasil... estão
esgotados... Tive também influências mais atuais, com
Joyce McDougall, que é uma grande pessoa, uma grande cultura,
uma grande visão que ela foi desenvolvendo mais os conceitos
de Psicossomática à luz da Psicanálise. Foi
uma outra influência importante...
ABMP-SP:
Agora, falando assim, nesse aspecto de novo, e o sr. citou agora
à pouco a Psicoimunologia, como o sr. vê a Psicossomática
hoje, como ela está caminhando...
JMF:
Eu acho que a Psicossomática, brasileira e mundial está
na terceira fase. Essa é uma divisão muito interessante
de Lipovski, um grande teórico da Psicossomática e
um grande prático também. Ele dividiu a Psicossomática,
há uns 20 anos atrás, em três fases: a primeira
fase é a psicanalítica, que é a fase de estudar
os mecanismos de doença, influências que fazem surgir
as doenças, as questões de perda, luto, separação,
foram as observações da Psicanálise que geraram
os trabalhos de Balint, de George Engel, Dumbar e muitos outros
que foram os pioneiros realmente da Psicossomática. Depois
foi a fase de estudos da influência do inconsciente, dos mecanismos
de defesa, dos fenômenos da histeria, dos fenômenos
conversivos, daquilo que Engel chamava do desespero e desistência.
Essa dupla de sentimentos que, segundo ele, traduz o início
da doença Psicossomática o indivíduo ter sentimento
de desistência das coisas e desespero ao mesmo tempo. É
isso, segundo ele, que provoca o desencadeamento das doenças
Psicossomáticas. Teoria muito pouco conhecida aqui no Brasil,
muito usada nos EUA pelos psicanalistas americanos. A segunda fase
é a fase behaviorista ou metodológica, que foi caracterizada
pelos trabalhos dos behavioristas, a partir de Selye. Ele não
foi um behaviorista, mas um fisiologista que fez as teorias famosas
sobre estresse, mas que os behavioristas trabalhando com o estresse
desenvolveram vários estudos de vários mecanismos
intermediários de doenças, a inteiração
entre estresse e hipertensão, entre estresse e coronariopatias...
fizeram trabalhos muito importantes. E a terceira fase é
a interdisciplinar ou sócio-cultural, que nós estamos.
Nós estamos na fase interdisciplinar onde não são
somente os psicossomaticistas os psicanalistas ou os clínicos
com formação psicanalítica ou com a formação
boa em Psicologia Médica, mas são também psicossomaticistas
enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, nutricionistas
e vários profissionais de saúde estão migrando
para o campo da Psicossomática, estão participando
de trabalhos interdisciplinares, orientados geralmente por psicanalistas,
nas grandes universidades. Em todo o mundo. Já estamos nessa
fase que mostra a integração que existe entre as várias
correntes e os vários profissionais de saúde, estudando
o fenômeno psicossomático...
ABMP-SP:
Quando o sr. expõe essas três fases, a impressão
é que o conceito de Psicossomática vai se modificando
ao passar das fases. Hoje, nessa terceira fase, como o sr. definiria
Psicossomática?
JMF:
Eu definiria Psicossomática como um campo de estudo das relações
“mente-corpo-sociedade”. Quer dizer, o terceiro elemento
está entrando no jogo. Não é somente uma relação
da mente com o corpo. A relação da mente com o corpo,
dentro de parâmetros sócio-culturais, dentro de uma
determinada sociedade vigente. O elemento sociedade é o que
está sendo mais estudado nos últimos anos, o estudo
das patologias do imigrante, o estudo das várias populações
dentro da Psicossomática, não apenas como foi feito
no início, dos executivos, mas estudando também a
Psicossomática dos pobres. As influências culturais
no aparecimento da doença...
ABMP-SP:
Doenças específicas de grupos étnicos...
JMF:
Exatamente... doenças de grupos sociais específicos,
a relação de Psicossomática e pobreza, Psicossomática
e desemprego. Tudo isso vem sendo muito estudado, a partir de trabalhos
americanos, sobretudo.
JP:
Quer dizer, o organismo em um ambiente, interagindo com o ambiente,
sem esquecer que toda a regulação fisiológica
e psíquica vai estar em jogo...
JMF:
... em função desse ambiente. Isso...
ABMP-SP:
Isso é a grande novidade...
JMF:
Isso é realmente uma grande amplitude que os estudos da Psicossomática
ganharam com esse novo enfoque... que foi aos poucos sendo, através
de Jorge Engel e outros estudiosos da Psicossomática, esse
campo foi ganhando amplitude.
ABMP-SP:
O senhor começou a exposição do conceito de
Psicossomática dizendo que não é “só”
a relação cérebro-mente. Nesse sentido, a neurociência
tem ganhado muito espaço acadêmico e espaço
na mídia. A famosa década do cérebro. Como
o sr. acha que esse tipo de estudo pode colaborar com a Psicossomática?
JMF:
Pode colaborar muitíssimo! Porque na medida em que se estuda
melhor o hipotálamo, como já foi demonstrado, e o
sistema límbico como a sede das emoções, a
patologia córtico-visceral de McLean, ainda em décadas
de 50-60, tudo isso hoje em dia está sendo confirmado pelas
Neurociências. A Neurociência tem confirmado vários
dos conceitos psicossomáticos. O estudo das localizações
várias no cérebro e essas inteirações
entre partes do cérebro, esse jogo de emoções-soma.
Eu acho que tudo isso está sendo muito corroborado pelos
estudos atuais. Eu acho que a Neurociência vai ter um papel
revolucionário dentro da Psicossomática. E vai confirmar
todas as nossas observações, que eram observações
clínicas, de grande validade, e que não se conhecia
direito o substrato, e o que se tinha era evidências, conhecimento
sobre o trabalho do sistema córtico-visceral do McLean, sobre
o sistema límbico. Foram trabalhos notáveis que agora
estão sendo confirmados experimentalmente pelas Neurociências.
E vários outros conhecimentos sobre patologias do lobo frontal
e várias outras coisas de importância vão ser
ainda comprovadas pela Neurociência. É um campo muito
promissor prá gente.
ABMP-SP:
Mas, não se reduziria a Psicossomática à Neurociência,
como os mais entusiasmados podem pensar...
JMF:
É... é, porque tá havendo um movimento de muita
exaltação da Neurociência, achando que ela é
tudo, vai resolver todos os problemas... não podemos esquecer
a faceta clínica dos problemas, essa faceta sócio-cultural
que acabei de falar... isso não vai ser determinado só
em função da patologia do cérebro, só
dos estudos das inteirações cerebrais, isso não
vai nunca ocupar o espaço dessas outras dimensões:
do psicológico e social.
JP:
É, mas a confirmação do fato clínico
é a compreensão do mecanismo subjacente ao fato clínico...
JMF:
Sim, a compreensão das interações...
ABMP-SP:
E, de novo, a valorização das intuições...
décadas depois vêm com a explicação do
que foi sentido, intuído no consultório...
JMF:
Da intuição e da empatia... que a intuição
já tinha marcado esses fenômenos... é que a
intuição é a atuação do inconsciente.
É grande a contribuição que a Neurociência
está dando até hoje...
ABMP-SP:
É... no mesmo sentido, essas três ferramentas precisam
continuar paralelas e afiadas, não é? A Fisiologia,
a ferramenta psicanalítica ou psicológica e a social.
Embora, o próprio Freud muitas vezes tivesse colocado a possibilidade
de se reduzir, de um dia a ferramenta psicanalítica não
ser mais útil e a ferramenta neurológica vir um dia
ocupar todo esse campo, parece que esse receio, esse perigo a gente
não corre, não é?
JMF:
É... esse perigo a gente já escapou dele...
ABMP-SP:
A gente está falando do cuidar, das diversas categorias profissionais
trabalhando junto. Sob aspectos diferentes, todos eles têm
uma coisa em comum. Todos eles cuidam de pessoas que passam por
momentos difíceis, que sofrem. Nesse aspecto, professor,
qual é a principal qualidade que a pessoa deve possuir ou
se esmerar em desenvolver, para ser um bom cuidador, uma pessoa
merecedora da confiança depositada nele...
JMF:
Diria que a melhor qualidade ainda é a empatia. É
a possibilidade de você se identificar com o outro, sentir
como se fosse o outro, se por no lugar do outro. E aí, então,
a partir dessa compreensão real do outro, das vicissitudes
de cada um, da sua situação, dos seus temores, dos
seus preconceitos, das suas tendências, você poder,
então, dar algum tipo de mensagem que ajude a ele naqueles
conflitos que ele está vivendo, ou conflitos existenciais-psicológicos,
ou a conflitos que levem a fenômenos psicossomáticos,
na base do fenômeno da empatia. E na base do fenômeno
da empatia um psicossomaticista também entender a posição
de um clínico: porque ele faz uma iatrogenia, porque ele
é tão cruel para um paciente naquele momento. Entender
as angústias de um clínico, de um cirurgião,
que levam a ele dar respostas muitas vezes agressivas, desumanas.
Mas que ele tem suas razões para dar. Acho que o conceito
de empatia, que vem desde Hipócrates, é a grande arma
que nós temos para poder entender o ser humano. Mas, para
isso é preciso que o médico queira se identificar
com o outro, identificar com qualquer um que esteja aqui: se identificar
com o ladrão, identificar com o perverso, com o criminoso.
Que não é uma coisa fácil se por na pele do
outro e do outro que muitas vezes é um indivíduo francamente
desviante. O médico, de um modo geral, mantém uma
distância,sabe... "ele é um e eu sou outro",
não entende o paciente e vai dar uma resposta parcial, resposta
superegóica, uma resposta de crítica, de rejeição,
e não vai realmente penetrar dentro do fulcro do problema
que ele tá apresentando naquele momento. Um problema de culpa,
um problema de arrependimento, de angústia, um problema de
desespero...
ABMP-SP:
São pessoas ainda. Por mais que um esteja na posição
de precisar e o outro com o poder de conferir, a gente não
deve se esquecer que todo mundo é gente...
JMF:
Esquecer que é gente, que a gente está ali, numa posição
privilegiada ali, como cuidador, mas que a gente pode, a qualquer
momento, estar na posição do outro. São seres
humanos, têm suas motivações prá se comportar
daquela maneira tão esdrúxula. É o problema
de um médico diante do paciente com HIV que se contaminou,
ele não tolera aquilo, não tolera o erro daquele indivíduo
em ter se contaminado através de um coito promíscuo,
etc, e critica e rejeita e não percebe o desespero do outro,
a falha do outro, que errar é humano, que é preciso
entender, compreender e fazer alguma coisa e não apenas julgar
e condenar. Isso é um dos dilemas básicos da medicina,
é poder compreender em vez de julgar. O médico geralmente
julga e critica. É o que a gente vê em termos de iatrogenia
por toda parte.
ABMP-SP:
Penso que esse assunto nunca é demais a gente ressaltar.
O sr. teria algum bom exemplo ou um mau exemplo dessa iatrogenia?
JMF:
A gente tem, por exemplo, trabalhando com pacientes diabéticos.
Eu dou assistência psicológica a um serviço
de diabetologia, no Hospital Pedro Ernesto, onde trabalho, então
nós vemos isso dia-a-dia. O médico não tolera
o paciente que sabe que não pode comer açúcar,
sabe que tem que fazer uma dieta, infringir a dieta. E quando ele
percebe que o paciente infringiu a dieta, a glicose do paciente
está lá em cima, que ele não tomou a medicação,
não tomou a insulina, ele não tolera aquilo e agride:
“o sr. vai ficar cego, o sr. vai ficar usando uma máquina
prá dialisar o seu sangue, o sr. vai ter problema de circulação...”
O médico agride, diz que vai ter que amputar seus pés.
Vai ficar impotente. O médico agride, porque a função
dele ali é de julgar e condenar.
ABMP-SP:
Quer dizer, não diz isso como uma informação,
mas diz isso como uma ameaça.
JMF:
Sim. Diz como uma ameaça e como castigo, porque não
seguiu as determinações do médico. Mexeu com
o potencial narcísico do médico, que se sentiu desafiado,
que se sentiu criticado pelo paciente, que não seguiu, que
não acreditou nas armas dele e vê tudo aquilo apenas
em função de um indivíduo agravado e não
vê o drama do outro, o drama existencial do outro que não
conseguiu fazer a dieta, que sabe que tem que fazer, mas na hora
vence mais a vontade de infringir a dieta, de comer o doce, de deixar
de lado a insulina, não faz exame de sangue... abandona tudo,
chega lá desesperado no consultório e ainda toma uma
bronca desse tipo, o médico botando culpa nele e apresentando
várias ameaças desse tipo ao mesmo tempo.
ABMP-SP:
Como se fosse um insubordinado...
JMF:
É, como se fosse um insubordinado...
ABMP-SP:
Nessa busca da melhoria, de um melhor atendimento, nós devemos
conhecer muito bem os nossos inimigos internos. Qual é o
principal inimigo que a gente deve manter bem sob as vistas e bem
conhecido que poderia nos impedir de nos ter uma empatia mais profunda?
JMF:
Os inimigos, eu apontaria dois: um é a vaidade ferida do
médico. O médico não admite que o paciente
não siga suas prescrições, porque na vaidade
dele o paciente está agredindo a ele, quando a coisa não
é contra ele, é um problema interno do paciente. E
o outro é a atitude superegóica, o médico atua
sempre como um pai, mas um pai duro, não um pai compreensivo
que dá limite, porque é preciso dar limite, não...
ele é um pai duro, que castiga, que agride. São os
defeitos médicos mais comuns que eu tenho visto esses anos
todos lidando com médicos e com estudantes de medicina, fazendo
esse trabalho de Psicologia Médica e de Psicossomática.
Eu tenho me deparado principalmente com esses dois grandes inimigos
internos.
ABMP-SP:
Seriam então, o narcisismo e o autoritarismo que precisamos
sempre manter sobre controle. E precisamos também estar sempre
conhecendo, prestando atenção, nas nossas motivações,
não é? A análise da contratransferência
que a gente precisa estar sempre atento.
JMF:
É, mas o médico, de um modo geral, nem admite muito
a contratransferência. Ele acha que a transferência
dele para o paciente é saudável. Ele não admite
uma contra-tranferência patológica, que ele está
transferindo sentimentos agressivos, sentimentos de rejeição.
Ele acha que está cumprindo o papel dele, que ele tem que
dar bronca mesmo, que o importante é o paciente sair daquela
posição e só sai com agressão, como
um pai que tem sempre que bater no filho para mudar o comportamento
dele. Essa posição autoritária do médico
ainda é o grande problema. É uma posição
que você não vê nos outros profissionais de saúde,
que você não vê tão amiúde. No
psicólogo, no assistente social, vê um pouco no enfermeiro
que está substituindo muito o médico, está
pegando um pouco essas características do médico,
mas ainda predomina no enfermeiro uma coisa mais humanitária,
uma função materna, de holding, de dar um colo, de
acolher o paciente, mais isso do que julgar e castigar, julgar e
agredir.
ABMP-SP:
A enfermagem tem desenvolvido muito, inclusive, nessa parte de humanização,
de estudos e metodologia qualitativa...
JMF:
É, a enfermagem está estudando Psicologia Médica,
Psicologia da Enfermagem, que nome se dê, e está fazendo
muitos progressos... passou na frente do médico, nessa questão
de integração conosco, com o saber psicossomático,
eu acho que estão atualmente na frente do médico em
termos de aproveitamento e integração.
ABMP-SP:
Professor, o que o sr. diria aqueles que gostam, que se apaixonaram
também pela Psicossomática e estão começando.
JMF:
Eu diria, em primeiro lugar, que assistam os cursos de Psicologia
Médica, que esses cursos ainda são muitas vezes colocados
de lado, pouco assistidos pelos médicos, alunos de medicina,
não valorizam, acham que aquilo é um blá-blá-blá,
o importante mesmo é o exame, o importante é ressonância
magnética, o importante é a cirurgia, o bisturi, e
deixam o ensino de Psicossomática, de Psicologia Médica
de lado. Infelizmente, isso é praticado por muitos médicos.
Eu diria para eles valorizarem esses cursos. Quando me é
feita essa pergunta, eu faço uma brincadeira, eu digo que
se o médico puder, que ele arranje uma doença qualquer,
de preferência uma doença que não mate, uma
doença que não seja grave, mas, enfim, que ele fique
doente, experimente ser internado no hospital, veja o que é
o indivíduo internado, quais são as angústias
do indivíduo internado, faça exames médicos
vários, transfusão de sangue, se possível faça
uma pequena cirurgia, para poder ter essa vivência do que
é ser paciente. Talvez assim ele seja mais humano em relação
aos pacientes, não dê tanta bronca, não faça
tantas ameaças.
ABMP-SP:
É um bom conselho... risos...
JMF:
Principalmente, nos lugares em que não haja um curso de Psicologia
Médica, que faça um curso experimental ou prático,
na base do ficar doente...
ABMP-SP:
Professor, eu tenho aqui uma última pergunta: depois de tantos
anos se dedicando a pessoas em momentos difíceis, em vários
sentidos, a que o sr. acha que a gente deva mais atentar em nossas
vidas? É uma pergunta genérica, um conselho... para
a nossa vida pessoal. É que muitas vezes ficamos preocupados
com os aspectos técnicos que acabamos esquecendo que somos
pessoas também e tudo mais. Nesse sentido, para nos ocuparmos
melhor da vida, para termos um viver melhor, qual seria um lembrete
que o sr. nos ofereceria.
JMF:
Bom, eu diria que aqueles que precisam e têm condições
de fazer, vivam um processo psicoterápico, um processo analítico,
para poder ter um conhecimento do nosso inconsciente, poder dominar
mais as nossas emoções desagradáveis e poder,
como diz Melanie Klein, chegar a uma posição depressiva,
ser capaz de sentir culpa em relação dos outros, ser
capaz de ter ética, de se preocupar não somente com
a gente, mas com o ser humano. Acho que uma experiência psicoterápica
ou analítica seria muito importante para os que têm
indicação prá isso e que realmente tem condições.
Quando o indivíduo não precisa ou não tem condições,
acho que ele deve fazer uma auto-análise. Deveria procurar
se conhecer. Deveria, acima de tudo, procurar pensar nas coisas,
refletir. E começar a perceber que ele não é
o centro do mundo, o centro do mundo somos todos nós, ele
é apenas uma pequena parte. Diminuir a sua vaidade. Acho
que a vaidade é um problema humano muito sério, responsável
por muitos desentendimentos entre os homens. Evitar a vaidade, buscar
a reflexão, a percepção de si mesmo... são
coisas fundamentais prá gente viver. E se puder, ler... Acho
que ler é muito também. Ler os clássicos. Eu
acho que a leitura, o contato com o cinema moderno, atual, com a
cultura, coisa que se está fazendo bastante no Brasil ultimamente,
é um grande alento, uma grande perspectiva de auto educação,
de amadurecimento psicológico, o contato com a literatura
e o cinema. Nós temos, então, meios à nosso
caminho, para podermos nos conscientizar da vida, das coisas, para
poder termos uma existência melhor, mais consciente, mais
comprometida com a história da humanidade e com a nossa própria
história. Nós temos esse recurso, temos que exercer
esse recurso. E o mais importante talvez seja a reflexão:
pensar, meditar, sobre o que é ser um ser humano, o que é
a vida, quais são os objetivos do ser humano na vida. Tem
muitas pessoas buscando isso atualmente em
termos de religião. A busca pela religião é
uma coisa muito importante, que a gente vê também.
Buscar, principalmente uma religião humanista, como a religião
católica.
ABMP-SP:
Ainda vale a máxima ateniense, “conhece-te a ti mesmo”...
JMF:
É... ainda vale... deixa eu ver se a moça tem um cafezinho...
ABMP-SP:
E sobre a história da ABMP, o que o sr nos conta sobre essa
briga toda de implantar novidade?
JMF:
Mas, a coisa histórica aconteceu no Rio de Janeiro e São
Paulo concomitantemente. Os núcleos começaram a se
desenvolver e depois fizeram uma integração e constituíram
a ABMP. Principalmente com duas pessoas, no Rio: Perestrello e Abraham.
Perestrello já está morto. Abraham continua aí
como um dos grandes mestres, trabalhando na Santa Casa de Misericórdia,
ambos com formação psicanalítica, vieram da
Neurologia e depois se integraram na Psicanálise. Perestrello
mais velho, Abraham mais moço, mais ou menos da minha idade.
Eles dois construíram na Santa Casa um grupo importante,
com Hélio Luz, com Osvaldo Arantes, clínicos, que
se integraram ao movimento de Perestrello na Santa Casa. E eu constitui
o meu grupo no Hospital Pedro Ernesto, com gente mais jovem, gente
ainda não famosa, e depois me integrei ao grupo de Perestrello
na Santa Casa e passamos a constituir um grupo. Que foi o núcleo
fundador da Psicossomática no Rio de Janeiro. E através
de
contatos nos aproximamos do grupo de São Paulo que, talvez
fosse um grupo mais antigo, com Capisano, Miler de Paiva, com Oscar
Resende de Lima, com o Prof. José Fernandes Pontes, clínico...
uma grande cultura em Psicossomática, um homem muito estudioso,
que esteve à frente do IBPG durante vários anos. O
IBPG foi um trabalho de ponta na área de Psicossomática.
E os dois grupos se fundiram e fundaram a Associação
Brasileira de Medicina Psicossomática. Perestrello foi o
primeiro presidente, depois se seguiu a ele o Capisano, depois veio
o Eksterman, depois eu fui o quarto, depois o Miller de Paiva. E
tinha reuniões ora no Rio e ora em São Paulo. Depois
foram fundados núcleos em todo Brasil. Eu fundei núcleos
em Pernambuco, no Maranhão, no Pará. O Abraham fundou
na Bahia. Quando presidente eu disseminei o movimento da Psicossomática
em todo Brasil, fundando várias Regionais. Daí por
diante o movimento foi crescendo e é um movimento forte hoje
em dia. Mas, que ainda é muito desconhecido pelo médico
comum, é pouco conceituado, é pouco considerado pelos
médicos o nosso movimento psicossomático, porque é
ainda é(tirar!) frágil, penetrou pouco no ambiente
médico. Eu acho que cabia muito à Psicossomática
atualmente caminhar para outras especialidades, como Nutrição,
Enfermagem. Fazer uma integração maior com a Enfermagem,
isso seria muito bom. Nas reuniões nacionais que nós
temos nos vários Estados, há um número razoável
de enfermeiros, mas é um número pequeno para as necessidades.
Os psicólogos construíram seu próprio movimento
que é a Psicologia Hospitalar. Os psicólogos fizeram
movimentos de corporativismo, criaram sua própria entidade,
porque eles sempre se preocuparam em não se sentir caudatários
dos médicos. Durante muito tempo os psicólogos sofreram
uma discriminação muito grande da sociedade de Psicanálise,
que não permitiam que os psicólogos entrassem. E os
psicólogos têm um rancor grande com os médicos
e têm essa tendência de seguir o seu próprio
movimento. Tem poucos psicólogos dentro da ABMP, aqui em
São Paulo existe, a Rosa é presidente, é psicóloga,
mas é de um grupo mais do passado. Os psicólogos mais
atuais, que se formam atualmente, tendem a ser todos caudatários
da Psicologia Hospitalar ou da Psicologia da Saúde, que são
movimentos que, infelizmente, têm muito pouco contato com
a ABMP. Acho que as entidades de cúpula da
Psicossomática precisariam de mais diálogo, mais integração...
Uma política mais saudável de integração,
evitar essa política de rejeição, de segregação...
ABMP-SP:
Esse realmente é um trabalho político o que o sr.
aponta. Eu penso que precisaria ser mais difundida, mais conhecida...
JMF:
A situação da ABMP é muito segregada pelos
analistas. Os analistas não participam, com exceção
de analistas em especial, como o Abraham, eu, mas o nosso movimento
não é reconhecido na SBP. Os psicossomaticistas não
são reconhecidos entre os médicos, ou muito pouco
e não são reconhecidos entre os analistas, ficam entre
dois fogos. E agora os próprios psicólogos estão
rejeitando, então é um caminho difícil prá
gente, crescer e se integrar é um caminho difícil,
com tantas rejeições, com tantos desconhecimentos,
com tanta política de classe, com tanto corporativismo de
classes as mais diversas.
ABMP-SP:
Mas, é justamente a mensagem de interdisciplinaridade, seria
um espaço de diálogo entre todas essas categorias
e elas não iriam perder suas identidades se aproximassem,
não é?
JMF:
Exatamente...
ABMP-SP:
Precisamos levar essa mensagem adiante e por isso essa entrevista
é muito importante, para podermos veicular essa boa nova.
No caso da internet que tem uma penetração muito grande.
E precisamos aproveitar todas as oportunidades. E sobre sua obra...
o que poderia nos dizer?
JMF:
Eu pratiquei um pouco de Psicossomática no Pedro Ernesto,
ainda nas décadas de 60 e idos de 65, mas vim a praticar
mais Psicossomática da maneira mais abrangente, quando voltei
na Santa Casa de Misericórdia lá no rio, em princípios
da década de 60, eu comecei a trabalhar com paciente com
doenças do colágeno, que são pacientes em que
as interações Psicossomáticas são muito
claras, muito nítidas, especialmente o lúpus, doença
que muitas vezes começa depois de um colapso
emocional, de uma situação de perda, de uma situação
de crise familiar...
ABMP-SP:
No caso das doenças do colágeno, existe a expressão
do conflito através da doença. Ela é feita
por um mecanismo fisiológico que não guarda relação
de significado, com o conflito, mas guarda só uma relação
funcional, ou existe uma expressão quase verbal?
JMF:
Não... não existe não! Na maioria das doenças
psicossomáticas existem alterações fisiológicas
e fisiopatológicas, de vasos basicamente, como é no
lúpus, que é uma vasculite generalizada, alterações
antígeno anticorpo, como acontece no lúpus que é
uma doença imunológica. Ou alterações
funcionais do aparelho digestivo, que não tenham exteriorização
em conflito. Essa teoria da especificidade psicossomática,
de conflitos específicos, teoria simbólica, caiu em
desuso. Porque as doenças psicossomáticas de modo
geral são expressivas, mas não são simbólicas...
Podem ter um simbolismo secundário, vai ter um simbolismo
de fracasso, o sujeito está sofrendo a perda de um ente querido,
aí ele vai expressar essas perda no corpo dele, através
da perda da saúde, mas o simbolismo é considerado
um fenômeno secundário, não primário,
como foi proposto de início. Mas, no lúpus, essas
interações são muito nítidas, era uma
doença que você podia ver com facilidade os aspectos
psicossomáticos, então a usei como modelo para demonstrar
as correlações anátomo-clínicas e fisiopatológicas.
E trabalhando como clínico nessa época, que fui clínico
geral de início, depois é que me tornei psicanalista,
eu comecei a levar o lúpus basicamente para vários
estados do Brasil e levava sempre os aspectos psicossomáticos.
Foi uma primeira peregrinação que fiz pelo Brasil.
Depois, quando me tornei presidente da Psicossomática fiz
uma segunda peregrinação, que eu faço até
hoje, agora
difundindo os meus livros. Cada livro que lanço faço
questão de levar o livro para vários estado brasileiro
para divulgar, levar minha mensagem minha obra, etc. Já é
a terceira peregrinação que estou fazendo. Mas, nessa
peregrinação do lúpus eu comecei me tornar
conhecido e tornar a Psicossomática conhecida. Foi aí
que eu posso dizer que comecei uma obra minha, com características
minhas. Depois, então, eu iniciei na década de 60,
o trabalho que me marcou dentro da Psicossomática
Brasileira, trabalho na disciplina de Psicologia e Clínica
Médica, na UFRJ, na clínica do Prof. Lopes Pontes.
Fui lá, tinha vários amigos nessa clínica,
um ambiente muito bom para se trabalhar, muito pouca competição,
muita união. Fui trabalhar e consegui desenvolver um trabalho
importante que ficou conhecido no Rio de Janeiro, foi quando eu
publiquei meu primeiro livro “Concepção Psicossomática”,
que eu dou ali as bases conceituais da Psicossomática, ilustro
tudo aquilo com meu trabalho como eu estava fazendo. Comecei a fazer
trabalho de grupo com pacientes somáticos, internados. Praticamente
não era feito no Brasil, só com pacientes mentais.
Depois da URFJ eu migrei novamente para o Pedro Ernesto, onde estou
até hoje. Entrei em 78 e estou até hoje. Foi lá
que eu desenvolvi o grosso do meu trabalho em Psicossomática,
comecei trabalhos de ensino, o curso de Psicossomática no
segundo, terceiro e sexto ano médico. Poucas faculdades têm
essa iniciação. Uma iniciação precoce
é necessária para evitar aquela formação
organicista exagerada do aluno, que só no quarto ano vão
ter aula de psicologia médica. Me dediquei muito ao ensino
de pós graduação também. Fiz primeiro
o ensino de extensão em Psicossomática e depois estruturei
o campo mesmo, o campo da Psicologia Médica, o campo prático
da Psicossomática. Psicossomática fica mais conceitual
e Psicologia Médica o campo prático da relação
médico paciente, do trabalho hospitalar. Desenvolvemos a
Psicologia Médica em várias disciplinas: diabetes,
nefrologia, reumatologia, pediatria, CTI... começamos a desenvolver
trabalhos vários de Psicologia Médica em várias
clínicas. Nosso staff cresceu muito, tem hoje 20 fixas e
30 móveis. Cobrimos todo o hospital nosso (confuso!!) setor
de pareceres, interconsultas. E lá eu desenvolvi muito o
trabalho de interconsultas, que eu já fazia no hospital,
atendendo pacientes internados interagindo com o paciente, com a
família, com a equipe, geralmente, em algum momento de crise
do paciente. Desenvolvi a consulta conjunta: a consulta com médico
e psicólogo no hospital geral. Hoje fazemos consulta conjunta
em todo as unidades do ambulatório. É um trabalho
que conscientiza muito o clínico dos aspectos psicossomáticos,
conscientiza muito o psicólogo dos aspectos clínicos,
da doença que nem sempre ele tem conhecimento, ele vai ter
conhecimento ali na prática, vendo o médico consultar
o paciente.
ABMP-SP:
A consulta conjunta foi criação do sr, então...
JMF:
Foi... a consulta conjunta foi uma criação minha,
que eu vou até publicar no meu próximo livro, “Atualização
em Psicologia Médica”, onde eu vou falar sobre o tema.
ABMP-SP:
Quando sai...?
JMF:
Prá daqui a uns dois anos... primeiro vai sair um livro de
identidade médica, estudando a pessoa do médico, a
iatrogenia médica, sua personalidade... daqui um ano. Acabei
de publicar Doença e Família agora. Já tenho
sete livros publicados. O livro meu que mais circula é o
“Psicossomática Hoje”, que é feito por
profissionais de várias áreas... médicos, psicólogos,
clínicos gerais, cirurgiões...
ABMP-SP:
Se tornou um obra de referência...
JMF:
O livro tem mesmo uma abrangência muito grande, justamente
por causa dessa característica de vários profissionais,
que escolhi por terem uma visão Psicossomática...
Foi publicado em 92 e já está mais ou menos na sua
oitava edição...
ABMP-SP:
Eu estou aqui por causa desse livro...
JMF:
Tá, né... muita gente me diz isso, eu fico muito contente
quando eu viajo pelo Brasil afora, e vem uma psicóloga e
me diz “olha... eu conheci Psicossomática nos seus
livros... olha, fiz minha tese de mestrado baseado nos seus livros...
montei um (confuso!) consultei ” eu ouço muito isso
e isso é uma realização muito grande prá
mim ouvir esses estímulos... como estou ouvindo agora de
você...
ABMP-SP:
Esse trabalho todo no hospital que o sr faz, tem grupos de treinamento
para aplicar essas idéias em outros lugares...
JMF:
Temos, sim... através do curso de treinamento de Psicologia
Médica, preparamos pessoas de outros lugares...
ABMP-SP:
Uma característica importante do seu trabalho é que
ele é institucional, enquanto que a maioria dos trabalhos
em Psicossomática é de consultório... isso
é muito importante!
JMF:
O meu trabalho é mais a integração interdisciplinar,
realmente...
ABMP-SP:
Isso é muito importante! Podermos veicular para outras equipes,
para direções clínicas ou administrativas de
outros hospitais que queiram “munição”.
Hoje se nota que o impulso nesse sentido cresceu muito, mas a materialização
desse impulso fica muito complicado, porque falta técnica,
falta teoria, tecnologia...
JMF:
É... a bibliografia tá muito dispersa, tem poucos
trabalhos abrangentes... apresentando a bibliografia, das questões
conceituais... por isso é que eu vou lançar um livro
de Psicologia Médica. É uma parente próxima
da Psicologia Hospitalar, que não é a mesma coisa,
mas tem laços muito grandes. Eu vou fazer um livro de atualização,
tentando atualizar todas essas técnicas, todos esses trabalhos,
mostrando como se faz um trabalho de Psicologia Médica, qual
é a estratégia de introdução
de Psicologia Médica numa determinada disciplina, varia conforme
a disciplina. Uma coisa é integrar em uma disciplina cirúrgica,
outra coisa é integrar numa disciplina clínica, ou
na pediatria, onde os recursos são inteiramente diferentes...
ABMP-SP:
E hoje a sua paixão atual é esse projeto sobre a personalidade
médica...
JMF:
Sim... outra cachaça é a consulta conjunta... e a
integração maior entre os diversos profissionais é
outra preocupação minha...
ABMP-SP:
A hierarquia médica dificulta esse trabalho ou não...
JMF:
Sim... é preciso que os profissionais se tratem de igual
para igual, sem se colocar acima de ninguém...
ABMP-SP:
Antes o saber era mais simples, o saber era menor... tudo se resumia
a apenas uma ou duas áreas do conhecimento, mas o conhecimento
se ramificou muito e precisamos mudar nossa atitude. Precisamos
nos entender, modestamente, com os outros profissionais...
JMF:
É... tem que saber, conhecer quais são as vicissitudes
dos outros profissionais, suas dificuldades, prá poder dialogar
com ele... a coisa é muito dinâmica...
ABMP-SP:
Não é só a questão técnico-teórica,
de trazer a tríade bio-psico-social, mas também assimilar
a novidade que surge, novas profissões, novas tecnologias
e não podemos fixar nossa mente em uma certa maneira de fazer,
de ver...
JMF:
Exige um esforço muito grande para se adaptar, construir
novos modelos, novas, linguagens, entender a linguagem dos outros,
com seus regionalismos...
ABMP-SP:
O sr. parece não ter tido muita dificuldade com isso... (risos).
JMF:
Eu tive... eu tive mas fui muito em frente, enfrentei os obstáculos
todos e fui até a vitória. Eu acho que eu já
tinha uma mentalidade predisposta a isso...
ABMP-SP:
É, é nesse sentido que eu digo... logo o seu início
já foi assim, a sua dificuldade no início dos seus
estudos já foi um sintoma muito bom... que as coisas estavam
andando bem melhor do que os outros, pois se recusou a participar
a defesa contra as emoções que emanavam dos corpos
na aula de Anatomia...
JMF:
Isso... é... eu me recusei. Sofri à beça, mas
deu um bom resultado. A partir daí, conheci José Otávio,
ele me deu uma visão muito abrangente do homem, da Medicina
Psicossomática... isso tudo me deu essa chance. Tudo isso
no segundo ano médico. Não existia curso de Psicossomática
naquela época, mas eu tive um curso de Psicossomática
prático...
ABMP-SP:
Esse é um grande herói que será lembrado para
o futuro...
JMF:
É isso... eu vou venerar ele a vida toda. Vou até
dedicar a ele, decidi isso agora, vou dedicar a ele o meu próximo
livro de identidade médica.
ABMP-SP:
Olha, eu estou vendo nele nesse momento um grande herói,
que realmente lhe proporcionou essa compreensão, numa ocasião
em que não havia outro recurso, Psicossomática não
existia, Psicologia Médica não existia, quer dizer,
ele a partir da sua resistência a deixar de ver os corpos
no anfiteatro anatômico pessoas, ele materializou esse sentimento
num pensamento, na compreensão... O que nos faz devedores
dele, todos, muito!
JMF:
foi uma visão muito bonita que ele me deu... da medicina,
de mim mesmo... e de cura. Porque a partir daí eu pude vencer
aquela situação fóbica, me curei... voltei
à sala de aula, nessa mesma sala de aula, que eu tive fobia,
que eu tive medo de penetrar, eu professor... triunfei naquela sala
de aula em que havia caído, pelas minhas angústias,
me recuperei... Nossa conversa me dá um subsidio prá
viver assim, a gente tem sempre que procurar um subsídio
em cada contato que faz...
ABMP-SP:
Essa conversa também está me enchendo de vontade...
de levar isso adiante... fazer na medida do meu possível,
fazer essa penetração maior, até mesmo essa
idéia da peregrinação, estar presente... ir
conversar, guardar um tempo para esse contato, isso enriquece...
JMF:
Estar sempre disponível para essa peregrinação...
ABMP-SP:
E praticar sempre essa auto-reflexão, não descuidar
nunca dos movimentos, estar sempre podendo abrir alguma porta para
poder fazer alguma renovação...
JMF:
É... é preciso estar sempre com essa abertura... em
todos os momentos...
ABMP-SP:
Professor, em nome de toda a comunidade muito obrigado pela sua
atenção... vou procurar levar à nossa comunidade
um pouco do privilégio dessa nossa conversação...
Bibliografia:
Abaixo
os livros de autoria do Dr. Júlio de Mello Filho.
1.-
Concepção Psicossomática: visão atual.
9. ed., Casa do Psicólogo.
2.- O Ser e o Viver: uma visão da obra de Winnicott. 3. ed.,
Casa do Psicólogo.
3.- Psicossomática Hoje. 4. ed., ArtMed.
4.- Grupo e Corpo: psicoterapia de grupo com pacientes somáticos.
ArtMed.
5.- Winnicott: 24 anos depois. Revinter.
6.- Doença e Família. Casa do Psicólogo.
7.- Identidade Médica. Casa do Psicólogo (no prelo).