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1 - O Dono do Circo - Carlos
Briganti
Os palhaços são
memórias para sempre, até os esclerosados pela
vida recordam. Produz em nós, desde crianças,
um misto de alegria e desconfiança. Seres quase humanos
de nariz redondo vermelho, sapatos descomunais e roupas folgadas
acompanhadas por uma fala diferente.
A figura remete ao ridículo, incrédulo,
quase não real, bocas de lábios exagerados lembrando
orcas. Mas fazem movimentos infantis, atrapalham-se em si
mesmos, dizem coisas desconexas, a lógica inexiste,
portanto, compreensível a todos quase sempre.
Ríamos das palhaçadas.
A bengala que teima em acertar a própria
cabeça, o tropeço nos próprios pés,
o outro palhaço semelhante a professor de universidade
particular aconselha, orienta e atrapalha-se no conjunto da
obra.
O bem acontece. A sorte enviada pelos deuses
dos palhaços em favor do pobre coitado que ri de si
mesmo. O povo tem alma de criança espera pelo palhaço.
Sempre o Dono do Circo apela para a fome: “-Quer marmelada
ou não quer! Hoje tem marmelada!” O ritual circense
se inicia pela boca e termina escancarada rindo.
Nosso Grande Timoneiro se expressa em atitudes
de mau gosto, deselegância, inabilidade, imperícia,
incompetência que recordam o Coliseu, espetáculos
trágicos de palhaçadas.
Sabemos que um acidente de qualquer natureza
é uma conjunção de episódios que
se somam, dando como resultado final a dor ou a morte. Recordemos
algumas frases de Nosso Condutor ocorridas durante o triste
cerimonial de memórias recentes. Tentava explicar-se
sobre a troca de comandos por inépcia ou incompetência
e falava das qualidades do recém eleito:
“Estava sem fazer nada e atrapalhando
a esposa, e, além disso, não vai dar mais gastos
ao País.” Continua o Pai da Nação:
“O presidente da República, no momento em que
tira um ministro e põe outro, é como um pai
que se despede de um filho na porta e recebe outro.”
“Estou dizendo essas coisas aqui porque nós estamos
vivendo momentos de tensão, de sofrimento, e de vez
em quando é preciso que a gente tenha momentos de descontração
para tornar a vida, eu diria, menos sofrível.”
Qualquer idiota como eu espera do Senhor
Presidente uma atitude e reverência que não se
assemelha a um animador de programa de auditório, ou
chefe feudal ou pai de família. O Chefe de uma nação
deveria liderar com seus exemplos e atitudes os mais notáveis,
com condições de determinarem os melhores destinos
a pátria.
No circo quando ocorre um erro seguido de
tragédia o momento da angústia de morte, quando
da queda da trapezista provoca o seu falecimento à
frente de todos, o Dono do Circo pede a banda que toque mais
alto, e chama os palhaços para divertirem o povo, a
fim de desviar a atenção do acidente e da morte.
Os palhaços sempre surgem.
O recolhimento dos pedaços do corpo e adereços
da infeliz se extravia no caminho da ética do governo.
“-Cadê a sapatilha dourada? Onde esta aquela corrente
de ouro? Cadê o dente de ouro?”
Caro Senhor Presidente, em respeito a dignidade
humana: Cale a boca!
Vossa Excelência não é
Dono de Circo.
Publicado no Gazzetta D' Italia em
Agosto de 2007.