Inflamação
da mucosa gástrica podendo ser aguda ou crônica.
O conceito de processo agudo é por vezes contraditório.
Alguns autores registram aumento da casuística, enquanto
outros apontam-na como rara. Reconhecem-se como causas habituais
medicamentos como ácido acetil-salicílico, ao
lado de grandes quantidades de bebidas alcóolicas e
alimentos excessivamente condimentados.
São raras as oportunidades de exame
“pós-mortis” nas gastrites agudas. O mais
comum é a revelação anátomo-patológica
da mucosa do estômago em pacientes mortos por outra
causa qualquer. O registro importante é sobre as áreas
da mucosa do estômago com focos hemorrágicos
ou erosões, mucos viscoso contendo leucócitos,
eritrócitos, às vezes células epiteliais,
infiltração de pequenas células redondas
capilares visivelmente dilatadas, etc.
O quadro clínico da gastrite aguda
caracteriza-se pelo aparecimento súbito da perda de
apetite, náuseas, vômitos, sede, debilidade geral,
pressão na região do estômago, diarréia
ou constipação. O processo inflamatório
agudo cede entre 8 e 10 dias.
Na gastrite crônica, irritantes causadores
de gastrite aguda continuam a agir: alimentos excessivamente
condimentados, ora também muito gelados ou muito quentes,
abusos de substâncias tóxicas, nicotina, café,
álcool, medicamentos, etc.
Foi Hirsh, que observou a administração
de irritantes como ácidos não neutralizados
no duodeno retardando o esvaziamento do estômago. Qualquer
solução não-isotônica, quando no
duodeno, torna mais vagarosa a evacuação de
alimentos no estômago. Desde Shay, se rotula o bulbo
duodenal como provador oficial do canal alimentar, talvez
devido a alterações do tono gástrico.
Thomas e colaboradores atribuíram
o retardamento no esvaziamento gástrico, que se processa
depois da entrada de substâncias irritantes no duodeno,
à inibição reflexa do peristaltismo do
antro.
O diagnóstico provisório de
gastrite crônica pode se alicerçar no valor da
anamnese, destacando-se sintomas mais vagos daqueles observados
na úlcera, nem sempre com periodicidade e alívio
de ingestão de alimentos ou alcalinos, náuseas,
anorexia e atenção especial e eventual hemorragia
gástrica maciça. A exploração
radiológica deve excluir úlcera, carcinoma,
hérnia do hiato, doenças da vesícula
biliar e até distúrbios do cólon, capazes
de causar distúrbios epigástricos reflexos.
É necessário cuidado e experiência para
efetivação de diagnóstico radiográfico
positivo.
Alguns gastroenterologistas fazem diagnóstico
clínico de gastrite crônica por exclusão,
apesar dos recursos indiscutíveis da gastroscopia.
O epigástrico comumente reflete sintomas de doenças
em outras partes de nossa economia e é necessário
muito cuidado nas avaliações das aberrações
das imagens normais da mucosa através da endoscopia.
Toda vez que se pergunta se perturbações
emocionais podem causar gastrite, sempre se exige provas impecáveis
de comprovação concreta com metodologia orgânica
sobre o mundo dos afetos, sentimentos, da vida abstrata com
metodologia completamente diferente.
Invocam-se então trabalhos de mais
de 50 anos, a começar com S. Wolf e H. G. Wolff que
demonstraram os seus achados com registros fotográficos
de mucosa gástrica com aspectos de gastrite hipertrófica,
traumatizada e sangrando em homem com grande fístula
gástrica, sob grandes impactos emocionais.
Infelizmente só quando a gastrite
crônica resiste às providências terapêuticas
clássicas, o clínico ou o gastroenterologista
se lembra do analista. Na verdade lhes escapa a riqueza do
histórico, onde o paciente expõe a sua neurose
mesclada nos dados anamnésticos de fundo orgânico.
É uma pena, pois se volta ao conceito de alternativa
de 60 anos atrás: se o problema não é
físico, então é psicológico. Não
existe separação entre soma e mente. O homem
acredita no que vê, apalpa e é incrédulo
no que respeita ao seu mundo emocional, do qual se afasta
por medo.
Nas disposições emocionais
conscientes se observam registros de conflitos psíquicos:
de um lado tendências orais receptivas e de outro lado,
tendências agressivas. Desejo de ser amado, de dependência
pode ser negado abrindo o Ego um caminho regressivo - o de
ser alimentado. É possível que as funções
motora e secretora gástrica respondam a esses conflitos,
independentes do estímulo fisiológico normal
do estômago pela necessidade de alimentos. O estômago
“responde” aos problemas psíquicos como
se refeições tivessem sido ingeridas.
Quanto maior o rechasso às gratificações
receptivas, maior os desejos inconscientes de amor e ajuda.
Muitas vezes, alimentos ou medicamentos, como símbolo
de amor e ajuda, são necessidades fundamentais.
Descrevem-se índios da América
Latina livres do padecimento de gastrites por serem estóicos,
apáticos e sem ambições. Isso não
significa que gastrite seja afecção do mundo
civilizado afetando homens esforçados e lutadores.
Essa abordagem é simplória e reducionista.
Para entendimento do nascedouro do processo
psicossomático partimos do conceito de pulsão
ou instinto situado na fronteira entre mental e somático.
Nesse limite, nasce uma excitação que faz exigências
à mente para um trabalho com o corpo.
Há uma espécie de diálogo
mente e corpo que faz gerar estímulos que chegam à
mente que comanda o corpo. Esclareça-se que pulsão
ou instinto é um fenômeno psicossomático
que se põe em movimento graças a um componente
de descarga: o afeto.
Por comodismo e por artefatos costuma-se
repetir que vivemos em reinos diferentes: o psíquico
e o somático. Vamos demonstrar que tal conceito não
corresponde à verdade.
Há uma relação de fusão
entre soma e psique baseada no estudo das zonas erógenas,
partindo-se do pressuposto de que todos órgãos
podem funcionar como zonas erógenas.
Existem duas cadeias distintas de organização
do conhecimento, como bem esclarece Chiozza. Os conhecimentos
da realidade material e psíquica são registrados
no aparelho mental, tanto no sistema consciente como no inconsciente.
O conhecimento da realidade material do
corpo (boca, estômago, coração, pulmões,
etc.), se detecta pela percepção dos órgãos
dos sentidos. O conhecimento da realidade psíquica
se registra pela percepção interna (prazer e
desprazer). A realidade psíquica é registrada
no sistema consciente da organização das representações
e também no inconsciente pelas fantasias inconscientes,
vínculo ativo entre pulsão e mecanismo do ego.
Um exemplo pode esclarecer. Consideremos
a boca. Ela pertence à organização do
conhecimento somático pela percepção
dos órgãos dos sentidos, como também
faz parte da organização do conhecimento psíquico
pela percepção interna da série prazer
e desprazer. Esclareça-se, em relação
a boca, em nível psíquico, um derivado da fantasia
inconsciente que adquire na nossa consciência o nome
de fantasia oral.
A boca - como realidade orgânica e
a boca como realidade psíquica - tem as suas representações
na mente, em relação específica, não
se excluindo, pois pertencem às duas cadeias de organização
do nosso conhecimento. Elas descrevem aspectos de aparências
distintas de uma realidade complexa, difícil de ser
atingida que é a unidade antropológica.
Ao se reconhecer essa unidade pretende-se
desfazer a descontinuidade com identificações
unilaterais: psíquico de um lado e somático
de outro. O fenômenho é único. A boca
se manifesta com características psíquicas como
resposta do registro da consciência do observador.
Como se Desenvolve uma Gastrite
Imaginamos uma relação entre
duas pessoas - conhecida como relação objetal,
uma vetorização, ou seja, um condutor da pulsão,
num vai-e-vem contínuo entre elas. Trata-se de uma
relação com voz.
Quando na vida entre elas surge algo intolerável
ocorre um curto circuito nas instalações do
aparelho psíquico.
Na gastrite, tomando como exemplo, o curto-circuito do aparelho
psíquico reduziu a carga de energia psíquica
(curto-circuito é redução da carga de
energia elétrica por defeito de instalação)
e a ligação entre duas pessoas ficou sem voz.
As instalações do aparelho psíquico foram
destruídas (não se pode falar em psicossomática
sem se falar em destruição).
Oafeto ficou estilhaçado porque uma
das pessoas, no exemplo dado, não suportou e não
elaborou devidamente a situação desagradável.
Com a destrutividade de certas representações
há desorganização. O ego procura recursos
para contemporizar a situação. Um deles é
transferir o psíquico para o somático como se
o corpo ficasse contaminado pelas inscrições
do conflito psíquico entre essas duas pessoas.
O paciente faz comunicações conscientes, superficiais:
perda de apetite, náuseas, vômitos, indisposição,
debilidade, pressão no estômago, etc., mas o
seu afeto está arruinado, em pedaços, pois fica
sem voz, não consegue fazer uma comunicação
sentimental profunda.
Relata sintomas. Estes são sua fala.
Os sistemas são sinais em linguagem difícil
de ser entendida. Cabe agora utilizar a semiótica.
Os militares utilizam-na como arte de dirigir manobras militares
por meio de sinais em vez de voz de comando.
Cabe agora ao analista, na investigação
do inconsciente do paciente com gastrite, abrir caminhos para
que ele possa, com sua ajuda, descobrir nos sintomas os sinais
não lingüísticos existentes nos sintomas.
No início do tratamento, o paciente
se atém às manifestações dos sintomas
de gastrite percebidos consciente e materialmente como fenômeno
somático.
Nada sabe, por enquanto, do significado
psíquico inconsciente de seus sintomas. Fala que tem
gastrite. É convidado a desenvolver suas associações
livres e com elas surge uma interpretação. Esta,
faz surgir na consciência do paciente, o inconsciente
genuíno que confere o significado da gastrite.
Evidentemente que a coisa não é
tão fácil assim. É o paciente que faz
a descoberta da significação. É processo
longo e freqüentemente doloroso.
A descoberta da significação
inconsciente dos sintomas não é aquele que intelectualmente
se lê nos almanaques. Claro, que o significado inconsciente
de um sistema não é sempre primário,
unívoco, partindo de símbolos universais, mais
ricos em restos mnêmicos da percepção
do complexo que representa, como camadas de cebola, onde existem
inúmeras outras re-significações.
A vida mental é muito complicada
para serem aceitos os almanaques. O psiquismo não pode
ser reduzido a códigos simplificados.
A gastrite ocorre como episódio de
vida do indivíduo em decorrência de conflitos
psíquicos não resolvidos, albergados no inconsciente.
Como o paciente não consegue resolver
os seus conflitos entre o seu mundo interno e externo, inscreve-se
em seu corpo, caracterizando-se a gastrite, pois conflito
mental não resolvido mobiliza órgão em
sua direção e no exemplo dado - o estômago.
A pessoa impedida de continuar o seu projeto
de vida, o seu diálogo com o outro, encontra na gastrite
como a solução, que vem a ser uma adaptação
sofrida e inadequada.
Para se alcançar a saúde deve-se
procurar integração, onde mente e corpo constituam
unidade. Assim, a gastrite como dscontinuidade psicossomática
deixa de existir.
Conflitos psíquicos: encontro de dois
sistemas de tendências afetivas incompatíveis:
de um lado impulsos instintivos e de outro exigências
variadas - pessoais, familiares, profissionais, morais, sociais
e culturais).
Adendo: Por esses motivos, temos sempre mal
entendidos. O mal entendido faz parte natural do diálogo
humano. Cumpre falar, esclarecer. Quando alguém repete,
várias vezes que nos compreendeu, podemos dizer: Será
que ele me ouviu?