9 - Experiências Emocionais
no Processo Analítico - Reflexões Sobre as Transferências
do Paciente e do Analista
Objetivo
O A. mostra que as somatizações
não decorrem de simples fenômeno de conversão,
mas processo com acontecimentos simultâneos, inseparáveis,
recíprocos, contínuos de duas pessoas, analista
e analisando, em cuja relação se fundem atributos
psíquicos e somáticos.
É resultado do interjogo das relações
objetais. Do mesmo modo em que se desenvolvem sintomas entre
crianças, adolescentes e gerontos, ocorrem igualmente
entre analista e analisando, fenômenos sucessivos, ora
com nexo, ora aparentemente sem nexo de causa e efeito.
Descreve caso clínico com somatização
transferencial e contratransferencial, onde paciente e analista
vivem, em fusão, psicose transitória.
Particularizo o obejto transicional, que
a analisanda usaria como sinal de modelo negativo e os sintomas,
no analista, como modelo positivo.
Ocorreria na observação clínica
curiosa assincronia: depois do nascimento, a paciente retornaria
ao útero materno, no intento de narcisismo primário
fetal, como a informar que os períodos neonatal e perinatal
foram profundamente frustrantes.
Mulher de 55 anos, solteira, vive com mãe viúva.
Professora de letras, ministra cursos, dá aulas individuais,
faz conferências, realizando duas a três viagens
para o exterior, por ano, tendo suas viagens pagas por patrocinadores.
Em análise há três anos,
com quatro sessões semanais, conta ter infância
atribulada, tendo perdido uma perna sob as rodas de um bonde,
acidente intencional, segundo o seu pensamento, para atrair
o pai, à quem muito amava, perdendo-o no ano seguinte.
Suas relações arcaicas com
a mãe, precárias, sem empatia, maternagem pobre,
frustradora, foram melhorando ao longo dos anos, a ponto de
se tornarem bastante cordiais.
É judia, freqüenta a Sinagoga,
ora por Nossa Senhora, exulta-se com as festas natalinas nas
residências de católicos amigos.
Tem, com muito enstusiasmo, admiração
pelo analista, freqüentemente cortejado. Destaco algo
significativo, desenvolvido no início desse trabalho.
A analisanda, frustrada em suas intenções
sedutoras, mostra-se insatisfeita, agressiva e dominante.
Suas exigências foram se acentuando até que,
em certa oportunidade, deitada no divã, batendo as
mãos espalmadas sobre o mesmo, dizia: “é
aqui, deitado comigo, bem juntinho, ao meu lado, deve ficar,
em atmosfera alegre, de calor e jamais nessa posição
fria, doutoral, distante, sentado aí atrás,
indiferente como verdadeira múmia!”
Repete várias vezes que o analista
deveria ser um amante especial, muito peculiar, junto com
a paciente, vinte e quatro horas por dia, adaptando-se às
suas reais e profundas necessidades.
Sentira, no decorrer das sessões,
várias frustrações ao pretender esse
objetivo, afirmando, ao contrário do que se poderia
pensar, que a análise não seria interrompida,
porque se o analista se deitar ao seu lado começará
sua vida, que é verdadeira análise.
“Pela minha experiência aqui,
pelo que leio de publicações nacionais e estrangeiras,
pelo que ouço de pessoas que se analisam, pelos meus
contatos pessoais com analistas brasileiros e do exterior,
posso concluir: ninguém sabe o que é análise!”
E continua: “é difícil acreditar nesta
lapidar verdade, de pasmar qualquer insensível: os
psicanalistas não sabem o que é análise!
Aqui eu tenho de suportar sua inominável incompreensão”.
Frustrada, abre-se novo caminho. Envereda
por ele. O analista poderia, então, ser transformado
em conselheiro e por ser clínico e gastroenterologista,
dados que conseguira obter por suas diligências, atenderia
problemas físicos e psíquicos dela e de sua
mãe, que avança, velhinha, pelos anos. Não
sabe lidar com ela, pois se abala tanto que tudo parece desmoronar
dentro de si, não sabendo se deve ou não fazer
isto ou aquilo, se gosta ou não gosta, se pode ou não
pode, se faz frente ou não a certas situações
de vida.
Intervenho, dizendo-lhe que busca abrigo,
acolhida total comigo, ao que logo atalha: “mas sempre
ouço obstruções de sua perte”.
Nessa altura, começa a sentir desconforto
epigástrico, flatulência, pirose, eructações
que se repetem nas sessões, quando se sente frustrada.
“Esses sintomas constituem um sinal que o senhor me
atingiu”, esclarece que percebe, não é
tola e não desiste.
Abordo-a, dizendo que atrás de sua
atitude de luta, de persistência, de seu querer agressivo
e dominante, exterioriza sintomas, com sinal de revolta a
mim, mas, ao mesmo tempo, desejando constituir comigo um elo
de natureza contínua e imperecível.
Incontinente, relata sonho da véspera,
em que se prepara para ser levada de maca para a sala cirúrgica,
onde seria submetida a uma hemorroidectomia. Lembra-se de
ter visto o cirurgião que iria operá-la. Era
o seu analista. “Curioso”, acentua a paciente,
“essas queixas de hemorróidas jamais as tive”.
Continua: “sei de pessoas que se operam, mas comigo,
durante o sonho, me recordo bem, os mamilos hemorroidários
eu os tocava, porque saíam ligados a mim, como coisa
minha e tendo uma direção para fora à
procura de alguma coisa, ou sei lá, de alguém”.
Nesse momento, passa pela minha cabeça,
como sendo eu o cirurgião, que corta o cordão
emocional.
“Lembro-me que ontem saí daqui insatisfeita,
ruminando dentro de mim: bandido, esse Dr. Capisano; mas eu,
curiosamente, estou sempre voltando para cá, querendo
alguma coisa e não sei o quê possa ser!”
Intervenho, dizendo que não conseguindo
pelo alto, pela boca (desconforto epigástrico flatulência,
pirose, eructações) agora tenta, por baixo,
pelo ânus (mamilos hemorroidários), o que deseja.
Solta sonoras gargalhadas de satisfação
dizendo que “os mamilos hemorroidários tinham
uma direção para fora à procura do analista!!!”
Alguns instantes depois, passo a sentir dores,
em pontada, no reto, de forma fulgurante e penetrante, como
se algo estivesse entrando através de meu ânus.
Naquele momento, furando a disciplina analítica
de não ter desejos e nem memória, lembrei-me
de dor muito parecida, sentida alguns dias antes de começar
minha primeira análise. Eu me submetera a exame clínico
e depois me dirigi a renomado protologista, queixando-me de
dores no reto, ao que o especialista, após exame, adiantara
ser eu portador de protalgia fugaz, queixa comum nos psicanalistas
que examinara.
O protologista nem sabia que eu era o paciente,
que iria começar a análise! Saí aliviado,
fazendo votos que meu analista não seria um de seus
pacientes!
Como esse episódio chegou à
minha mente, naquele instante, eu intervi, dizendo aproximadamente
o seguinte: “sempre se recusou a deitar no divã,
como seria habitual neste tratamento, agora insiste entrar
dentro de mim e abrigar-se ficando em fusão comigo”.
“Claro!”diz a paciente, “precisei
sonhar para entender isso? Antes tarde do que nunca! Minha
vida na infância foi horrível! Eu acho que não
fui criança! Tive madrasta e não mãe!
Brigávamos o tempo todo e ela não entendia o
meu desamparo e a minha solidão!”
Ao término da sessão, eu já
estava aliviado da protalgia fugaz...
Discussão
Processo de somatização do analisando
e do analista, vivendo ambos psicose transitória, com
sensações físicas paranóides.
Relação psicossomática,
configurada com predomínio de expressão corporal,
bi-pessoal, simbólica, representando união da
analisanda - criança com o analista - mãe, com
movimentos de interação, dependência e
independência, para evitar perdas.
O órgão de escolha, o ânus,
com sintomas em nível arcaico, não só
sentido transferencial como contratransferencial. Turrel e
Wright (7).
Transferência
Mamilos hemorroidários, como representativos
da paciente, procurando, pela penetração através
do ânus, acolhida dentro do analista.
Personalidade adulta muito rica, com funções
maduras (professora de letras, ministra cursos, faz conferências,
mantendo economicamente à si e à genitora)contrastando
com aspectos de grande empobrecimento, pela intromissão
de estruturas arcaicas e contínuos reclamos infantis.
Paciente com propensões a fixações
e regressões, integrantes do núcleo de perturbações
narcísicas da personalidade.
Ao ter, com grande entusiasmo, admiração
pelo analista, revela objeto arcaico, superestimado, narcisamente
catexizado.
Os mamilos hemorroidários caracterizam
o objeto transicional, que a analisanda usaria como sinal
- modelo negativo e os sintomas no analista, como modelo positivo.
Winnicott(4).
A paciente “criou” com os mamilos
hemorroidários, o objeto transicional, esse “algo
de fora” como seguro contra o medo e contra as perdas.
Parece haver assincronia, com nascimento primeiro e gravidez
depois. A paciente retornaria ao útero materno, no
intento de narcisismo fetal, como a informar que os períodos
neonatal e perinatal foram profundamente frustrantes.
O objeto transicional, mamilo hemorroidário,
serviria para voltar para trás, em reprogressão
para o útero, para dentro da mãe, como algo
a ser evocado pela criança, quando tem solidão
e desamparo. Gaddini (1) opõe-se a esse conceito, afirmando
que o objeto transicional é sempre positivo, para frente(2).
Inverte-se o fenômeno transicional
clássico de Winnicott (5) transição de
bebê, separado da mãe, que agora deseja fundir-se
a ela. Winnicott (6).
No conceito clássico, existe a estimulação
da zona erógena oral. Aqui, a fantasia repousa na estimulação
e manipulação da zona erógena anal, satisfazendo
instintos e procurando, pela união, obter tranqüilidade.
Se os mamilos hemorroidários representam
o objeto da primeira relação, a paciente, magicamente
controla e manipula o objeto.
A paciente usaria os mamilos hemorroidários
como objeto transicional, quando o objeto interno está
vivo e é realmente bom, mas dependeria das qualidades
boas do objeto externo, o analista.
Em certa oportunidade da análise,
precedendo as férias do analista, a paciente, ao olhar
o espelho, observa seu rosto, parecido com o do analista.
Teria erigido, pela alucinação, algo significativo
para escapar da experiência da fragmentação
de seu self corporal-mental. Esse fenômeno passageiro
pode ser entendido como sinal de desintegração
parcial e temporária de estrutura narcísica
da paciente, como resposta específica da transferência
narcísica. Seria a reconstituição delirante
do analista, objeto onipotente, perseguidor encaixado na psicose
transitória.
Evidencía núcleos de objeto
onipotente e idealizado através de sentimentos religiosos
místicos desarticulados (é judia, freqüenta
a Sinagoga e não deixa de orar por Nossa Senhora).
Parece mostrar necessidade compulsiva de
fusão com o objeto poderoso-estádio da imagem
idealizada de Kohut (3).
A paciente, ao procurar a mãe primitiva, deseja vincular-se
à catexia do Self. Abrigada dentro do analista, teria
medo de nascer, de avançar na análise, sofrendo
no corpo, por receio de dor mental.
Dentro do analista estaria procurando o Self,
as bases de sua personalidade ou, em outros termos, a unidade
primária, que permitisse começar a viver.
Contratransferência
O analista teria sido mobilizado na contratransferência: a) por ter exercido durante muitos anos a
clínica gastroenterológica; b) por empatia, afim de constituir com a
paciente uma unidade primária, que lhe permitisse a
possibilidade de começar a viver; c) como mãe primitiva pré-objetal,
para ligar a paciente com o mundo exterior; d) como instrumento vinculado ao dilema:
separar e unir; e) como recurso para a paciente não
crescer com receio de figuras fantásticas e terrificantes,
como monstros, sem forma; f) por sintomas inquietantes e movimentos
regressivos, oferecendo periculosidade na vivência psicótica; g) como pôde identificar o acontecimento
desencadeador da regressão, foi possível superar
o receio pela ruptura com a realidade.
Resumo
Caso clínico com somatização
transferencial e contratransferencial, onde paciente e analista
vivem, em fusão, psicose transitória, com sensações
paranóides. Provavelmente, uma unidade primária
com o analista deu a sensação de que a paciente
começa a viver.
O A. descreve inversão do fenômeno
transicional clássico, mostrando bebê, separado
da mãe, agora desejando fundir-se a ela.
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Referências Bibliográficas
1. GADDINI, R. - Transitional
Object Origins and Psychosomatic Sympton,Psych. Medicine,
112-131, New York.
2. Comunicação Pessoal, Agosto,
São Paulo, 1983.
3. KOHUT, H. - Analisis
del Self, Ed. Amorrortu, Buenos Aires, 1977.
4. WINNICOTT, D. - Basis for Self in Body,
Int. Jorn. Child Psychoterapy,7-16, New York, 1972.
5. Transitional Objects
and Transitional Phenomena: A Study of the First not - me
possession, Int. Jorn. Psychoan. 34, 89-97, New York, 1953.
6. Psychosomatic Illness
in Its Positive and Negative Aspects, Int. Journ. of Psycho-Analysis,
47, 510-516, New York, 1966.
7. WRIGHT, D. - citado por
LENTINI, J., Tratamiento de Hemorroides por Extirpación
mediante asa Diatérmica. Reunion Extraordinaria de
la Associacion Interamericana de Gastroenterologia, Tomo III,
114-131, Madrid, 1966.
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* Trabalho apresentado no I Simpósio de Estudos Psicanalíticos
de Presidente Pruden-
te - São Paulo, 02 de setembro de 1995.
** Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise
de São Paulo
Fundador da Associação Brasileira de Psicanálise
Membro do The International Psychoanalytical Association
Membro Titular do International College of Psychossomatic
Medicine
Presidente do Instituto de Psicossomática de São
Paulo
Professor Analista-Didata Titular do Instituto de Psicoterapia
Analítica de Grupo de São Paulo
SOMATIZAÇÃO TRANSFERENCIAL E CONTRA-TRANSFERENCIAL
- INVERSÃO DO FENÔMENO TRANSICIONAL