8 - Ensino, Aprendizagem Teórica
e Prática do Processo Psicoterápico
Objetivo
Estuda-se ensino e efeito na aprendizagem teórica e
prática dos meios de transmissão de informações,
conhecimentos e valores sobre temas do mundo inconsciente
vividos no processo psicoterápico.
Ensino e Aprendizagem Teórica
Supõe-se em dias atuais, a superação
no ensino de aulas intermináveis, monólogos
narcísicos de professor supostamente amadurecido, esperando
ao término de sua exposição, palmas e
elogios, observáveis em criança pequena ou em
macaco circense, coroado com açucarados, por malabarismo
exitoso.
Tal conduta seria a negação
do ensino e o fenômeno do “não na aprendizagem”.
O interessado mostra aparente compreensão, pouco levando,
para dentro de si, conhecimentos que procura obter.
Os temas sobre o mundo inconsciente, via
de regra, são episódios da história da
vida, que mobilizam profundamente o ouvinte, como sendo característicos
da relação bi-pessoal.
Em virtude dessa sensibilização,
não é incomum o aprendizado vir acompanhado
de sensação de enquistamento como defesa para
evitar eventual transformação na vida. Quando
interrogado, o interessado deixa dúvidas, “como
se” tivesse aprendido o tema, aparentando talento e
percepção profunda.
Aquele que deseja aprender é motivado por contínuas
e curiosas indagações interrompendo o professor,
propiciando o não saber do mestre e de seus colegas.
Evita-se, na medida do possível, aquele que está
“de acordo” ou aquele que aparentemente “diverge”
ou outro “equilibrando-se” com as palavras do
professor. Com tal conduta, pouco ou nada se aprende. Há
monólogo do mestre, induzindo, subjetivamente, ao aluno
falsa estrutura de idealização. Em conseqüência,
quem assim “aprende” ganha falso Self protetor.
Ensino com Emoção
Ensino sem emoção não é ensino.
O professor tem, como ponto de partida de
seu desenvolvimento libidinal, instintos auto-eróticos.
Tal energia libídica é investida, em seguida
em seu próprio Ego e posteriormente no aluno. É
claro que, sempre certa quantidade de libido fica aderente
ao seu Ego, para sua sobrevivência e outra parte agrega-se
ao aluno, incrementando seu desenvolvimento criativo.
Tudo que o professor consegue com sua experiência
no ensino constitui expressão de magnitude de investimento
de seu ego, aumentando sua auto-estima. Isso não basta.
Tem necessidade de dependência de seus alunos. Necessita
saber se o seu amor ao ensino foi correspondido. Só
assim aquela energia libídica investida em seus alunos,
volta para seu Ego.
Se o professor não ama o que faz em
função de perturbações do processo
do seu ser, sua auto-estima diminui. Mestre sem amor, sem
impulsos construtivos, até mesmo com tonalidade agressiva,
é professor estéril, não fecunda a mente
de seus alunos.
Professor não é falso tio.
Tal rótulo deforma a significação de
sua pessoa, bem como sua função. Não
tendo amizade, calor, carinho, dedicação, teria
necessidade de receber “vestimenta” de tio?
O encanto da aprendizagem reside no erotismo
saudável presente na relação entre professor
e aluno. Não se trata de encantar, seduzir, mas dar
de si para afugentar o marasmo, o cansaço, a ineficiência.
Importa o desejo e a responsabilidade de ensinar e não
a perversidade de colher louros pessoais, ludibriando, enganando
e vendendo o que ensina.
A energia de impregnação do
prazer, do agradável, do gostoso em se dar uma aula
permitem vínculo com o aluno, tocando-o, motivando-o
na direção do pensar, objetivando o conhecimento.
Não se trata do ensino pelo amor, causador de dependência
invalidante do aluno.
O Aprender
Há hipocrisia, fingimento e impostura, quando, ao se
negar sua designação clássica, o professor
é rotulado como coordenador, simposiarca, aglutinador,
até falsamente de tio, porque se afirma que o problema
não é ensinar, é aprender.
Professor transmite conhecimentos. Aluno,
ao aprender, retém dados em sua mente e somente se
torna capaz, quando agrega em si mesmo, suas observações,
suas experiências e suas emoções.
Coordenador é aquele que se destaca
dispondo com método, ordem e procedimento técnico
facilitador para aquisição de conhecimentos.
A diferença entre professor e coordenador reside no
método e não no rótulo.
O conhecimento, como prática de vida,
é experiência, como afirma Bion(2), que nos permite
ter idéia, noção, informação,
critério de alguma coisa sempre acompanhada de emoção.
Não há realidade objetiva em si pronta, acabada
para ser conhecida, sem emoção.
A teoria psicoterápica, como instrumento
essencial para pensar a própria experiência de
vida, pode invadir a prática psicoterápica e
vice-versa.
A formação essencial do psicoterapeuta
reside no seu próprio processo psicoterápico
e secundariamente na formação teórica.
Na leitura de um texto teórico Eva,
Barros, Rezze e Guimarães(3) recomendam perguntar se
a pessoa compreendeu o que leu, se há coerência
ou não de dentro de si com o texto, suas emoções,
abstrações, dúvidas, idéias, experiências
de vida, experiências clínicas para, sem qualquer
expectativa, saber se entendeu.
Justifica-se não ter esperanças,
promessas ou probabilidades pessoais porque o mesmo texto,
relido mais tarde, pode conferir outro entendimento, pois
as circunstâncias emocionais são outras e a interpretação
diferente.
A maturação é lenta.
A troca de experiências professor-aluno ora é
vertical, ora horizontal, com sentidos onde ninguém
é dono.
A nossa observação nunca é
ingênua. Somos informados, formados e orientados por
teorias. Mas, o conhecimento agregado à própria
experiência emocional permite apropriação
do que se aprende.
Os conhecimentos mudam, sofrem críticas,
acréscimos, transformações, novas articulações
e evoluções para se entender que não
existe visão de conhecimento psicoterápico baseado
em um modelo conceitual.
Dir-se-ia com noções, teorias,
etc., somos comandados por doutrinações impedientes
de nosso desenvolvimento. Poderíamos nos livrar de
tal impedimento captando a lógica interna do processo
de pensamento do autor e a lógica interna da construção
de sua teoria.
Textos e pensamentos de Freud, Melanie Klein,
Bion, Winnicott, Kohut, Lacan, etc., parecem, às vezes,
não dar luz à novos problemas, salvo se o nosso
pensamento, acompanhado da leitura de nossa vida, permitir
outra interpretação.
Todos os grandes autores parece que nos pedem:
“pensem na lógica interna de nossos sistemas
de pensamentos, procurem bases em suas experiências
pessoais interpretando a realidade e o texto, mas não
nos repitam”.
Devemos redescobrir as teorias que nos são
propostas, desde que tenhamos critérios de conceitos
para se saber se são boas ou más, quando vamos
interpretá-las. É possível, que a teoria
apresentada pode se tornar ou não, nossa propriedade
de uso.
Quando lemos um texto não escapamos
de preferências pessoais: “é bom, é
regular, é ótimo, é útil, não
serve para o meu trabalho, etc.”. Sempre surge conteúdo
pessoal que não permite separação entre
sujeito e objeto de estudo. Com a interação
entre a pessoa que lê e o objeto de estudo poderia se
obter alguma discriminação, separando-as?
Enquanto procuramos não ser objeto de doutrinação,
há outros ávidos de tudo que é publicado,
elaborando temas onde nada de atual pode faltar. São
compiladores bibliográficos, onde há mais quantidade
do que qualidade pessoal.
Todo curso teórico apresenta deficiências.
É saudável quando alunos pensam de modo diverso
de seus mestres. Por esse motivo, cabe-nos gestar perguntadores,
pensadores, desmontadores de teorias, sem atitudes destrutivas.
Partindo de informações teóricas
do texto, agregando idéias, abstrações,
emoções, experiências pessoais, é
possível desmontar o processo do tema escrito dando
luz à novos problemas, porque a leitura plausível
da realidade é interpretativa, sem críticas
selvagens.
Cada interessado deve ter vocabulário
psicoterápico próprio, colocando seus próprios
conceitos em interrogação.
Lutar por liberdade, evitando homogeneização
de pensamentos. Não impor única forma de pensar,
evitando ser freudiano, kleiniano, bioniano, winnicotiano,
etc., mas simplesmente ser psicoterapeuta.
Qualquer método pode levar à
uma doutrinação, que não depende essencialmente
de um método, mas de uma atitude mental de abordagem
de uma experiência.
O nosso próprio método de observação
não é puro, porque não existe objetividade
genuína. Sempre deformamos.
Não podemos pela liberdade conquistada
desfigurar e perverter o processo psicoterápico na
prática clínica, pois conceitos fundamentais
equilibradores de nossos pensamentos nos colocam em nossas
humildes posições de investigadores do não
saber.
Mecanismo da Rebanação
Nos casos clínicos apresentados, as interpretações,
supostamente mobilizadoras, foram infrutíferas. Repetidos
ataques à percepção prejudicam o entendimento,
tornando impraticável a elaboração.
É sabido, no campo da aprendizagem,
o desenvolvimento da identificação projetiva.
Ela proporciona, através do vínculo, as experiências
da realidade. Há projeção de sentimentos
e o psicoterapeuta transforma sensações primitivas
do paciente em outras mais toleráveis, passíveis
de serem introjetadas.
Aprender, implica aquisição
de conhecimentos e emoções. Por essa razão,
na relação paciente-psicoterapeuta, através
da identificação projetiva, emergem e se desenvolvem
sentimentos de amor e ódio.
Essa perspectiva, essa probabilidade modificou-se
em razão do esvaziamento das interpretações
de significado. Aparece o fenômeno da não compreensão
ou compreensão errônea, em virtude do excessivo
sentimento de inveja, projetado no psicoterapeuta, agravando
a ansiedade.
A rebanação provoca corte no
contato entre paciente e psicoterapeuta propiciando desacordo
entre eles e tornando as interpretações inócuas.
O paciente, invadido pela inveja, não
tolera interpretações, sentidas como “capitis
diminutio”. Por esse motivo, responde tornando vazio
os seus significados.
A vida do paciente é caracterizada
“como se estivesse em tratamento”, bom para os
outros e não para ele. É processo para outras
pessoas, em virtude do ataque ao seu próprio conhecimento,
mas não para os demais.
A rebanação é típico
ataque ao vínculo, retalhado, golpeado em fatias minúsculas
destruindo significados essenciais transmitidos pelo psicoterapeuta.
Com os deslocamentos de significados para outras pessoas resta
o vazio, não ocupado por respostas emocionais espontâneas,
tão esperadas.
É possível tal ocorrência
pelo ódio que o psicoterapeuta desperta, sobretudo
quando o paciente compreende o transmitido. Nessa altura,
surgiria grande temor, pois significados entendidos o colocariam
no aterrador mundo interno.
O fenômeno da rebanação,
pormenorizado por Malcolm(4), conseqüência da inveja
e fragmentação do vínculo, é processo
defensivo contra o conhecimento intuitivo da posição
depressiva, despertadora do progresso.
O “não aprender” ou “como
se estivesse em tratamento psicoterápico”não
parece ser modo de vida razoável. Todavia, o paciente
não abandona o processo, aguardando, quando o ódio
for mitigado e sobrepujado pelo amor, um psicoterapeuta mais
útil.
Resumo
O interessado em conhecimentos teóricos, motivado por
contínuas e curiosas indagações, encontra
hoje, em algumas instituições, professor artificial,
deformado com o empréstimo da falsa significação
de tio.
O encanto da verdadeira aprendizagem, reside
no erotismo saudável entre professor e aluno, núcleo
de indiscutível emoção, sem a qual não
existe ensino.
O aprender teórico, a partir de textos
dos grandes autores, é pormenorizado com uma série
de observações de relevo com trocas de experiências
professor-aluno, tanto na direção vertical como
horizontal, cujos sentidos ninguém é dono.
Além de suas aulas habituais, o A.
proporciona aos participantes de seus cursos, periodicamente,
em sua residência, tertúlias, reuniões
de caráter familiar, sem temas propostos e sem direção
para enriquecimento da relação professor-aluno
com o ganho da heterogeneidade do pensamento.
A aprendizagem prática é ilustrada
com casos clínicos de pessoas desejosas de participar
vivamente do processo psicoterápico para não
serem rotulados como profissionais de saúde de caráter
teórico.
Contudo, quando em tratamento revelam o “não
aprender” ou o “compreender errôneo”
como se estivesse” no curso do processo psicoterápico,
em virtude de excessiva inveja, projetada no psicoterapeuta.
Em consequência, desenvolve-se o fenômeno da rebanação,
típico ataque ao vínculo, cortado em fatias,
destruindo interpretações com significados essenciais
transmitidos pelo psicoterapeuta.
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Referências
1. BION, W. R. (1963) - Elements of Psychoanalysis,
Heinemann, Londres.
2. (1968) - Experiences in Groups and other
Papers, Tavistock Publications, Londres.
3. EVA, A.C., BARROS, E.R., REZZE, C.J. e
GUIMARÃES, P.D. (1994) - O Ensino Teórico da
Psicanálise, Jornal de Psicanálise, Vol. 27,
nº 51, São
Paulo.
4. MALCOLM, R.R. (1992) - Clinical Lectures
on Klein and Bion, New Library of Psychoanalysis and The Institute
of Psycho-Analysis, Londres.
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* Trabalho apresentado no III Encontro Luso-Brasileiro de
Grupanálise e Psicotera-
pia Analítica de Grupo - Guarujá, São
Paulo - 26 a 29 de outubro de 1995.
** Professor Analista Didata Titular e Presidente da Comissão
de Ensino do Ins-
tituto de Psicoterapia Analítica de Grupo de São
Paulo.
Membro Efetivo do The International Psychoanalytical Association.
Membro fundador da Associação Brasileira de
Psicanálise.
Presidente do Instituto de Psicossomática de São
Paulo.