A grande dificuldade reside
no psicoterapeuta ao propiciar condições para
o paciente criar e descobrir a significação
de sintoma, predominantemente somático, quando o sentimento
não aflora.
Considere-se que, ao interpretar, o psicoterapeuta
utiliza seus sentimentos ao atribuir significado aos sintomas,
com o cuidado, em sua auto-análise, em todos os instantes
do processo, em não ser invasivo.
Essa preocupação visa não
induzir, não sugerir, não persuadir para que
a criação e a descoberta seja do paciente. A
contaminação ensejada pelo psicoterapeuta impede
a originalidade da descoberta do significado feita pelo paciente.
Tenho recebido pacientes muito dedicados
às lições de casa. Noções
lhes foram transmitidas e eles “sabem” os significados
dos sintomas, mas jamais os sentiram. Com essa prática,
anunciam o “saber” e o “atestado de óbito”
do procedimento terapêutico que realizam.
Sendo o processo mental rico em significações
múltiplas, pelas inúmeras conexões entre
os processos somático e funcional até o exercício
prático do uso da fantasia inconsciente, entende-se,
hoje, em patologia do processo do homem, que a casualidade
simplista de causa e efeito é substituído pela
amplitude do conceito de transcendência.
Com novos avanços, não é
mais possível admitir arbitrariedades. A incapacidade
de percepção e de interpretação
parecem conceder, aos psicoterapeutas mal preparados, abusos
danosos pela liberdade, que se outorgam, em dar significações
aos sintomas, em forma de almanaques, muito ordinários:
bengala significa pênis; constipação vale
como avareza; losango lembra vagina e diarréia entendida
como choro. São significações que perdem
o seu valor pelo pensamento monolítico linear.
Os pacientes, inadvertidamente, procuram
resistências ao processo psicoterápico com a
contaminação feita por leituras, informações
e interpretações de iniciantes sobre significados,
cujas palavras têm sentido diferente para o analista
e para o paciente, na observação de um mesmo
fenômeno, olhado em ângulos diferentes, em função
de fantasias inconscientes peculiares.
Importa respeitar e considerar o mundo inconsciente
de cada um, suas associações, capacidade criativa,
inteligência e memória.
Espaço e tempo concedido ao paciente
permitem liberdade de pensar, ter ilusões e desilusões,
usar suas próprias palavras nas representações,
seus sentimentos, suas qualidades específicas para
criar, independentemente de significados universais constantes
e consagrados.
Tude deve nascer do paciente e não
da intelectualização contaminante e iatrogênica
do psicoterapeuta.
O trabalho com o processo psicoterápico
não pode ser recitado, em falação verborreica
e com uso de códigos perversos.