Elo em latim tem o reforço
de dois n e de dois l - annellu - significando ligação
muito intensa como algema.
Ataques ao Encontro Luso-Brasileiro
Vou principiar com os elos do presente Encontro. Maria Rita
Mendes Leal escreveu-me, em agosto último, pedindo-me
sugestão de idéias para tornar interessante
e dinâmica esta Sessão Plenária, a qual
seria, ao seu ver, a pedra de toque, o estopim despertando
a atenção e presença dos inscritos para
as demais atividades.
Minuciosa, recomendara-me ler o rascunho
feito, há algum tempo, em Lisboa, para esta sessão.
Todavia, com espanto meu, na correspondência recebida,
lá não estava o tal rascunho.
Tratei de responder no mesmo dia em que recebi
sua carta sugerindo, entre outros pormenores, que esta sessão
poderia se desenvolver, com muito interesse, se cada integrante
apresentasse sobre o tema, a sua experiência pessoal.
Decidi, sem mais delongas, meditar e expor
a minha.
Maria Rita poderia estar interessada, naquele
momento, na resposta e não nos mecanismos mentais que
poderiam livrá-la da confusão. Tem-se inteligência
para perceber o problema e nem sempre para resolvê-lo.
Posso representar e expor a confusão. O interesse não
está aí e sim na resposta. Porém, a resposta
pode ser o infortúnio da pergunta, porque ao levá-la
a agir, não há mais pensamento.
Acrescente-se que nem tudo que acontece na
mente é pensamento, porque há configurações
de outras categorias, tais como, intimidade do processo de
transferência e contratransferência, atividades
da vida e problemas de adaptação.
Há, via de regra, dificuldades na
apreensão dos movimentos mentais abstratos e como vou
entrar neles, peço, por antecipação a
Maria Rita, sentidas desculpas se porventura melindrar em
sua área íntima.
Ao cuidar do intrínseco do processo
da transferência e da contratransferência que
se desenvolve entre nós, desejo esclarecer que a parte
psicótica de nossas personalidades pode destruir tudo
aquilo, que no nosso inconsciente tenha a função
de estabecer um elo entre um objeto e outro.
Na identificação projetiva,
partes de nossa personalidade são cindidas, afastadas,
separadas e projetadas em objetos externos.
A identificação projetiva nos
é útil como mecanismo psíquico para nos
livrarmos de minúsculos fragmentos do Ego, postos à
serviço de nossa destrutividade.
A propensão de ataques ao nosso elo
de ligação é facilitada, porque em nossa
função de analistas, os elos são mais
freqüentes e profundamente realizados, quer sejam verbais
ou escritos, tal como acontece. Não devemos nos omitir
que existem ataques destrutivos ao nosso próprio pensamento
verbal.
A omissão do rascunho na carta foi
a expressão inconsciente do ataque destrutivo ao elo,
por nós constituídos, na transferência
(Maria Rita envia-me a missiva) e na contratransferência
(eu a recebo e respondo).
O ataque ao elo pela identificação
projetiva pode ser avaliado como simples comunicação.
Nesse estado mental, a emoção
liga objetos e empresta existência, como diz Bion, a
objetos que são não-eu, sendo conseqüentemente
avessa ao narcisismo primário.
Ataques aos Elos na Vida Societária
Registro agora, em minha vida societária, ataques aos
elos que procedi contra mim mesmo. Há muitos anos envidei
esforços para organização e fundação
do Departamento de Medicina do Trabalho da Associação
Paulista de Medicina. Quando todos aguardavam que eu ocupasse
a presidência desse Departamento decido, sob profunda
admiração e espanto do professor Jairo Ramos,
gestor dessa Associação, entregar a presidência
a outro colega.
Anos depois repito conduta similar. Em trabalho
contínuo e incessante fundo a Federação
Brasileira de Medicina Psicossomática, mais tarde Associação
Brasileira de Medicina Psicossomática. Colega de outro
Estado viaja para São Paulo e me solicita a presidência,
face as suas grandes necessidades curriculares, em função
de sua docência que se aproximava. Cedo-lhe o lugar.
Observem, nos dois exemplos meus, elos para o futuro. Surpreendo
a todos com minha destruição pelo predomínio
da parte psicótica de minha personalidade, culminando
com mecanismos de identificação projetiva maciça
aos meus próprios elos com as duas entidades.
Ataques aos Elos Falimiares
Submetendo-me à duas cirurgias em épocas diferentes,
não correndo risco algum de vida, mas com coração
aberto, generoso e amigo dei procuração para
todos os fins, primeiro à uma filha, precedendo a primeira
intervenção, e, algum tempo depois, à
um filho, antes da segunda operação.
Ao tomarem o domínio de todos os meus
pertences, a filha monta uma empresa e o filho retira todos
os meus recursos financeiros para preservação
de minha saúde e os coloca em sua conta bancária.
Ambos o fizeram sem consulta ou anuência
minha.Foram descobertos, em reunião, por outros três
filhos.
Meus dois filhos, em episódios psicóticos, mostram
profunda inveja ao pai e me destroem como objeto ruim. Colocam
o objeto bom do pai na empresa e no banco, com o propósito
de me destruir e de me eliminar.
A parte psicótica da personalidade
de ambos mobilizou-se para minha destruição
e conseqüentemente com os elos que mantinha com eles.
Minha dor, por esses episódios, é
indescritível!
Construindo Elos
Quando se movimenta a parte não psicótica
de nossas personalidades temos a criação de
novos elos.
Jornais, revistas, rádios, televisões,
etc., por vezes, de forma sub-liminar, sugestiva ou persuasiva
controlam, manipulam a mente podendo torná-la empobrecida
e obscurecida de valores espirituais sadios.
Em função desses fatos, a mente
parece ser hospedagem de estruturas malévolas como
assaltos, roubos, seqüestros, delinqüências,
etc., autêntico depósito de coisas, com assimilação
incessante transformando-a como concretude, onde hábitos
de pensar levam o homem a ter uma realidade ao seu jeito.
Torna-se o homem mecânico, vazio, autômato,
com direcionamento unilateral da vida, chegando a criar para
as mulheres jovens, modelos de magreza em busca da felicidade.
Com a mente saturada de heteróclitos
por impregnação constante e assimilação
continuada, o pensamento dá as mãos ao sentimento
e vão para o túmulo. Os homens se tornam ôcos,
com buracos dentro de si, estátuas de mortos-vivos.
Impõem-se a construção
de novos elos com a vida, com a natureza, novos modelos para
acessar e resgatar a alma do ser humano, aumentar seu espaço
interno, embelezar sua mente, que se torna iluminada, móvel
e colorida.
Ao entrar em um bosque não basta descobrir
a trilha para sair, mas incorporar a natureza em seus milênios
de evolução, ser a radiância do mundo,
a sua fisionomia em coisas belas, crescer, entrar em contato,
penetrar em fusão no que emana de uma tulipa, de uma
rosa, de uma violeta.
Como somos campos de pouso da vida do universo,
acoplemos o mundo com música, literatura, poesia, escultura,
arte, sonhos...
Para o homem alcançar as belezas da
realidade necessita limpar as portas da percepção
ou, como diz Freud, limpar as chaminés. Tarefa fundamental
de hoje, do agora, profilaxia e reeducação da
saturação sensorial da mente!
Walter Trinca e David Cymrot, filósofos,
artistas plásticos e brilhantes psicanalistas brasileiros,
partidários do processo de sanear, desinfetar a mente
dessa virulência, apontam novas imagens, espontâneas
sínteses do extraordinário mundo real, conduzindo-nos
à uma compreensão acima do habitual! Observar
vales, montanhas, rios, mares, florestas, estrelas como criação
de Deus. Isso nos permite “insights” valiosos
e alargamento mental.
No contato com o mundo, onde a natureza cria
e transfigura, o relacionamento humano se refaz por transcendência
imanente. A vitalidade do psiquismo é outra pela relação
profunda com a vida no encontro da individualidade integrada.
Experiências não sensoriais,
inspiração, sutileza dos fenômenos onde
coisas comuns e ordinárias se transfiguram concedem
alegria para aqueles que, dotados de um SELF verdadeiro, passam
a conhecer esse estado harmonioso, profundo, belo, majestoso
dos mistérios do mundo.
Esse caos dos dias modernos tem que se modificar
com interioridade, abrangência, deditação,
espiritualização da vida do homem com jogos
de novos significados, prazer na curiosidade e na riqueza
do pensar.
Construindo elos - para que futuro? Respondo
em homenagem ao ilustre psicanalista brasileiro Walter Trinca
e a eminente presidente deste Encontro, Maria Rita Mendes
Leal: para florescimento de novo tipo humano!
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* -Trabalho apresentado na Primeira Sessão Plenária
do IV Encontro Luso-Brasileiro de Grupanálise e Psicoterapia
Analítica de Grupo - Lisboa 6 a 9 de novembro de 1997.
** - Presidente da Comissão de Ensino
do Instituto de Psicoterapia Analítica de Grupo de
São Paulo
- Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise
de São Paulo
- Membro Honorário do Instituto Prof. Helladio Francisco
Capisano