Há quase uma centena de trabalhos publicados na literatura
internacional sobre Supervisão, começando com
Freud (1910 a 1937), Eitingon (1923 a 1926), Ferenczi (1924),
Glover e Deutsch (1935) com incidência maior nos anos
de 1993, 1994 e 1995 com Gardner, Casullo, Casment, Corrao,
Stimmel, Vliestra e, sobretudo Canestri. Todos, em história
secular, empenhados no conceito, no desenvolvimento e nas
transformações da Supervisão.
Conceitos
1. Poderia ser entendido como processo de
ajuda, com dinâmica própria, propiciando conhecimentos
aos alunos de órgãos de ensino dos Institutos
de Psicanálise, psicanalistas, psiquiatras, psicólogos
e a médicos de qualquer especialidade na relação
com seus doentes.
2. Quando um paciente revelar
em sua evolução clínica, dificuldades,
vicissitudes, obstáculos na compreensão dos
liames de suas patologias, não devidamente alcançadas,
tais profissionais procuram para ajuda um Supervisor.
3. O Supervisor pode revelar
possíveis pontos cegos sobre fatos da vida e da patologia
do paciente, não percebidos por quem os trata. O objetivo
do Supervisor é a dinâmica do trabalho que está
sendo feita, valendo-se do valor de seus conhecimentos e de
suas experiências emocionais em sua própria clínica.
4. O Supervisor se detém
em pontos centrais na transferência, na contra-transferência
concebidos como instrumentos úteis para o trabalho
clínico, identificação projetiva não
só como meio de comunicação, como também
projeções patológicas, todos como recursos
para trazer a tona diferentes matizes dos estados da mente.
Experiências
1. As experiências
se desenvolvem no primeiro plano no relacionamento do supervisionando
com paciente, aluno, psicanalista, psiquiatra, psicólogo,
médico, etc., e no segundo plano, paciente e Supervisor.
2. O Supervisor conversa
com o supervisionando e este com o paciente. Todavia, o Supervisor
comunica-se pela sua percepção, perspicácia,
sensibilidade com todas suas emoções com o paciente
fantasmático, pessoa construída na primeira
apresentação do trabalho, que existe como faculdade,
sem exercício ou efeito atual (virtual).
3. Hoje o Supervisor relaciona-se
com a patologia e fatos da vida do paciente, como analista
e transformador, criando-se pela intersubjetividade um novo
objeto, tornando o trabalho muito mais complexo.
4. Ampliam-se os conceitos
de transferência e contra-transferência com reflexos
das informações das experiências emocionais
do Supervisor com nova configuração no objeto
da Supervisão.
5. Procura-se tirar o paciente
e o supervisionando de uma armadilha de “proibições”.
6. Outra inovação
é o relacionamento transferencial e contratransferencial
entre Supervisor e supervisionando.
7. É a prática,
é a experiência que faz mudanças. No próprio
processo de Supervisão, o supervisionando ao lidar
com a identificação e contra-identificação
projetiva poderá utilizar as identificações
e a contra-projeção percebidas sobre o Supervisor.
8. Seria um processo, cujo
mecanismo dinâmico poderá refletir no relacionamento
do supervisionando com seu paciente, podendo utilizá-lo
como prova da teoria na clínica.
9. Não se trata de
procedimento aparente, mas real. O Supervisor atua como analista
na psicanálise de uma psicanálise, ou em outras
palavras, o conhecimento somando com outro conhecimento.
10. Não é
o número de pessoas no processo que importa e sim o
conteúdo dos fenômenos dinâmicos desenvolvidos
na tripeça Supervisor-Supervisionando e Paciente.
11. Não se tratam
de inovações, mas por de manifesto o que já
é sobejamente sabido, ou seja, as manifestações
sugestivas de um paciente quando percebe algo estranho na
pessoa que o trata. O paciente registra em sua mente algo
diferente naquele que precede ao supervisionamento, pela mudança
de sua conduta no processo ao afirmar: “sinto que estou
diferente e o senhor também. Parece que alguma coisa
coisa vem de fora”.
12. São autênticas
afinidades perceptíveis transmitidas inconscientemente
que caracterizam a contra-transferência ou a contra-identificação
projetiva, mostrando a complexidade e as armadilhas da Supervisão.
13. Em oportunidades semelhantes
a essa, o supervisionando nega o episódio ocorrido
afirmando que procedera uma interpretação diferente.
14. Acontecimento onde paciente,
amadurecido em sua análise, rechaça interpretação,
não é inusitado. O analisando aponta a interpretação
como repetição das palavras ora da mãe,
ora do pai, esperando algo para o momento da sessão,
que nunca seja para traz! Sua atitude é nitidamente
de acusação ao analista. Mesmo sendo experiente
pode deslizar em pontos cegos ou assegurar-se que o paciente
progride podendo ultrapassá-lo, como um filho pode
superar o pai ou a mãe!
15. Uma interpretação
provocando ressonância dentro do analista tem o valor
de uma hipótese do material podendo envolver uma contra-transferência
adequada, pois permite avanço dos conhecimentos. Quando
isso não acontece, ao se trabalhar uma contra-transferência
na Supervisão tocamos pontos indicativos de que a contra-transferência
foi inadequada.
16. A Supervisão
é prática dos postulados psicanalíticos
em conjunto com processo de alívio, que a maioria designa
de terapêutico, junto com aprendizagem.
17. Para se evitar dissociação
com vazio teórico prático na Supervisão,
a identificação projetiva e contra-identificação
entre paciente e supervisionando são sempre aproveitadas.
Não se abandona também o inconsciente do Supervisor
pelas interpretações de todas as variações
e vicissitudes de sua relação de trabalho com
o paciente. Não se trata de alguma coisa como outra
psicanálise, invenção de processo paralelo,
quando os acontecimentos se desenvolvem simultaneamente diante
de nossos sentidos.
18. Não nos parece
possível dissociar o exercício da psicanálise
com a prática da Supervisão, uma vez que estão
inteiramente entrelaçados: paciente – relação
analítica – com supervisionando; relação
analítica do supervisionando com o Supervisor; relação
analítica do paciente com Supervisor.
19. Com percepção,
perspicácia, intuição e flexibilidade,
a Supervisão pode ser compreendida e conduzida a este
modelo. Avanço obtido graças aos pacientes supervisionados,
que falam! Não mais podemos fingir que não os
ouvimos!
Preparação e Exigências
Mínimas de um Supervisionando
1. Veremos mais adiante,
as propostas para conhecimento profundo da supervisão,
incluso para aprimoramento dos autênticos psicanalistas.
2. Presume-se que o supervisionando,
lidando com seus pacientes, pode ocasionar grandes danos mentais,
por não conhecer a si mesmo. Suas dificuldades só
podem ser resolvidas em sua análise pessoal, quando
esta, muitas vezes, nem sequer tem qualificação.
3. Um trabalho clínico
é resultado de múltiplas relações,
cada uma com suas próprias características cabendo
ao supervisionando duas necessidades: uma científica
e outra, ética. A necessidade científica é
não ser falsamente preparado, aventureiro, aproveitador,
enganando médicos, psicólogos, etc., cheio de
onipotência e ignorância, por não ser analista
devidamente qualificado e recomendado pela International Psychoanalytical
Association. Esta entidade congrega e fiscaliza todos os membros
das sociedades psicanalíticas de todo mundo, publicando
a cada dois anos o seu Roster, onde estão os nomes
de todos profissionais qualificados. A necessidade ética
é o supervisionando estar ciente de suas profundas
limitações e procurar ingressar em instituição,
que possa salvá-lo do abismo de sua ignorância.
Seminários, Psicoterapia de
Grupo Semi-Diretiva e Psicoterapia Analítica de Grupo
na Supervisão
1. Os Seminários
constituem prática corrente tanto na Itália
como na França, destinados a membros associados e efetivos
das Associações Psicanalíticas desses
dois países, visando aprimoramento de conhecimentos
sobre Supervisão.
2. Os Seminários
são constituídos por grupos de membros, reunidos
uma vez por mês, com líder aceito por todos.
Um material apresentado por membro da entidade é discutido
entre todos com o líder, que ao final, apresenta suas
impressões. Segue-se reapresentação do
mesmo material para outro líder, cujas idéias
são diferentes. A diferença entre as duas supervisões,
em função da apresentação do mesmo
material clínico, reside na visão multifária,
através da qual, um mesmo fenômeno permite observação
diversa, de acordo com o ângulo pessoal com o qual ele
é visto.
3. O método pode
ser o mesmo, as interpretações diversas, razão
pela qual não se tem nenhum modelo no campo da supervisão
em um Seminário.
4. A escolha do material
de Supervisão permite compreensão da realidade
clínica, conduzindo tal prática as hipóteses
de trabalho adequadas ou não.
5. Seria de boa prática,
cada três meses, Supervisor e supervisionando escreverem
sínteses de suas observações durante
esse período, recomendando-se que um lerá o
trabalho do outro, seguido de discussões entre todos,
para conclusões e avaliação final. Todos
se beneficiarão com essa conduta, cujo objetivo é
encontrar falhas dos artesãos, que fazem por fazer!
Nasce uma Supervisão oriunda de dentro para fora, conjugando
prática e ensino evitando os vazios existentes até
hoje!
6. A Psicoterapia de Grupo
Operativa e Semi-Diretiva difundida por Miller, Capisano e
Poci em 1950 na Faculdade de Medicina do ABC permite ao Psicoterapeuta
Analítico de Grupo liderar Supervisão do material
clínico, ensino da teoria e da técnica, discussão
das diferentes postulações teóricas,
referenciais bibliográficas e abordagens das dificuldades
pessoais dos integrantes do grupo em caráter operativo
e semi-dirigido.
7. A Psicoterapia Analítica
de Grupo abre caminho para, em cada sessão, um participante
do Grupo apresentar um trabalho clínico sobre Supervisão.
Quando da apreciação do tema, cumpre a cada
integrante do Grupo saber delimitar seu papel, sua identidade,
seu conceito e seu objetivo na troca de idéias sobre
o trabalho apresentado.
Não se trata nem ensinar nem educar,
ou seja, não colocar no outro e nem dirigi-lo, mas
permitir exteriorizar valores potencialmente existentes. Que
os membros do Grupo possam vir a conhecer, como intercâmbio
de experiências, reflexões profundamente sentidas
e não intelectualizadas.
8. A tarefa proposta de
Supervisão é finalidade separada dos processos
de comunicação, cujos vínculos vão
progressivamente se estabelecendo entre os integrantes do
Grupo.
9. Caberá ao Psicoterapeuta Analítico
de Grupo desenvolver o início, meio e fim do processo
grupal com sessões de uma hora e meia de duração,
duas vezes por semana.
10. Trata-se de grupo humano cuja dinâmica
permite visão lúcida do homem quando interage
com seus semelhantes procurando compreensão de seu
funcionamento inconsciente, propiciando interpretações
desenvolvidas em campo transferencial e contra-transferencial
entre Psicoterapeuta Analítico e Grupo.
11. O Grupo não tem
normas, propicia surgimento de líder que pode ou não
ser sancionado, vive ansiedades, angústias, passa pelas
posições esquizoparanóide e depressiva,
pode se integrar, dissociar formando subgrupos e tem distintos
significados quando permanece em silêncio ou quando
surgem comunicações.
12. Identificação
projetiva e introjetiva, mudanças nas estruturas emocionais
primitivas, repetições, rupturas de curtos-circuitos,
natureza e funções dos papéis até
a elaboração da situação depressiva
são alguns aspectos da dinâmica grupal.
13. Médicos, psiquiatras,
psicólogos e psicanalistas experientes podem desfrutar
situações grupais bem diferentes da relação
bi-pessoal que estão acostumados a vivenciar. A compreensão
profunda de problemas, suas motivações e liberações
com rastros neuróticos, as vivências do mundo
interno divorciado ou em conflito com a realidade exterior
são diferentes e muito profundas no processo analítico
grupal.
14. A situação
de trabalho pode se tornar difícil em função
da psicopatologia dos pacientes propiciando mudanças
de visão com a inclusão de patologias narcísicas,
bordeline e psicótica.
A Supervisão
1. Parece se dissociar da teoria utilizada
pelo Supervisor em seu trabalho clínico, conferindo
importâncias diversas ao intersubjetivo, ao intrapsíquico,
etc., provocando contradições difíceis
de serem ajustadas.
2. Permite lidarmos com
diferentes conceitos e enfoques, cujo uso impõe modo
coerente seguindo postulação teórica
escolhida para se evitar babel de conflitos.
3. Abre caminhos para fantasias
em campo tridimensional em sucessão de movimentos projetivos
e introjetivos com efeitos de autêntica simbiose transferencial
e contra-transferencial.
4. Com assimetrias das situações
vividas na tripeça analítica provocarão
muitas dúvidas, grandes impasses e resistências
naturais, as quais poderão, ao longo do tempo, serem
elaboradas e vencidas.
Objetivos
A Supervisão
- Não cura > cuida
- Não ensina > oferece caminho
- Não educa > desenvolve
Conclusão
Não é possível admitir Institutos de
Psicanálise sem treinamento para os Supervisores. É
necessário chegar ao fim da presunção
onipotente, onde me incluo, que Supervisão é
habilidade e função automática dos analistas
sem qualquer preparação específica.
*************** Referências Bibliográficas
Na introdução fiz citações aos
trabalhos publicados na literatura internacional. Li resumos
de oitenta e quatro publicações sobre Supervisão.
Importam experiências entre nós para observações
sobre as propostas apresentadas.
***************
* Trabalho apresentado no Curso de Psicossomática do
Instituto de Psicossomática de São Paulo –
9 de outubro/2000.
** Professor do Curso Continuado de Psicossomática
do Instituto de Psicossomática de São Paulo.
Ex-Diretor e Professor Titular de Psicologia Médica
e Medicina Psicossomática da Faculdade de Medicina
do ABC. Presidente Honorário da Sociedade de Gastroenterologia
e Nutrição de São Paulo. Membro Honorário
da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática
– Regional de São Paulo.