Acompanhando, ao longo
dos anos, pacientes com somatização crônica,
portadores de episódios repetidos, no início
de minha prática clínica como gastroenterologista
e, há cerca de 35 anos, como psicanalista, presumo
estar frente à frente com um desafio para qualquer
especialidade médica, como também para aquela
pesquisa indagante de todos os significados do processo do
homem: a psicanálise.
A dificuldade, entre outras, de se identificar
e assimilar o núcleo apostásico, solto na relação
transferencial e contra-transferencial, leva-nos a pressupor,
nos casos clínicos de somatização crônica,
a existência de marca de análise interminável.
Introdução
Este tema, assunto de meu próximo livro, foi apresentado
sinteticamente no X Congresso Brasileiro de Medicina Psicossomática,
em recente conclave em Curitiba.
A somatização crônica, pela sua repetição,
constitue desafio para todas especialidades médicas,
sem exclusão daquele procedimento técnico que
procura indagar dos significados do processo do homem: a psicanálise.
Os períodos remissivos e de crises,
muito variáveis, permitem concluir que o médico
deve abster-se, na prática clínica, do uso da
palavra “cura”, substituindo-a por “alívio”.
Como o equilíbrio pessoal é
sempre instável, face à conflitos que se sucedem
na vida, importa a prevenção das doenças
com a conseqüente manutenção da saúde.
Esta é a grande inquietude para aqueles que se propõem
cuidar, com afinco, dos pacientes que repetem episódios
de somatização.
Seja pela psicanálise ou pela psicodinâmica
não se fogem dos postulados teóricos. Pouco
importa se a investigação inconsciente é
profunda ou não, se existe linguagem comprometida com
o desejo, se é alucinação, se é
mentirosa a representação do corpo, se há
relacionamento de fenômenos ou se existem ou não
vínculos de significados simbólicos e culturais.
Qualquer visão que se tenha do homem, lá estará
o paciente somatizador a se rir de amarelo diante de nossa
ignorância.
Em um desafio, um substitue o outro: o que
não se pode representar se coloca na tela, o que não
se pode nomear coloca-se em palavras e o que não se
pode pensar se dispõe em reflexão, sobrelança
Godoi Moreira(26). Pode-se até entrar no compasso da
dança de Lipowski(24): antes de 1920, depois de 1920;
até 1955 e depois de 1955 na história da medicina
psicossomática, e, nos rótulos dos distúrbios
somatiformes ou nos transtornos somatiformes, autênticos
prefixos sempre renovados.
Todos em caminho da luz. No fundo, ainda
estamos na fase embrionária do pensar do processo do
homem, vulgarmente conhecido como psicossomático.
Não creio que nada disso seja seguro.
Se alguém apontar que o caminho é este ou aquele,
não estranhem: o segurador mostra sinal de doença.
Caminho da Somatização
As diferentes situações de oposição
da vida comum constituem autêntico estado de conflito
provocando tensões progressivas. O limiar de suportação
dessas tensões é específico para cada
pessoa. Quando essa capacidade defensiva se esgota, por deficiência
de elaboração do processo mental, as cargas
psíquicas transbordam desaguando no corpo.
É onde começa o desvio de saúde,
pela leitura desarmoniosa e desiquilibrada procedida pelas
instâncias do aparelho mental, ao mediar os acontecimentos
do mundo externo que afligem o indivíduo, simultaneamente,
com os objetos do seu mundo interno.
O homem necessita enfrentar, operar e resolver
fenômenos sucessivos em diferentes períodos.
Ele só pode se desenvolver, estando em equilíbrio
com suas estruturas psíquicas e somáticas, através
do comando da mente.
Psique e soma simultâneos e fundidos
pertencem à mesma realidade e todo ato psíquico
começa inconsciente. Pode continuar como tal, ou então,
invadir a consciência, desenvolver-se ou não
na dependência de uma resistência.
O marco inicial autêntico é
o instinto, motor do progresso, força constante, a
qual, sob estímulos externos e internos do organismo,
permite que o afeto proceda a sua descarga, como refere Freud(5).
Ao afeto inconsciente se agregam idéias
e fantasias inconscientes constituindo-se a representação
psíquica do instinto.
Certa soma de energia é fornecida
pelo instinto para essas representações, que
podem, como atos psíquicos, ser repelidas pela censura,
não atingindo a consciência. Mas, após
luta contra as resistências das repressões, tais
atos psíquicos chegam à consciência, talvez
com duas formas diferentes de uma mesma coisa, de conteúdos
iguais, mas de natureza diferente. Assim, os fenômenos
somático e psíquico seriam expressões
diversas de uma mesma coisa, segundo Freud(7).
Idéias e fantasias inconscientes quando
chegam à consciência constituem manifestações
do estado afetivo.
O afeto se desenvolve, em sua estruturação,
agora com idéias conscientes em ligação
com o objeto.
Se o indivíduo ao ser frustrado é
capaz de suportar a dor mental, seu afeto se conserva íntegro
e se desenvolve em sua relação objetal. Ao contrário,
não suportando dor mental com sofrimento imenso atingindo
todo o ser, não circunscrito, sem ter manobras de alívio,
opta pela dor física, controlável pela sua localização
e susceptível de melhora por recursos os mais variados.
Não agüentando a frustração,
o afeto se estilhaça interrompendo a relação
objetal. O afeto se desorganiza, enlouquece, diz Chiozza(3),
obstruindo o desenvolvimento do pensamento e a capacidade
de pensar, conclue Miller de Paiva(25).
No processo do homem, parte do afeto estilhaçado
vai, de acordo com a visão de cada um, constituir o
fenômeno somático que aflora à percepção
consciente e outra parte, atingida pela repressão,
coarta a manifestação afetiva, constituindo
o fenômeno psíquico.
Paciente, com enterocolopatia, conta sofrer
de cólicas abdominais difusas, seguidas de alívio
com várias evacuações com fezes, cujos
conteúdos de semi-sólidos vão se liquefazendo,
sem catarro, muco ou sangue.
Os conceitos fundamentais de investigação
em medicina moderna não se restringem à casualidade
linear desse fragmento clínico. A enterocolopatia é
enfermidade que tem linguagem peculiar constituindo objetivo
acertado estampá-la com o histórico de vida
do paciente. Cumpre, no tratamento dessa enfermidade, modificá-la
com a descoberta, compreensão e o sentir profundo de
seus significados.
As manifestações clínicas
referidas seriam resultados do estilhaçamento do afeto,
com destruição das ligações das
representações mentais dolorosas como propósito
de livrar o aparelho mental de resgistros inaceitáveis:
imagens desagradáveis impressionando os olhos, palavras
doloridas chegando aos ouvidos, sensações indesejáveis
atingindo o aparelho sensorial, etc.
Todas essas sensações provocando
limiar intolerável de tensões, transbordam do
aparelho mental para o aparelho digestivo. Perdem-se afetos,
fantasias, idéias, sentimentos, palavras, etc., provocando
curto-circuito na relação com o objeto. O aparelho
digestivo seria “aquele que fala”, através
de seus sintomas, por ter sido subtraída toda carga
psíquica.
A passagem sentimentos-palavras para cólicas-evacuações
seria mudança de estado: do abstrato para o concreto,
do psíquico para o somático, dois aspectos do
mesmo fenômeno: o afeto - motor de arranque da energia
de vida - o instinto.
Quando ocorre o estilhaçamento do
afeto surge renúncia ao objeto, uma vez que a libido
a ele destinada, volta-se para o próprio indivíduo,
concentrando-se a carga libídica em seu Ego, reconstruindo-se
primitivo estado narcisista.
O aparelho digestivo comprometido arroga
a si a representação verbal, suprimida da relação
objetal. Os pacientes que exaltam o sofrimento físico
parecem alheios ao mundo exterior, não levando a termo
impulsos, sensações, sentimentos e não
mostrando sinais de culpa.
O caminho da somatização crônica
é aberto pelas repetidas transações ou
transformações de processo inicialmente psíquico,
com mudança de carga, para outro processo de contra-carga,
o somático, cuja categoria o paciente poderá,
com ajuda do analista, descobrir e sentir qual o equivalente
psíquico interrompido.
Essa descoberta é autêntico
desafio para desnudar a máscara da Persona, falso rosto
humano, escondido com mentiras latentes para, ao longo de
muita paciência, atingir-se a filha do tempo: a verdade
(Galileu), chegando-se a Pessoa, agora sem máscara,
com rosto à manifesto, tolerando frustrações
e renunciando a certos aspectos do princípio do prazer
- Segre(28).
Chegada às Somatizações
As somatizações parecem acolher
no corpo a desorganização mental e as alterações
das estruturas físicas.
É o viver no plano somático,
como se o corpo fosse a estrutura da própria mente,
que entra em psicose transitória.
É a personalização do
corpo, sem o viver psíquico profundo. Existe desorganização
de natureza psicótica, que é camuflada através
de manifestações masóquicas.
Período de Incubação
da Somatização
As situações de vida com conflitos traumáticos
não resolvidos vão provocando tensões
que se somam. O homem pode suportá-las até grau
máximo de tolerância, existindo um limiar peculiar
para cada um.
Quando esse limiar de tensões afetivas
é atingido, os afetos se estilhaçam com aparecimento
de sintomas.
O processo de somatização,
em função de conflitos não resolvidos,
ocorre em virtude de acontecimentos simultâneos, inseparáveis,
recíprocos, contínuos entre duas pessoas. Nessa
relação, onde se fundem atributos os mais diversos
entre crianças, adolescentes, gerontos, médicos
e pacientes pode ocorrer satisfação instintiva,
que permanece sem manifestar-se em conseqüência
da repressão, resultando o aparecimento de sintomas.
Somatização Crônica
As representações mentais intoleráveis,
incompatíveis e sobretudo as sexuais provocam “cenas”
que acabam sendo rechassadas e reprimidas.
Mas, episodicamente, essas representações
reemergem para, em seguida, serem novamente reprimidas. Nesse
“aparece e desaparece”, do mundo consciente para
estrutura inconsciente, alguma representação
escapa desse movimento de “vai e vem”, e, separada
do afeto, efetua falsa ligação com outra representação
caracterizando a obsessão.
Com essa neurose de culpa, a pessoa procura
dominar pensamentos, sentimentos, imagens, situações
difíceis, etc., através de ordem excessiva,
teimosia, dificuldade em pensar e agir construtivamente.
O superego se volta com extrema severidade
contra impulsos, idéias, sentimentos, etc.
Somatização Crônica
por Compromisso com os Sintomas
Compromisso com os sintomas ocorre, quando
o Ego é subjugado por seqüência de manifestações
clínicas, caracterizadas por melancolia, obsessão
e neurose de culpa, transtornos psicopatológicos relacionados
e parcialmente sobrepostos.
Um paciente rechaçado e separado do
objeto amado pode sofre uma melancolia, mesmo que transitória,
com sintomas, ao procurar introjeção compensatória,
tentando fixação da libido oral, em função
de fome egóica muito intensa.
Em seguida, por não suportar a frustração
pela separação do objeto, entra em um comportamento
obsessivo mostrando dificuldades de pensar e agir, acompanhadas
de escrupulosidade incomum, ordem exagerada e teimosia em
guardar coisas, como se estivesse recuperando o objeto perdido.
Sucedem-se conflitos entre Superego e Id
abrindo caminho para pronunciada regressão oral sádica
com manifestação de culpa, aliviadas somente
com ataques ao soma. Com a neurose de culpa, culmina a somatização
por compromisso com os sintomas.
Somatização Crônica
em Função de Perseguições
Esta modalidade de somatização é encontrada
em pessoas inflexíveis por determinada causa. Embora
tal característica se encontre em indivíduos
aparentemente normais, por serem trabalhadores produtivos,
às vezes é difícil distinguí-los
de certa intensidade patológica.
O caráter de perseguição
envolve padrões rijos, duros, inflexíveis com
dificuldades de percepção, relacionamento e
pensar, com traços de muita sensibilidade, desconfiança
exagerada e ciúme patológico.
Parecem indiferentes, frios, sem senso de
humor, funcionando muito bem sozinhos, independentes, em geral
mostrando dificuldades com figuras de autoridade e com estruturas
de poder. Suas relações podem estar prejudicadas
apenas em uma área, tal como o trabalho ou o casamento.
A rigidez do caráter de perseguição
pode mascarar uma desorganização psíquica
maciça.
Quando se aproximam de alguém, a satisfação
instintiva se deforma por não poder se manifestar como
conseqüência da repressão, de tal maneira
que a energia libídica de cada um se volta para si
próprio.
Prejudicada a relação objetal,
o afeto se estilhaça, a relação se torna
muda, sem voz pelo curto-circuito da vetorização.
O encontro com o outro, mobiliza o que todo
mundo tem dentro de si: o perseguidor interno. O objeto persecutório
se dissocia em dois: um objeto fixado e controlado em certa
área do corpo, invadindo e despersonalizando a pessoa,
com surgimento de sintomas e outro objeto, controlado no meio
externo e fixado, preferentemente, nas figuras de pai e mãe
ou figuras substitutas. É a somatização
por perseguição no corpo e na mente, com despersonalização.
Somatização Crônica
em Função de Conversão
Há cerca de vinte trabalhos de Freud(4)
sobre conversão. O termo por ele proposto constitue
para Chiozza(2) uma metáfora, não sendo o objeto
que designa. É sentido figurado pela relação
de semelhança com o sentido próprio.
O Ego se propõe desenvolver atitude
defensiva frente à uma experiência a sentimento
ou representação intolerável. Situação
de penosa ansiedade surge, por não ser capaz de resolver
com o pensamento, a contradição entre o ego
e a experiência incompatível.
O acontecimento com afeto constitue representação
poderosa, carregado com muita excitação. Todavia,
como o episódio de vida é insuportável
ocorre uma transformação em algo somático,
desprovido de afeto. É a conversão, autêntica
incompatibilidade psíquica, onde se vinculam, em fusão,
o soma com o psiquismo e onde a representação
indesejável é reprimida e isolada da memória.
É evidente que o Ego rejeite a representação
desagradável juntamente com seu afeto e tudo se passa
como se o episódio de vida não tivesse ocorrido.
Nesse momento, pode se supor a existência de uma psicose,
pelo desligamento da realidade.
A conversão pode resultar da soma
de traumas emocionais recentes como também de episódios
relembrados e agora desencadeados por uma trilha: excitação
mental específica.
Como as situações conflitivas
são extremamente penosas, o Ego se defende pela cisão.
Quando o mecanismo defensivo é adequado, a vivência
desagradável e sua conseqüência afetiva
são eliminadas da consciência e da memória.
Na verdade, esses “expelidos da consciência”
são reprimidos para o mundo inconsciente e retornam
à ela por meio de sintomas. Agora, as defesas fracassam
pela emergência da doença.
Sabe-se, atualmente, um sintoma não
tem um único significado o que traduz vários
cursos inconscientes do pensamento. Adiante-se que uma fantasia
inconsciente, um único curso de pensamento não
bastará, de per si, para a produção de
um sintoma. Haveria uma única maneira de obter satisfação
sexual?
Freud, através do caso Dora, parece
mostrar outros órgãos para o prazer sexual,
ao descrever o uso da garganta e da cavidade bucal. Dora não
desejava saber de seus pensamentos, possibilitando o aparecimento
de sintomas como cócega na garganta e tosse espasmódica,
sensações representativas de satisfação
sexual.
No caso clínico, Dora insistia, de
um lado, nas relações de seu pai com a Sra.
K e de outro ponderava ser o pai impotente, não conseguindo
satisfação nesse caso amoroso.
Freud mostrou que uma moça virgem
pode, em fantasia, ocupar-se de sensações sexuais
através de cócega na garganta e tosse espasmódica.
Dora, com o desaparecimento de todos os sintomas,
aceitou a interpretação de Freud. Quando garotinha,
aos 5 anos, chupava o polegar esquerdo enquanto com a mão
direita puxava o lóbulo da orelha do irmão,
sentado ao lado, quieto. Estilos diversos de uso de partes
do corpo para o prazer.
Em Dora, a cena psíquica da relação
amorosa de seu pai com a senhora K. não foi tolerada.
O conteúdo mental insuportável é rechassado
e por conversão transmutado para o soma. A energia
libídica ao ser deslocada da mente para o corpo é
expressa por sintomas (cócega na garganta e tosse espasmódica).
Os sintomas resultam de conflitos inscritos
e albergados no corpo de Dora. Freud aceitou o desafio de
compreender a linguagem simbólica do corpo de sua paciente,
interpretando-a.
Todas as mensagens psíquicas profundas,
inconscientes de Dora foram reprimidas e contrabandeadas pelas
estruturas orgânicas chegando até a garganta,
como se esta fosse o esconderijo da máfia.
Mecanismos mentais, talvez desconhecidos,
ocultam, como mafiosos, autênticos piratas da conversão,
todos os sentimentos, sensações, emoções,
etc., englobados no afeto, nos esconderijos dos sintomas.
Freud entra como analista-detetive no labirinto
da sede da máfia, através da fala de Dora, e
descobre nos meandros de seus sintomas os significados de
seu afeto profundo.
Dora parece não só compreender,
mas sentir profundamente dentro de si, os significados de
seus sintomas e dessa maneira livra-se deles, recuperando-se.
Sami-Ali(27) critica severamente as idéias
de Freud sobre a conversão, considerando-a como modelo
conformista, dogmático e sem discussão, propondo
em seu lugar nada menos de doze pares de conceitos, incluindo
o imaginário, com e sem projeção ou regressão,
enfim, um autêntico babel psicopatológico.
Somatização Crônica
por Dificuldades de Elaboração do Núcleo
Apostácico
Importa, em primeiro lugar, registrar os
aspectos comuns e depois as características divergentes
entre o convertido e o apóstata.
Sem entrar no mérito dos fundamentos
da religião, o convertido e o apóstata evoluem,
transmutam, transmigram de uma crença para outra dependendo
do ponto de partida e do ponto de chegada.
O convertido caminha não tanto pelas
carências e lacunas que tem, mas busca o que satisfaz,
pelo que o atrai e luta pelo que lhe parece melhor.
É agradecido ao bom, nobre e belo
da antiga crença, preservando vínculos antigos,
sem ódio exagerado.
Tem liberdade para abraçar nova crença
com dominância do amor desde o seu ponto de partida
até o ponto de chegada. Imperador Constantino converteu-se
com afastamento de seus ídolos, abraçando Jesus
Cristo.
O apóstata dá as costas, por
desencanto, àquela crença que professava. Passando
por crises sofridas, agudas e frustrantes, vive mais o que
não encontra do que aquilo que o seduz e fascina.
É impelido pelo sentimento de rancor,
de azedume e de ódio pela crença que deixa.
Se agarra ao ponto de partida de ressentimento e amargor de
sua crença do que pela chegada, interesse e entusiasmo
pelo que vai abraçar. Persiste no apóstata a
dominância pelo ódio.
Juliano, ao apostatar, se torna depois de
batizado, implacável, sanguinário e perseguidor
do cristianismo.
O núcleo apostásico, nesta
somatização crônica, é conteúdo
mental que se separa do ego, pela somatória de frustrações
não toleradas.
Esse núcleo poderia representar aspectos
ruins dos pais, dissociados dos aspectos bons, aqueles mesmos,
quando unidos, constituiam o ego ideal pós-natal.
Por decepções repetidas, por
falta de continência de objeto externo adequado, no
início do desenvolvimento após o nascimento,
o núcleo apostásico ficou de fora, delimitado,
dissociado dos enriquecedores processos de projeção
e introjeção da relação mãe-bebê.
O núcleo apostásico, reprimido,
psicótico, dissociado do ego, no entretanto, em sua
evolução, emerge, entrando na relação
transferencial do aqui-agora-comigo, despertando a qualquer
momento seu caráter persecutório, destruidor,
masoquista, além de maníaco e onipotente.
O ego, projeção mental da superfície
do corpo, é mostrado por Césio(1), de um lado,
como resistência, pelas suas atuações
e de outro, dissociado como núcleo apostático
aparece como responsável por manifestações
patológicas dentro da situação analítica.
O núcleo egóico apostásico,
cheio de investimento de ódio, provoca destruição
do soma como equivalente à pais maus e separados.
É muito difícil identificar
o núcleo apostásico, tornando-o assimilável
e constituindo obstáculo superável na elaboração
do processo analítico.
Assim, a somatização crônica
por apostasía é desafio para o término
do tratamento psicanalítico. As repetições
da somatização crônica selam, nos dias
de hoje, a análise interminável.
Resumo
A somatização crônica, pela sua repetição
ao longo dos anos, constitue desafio para qualquer especialidade,
propondo-se a substituição da palavra cura por
alívio, uma vez que o pensar no processo do homem se
encontra na fase embrionária.
O caminho da somatização pode
começar com qualquer desvio de saúde, pois o
homem necessita enfrentar, operar e resolver fenômenos
sucessivos, em períodos diferentes. É a mente
que comanda o desenvolvimento mantendo em equilíbrio
estruturas físicas e psíquicas.
Quando surge desiquilíbrio, o itinerário
das somatizações é aberto pelas repetidas
transações ou transformações de
processo inicialmente psíquico com mudança de
carga para outro de contra-carga, o somático, cuja
categoria o paciente poderá descobrir e sentir qual
o equivalente psíquico interrompido.
O período de incubação
da somatização se caracteriza quando o limiar
de tensões afetivas é atingindo, os afetos se
estilhaçam e os sintomas aparecem.
As representações mentais intoleráveis,
incompatíveis, sobretudo as sexuais, provocam “cenas”
que acabam sendo rechassadas e reprimidas.
As somatizações crônicas
podem ocorrer: a) por compromisso com os sintomas; b) em função de perseguições; c) em função de conversão; d) por dificuldades de elaboração
do núcleo apostásico.
O A. desenvolve, com pormenores, as quatro
modalidades de somatização crônica, salientando
o núcleo apostásico como conteúdo mental
que se separa do ego, cheio de investimento de ódio
provocando destruição do soma como equivalente
à pais maus e separados.
Finaliza, mostrando ser difícil identificar
e conseqüentemente assimilar o núcleo apostásico,
tornando a somatização crônica verdadeiro
desafio, que leva o tratamento psicanalítico a se tornar
interminável.
*************** Referências Bibliográficas
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***************
* Tema apresentado no X Congresso Brasileiro de Medicina Psicossomática
- Curitiba, Paraná - 1 à 4 de maio de 1996.
** - Membro Fundador da Associação Brasileira
de Psicanálise e membro efetivo da Socieda-
de Brasileira de Psicanálise de São Paulo.
- Ex-Diretor e Professor Titular de Psicologia Médica
e Medicina Psicossomática da Facul-
dade de Medicina da Fundação Universitária
do ABC.
- Professor do Instituto de Psicossomática de São
Paulo.
- Membro Fundador e Ex-Presidente da Associação
Brasileira de Medicina Psicossomática -
Regional de São Paulo.
- Membro Titular do International College of Psychossomatic
Medicine.
- Membro Titular da International Psycho-Analytical Association.