4 - Comentários sobre
o trabalho “Doença do Neutro - Dificuldades Técnicas
- Transferência Misconceptiva” do Prof. Luiz Miller
de Paiva
Introdução
Como analista devo me propor disciplina para, no desenvolvimento
do processo analítico, assumir posição
equidistante das exigências de minhas instâncias
do aparelho mental: Ego, Id e Super-Ego, afastando-me dos
extremos - desligamento e envolvimento excessivo, evitando
imposição de meus próprios valores e
desejos para não emergir como guia de meus pacientes.
A atitude de compreensão benevolente
impõe não educar, orientar, aconselhar, sugerir,
persuadir, etc. para o paciente ao desenvolver-se, obter identificação
própria.
O privar-se, o conter-se, o refrear-se, o
deixar de intervir levou Freud a caminhar pela frieza, distanciamento,
aliado prestativo, simpático, receptivo, compreensão
simpática até a neutralidade, que se lê
no trabalho de 1915 a respeito das “Observações
sobre o Amor Transferencial”.
Uma rápida incursão literária,
partindo de Carlos Drumond de Andrade sobre neutralidade,
se lê: “sempre me abstive de preencher religiosamente
formulários com caracteres cuneiformes”. Camilo
de Castelo Branco em “A Mulher Fatal” escreve:
“eu sabia como andava tresnoitado e abstinente de alimento
meu pobre companheiro de hotel”. Gonçalves Dias
em “Obras Poéticas” ao se referir ao neutro,
marcado pelo funesto, nocivo, nefasto, com o destino da infelicidade,
da desgraça, do prenúncio da morte, conclui:
“que golpes ele me daria?”
Neutro seria aquele que não toma partido
nem a favor, nem contra; aquele que julga sem paixão,
é imparcial. Pode ser o indiferente, insensível,
não animador.
O Analista Neutro
Na comemoração do 75º
aniversário do International Journal of Psycho-Analysis
realizada em São Paulo de 31 de março à
2 de abril, no Maksoud Plaza, colhi, na reunião de
domingo cedo, impressões de Owen Renik, David Tuckett,
Peter Fonagy, Otto Kenberg, Elizabeth Spillius, Jean Michel
Quinodoz, Jorge Ahumada e outros, sobre o analista neutro.
Em síntese, analista neutro é:
01. não aceitar e
conter a experiência da emoção que pode
transformar algo
dentro do paciente e alguma coisa dolorosa no seu mundo interno;
02. ser a verdade e o paciente a mentira;
03. aniquilar a mãe - a emoção
e o pai - o pensamento;
04. possível ser
admitido na Psicanálise que é a ciência
da intimidade?
05. aquele que pode ouvir o paciente com: a) benevolência (Freud) b) simpatia (Spillius) c) empatia, ou seja, no lugar do outro (Greenson)
06. clichê, porque
o analista ao interpretar - fala e deixa de sê-lo;
07. onipotência idealizada
porque foge da emoção;
08. entender a psicanálise
simétrica quando ela é assimétrica;
09. rechassar a vida do
paciente e ser desonesto pela omissão;
10. falso porque segue conjunto
de normas da prática psicanalítica e é
positivo quando usa
compreensão, imparcialidade, sem ser inativo.
Esse Decálogo evidencia que o analista
não exerce o absenteísmo.
Curiosidades Sobre o Neutro
Neutro como insensível, não
animado surpreende quando o neutrófilo, leucócito
com núcleo lobulado irregularmente, é sensível
e fixa corantes neutros!
Nêutron, com carga elétrica nula, causa espanto
quando:
1. nêutron epidérmico
- tem energia superior à agitação térmica
comparável à energia das ligações
químicas;
2. nêutron frio -
tem energia cinética inferior a 0,025 e V;
3. nêutron rápido
- tem energia cinética superior à um certo mínimo
dependente do domínio do interesse;
4. nêutron retardado
- é emitido por núcleo excitado que se formou
em conseqüência da cadeia de desintegração
beta provocada por fissão nuclear;
5. nêutron térmico
- que está em equilíbrio com o meio, onde se
encontra, tendo energia cinética;
6. nêutron virgem - emitido em efeito
de cindir em processo de fissão e que não sofreu
interação com nenhum núcleo.
O neutro tem energia, não pode ser
criada, mas transformada em várias formas (cinética,
calorífica, eletromagnética, mecânica,
potencial, química, radiante, etc.) transformáveis
umas nas outras e cada uma capaz de provocar fenômenos
com características bem determinadas. Estar neutro
- não ter prazer e nem desprazer, indiferente não
significa que não tenha energia e não possa
ser transformada. É o extrair algo do neutro.
Considerações Sobre
a Doença do Neutro
Na página 2, ao referir-se a petrificação
do Ego, entendida como algo duro, empedernido, insensível,
cujo sentimento humano prolongado petrifica as pessoas causando
anestesia, inércia, indiferença ou o morto-vivo
de certos estados esquizofrênicos - pode-se transladar
esse conhecimento para significado real, efetivo e seguro
quando se falam em impressões edificantes de sofrimento
humano prolongado ou ainda quando se edificam sobre pedras
as catedrais, igrejas principais onde se ouvem prédicas
repletas de sentimentos, reflexões e significados de
regras de conduta consideradas válidas pela sua moral.
O conceito de petrificação pode ser diferente:
bondoso, misericordioso e caritativo.
O neutro carrega mecanismo de defesa transformando-se no epiteto
do “nada”, não como triunfo sobre a morte,
mas com recursos para proteger-se, em suas fantasias, de golpes
fatais, nocivos, nefastos da vida, trazendo infelicidade e
desgraça. São aspectos de profundos sofrimentos
latentes, ocultos e de desesperança.
O neutro, ameaçado pelo abandono,
pela precária elaboração da posição
depressiva, tem grandenecessidade do objeto externo. Não
me parece, como se lê na página 4, que o analista
seja desprezado e desvalorizado. O neutro, pela falta básica
do não seio, mantém em delírio os imagos
em animação para não viver suas culpas.
Ele não tem o seio, porque o seio
estaria com o pai, a quem odeia. Surgem, por conseqüência,
alucinações com objetos distorcidos e bizarros.
Observe-se no caso clínico - página
6 - atração pela vida, desejo de sanidade, utilização
de negação maníaca, não me parecendo
intenção pelo suicídio. O relato parece
não configurar doença do neutro, pois não
se aprecia indiferença pela vida.
No quadro nº 1, da página 6,
registra-se na doença do neutro interesse pela vida,
uma vez que, ao lado de inúmeros aspectos negativos,
o indivíduo é estudioso, correto, discute o
seu isolamento, recebe bemnovas amizades, deseja compreensão
e não é avarento.
Não percebo o caos, o sem sentido,
a aspiração do nada, o predomínio do
instinto de morte e muito menos o mito do eterno abandono.
O paciente é estudioso. Estuda o quê?
A nossa incapacidade de entendê-lo, de tirá-lo
do vazio, a nossa falha de comunicação e o nosso
narcisismo? Onde fica o nosso bloqueio frente ao pânico
de uma irrupção psicótica, considerando-se
o paciente como correto, compreensível, aberto às
novas amizades e além disso generoso?
Na página 8, o paciente assegura faltar
alguma coisa que queria e não recebia em casa! Será,
que no fundo, o estudioso da doença do neutro descobre
que algo falta no analista? Estaríamos devidamente
preparados para receber, em nossa experiência analítica,
os dados profundos ligados às emoções,alcançar
os significados e perceber fracasso de nossa função
alfa?
O paciente N. A., na página 9, revela
pensamento numérico, quando membro do Colégio
Militar: “eu gostaria de assassinar 783 pessoas”.
É sabido que pacientes adulteram fatos
presentes e passados para si próprios e para os outros.
As situações de vida resultam de fantasias e
o objeto percebido só o é, quando o paciente
coloca nele partes suas. Nunca o objeto é visto pelo
sujeito em si mesmo. Esse matar pode ser ilusão, alucinação
ou delírio. Seriam criações destinadas
a permitir diminuição da ansiedade e propiciar
experiências próprias de desenvolvimento.
Especulando sobre o material clínico,
o que em si constitue ousadia, permito-me supor que o número
de vezes que o paciente queria matar o seu pai corresponderia
ao número de vezes que o analista nãopropiciou
o seio, que tanto reclama. Para ele, existe a obrigação
de ganhar a mãe - seio bom - roubado pelo pai.
O paciente com a Doença do Neutro
teria o objeto interno bi-partido. Uma parcela dentro de si,
quase morta, semi-paralisada, quase sem funções
vitais, outra colocada no pai, o fragmento fora de si, ativo,
vivo, que está buscando. Com a cisão do objeto
idealizado, o seu compromisso de repetição compulsiva
é enfrentar essa ambivalência com culpa.
É difícil continuar em análise.
Como manter e tolerar a parcela do objeto bom, externa, que
precisa quando tem ódio e inveja do analista, que na
fantasia, a captou?
Esse mecanismo dilemático não
significa que o paciente não possa ser ajudado. O auto
aniquilamento pode servir como excitante para o paciente agredir
o analista, para que este lhe entregue a parcela doobjeto
bom, roubada. Desprezo, escárnio, zombaria (pág.12)
que o paciente faz do analista seriam provocações
de desvalorizações para ele abrir mão
do objeto retido.
O paciente, pela sua capacidade embrionária
de pensar, possue mundo interno pobre e toda investigação
analítica se constrange por essa deficiência.
Nós mesmos, analistas, dispomos de
rudimentar aparelho para pensar quando lidamos com o inanimado,
que parece ser o portador da Doença do Neutro. Parecemos
aptos quando o objeto de investigação é
o fenômeno da própria vida.
Tenho muita prudência ao designar alguém
com a Doença do Neutro, dada a minha fragilidade ao
pensar e minha incapacidade em compreender. Não julgo
os autores da Doença do Neutro, pois todo julgamento
distorce a observação. Para mim, a interpretação
é o nosso único instrumento de trabalho que
englobatodos os aspectos da vida bi-pessoal, mas jamais pode
ser exercida como julgamento.
Na página 13 escreve: “compulsão
à repetição pode levar à paralisia
mental”. Esclareça-se que a compulsão,
em certos indivíduos, a repetir situações
aflitivas, ocorre sem reconhecer sua própria participação.
Freud observou a compulsão à repetição
como operando a função dominante do aparelho
mental com objetivo de deter a tensão e eliminar a
excitação. Acrescente-se que a própria
transferência é repetição como
o são as brincadeiras das crianças, repetições
para dominar experiências de perdas.
Nem todas as manifestações
repetitivas são passivas e automáticas. A própria
revivência da neurose infantil, no processo analítico,
constitue recriação ativa em outro nível,
tornando possível a solução de conflitos.
Esses dados ameaçam a idéia
de que a compulsão à repetição
pode levar à paralisia mental. Por outrolado, pacientes
com Doença do Neutro, mostrando atitudes beligerantes
para com o analista, não parecem aceitar o mito do
eterno abandono.
Na página 14, não entendo onde
quer chegar Patterson, através do “high-speed
digital eletronic”, com a noção muito
conhecida, “que o pensamento do esquizofrênico
é diferente do indivíduo normal”. Se o
autor extende o recurso eletrônico para diferenciar
na tomografia doença funcional da orgânica, Patterson
propõe que o paciente fale com o técnico-máquina
e não com o médico-gente! É sabido que
a mente engloba o soma e o psíquico subordinando, ao
seu comando, toda farmacologia externa (medicamentos) e interna
(serotonina, endorfina, noroepinefrina, etc.) tornando a auto-regulação
de interação proposta por Grotstein em 1991,
grosseira repetição de Heinroth em 1818 (pág.16).
Nessa mesma página, pergunto: será
que a perversão da transferência, como ataque
as interpretações,reside apenas no afastamento
da escolha objetal? Freud, em 1905, nos “Ensaios sobre
a Teoria da Sexualidade”chega a descrever perversões
quase sempre existentes na vida sexual da pessoa sadia. É
bem verdade, que existem dificuldades na distinção
nítida entre comportamento sexual “normal”
e patológico. Alguns desvios quando extremados, fixos
e exclusivos são descritos com o nome de perversão.
Até a escopofilia (prazer de olhar - componente ativo
e prazer de ser olhado - componente passivo - exibicionismo)
é por Freud considerado normal.
A perversão pode se caracterizar por
fantasias sexuais particulares, práticas masturbatórias
e exigências especiais de um parceiro com outro, como
fetichismo, travestismo, voyeurismo, exibicionismo escancarado,
etc.. Teria ocorrido essa prática? Na hipótese,
que nada disso tenha ocorrido, bastaria afirmar que surgiu
ataque às interpretações. A simples palavra
ataque é melhor do que perversão ourebanação,
como quer Ruth Malcolm. São carimbos, rótulos
psicanalíticos, repetições, etc. que
não contribuem com avanços nas pesquisas mais
profundas sobre a intimidade dos processos mentais. Parece-me,
marca vazia de um exibicionismo infantil, que nada acrescenta.
Temos que nos curar desse mal, pois o homem não aceita
rótulos, qualificações simplistas feitas
por chavões, mas conteúdos ricos em funções
aditivas para aumentar qualidades.
Alviçareiras, suas palavras, quando
relata que o analista consegue transformar a mãe morta-viva
em objeto vivo!
Tirar o paciente do caos para chegar a auto-regulação,
com introjeção do objeto bom, não me
parece combate, como se lê na pág.17, e sim,
aceitar o vazio procurando enchê-lo com atitude disponível,
benevolente, tolerante, afetiva e humilde usando modulações
de voz, que cada analista tem, sem precisarimitar e repetir
o “banho melódico de Anzieu”, mais uma
super-produção de rotulagem descabida!
O preenchimento do vazio, percebido pelo analista, constitue
compreensão e prática, tornando-o ativo e jamais
neutro.
A Doença do Neutro descrita como caos,
nihilismo, aspiração do nada, da falta de sentido,
etc. encontra o oposto, quando ao se alcançar um olhar
sobre a vida, o ser humano prefere a existência, e,
não a extinção, a desesperança
e não o desespero, mas a mão amiga que possa
apertar e não o abandono, a autêntica compreensão
e não o caos, o neutro.
As coisas simples - amor e ódio -
sempre dentro de nós, regem juntos os desejos de vida
e morte, completando o ciclo de nossa existência.
A morte, como negação da vida,
ocorreria em alguns que amam a dor, como passo para o aniquilamento!Presumo,
que a sinonímia excessiva obscurece o brilho de sua
redação. Esta, se tornará mais clara,quando
suas próprias idéias mergulharem nos mecanismos
profundos dos processos mentais de sua lavra, abandonando
repetidos apoios bibliográficos, que as vezes atrapalham,
pela quantidade.
Todos os autores, nacionais e estrangeiros,
são brilhantes. Mas como não sou neutro, prefiro
Miller - somente Miller - pela qualidade!!!
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* Trabalho apresentado na Sociedade Brasileira de Psicanálise
de São Paulo - no dia 10 de agosto de 1995 no Auditório
Dra. Adelheid Koch.
** Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise
de São Paulo.