É mostrar o aspecto negativo e criativo do silêncio
nas relações transferenciais e contratransferenciais
entre integrantes de grupo e psicoterapeuta analítico
de grupo. Negativo significa, na área psíquica
predominante, negar alguma coisa, sobretudo quando um analisando
formula uma pergunta e não obtém resposta. A
repetição sistemática do negativo caracteriza
o negativismo. O psicoterapeuta reiterante leva o grupo ao
estado de mutismo. Perguntar nem sempre é pedir informações,
mas investigar como recurso contra o negativo.
O silêncio nem sempre pode permitir
o pensar, ou seja, a combinação de pensamentos
ou idéias, mas abrir caminho para um falar contínuo
traduzindo indiscutível ansiedade.
É também objetivo deste trabalho
revelar, por vezes, na origem do silêncio, algo desconexo,
neutro, sem forma, onde grupo analítico, com rudimentos
do brincar mostra-se criativo.
Introdução
Recordo-me de minha análise didática com a insígne
e inconfundível criatura Dra. Adelhaid Lucy Koch. Havia
alguma coisa diferente. Ela surpreendia-me com suas respostas
interpretativas. Em análise anterior, de eficácia
indiscutível para mim, nem todas as interrogações
que formulava, obtinha respostas.
Aos poucos fui entendendo a Dra. Koch, como
é conhecida. Não era cartesiana, por ser capaz
de me mostrar diferenças entre pausas silenciosas,
de durações variáveis e respostas ou
não, às minhas perguntas. Tudo no aqui-agora,
nos momentos dados e inconfundíveis.
Durante muito tempo ativera-me à rigidez do silêncio
quando era interrogado por paciente, em análise. Parecia-me
ponto fundamental e indiscutível, extraído dos
fundamentos teórico-práticos da técnica
psicanalítica. Era, na verdade, suposição
racionalista e única como método de extração
do mundo inconsciente.
Silêncio Ligado ao Negativo
O fenômeno perguntar não pode ser compreendido
como conceito isolado da totalidade, como pretendia o filósofo
René Decartes (1596-1650), pois o indagar de si próprio
ganha foros de investigar, quando se lê Oto Lara Rezende:
“até hoje me pergunto como tive coragem de ir
ver o vigário?”
A pergunta, socialmente pressupõe
resposta de caráter informador, esclarecedor, algo
que decida, explique ou confira soluções. O
perguntar, em sessão analítica, mobiliza a mente
do psicoterapeuta em múltiplas direções
e sentidos: horário, anti-horário, trigonométrico,
anti-trigonométrico, direto, figurado, inverso, negativo,
positivo, até o sexto sentido, entendido por muitos
como aquele ideal capaz de perceber o que aos outros escapa.
A resposta social, sempre superficial como
tal é consciente e a resposta, em situação
analítica, é sempre inconsciente. A primeira
fecha, conclui e a segunda abre caminhos de investigação.
Um fio condutor permite ligar acontecimentos
perceptíveis em todas variantes de direções
e sentidos, presentes no aqui-agora, vinculados à formulação
da pergunta. O psicoterapeuta perspicaz liga-os à fantasia
que o grupo faz à sua pessoa e dá a resposta,
sempre interpretativa.
Existe o negativo real quando o grupo, nas
condições descritas, espera resposta do psicoterapeuta
e ela não vem. Esse acontecimento, repetido ou não,
caracteriza modelo negativo, que passa ser um estigma na relação
objetal organizada entre grupo e psicoterapeuta.
A resposta que não vem é diferente
do afastamento do psicoterapeuta entre uma sessão e
outra. Dir-se-ia que esse afastamento constitue uma boa ausência,
embora frustrante pode ser útil ao processo de desenvolvimento
das capacidades do grupo, pois reencontrará, como previsto,
o psicoterapeuta em lugar e horários combinados. A
boa ausência não tem rótulo de negativo.
Diferente é a má ausência,
completa ou incompleta, quando o psicoterapeuta chega atrasado
ou não , dá notícias de seu paradeiro
ou não, responde à perguntas formuladas. São
situações diferentes características
do modelo negativo desesperante.
Quando o grupo pergunta, talvez, entre outros
motivos, estaria pedindo ajuda para encontrar o seu Eu. Explicações
do psicoterapeuta parecem não ser de valor. A situação
- da não resposta - encerra impotência total:
psicoterapeuta e grupo.
O negativo cria transferência negativa
pelo impasse contratransfrencial. O não à resposta
pode traduzir desamparo e provável ira do grupo pelo
“descaso”. Teria o grupo, por seu turno, falsa
impressão de que o psicoterapeuta não suporta
perguntas, entendidas como processo invasivo. Poderia pelo
negativismo experimentar afeto depressivo e resistência
enraizada em estrutura superegóica.
Não podem ser esquecidas frustrações
pela não resposta, induzindo, segundo Freud(1), pacientes
masoquistas e deprimidos, por necessidades inconscientes,
de sofrer punições.
O impasse contratransfrencial cria reação
terapêutica negativa. Esta, é entendida por Freud(2)
como “toda solução parcial que deveria
resultar em melhora ou em suspensão temporária
dos sintomas, produz, por um tempo, exacerbação
das queixas”.
O grupo pelo negativo teria má adaptação
à situação transferencial e contratransfrencial,
entendendo-se por passar experiência amarga, ameaçadora
e desesperante.
Silêncio Ligado ao Criativo
Devo situar com clareza a diferença entre o silêncio
após uma pergunta e aquele que pode surgir durante
uma sessão, de um momento para outro. Este último
silêncio, às vezes bastante prolongado, pode
propiciar resultados como o trabalho criativo, desde que o
psicoterapeuta não seja sabichão, alardeando
conhecimentos muito mais para seu narcisismo do que para o
grupo, sempre lesado com falsa sabedoria.
Criação não espoca como
rojão! Demanda tempo, disponibilidade e paciência.
Material e Resultados
Grupo misto com seis integrantes, atividade corrente há
dois anos e meio, duas sessões semanais com duração
de uma hora, férias anuais de trinta dias, revela,
em certa oportunidade, quando dois pacientes estavam ausentes,
um prolongado silêncio de cerca de 15 minutos:
Antônio: (caminha
de um lado para outro durante algum tempo).
Justino: “Lembra que
a direção para seguir é para frente e
não cacarejar”.
Francisco: “O grupo
está como eu me sinto: um nada! Cada um não
sabe o que dizer. Ninguém fala. Todos parados,confusos.
Vou me sentar no chão!”
Antônio: “No
chão mesmo, pois a gente não existe!”
Fantine: “Que sensação
horrível! Não nos damos importância! Alguém
deve dar valor à gente!”
Justino: “Ninguém
faz nada. É melhor desistir e pronto!”Experiência
de desesperança, sem significados, natureza desorganizada
sem forma. Parece que brincam quando:
Francisco: “Eu estava
no chão. Levantei-me. Sentei-me nesta cadeira, como
faço há mais de dois anos. Curioso... como que
só agora percebi que ela não é tão
dura, como sempre pareceu?”
Justino: “Eu estava
decepcionado com a vida. Parecia que ia morrer. De repente,
me toquei com as palavras do Francisco. Se a cadeira não
é tão dura, a vida também não
o é!”
Fantine: “O Francisco
lembra que na vida se ganham coisas. Basta perceber”.
Antônio: “Estamos
nascendo”.
Justino: “É
horrível a gente negar a própria existência!”
Antônio: “Será
que somos alguém? Falamos, brincamos e o analista continua
mudo. Ele não fala nada?!!!”
Fantine: “Parece que
precisamos da confirmação dele? Talvez ele não
fale para não estragar uma coisa que é nossa”.
Francisco: “Quando
se rega uma planta de hora em hora ela morre!”
Fantine: “Recebi educação
para falar pouco. É prata”.
Antônio: “Se
ele não fala - deve ser ouro! Ora bolas, podemos utilizar
o que temos: olhos, ouvidos e língua para conversar”.
Justino: “Não
é conversar comigo mesmo - como sempre faço.
É conversar com vocês, com os outros”.
Fantine: “Não
me sinto só. Aqui sinto-me alguém”.
A sessão chega ao término sem
nenhuma palavra do psicoterapeuta.
De algo desconexo, neutro, sem forma, introvertido,
o grupo parece mostrar os rudimentos do brincar, revelando-se
criativo e postulando o encontro de sua existência numa
área onde todos compartilham.
Winnicott(4) aponta a oportunidade da amorfia
como matéria prima do brincar, essência da experiência
humana constituída por impulsos criativos, motores
e sensórios. De certo modo, a psiquê se concentra
nesse esboço do brincar contribuindo para o ego grupal
e sua representação objetal interna.
Comentários
Neste fragmento clínico, o psicoterapeuta é
objeto presente e disponível, oferecendo ao psiquismo
do grupo, um objeto interno adequado ao caso.
Quando existe o negativo indiscutível,
real, estigmatizado, como se fora má presença,
por resposta não dada, o grupo enfrenta fechamento.
Espera, todavia, o positivo, se oferecendo como presa ao psicoterapeuta
para aguardar resposta que não aparece.
A demora poderia levá-lo a ter ódio
intenso, matando inconscientemente o psicoterapeuta. Tais
impulsos levariam ao arrependimento e culpa, induzindo o grupo
a desenvolver um imaginário para conseguir a ressurreição
do psicoterapeuta morto, em função de energia
criada a partir da queixa.
Desenvolve-se nítida regressão;
o grupo, como bebê, identifica o psicoterapeuta, objeto
primário, autêntica mãe displicente que
atende o recém-nascido com má vontade.
O desinteresse, uma vez que existe só presença
do psicoterapeuta, agrava o sofrimento do grupo. É
uma falta, é um negativo que soma à outro negativo
- a não resposta.
É o negativo do negativo - sofrimento
de caráter masoquista(2) realimentando o queixoso plangente,
de forma contínua.
O grupo exibe psicoterapeuta de ficção.
“Materializando-se” toma lugar da representação.
Segue-se sofrimento de auto-amputação do ego
grupal, expressão de Green(3), que dá idéia
de sentimento de vazio, abismo, espécie de sofrer dor
de si mesmo.
Preso está o grupo, sem representação,
porque a única seria a não representabilidade
de um objeto, mas este foi devorado pela ira. Transparece
temor de aniquilamento pela predominância destrutiva.
*************** Referências
1. FREUD, S. The Economic
Problem of Masochism, S.E., 1924, 19:159-170.
2. FREUD, S. The Ego and
the Id, S.E., 1923, 19: 1-66
3. GREEN, A. Le Travail
Négatif, Rev. Française de Psychanalyse, 1986,
L. nº 1, 489-493.
4. WINNICOTT, D. W. Playng
and Reality, Tavistock Publications, 1971, IV:79-93.
* Conferência Inaugural do Instituto de Estudos Psicanalíticos
de Presidente Prudente - 3 de
março de 1995.
***************
** Ex-Diretor e Professor Titular de Psicologia Médica
e Medicina Psicossomática da Faculda-
dade de Medicina do ABC.
Fundador, Ex-Diretor Presidente da Comissão de Ensino
e Professor Analista Didata Titu-
lar do Instituto de Psicoterapia Analítica de Grupo
de São Paulo.
Membro Titular do International Association Group Psychoterapy.
Membro Efetivo do The International Psychoanalytical Association.
Membro Fundador da Associação Brasileira de
Psicanálise.
Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise
de São Paulo.
Membro Fundador e Ex-Presidente da Associação
Brasileira de Medicina Psicossomática.
Presidente do Instituto de Psicossomática de São
Paulo.