25 - Relação Holográfica
entre Analista e Grupo com Criação, Revelação,
Evolução e Ruptura de um Modelo
Introdução
O objetivo deste trabalho é comunicar tentativa de
ruptura de antigas formas utilizadas em Psicoterapia Analítica
de Grupo com a introdução de um modelo emergindo
do mundo inconsciente da relação holográfica
entre Analista e Grupo.
O conceito de estrutura de sessão
grupal como sonho ou mito, a procura da realidade última
jamais atingida, o abandono da atitude de continência
do analista como núcleo fundamental do êxito
do processo, o significado do pensar derrubando o mesmismo,
as transformações abalando teorias aceitas,
a evolução de formas que se distanciam da forma
original, o modelo médico de cura substituído
pelo alívio e muitos outros avanços, permitiram
a idéia da revelação do inconsciente
de imagens ocultas como aquelas mostradas por película
fotográfica mergulhada em banhos químicos.
Cada escola de análise grupal deve
ter sua estrutura própria, sem metas mínimas
para facilidades máximas. Importa aos seus defensores
perceberem conceitos mais simples derivados de experiência
clínica com pacientes e não com suposições
teóricas, procurarem diferenças e semelhanças,
transformações, investigações,
reformulações de seus pontos de vista, exercício
clínico com prática sem modismos, rótulos,
cópias de outras técnicas, artífices
de mediocridade, nunca de evolução.
Relação Holográfica entre Analista
e Grupo
A semelhança do que se desenvolve em chapa fotográfica
de um holograma*, o Grupo ao investir energia libídica
em direção ao analista, repete o que ocorre
nessa chapa, onde feixes de radiações caminham
até um objeto, refletindo ondas em sentido oposto.
As ondas refletidas, apontadas por Ferro(01),
se superpõem às radiações emitidas
acarretando autênticos nós, figuras de interferência
que denominamos modelos.
Guardadas as devidas proporções
há um suceder imprevisível, tramas na rede de
acontecimentos inconscientes entre Analista e Grupo, onde
todos, trabalham na construção, a partir de
profundos alicerces de um modelo, onde se investigam significados
inconscientes.
Rede de acontecimentos inconscientes
entre Analista e Grupo com
pontos de encontro das energias libídicas de
ambos, assinalados com
dois pontos negros
* Holograma - chapa fotográfica
onde se registram figuras de interferências resultantes
da superposição das ondas de um feixe de radiação
coerente com as ondas que foram refletidas por um objeto e
que se obtém mediante raios de um laser.
Os pontos de intercepção das
energias libídicas do Analista e do Grupo vão
constituindo o modelo por eles, inconscientemente criado.
Essa geração mútua intersubjetiva
é envolvida por sensações, emoções,
sentimentos dos personagens Analista e Grupo, que vão
projetando identificações projetivas e introjetivas
cruzadas sobre esse modelo.
Dos pontos de intercepção
das energias libídicas nasce o modelo que
recebe identificações projetivas e introjetivas
do Analista e do Grupo
Dentro desse acontecer inconsciente, imprevisível,
projetando-se fantasias, em movimento ora de um lado, ora
de outro, onde todos compartilham, de tal modo que:
aqui -
agora - conosco
se transforma em
não
somos mais - são outros entre si - mas éramos
nós
Nesse campo escuro, como “claustrum”
analítico grupal, tudo é nu e cru. Psicoterapia
Analítica de Grupo não é a história
contada pelos seus integrantes, mentiras sem significação,
mas as descobertas, através de fantasias inconscientes,
no momento em que Analista e Grupo, articulados entre si,
constroem um modelo, com personagens desconhecidos. Há
uma ação compartilhada construtiva para preencher
lacunas mnêmicas, como nos diz Ogden(9). Processo grupal
concluído com conformismo, sem criação
dos integrantes do Grupo não é análise
saudável. É repetição patológica
agravada pelo Analista e pelo Grupo.
Início do Processo
No início do processo grupal, cada integrante pode
repetir um bebê criando o seio que lá deve estar
onde foi criado, como ilustra Winnicott(3). Por outro lado,
o bebê é criação da mãe.
O Grupo, originariamente, cria a fonte que
lá deve estar - o Analista, provedor de todas as suas
necessidades, como mãe.
O Analista enseja ao Grupo a oportunidade
de que ele cria o mundo, a partir de suas necessidades, modelando-o.
Grande ilusão, bem diferente da realidade.
Evolução
Na evolução do processo, o Grupo com suas associações
livres e o Analista com sua atenção flutuante
e capacidade de tolerância, em trabalho compartilhado,
propiciam condições para emergir do mundo inconsciente
dessa articulação um modelo desconhecido para
todos.
Sobre esse modelo operam experiências
de ambos, em movimento contínuo para saber sobre si,
tornando-se pela transformação, no outro. Seriam
funções redefinidas nessas articulações
entre Analista e Grupo, que se fazem de diferentes maneiras,
em diversos planos.
Tudo isso pode levar e conferir uma qualidade
pelo efeito da descoberta. É um “insight”
com novas perspectivas de vida, ampliando a consciência
afetiva de todos. Aquelas significações passadas
e perdidas, são recuperadas e se tornam diferentes,
mais ricas e variadas.
Língua
Procura-se investigar no mundo inconsciente língua,
com gramática desconhecida, através de suas
manifestações conscientes, com novos significados,
descobertos por padrões que dela se aproximam. Esta
é tarefa difícil.
Personagens
Os personagens desse trama se transformam e importa aprender
palavras de semelhança entre sentimento próprio
e o figurado. Os significados são construídos,
embora diferentes, para o Analista e para o Grupo, longe de
repetições caducas, pela abertura da capacidade
criativa.
Os personagens que constituem o modelo são
desconhecidos e envolvem sensações, emoções
e sentimentos que flutuam entre eles.
Se de um lado há expressão
de emoções (amor, ódio e conhecimento)
de outro existe anti-emoções por medo de mudanças,
com paralisação da oscilação dinâmica
das posições esquizoparanóide e depressiva.
Entre Grupo e Analista há identificações
projetivas e contra-identificações projetivas
cruzadas e no desastre interno pela cisão de Ego e
realidade, escoam-se conteúdos mentais acarretando
desorganização, desintegração
e vazios equivalentes à Egos esburacados.
Episódio Psicótico
A estrutura psíquica do Analista e dos integrantes
do Grupo é transitoriamente psicótica. Há
uma transformação. A parte saudável da
mente de todos escoa-se preenchendo as lacunas das estruturas
egóicas alteradas.
Tudo se passa como se o modelo estivesse
com seus personagens abandonados em um pântano. Todavia,
águas ricas em substâncias orgânicas e
minerais escoam para planícies pantanosas, fertilizando-as.
Colmatagem
É processo que confere às estruturas mentais
uma transformação: da sedução,
receptividade, do conluio, reciprocidade, da invasão
da intimidade, compreensão, da usura, generosidade,
da pobreza, riqueza de idéias e da informação
superficial, conhecimento produtivo.
Analista na Relação
Holográfica
O Analista abandona o seu isolamento e ao ingressar no processo
com espontaneidade, flexibilidade, livre de preconceitos de
suas funções, põe em movimento sua energia
libídica para conhecimento de novo modelo, até
então, por todos ignorado. Transgride ao habitual que
dele se espera, com sensações, emoções
e sentimentos cria nova forma, destruindo a antiga, onde acreditávamos
saber o que éramos com petulância e arrogância
escondidas.
A onipotência se desfaz quando criador
e criatura, tanto pode ser o Grupo como o Analista, destruindo-se
a ilusão de que só o Analista tem idéias
para construir.
Criar não é broto espontâneo,
acontecimento mágico de um ser eleito. É trabalho
árduo, doloroso, mas fecundo, de todos aqueles que
nada sabem: Analista e Grupo. Busca-se algo estranho no que
é comum, persegue-se no familiar o que é raro.
Como o Analista vive os seus conflitos, perde
o seu instrumento, a interpretação, não
é mais dono da formulação, algo como
preceito, regra, código ou princípio e passa
junto ao Grupo construir idéias, caminhos de conhecimentos,
frutos dessa relação que evolui do não
saber.
Da Psicose à Transformação
Constróe-se o sonho em buraco escuro de onde se sai
frustrado, alucinado, louco. A transformação
é acontecimento do qual não se tem, a princípio
percepção plena. É um aparece e desaparece
de seus componentes, com mudanças imprevisíveis
de algo jamais conhecido, seja do mundo externo ou do mundo
interno.
Término do Processo
O Grupo tem imaginação extraordinariamente ricas
que ele próprio é capaz de criar, quando as
exprime na realidade.
Cada um passa a ser livre, destacado de todos,
com sua responsabilidade, comentando o que se passa nas sessões
e percebendo igualdades e diferenças de papéis.
O processo é analítico e da natureza humana.
Resumo
O autor compara o mundo inconsciente entre Analista e Grupo
com as imagens ocultas de película fotográfica
de um holograma.
A energia libídica emitida pelo Analista
é refletida pelo grupo, como ondas expedidas e retrocedidas
em um holograma.
Na rede de acontecimentos inconscientes da
vida grupal surgem pontos de encontro de superposições
de energias libídicas, caracterizando modelo criado
entre Analista e Grupo.
Esse modelo recebe identificações
projetivas e introjetivas cruzadas tanto do Analista como
do Grupo, de tal modo que o:
AQUI -
AGORA - CONOSCO
se transforma em
NÃO
SOMOS MAIS - SÃO OUTROS ENTRE SI - ÉRAMOS
NÓS
Começam descobertas, por mecanismos
mentais envolvendo esse modelo construído inconscientemente,
graças a experiências ricas em sensações,
emoções e sentimentos que mobilizam todos.
Decifram-se personagens, suas funções
e significados. Ocorrem transformações com redefinições
de papéis do Analista e do Grupo desenvolvidos de diferentes
maneiras em diversos planos.
O Analista abandona seu isolamento, ingressando,
como qualquer outra pessoa, junto a todos integrantes do Grupo
para conhecimento dos personagens, papéis e significados
de modelo desconhecido.
Criador e criatura se confundem, tanto pode
ser o Analista como o Grupo. Busca-se algo estranho no que
é comum, persegue-se no habitual o que é raro.
O trabalho compartilhado entre Analista e
Grupo é o da construção, superando instrumentos
de interpretação e formulação.
Assim, frutos dessa relação, surgem idéias
e trajetórias de conhecimentos.
Cada um, ao término do processo, é livre, responsável,
apto na percepção de igualdades e diferenças
em diferentes papéis e funções da vida
real, sem confusões de identidades.
*************** Referências Bibliográficas
1. FERRO, A.- “A Técnica na
Psicanálise Infantil”. Ed. Imago, Rio de Janeiro,
1995.
2. OGDEN, T. - “Subjects of Analysis”. Ed. Karnac
Books, Londres, 1994.
3. WINNICOTT, D. - “O Uso de um Objeto e Relacionamento
através de Identificação. In: O Brincar
e a Realidade”. Ed. Imago, Rio de Janeiro,1968.
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* Trabalho apresentado no XII Congresso Latino Americano de
Psicoterapia Analítica de Grupo - 21 à 24 de
novembro de 1996 - Buenos Aires, Argentina.
** Analista-Didata do Instituto de Psicoterapia Analítica
de Grupo de São Paulo - Brasil.
Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise
de São Paulo
Professor do Instituto de Psicossomática de São
Paulo