2 - Aparelho Psíquico
Grupal: Realidade ou Ficção?
Introdução
O marco decisivo de investigação do processo
analítico grupal reside no inconsciente, base fundamental
da realidade psíquica. As manifestações
verbais dos integrantes de um grupo estruturam-se muito mais
a partir das fantasias do que da experiência da realidade
material. Conseqüentemente, o aparelho psíquico
grupal reside no imaginário, diferente do imaginário
individual, de tal modo que o grupo se transforma numa superfície
projetiva para a cultura social. É o grupo espelho
de dupla superfície: realidade psíquica e realidade
material.
Funcionamento do Aparelho Psíquico
Grupal
As relações entre integrantes de um grupo se
efetivam pela circulação de expressões
de idéias, pensamentos, sentimentos, etc. e o elo inter-humano
inconsciente se realiza pela circulação fantasmática.
A fantasmatização, imagens
ilusórias que cada um faz dos demais integrantes do
grupo, é consciente articulando representações,
não só de palavras como também de coisas.
O paciente em grupo pode desenvolver um roteiro imaginário
entre os demais componentes como se fosse um espectador e
os outros, atores.
Todo encontro grupal desperta, mobiliza e
agita fantasmas pessoais como necessidade de descarga das
pulsões. Entende-se cada um protegendo sua identidade
ameaçada e projetando os seus fantasmas nos outros
para que façam o seu jogo. Assim, o fantasma passa
a ter uma organização grupal interna. Fantasmas
individuais lutam entre si, e, cada um com desejo de ser exceção,
empenha-se para ocupar o centro do grupo.
Fantasmas individuais lutam entre si até o ápice
de uma coalização defensiva contra um fantasma
individual, que é desgarrado como bode expiatório.
No entretanto, à guiza das interpretações
do psicoterapeuta, as posições são permutáveis.
Cada personagem, nesse roteiro imaginário,
utiliza o aparelho psíquico para identificações
com o psicoterapeuta, ou então, de modo sucessivo,
com seus companheiros de vizinhança. Assim, através
de identificações e projeções,
as pulsões e as instâncias psíquicas obtêm
representações permitindo vivências dos
conflitos grupais. Há reversibilidade contínua
do aparelho psíquico individual para o grupal e vice-versa.
Ressonância Fantasmática
Partindo de Missenard(6), deve-se à Anzieu(1) a idéia
da ressonância fantasmática correspondendo a
ressonância inconsciente de Foulkes(4), em analogia
com o fenômeno acústico. Helmholtz ampliou o
conceito de ressonância acústica em todos fenômenos
vibratórios como na eletricidade, na ótica,
no magnetismo, etc.
É habitual entre analistas afirmar-se
que os inconscientes se ligam. Dir-se-ia que cada indivíduo
tem vibrações com freqüências peculiares
que fazem efeito sobre outra pessoa, localizada exatamente,
por continuidade, na mesma freqüência, entendida
como freqüência de ressonância.
Na linguagem de vários autores como
Anzieu(1), Missenard(6), Ezriel(3), etc., tal ressonância
seria de natureza fantasmática, como rótulo
das fantasias inconscientes, originalmente desenvolvidas por
Klein(5). Tais autores incluem o fantasmático no meio
das fantasias inconscientes: “quando várias pessoas
se encontram, cada uma tende a projetar seu objeto fantasmático
inconsciente sobre as outras e tenta fazê-las agir de
acordo com ela”. Lê-se em Anzieu(1) os fantasmas
como pre-conscientes e agora como inconscientes, também.
Sami-Ali(7) aproxima o fantasmático do devaneio ao
afirmar que o “imaginário é sonho com
equivalente de vida, em vigília”.
Ezriel(3) aponta algo muito conhecido, o
psicoterapeuta analítico de grupo “deve procurar
compreender a atitude e pensamentos de membro do grupo, como
reação específica ao problema comum do
grupo”. É sabido que as interpretações
visam o problema latente revelado pelo conteúdo manifesto
das discussões, denominador comum dos “fantasmas
inconscientes dos membros do grupo”.
Anzieu(1) fundamenta a ressonância
fantasmática como técnica grupal visando o denominador
comum dos fantasmas inconscientes dos membros contra a tensão
comum, bem como as transferências laterais consideradas
como deslocamentos da transferência central. O autor
critica o aqui-agora-conosco na presunção de
que a interpretação analítica grupal
clássica conduz a transferência somente sobre
o psicoterapeuta analítico de grupo.
Imago
Membros de um grupo encontram unidade com a imagem ideal do
psicoterapeuta analítico de grupo no lugar do Ideal
do Ego de cada um. Essa imago assegura os elos do grupo.
O aparelho psíquico grupal, constituído
por aparelhos psíquicos individuais com representações
mentais coletivas, encontra no imago a garantia do funcionamento
do grupo. É o recurso protetor contra estímulos
de origem externa e investidas de pulsões de seus membros.
Esse Ego Ideal comum seria fenômeno
da ilusão grupal. O grupo deseja depender de alguém
que lhe possa conferir cuidados, proteção e
ajuda à semelhança de pai justo e amoroso, lembrando
o pai bom na primeira fase da imago paterna. Todavia, essa
imago é bivalente como todos imagos, a do pai severo,
duro, cruel, voltado para si próprio. Também
é clivada a imago da mãe: boa e má. O
amadurecimento progressivo do grupo, com o compartilhamento
e o impulso de um membro se dispor a estar e viver no lugar
do outro, pressupõe a existência da imago fraterna.
As imagos paterna, materna e fraterna são,
sem dúvida, organizadores inconscientes do grupo, mas
as suas bivalências acarretam reviravoltas, desordens,
desorganizações, etc., na sua estruturação
interna e no seu funcionamento.
Fantasmas Originários
Os fantasmas originários dizem respeito
às origens dos seres humanos. Os fantasmas da vida
uterina abrem caminho do continente - útero-seio -
da mãe e o conteúdo do ente que começa
a sua vida. Paciente, em análise, narra como a maior
satisfação de sua vida quando lhe é permitido
entrar no recinto mais escuro que conhece, permanecendo sozinha
por uma hora e não mais, tempo que lhe é concedido,
para entrar, em delírio, dentro de uma célula,
quando realiza a microscopia celular. Afirma que as imagens
que vê jamais são esquecidas. Dir-se-ia curiosa
no reconhecimento dos fantasmas uterinos que já viveu.
No fantasma da cena primária, ou seja,
no coito dos pais, a criança como observadora, e, os
genitores como autores, leva-a entreabir a porta, espiá-los
e atrapalhá-los. Quando, em clínica grupal,
se caminha para situações grosseiramente similares,
alguém aponta, em fantasia, a existência de coito
coletivo com o psicoterapeuta (pais unificados) e o fantasma
de que algum retardatário está na porta, espionando.
Na origem do ser, a criança imagina
somente um sexo, o pênis, cuja supressão brutal
define o homem e a mulher.
No fantasma da castração (passivo
e ativo) existe a ansiedade fálica (perda do pênis)
e a ansiedade oral (separação e perda do seio).
A dinâmica grupal enseja integrantes de um grupo entrando
em sessão como em um sonho e ao sair do “setting”
como vítimas do psicoterapeuta perverso, perseguidor,
sanguinário e cruel, alijadas da capacidade de entender,
falar ou caminhar.
Na procura dos fantasmas de sedução
poder-se-ia admitir o grupo, como iniciador, do método
de comunicação verbal e o integrante do mesmo
grupo, como iniciado, que pode temer ser perseguido. Entenda-se,
ao contrário, que métodos de espressões
e de contatos corporais são muito mais procurados por
serem de sedução, precedida de sugestão
e influência.
O grupo pode ser sentido como aparelho de
influenciar, de seduzir para que ocorram mudanças abrindo
caminho para resistências. O paciente, o iniciado, pode
perceber-se seduzido e se revolta contra o agente por quem
se é mudado.
Complexo de Édipo
Entendido como núcleo do conflito neurótico,
da educação e da cultura partindo de hordas
primitivas onde velho duro, violento e egoísta toma
posse das mulheres, expulsando filhos, quando grandes, sentidos
como ameaçadores. Os irmãos se reúnem
para matar o pai. No festim, todos os filhos partilham seu
corpo.
O pai tirano, temido, admirado, torna-se
lei simbólica. Dois tabus: não matar o substituto
d pai e não casar com os pais constituem transposição
social do Complexo de Édipo.
No grupo, seus integrantes para conseguir
autonomia, independência e soberania efetuam trabalho
psíquico simbólico, assassinando o psicoterapeuta
analítico de grupo, como pai.
O assassinato coletivo do pai, torna possível
ao grupo a idealização da figura amada e odiada.
A internalização da imagem do pai configura
o Superego grupal.
Concessões do psicoterapeuta em ter
conversas particulares antes ou depois das sessões
significam coestar com as complicações incestuosas
de seus pacientes. Trata-se de aproximação infantil
deslocando para fora do grupo, busca de relações
íntimas com os objetos parentais. Segredo profissional
comprometido, ética, moral e confiança ameaçados,
talvez expliquem o esvaziamento dos grupos em todo país,
pela conduta despreparada de alguns psicoterapeutas, delapiradores
da cultuada privacidade grupal.
Imagem do Corpo Grupal
O grupo não possue corpo único, como realidade
biológica. São pessoas, com seus corpos separados,
dispondo-se em semi-círculos em torno do psicoterapeuta.
Não tendo corpo real, caminha-se para
a metáfora de corpo imaginário, em virtude de
certa relação de semelhança.
Quando diferentes representações
mentais dos corpos de cada um dos integrantes de um grupo
se fundem em uma única representação
mental, o psicoterapeuta se refere ao grupo como um todo.
Fala-se, então, em imagem do corpo grupal.
Caixa Grupal
Todos os organizadores psíquicos inconscientes que
permitem o funcionamento mental do aparelho grupal são
contidos em caixa semelhante à caixa de giz, contendo
integrantes de cores diferentes.
Uma tampa sobre a caixa de giz se abre e
se fecha no início e no término de cada sessão.
Todos os acontecimentos ali contidos, por ética, por
moral, por confiança, jamais seriam ventilados fora
dela (observador, análise combinada, comemorações
festivas e outras mazelas). A caixa contém, protege
e delimita como as propostas de Anzieu(1) tais como envelope
ou pele.
No início do processo grupal todas
as unidades da caixa de giz parecem multicolores, mas pela
indiferenciação entre o indivíduo e o
grupo aparentam ter a mesma cor.
Aos poucos, a mesma cor se concretiza quando
se desenvolve a auto-suficiência do grupo, valorizada
com imagem de grandiosidade, relações confusas
de amor e ódio, supostas e perfeitas igualdades sem
rivalidades, imortalidade lembrando família psicótica,
com visão de satisfação de todos os desejos.
Ao término do processo, ocorre princípio
de delimitação entre mundo interno e externo,
diferenciação, amadurecimento e individuação
de seus integrantes. Resumo
Como o marco decisivo da investigação reside
no inconsciente, o aparelho psíquico grupal é
imaginário. Estruturas psíquicas individuais
permitem circulação fantasmática com
imagens ilusórias da ressonância, imago, fantasmas
originários, Complexo de Édipo, imagem do corpo
grupal e caixa grupal, organizadores psíquicos inconscientes
do grupo, que caracterizam o aparelho psíquico grupal.
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* Trabalho apresentado no III Encontro Luso Brasileiro de
Grupoanálise e Psicoterapia Analítica
de Grupo - Guarujá - São Paulo- 26 a 29 de outubro
de 1995.
** Professor Analista-Didata Titular do Instituto de Psicoterapia
Analítica de Grupo de São Paulo
- Fundador e ex-diretor do Instituto de Psicoterapia Analítica
de Grupo de São Paulo
- Membro Titular do International Association Group Psychotherapy
- Membro Fundador da Associação Brasileira de
Psicanálise
- Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise
de São Paulo
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Referências Bibliográficas
1. ANZIEU, D.: O Grupo e o Inconsciente,
Ed. Casa do Psicólogo, São Paulo, 1990.
2. ANZIEU, D.: Le Moi-Peau, Nouvelle Revue
de Psychanalyse, 9, 195-208, Paris, 1974.
3. EZRIEL, H.: Le Rôle du Transfer
dans le Traitement Psychanalytique de Group,Ed. Scheneider,
Paris, 1968.
4. FOULKES, S.: Introduction to Group Analytic
Psychotherapy, Ed. Heinemann, Londres, 1948.
5. KLEIN, M.: Disarrollos en Psyconalisis,
Ed. Ormé, Buenos Aires, 1962.