24 - Psicanálise: A Clínica
de Investigação do Amor
Objetivo
O objetivo deste trabalho é mostrar, na investigação
do amor, as vicissitudes do paciente e do analista durante
o processo analítico. Tenta-se diferenciar esse sentimento,
onde alguém deseja o bem de outrem, presente na relação
transferencial e contra-transferencial, daquele que mergulha
na vida extra-analítica.
O analista deve dispor, em seu trabalho,
de liberdade intra-psíquica, ao considerar sua bissexualidade
psicológica, ou seja, suas tendências bissexuais,
seus conflitos infantis perversos e polimorfos e suas implicações
sádicas e voyeuristas. Quanto mais satisfatória
a vida sexual do analista, mais ele cresce em seu trabalho
e mais capaz será para ajudar ao paciente resolver
suas inibições e limitações.
No desenvolvimento do amor, dificuldades
maiores ocorrem em pacientes com patologias narcísicas,
masoquistas e homossexuais.
Clínica de Investigação
do Amor
O amor, sentimento que predispõe alguém
a desejar o bem de outrem, com afeição, amizade,
carinho, ternura e empatia parece ser diferente daquele que
se desenvolve na relação transferencial e contratransfrencial,
com características neuróticas e anseios eróticos.
Embora tal diferenciação não
seja de “per si”convincente, existe no amor extra-analítico
situação edípica original, enquanto que,
no amor transferencial investigam-se os determinantes inconscientes
da estrutura edípica.
Pressupõe-se, no amor extra-analítico,
a perda pela renúncia e luto do objeto, enquanto no
amor transferencial investigam-se a busca do objeto edípico,
a renúncia e a luta pela perda.
No amor extra-analítico procura-se reciprocidade, diferenciando-o
do amor de transferência. Todavia, neste, há
expectativa de reciprocidade, uma vez que o analista recebe
honorário e dinheiro é equivalente recíproco
de amor.
O amor, onde alguém deseja o bem de
outra pessoa sem qualquer retorno seria aquele que põe
em xeque o império do EU.
Na clínica psicanalítica existe
tolerância, receptividade, disponibilidade e respostas
contratransferenciais ao amor transferencial sexualizado do
paciente. Constata-se processo de amor, com projeção
no analista, do ideal de Ego, defesas contra conflitos infantis,
ambivalência com o objeto hídrico, desejos sexuais,
algumas vezes, diluídos em deslocamentos para pessoas
da vida comum do paciente.
O amor transferencial, cuja natureza varia
de acordo com o gênero dos participantes, seria positivo
podendo encontrar na contratransferência, resíduos
de patologia narcísica, não resolvidos.
Quando alguém procura análise
por amor não correspondido, frustra-se mais uma vez,
porque o analista,além de não preencher esse
vazio, abre caminho ao paciente, em seu processo de pensamento,
que tal amor somente pode ser resolvido através da
elaboração da perda.
Como não existe solução
absoluta da estrutura edípica, não há
pessoa solteira ou casada que não sofra, em suas novas
experiências, a influência do complexo edípico.
Considerações sobre
o Analista
Admite-se analista com toda liberdade intrapsíquica
para usar suas tendências bissexuais. O reconhecimento
de sua bissexualidade psicológica, denominada por Freud(2),
no passado, de anfigência, permite engajar-se nas fantasias
de relações sexuais de ambos os sexos. O analista
tem a predisposição bissexual geral dos seres
humanos e encontra preconceito cultural intensamente arraigado
contra a homossexualidade.
A teoria freudiana, teve o mérito
de distinguir a bissexualidade psíquica da bissexualidade
biológica, indicando semelhanças e diferenças
entre clínica psicanalítica e clínica
médica.
É sabido, em clínica psicanalítica,
que códigos culturais e ideologia influenciam o destino
sexual. Pais valorizam ou desvalorizam a bissexualidade da
criança, vinculada simultaneamente ao masculino e ao
feminino. Tais variações dependem das induções
do pai e sobretudo da mãe, desde o nascimento até
por volta dos dois anos e meio. Nessa altura, o ser humano
vive e se percebe como monossexuado.
A realidade sexual é a do sexo determinado
e fixado antes do terceiro ano. A realidade psíquica
decorre de fantasias convergentes ou divergentes da realidade
sexual.
Esse conflito depende da posição
adotada pelo EU, que pode aceitar ou recusar a realidade sexual.
No fundo, a disponibilidade humana será a determinante
fundamental da sexualidade.
Em clínica médica, processo
contínuo de constituintes escalonados no tempo, desempenham
papel importante na determinação do sexo: cromossomos,
gônadas, hormônios, genitais internos e externos,
etc. definem masculinidade ou feminilidade.
A superação de conflitos infantis
perversos e polimorfos, como também implicações
sádicas e voyeuristas, permite considerar que quanto
mais satisfatória a vida sexual do analista, como afirma
Kernberg(5), mais ele será capaz de ajudar ao paciente
para resolver suas inibições e limitações.
Assim, ao investigar o seu amor contra-transferencial
em seu trabalho pode o analista observar o seu crescimento
emocional e profissional.
Deve abster-se de comunicar sua contratransferência
para ter liberdade de explorar sua mente, investigando seus
sentimentos e fantasias sexuais em relação ao
paciente.
Patologia narcísica não resolvida
pode ser fator dominante na atuação contra-transferencial
do analista. Precipita-se relação sexual com
um paciente em decorrência de patologia narcísica
e vulnerabilidade do Superego. Essa instância com intrincado
sistema de ideais, valores, proibições, ordens,
observa e avalia o Self, de modo algum, tem estrutura uniforme,
coerente, integrada e harmoniosa, mas segundo Arlow(1), uma
massa de contradições.
O analista pode, ao envolver-se em sua dinâmica
edípica, invadir sexualmente uma paciente e depois
sofrer atuação de sua patologia masoquista,
ou seja, desejo inconsciente de ser punido por transgressão
edipiana.
Kernberg(5) enfatiza a contratransferência
erótica mais intensa em analista homem tratando de
mulher, com características masoquistas, desenvolvendo
amor sexualizado intenso e impossível por objeto edípico
inacessível; em analista homem tratando de mulher,
com características narcísicas não resolvidas
e finalmente analista do sexo feminino com tendências
masoquistas, cuidando de paciente homem narcisista e sedutor.
Flutuações Transferências
Observam-se flutuações transferenciais eróticas
muito intensas, aumentando e diminuindo conforme o paciente
desloca ou não tais desejos em sentido extra-analítico.
Quando o paciente reprime sentimentos e fantasias
eróticas, a contratransferência parece ser inócua.
Todavia, ao tornar fantasias e desejos eróticos conscientes,
a resposta contra-transferencial pode mostrar resistência
com supressão dessas manifestações.
Na eventualidade de diminuição
de resistências ao processo transferencial, o paciente
pode vivenciar intensos desejos sexuais ao analista, cujas
respostas contratransferenciais podem também tornar-se
intensas.
Existem situações onde desejos
eróticos do paciente são dirigidos exclusivamente
ao analista, devendo-se diferenciar se ocorre identificação
projetiva ou simplesmente projeção.
Quando a identificação projetiva
predomina sobre a projeção, isto é, quando
o paciente atribui ao analista sentimentos sexuais, que ele
próprio rejeita por serem perigosos para si mesmo,
estaria o paciente intimidando, constrangendo e controlando
o analista. Dir-se-ia que severa patologia narcísica
estaria imperando, ou então, profunda regressão.
Nessa altura, a contratransferência erótica estaria
ausente.
Considerações sobre
os Pacientes
Dificuldades significativas, na análise, ocorrem em
pacientes com acentuada patologia narcísica, masoquista
ou homossexual.
- Pacientes Narcísicos
As mulheres muito narcísicas lutam contra a dependência
pela inveja inconsciente que sentem pelo analista. Revoltam-se
quando se lhes é mostrado desejo sexual pelo homem
que cuida de sua análise. Sentem-se humilhadas e inferiorizadas,
com raiva narcísica pela auto-estima danificada.
Narcísicas, agressivas, revoltadas,
anti-sociais tentam destruir o processo analítico através
de sedução sexual. Parece, em princípio,
de não se tratar de amor sexual transferencial edípico.
Colegas do sexo feminino noticiam-me que,
ao lidarem com homens muito narcísicos, mostram-se
inibidos na manifestação do amor transferencial,
deslocando-o para outros objetos. É marcante, em alguns
homens, inferioridade sexual pela re-edição
de fantasias infantis em relação à mãe
edípica: “com pênis tão pequeno
como posso satisfazer mulher tão grande?!!!”
O amor de si mesmo ou do Self caracteriza
o auto-amor sem limites do narcisismo. Existe grau inusitado
de auto-referências, grande necessidade de serem amados
e admirados.
Possuem conceito muito inflado de si próprios,
ter direito a tudo, oniscientes, onipotentes e perfeitos,
em contraste com a necessidade de receberem elogios dos outros.
Fala-se em narcisismo normal, como destaca
Kernberg(6), onde existe autoconsideração continuada
e realista, acompanhada pela capacidade de ter relações
profundas. O narcisismo patológico reconhece exigências
arcaicas sobre o Self, dependência exagerada de aclamações,
perseguição contínua de autoperfeição,
prejuízo na capacidade de ter interesse, empatia e
amor pelos outros, caracterizando relações objetais
precárias.
Transferência e Contratransferência
Narcísicas
Paciente do sexo feminino, 40 anos, casada, mãe de
três filhos, em análise há três
anos, com quatro sessões semanais. Mulher muito bonita,
loira, olhos azuis, elegante, atraente, conta que, antes de
chegar para a primeira entrevista, desfila diante de cortejo
de homens admiradores, como se estivesse deslizando em tapete
vermelho!
Tivera pai austero, dominador, sexualmente
impulsivo, manipulando, com freqüência, os seus
seios e vagina. Marido comerciante bem sucedido, oferecendo
recursos acima da média habitual para todos integrantes
da família, embora sexualmente perverso. Sua vida sexual
se desenvolve masturbando-se e, simultaneamente, masturbando
sua mulher. Insatisfeita, luta pela separação.
Nesse ínterim, tenta experiências sexuais com
outros homens, cujo fracasso residia na perda de ereção
no momento do coito.
Desolada, interroga-se: “sou mulher
atraente e não é possível não
manter relação sexual com nenhum homem?”
Quem seria, depois de tantas experiências
infrutíferas, esse homem? Claro, eu, o seu analista!
Um passo a mais ocorreria grave deslize comigo.
Salvou-me auto-análise. Lembrei-me, como narcisista
moral, da inclinação de renunciar a esse impulso
sexual. Cometi uma falta, pois permaneci fixado à verdadeira
megalomania infantil. Senti vergonha de ser mais do que sou:
psicanalista!
Green(3) lembra: “o narcisismo faz da moral um gozo
auto-erótico, onde o próprio Ego se extingue”.
Vejo-me entre a culpa e a vergonha! Culpa
como medo de punição dos outros e de mim mesmo.
Não escapo de ansiedade de quase ferir a paciente e
a esperança, dentro de mim, mediante sofrimento, conseguir
o perdão, ou seja, reconquistar a aceitação
da paciente para prosseguir o processo analítico. Todos
esses pensamentos ocorrem dentro de mim, sem nenhuma comunicação
à paciente.
A auto análise me permite aferir meus
próprios desejos e ações contra minha
conduta como psicanalista, no que deve e no que não
devo fazer.
A culpa pode aparecer em função
de uma intenção. Ela está ligada a possível
falta e pecado, como resultado de uma transgressão,
que em mim foi imaginária.
A culpa está vinculada à introjeção
de noção de falta e de pecado. A vergonha, afeto
penoso, ignomínia de ser rejeitado, ridicularizado
e exposto a perder o respeito dos outros. Atitudes de altivez
e arrogância constituem formações reativas
contra a vergonha. A falta de vergonha ou desfaçatez
é defesa contra a vergonha.
Para Green(3) vergonha é fatalidade,
castigo, algo impiedoso pouco ligado à uma falta objetiva,
mas sim à desmesura, enquanto culpa é conseqüência
de falta, onde a vontade do homem esteve engajado em transgressão.
Este caso clínico permite conjeturas
transferenciais e contratransferenciais. O narcisismo é
o apagamento da marca do outro, no desejo de um, diz Green(3)
e isso aconteceu por momentos na contratransferência.
O tratamento com essa paciente prosseguiu até o seu
término.
- Pacientes Masoquistas
Tolerar fantasias sexuais e permitir relacionamento sexual
imaginário é habitual, devendo-se diferenciar
o desejo do paciente de ser amado pelo analista, daquele que
mostra intensa erotização, sedução
não verbalizada como defesa para controlá-lo.
Atenção maior para pacientes
masoquistas em transferência erótica com seduções
e exigências agressivas diante das interpretações
do analista. Embora as mulheres masoquistas apresentam vias
de acesso para serem utilizadas em sentido sexual, mostram
amor idealizado ao analista, ocultando atividade sádica
à ele, em função de culpa edípica
inconsciente.
Muitas pacientes masoquistas induzem, ao
analista, a necessidade de serem protegidas e ajudadas, encobrindo
o desejo de provar de quanto ele é incapaz e inútil.
O masoquismo, pré-condição
de fonte de prazer, através de sofrimento, constitui
integrante psicológico de quase todas as pessoas. Observe-se
o interesse pelas notícias dos meios de informações
sobre seqüestros, roubos, assassinatos e outros crimes!
Traços masoquistas e sádicos acham-se invariavelmente
associados na mesma pessoa e não constitui espanto
a observação de que o masoquismo aparece acoplado
ao sadismo, na infância.
- Pacientes Homossexuais
Embora determinantes da escolha objetal não são
claramente delineados, confere-se ao fracasso da passagem
da unidade mãe-criança da infância para
a individuação, fator de eleição
de objeto do mesmo sexo.
Homens homossexuais mostram ligações
extremamente intensas com suas mães durante o relacionamento
edípico inicial. Fiéis a ela, são incapazes
de transferir sentimentos sexuais para outras mulheres. Assim,
modificam suas orientações das mulheres para
os homens. Por vezes, ato homossexual pode ser útil
como defesa para se permitir realização de atividade
profissional em área não aprovada pela família.
Pai onipotente, desprezando e criticando homens que se interessam
por sua filha, abre caminho para a homossexualidade. Menino,
ao temer genitor poderoso, mas desejando incorporar a força
do pai, à ele se apega intensamente, caminha para futura
ligação homossexual.
É sobrecarga na contratransferência
quando analista homem analisa paciente do mesmo gênero.
Isay(4) enfatiza a predisposição
bissexual geral dos seres humanos, mas segundo Meltzer(7),
sem expressão direta em atos sexuais na vida adulta.
O amor, na transferência de paciente
homossexual, dsperta: a) intensos desejos homossexuais dirigidos
à analista do mesmo gênero b) dependência oral c) conflitos anais d) intensa resistência contra a regressão
transferencial
Resumo
O A. tenta discriminar o amor transferencial e contra-transferencial
do amor extra-analítico. No primeiro, características
neuróticas, anseios eróticos, investigações
dos determinantes inconscientes da estrutura edípica,
reciprocidade com os honorários, busca do objeto edípico,
renúncia e luta pela perda; no segundo, situação
edípica original, procura de reciprocidade, perda pela
renúncia e luta do objeto.
O amor, onde alguém deseja o bem do
outra pessoa sem qualquer retorno seria aquele que põe
em xeque o império do EU.
Admite, analista com toda liberdade intra-psíquica
para usar suas tendências bissexuais. Diferencia, a
bissexualidade psíquica da bissexualidade biológica,
enfatizando a predisposição bissexual dos seres
humanos, sem expressão direta em atos sexuais na vida
adulta. Quanto mais satisfatória a vida sexual do analista,
melhor será a ajuda ao paciente para resolver suas
inibições e limitações.
O A. trata das flutuações transferenciais,
tece considerações sobre os analistas e mostra
dificuldades contratransferenciais em pacientes narcisistas,
masoquistas e homossexuais. Ilustra, como caso clínico,
situações difíceis do analista na transferência
e contratransferência narcísicas.
*************** Referências Bibliográficas
1. ARLOW, j. (1982) - Problems of the Superego
Concept, Psychoanalytic Study of the Child 37-229-244, Yale
University Press, New Haven
2. FREUD, S. (1905) - Três
Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, Vol II,129-251, Edição
Standard Brasileira, Imago, Rio de Janeiro.
3. GREEN, A. (1988) - Narcisismo
de Vida/Narcisismo de Morte, Editora Escuta, São Paulo.
4. ISAY, R. (1986) - Homosexuality
in Homosexual and Heterosexual Men, in The Psychology of Men,
Fogel, Lane, Liebert, Basic Book, New York.
5. KERNBERG, O. (1995) -
Psicopatologia das Relações Amorosas, Editora
Artes Médicas, Porto Alegre.
6. (1975) - Bordeline Conditions
and Pathological Narcis-
sism, Ed. Aronson, New York.
7. MELTZER, D. (1973) - Sexual States of
Mind, Clunie Press, England.
***************
* Trabalho apresentado no I Simpósio de Estudos Psicanalíticos
de Presidente
Prudente - São Paulo, 02 de setembro de 1995.
** - Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise
de São Paulo
- Fundador da Associação Brasileira de Psicanálise
- Membro da The International Psychoanalytical Association
- Professor Analista-Didata Titular do Instituto de Psicoterapia
Analítica de Grupo de São Paulo
- Presidente do Instituto de Psicossomática de São
Paulo