23 - Processos de Tratamento
dos Problemas Psicossomáticos no Trabalho
O homem é, de per si, um processo
psicossomático. Seu corpo funde-se com o psíquico.
Não é possível admitir-se que, ao observarmos
figura de pessoa sentada em uma cadeira, afirmarmos que lá
está o seu corpo e em outro assento, afastado, o seu
psiquismo!
Por comodismo didático efetuamos separações
artificiais; a observação do homem como um todo
é extremamente difícil. O corpo palpável,
concreto e objetivo, o psiquismo abstrato, invisível
e subjetivo são fundidos e comandados pela mente.
Existem duas realidades: a material e a psíquica,
cujos atributos, aliados, são representados na mente
tanto no mundo consciente como no mundo inconsciente.
Manter o próprio mundo interno (afeto,
idéias, pensamentos, sentimentos, etc.) em equilíbrio
com o mundo externo (outras pessoas, coisas diversas, natureza,
etc.) é pretensão de toda pessoa. Mas, na vida
existe o sentimento de incompletude: sempre falta alguma coisa.
Em conseqüência, o equilíbrio tão
desejado é idealizado, não existe. Estamos em
contínua luta por essa harmonia. Essa pertinácia
é rompida com ilusões e desilusões, construções
e destruições, amor e ódio, anabolismo
e catabolismo resultando equilíbrio sempre instável.
Essa atmosfera no matrimônio, na família,
na escola, na sociedade e no trabalho pode, perigosamente,
se desorganizar.
O trabalho nas empresas, entre os seus diretores,
sócios, chefes, funcionários de diferentes categorias,
entre aqueles que mandam e aqueles que obedecem, é
vivido entre duas correntes. Uma material, com pessoas ocupando
posições e funções muito diversas,
mas com objetivo definido, palpável, concreto e insofismável.
Outra psíquica, fundida à primeira, com fluxo
interminável de afetos, idéias, sensações,
fantasias, sentimentos de amor, ódio, inveja, medo,
culpa, ressentimento, remorso, etc. Não existe grupo
humano que escape dessas vicissitudes.
Em conseqüência, surgem conflitos entre pessoas.
Habitualmente há várias situações
de oposições dentro de cada um, que se estendem
na relação com os outros, criando-se estado
conflitivo. Esse fenômeno antagônico resulta de
dois aspectos habituais da vida: de um lado, impulsos, necessidades,
desejos na obtenção de algo e de outro, exigências
impeditivas, éticas, morais, religiosas, sociais, culturais,
etc. Quando tais conflitos não são resolvidos,
o indivíduo fica impedido de continuar seu projeto
de vida, abrindo caminho para uma solução inadequada:
doença.
Com ela, surgem sintomas destruindo, em seu
nascedouro, as necessidades instintivas, mas diminuindo o
estado conflitivo. Todavia, conflitos não resolvidos
se inscreveram no corpo, caracterizando doenças conhecidas
como psicossomáticas, cuja gênese pode ser iniciada
entre dois diretores ou entre dois operários de uma
empresa: um deles fala, perguntando e o outro silencia, permanece
mudo, não responde. Seria de se supor que o calado
não suporta o que ouviu. O seu afeto estilhaçou-se.
A cena psíquica em sua mente não foi tolerada.
O conteúdo mental das palavras proferidas rechaçado
e, por conversão, transmutado pelo corpo. O que era
da mente é contrabandeado para o corpo. Surgem sintomas
físicos e, dentro destes, estão albergados os
sentimentos.
Esclareça-se que a pessoa calada teve
curto-circuito do seu aparelho mental e o psiquismo levado
ao túmulo, pelo silêncio.
Tais acontecimentos podem aparecer na enxaqueca,
artrite reumatóide, gastrite, urticária, asma
brônquica, úlcera gastroduodenal, enfim, em qualquer
doença.
Aos nossos olhos, a parte somática
aflora com exuberância, enquanto a parte psíquica
profunda não é observada porque se reprime.
Cabe ao especialista, depois de ouvir as associações
livres de seu paciente, ao longo do processo terapêutico,
que demanda tempo, ligar os equivalentes do fenômeno
somático com os equivalentes do fenômeno psíquico
para obter o desaparecimento dos sintomas clínicos.
Revisão clínica e psiquiátrica
são indispensáveis ao paciente antes de procurar
métodos terapêuticos de investigação
do mundo inconsciente, onde se encontra o verdadeiro psíquico:
psicanálise, psicoterapia de inspiração
e base analítica, bem como psicoterapia analítica
de grupo. Os dois primeiros métodos são bi-pessoais
(paciente e analista ou psicoterapeuta analítico) e
o terceiro envolve o especialista com 6, 8 ou 10 pacientes
em um grupo.
Pareceria causar espanto observar-se entre
componentes do grupo, em uma empresa, o convívio, como
pacientes, o seu próprio dono, chefes, sub-chefes,
subalternos, operários, etc., relatando conflitos pessoais,
familiares, sociais e do próprio trabalho.
Sucede que o profissional habilitado considerará
todas as comunicações verbais dos integrantes
do grupo somente no ambiente do tratamento e jamais fora dele.
De tudo que for falado, somente serão considerados
os significados inconscientes do Grupo para com o profissional
e vice-versa no aqui-agora-conosco, sem qualquer interferência
com o que acontece fora do ambiente terapêutico.
Preserva-se, respeita-se a ética,
a moral e o sigilo de cada um dentro do Grupo, sem qualquer
intervenção como apoio, sugestão, persuasão,
etc. no trabalho, no matrimônio, na família,
na sociedade, etc.
Interessam exclusivamente os aspectos e significados
inconscientes do Grupo. O que se desenvolve dentro dele não
se mistura com o que acontece fora e vice-versa, embora cada
integrante possa falar o que bem entender. Só a experiência
grupal permitirá a compreensão de todos os fenômenos.
A finalidade dos procedimentos terapêuticos
é permitir, ao homem que trabalha, ficar livre dos
sintomas, ser capaz de amar alguém que não à
si próprio, ter boa capacidade profissional, ter recursos
de decisões não muito apressados e nem exageradamente
demorados.
Essa boa capacidade de adaptação
à vida propicia ao trabalhador, eficiência, disciplina,
respeito, autonomia e percepção do que acontece
consigo e com seus companheiros. Se é importante a
sua existência, descobre que a existência dos
outros é preciosa.
Essa maturação é obtida
somente com profissionais graduados e capacitados, independentes,
autônomos, participantes de suas clínicas privadas,
sem ingerência de quem quer que seja.
É o “privatu privus”do
pensar próprio, característica específica
do homem.
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*Ex-Professor Titular de Psicologia Médica e Medicina
Psicossomática da Faculdade de Medicina do ABC.
- Psicanalista - Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de
Psicanálise de São Paulo.
- Membro fundador da Associação Brasileira de
Psicanálise.
- Professor Analista-Didata do Instituto de Psicoterapia Analítica
de Grupo.
- Presidente do Instituto de Psicossomática de São
Paulo.