À Neurociência habilitaria, pela análise
do “aparelho que conhece”, indagar o que significa
conhecer alguma coisa e qual a atividade do conhecimento através
de representações de objetos ou de conhecimentos
que provoquem repercussões dentro do ser humano.
O conhecimento seria realizado em função
de princípios lógicos de neurônios conectados
entre si respondendo a atributos de objetos. A cooperação
de todos os neurônios permitiria alcance de estado mútuo
de satisfação, sem necessidade de unidade central,
como espécie de auto-organização.
Os estímulos seriam recebidos, transportados
e armazenados sob a forma de representações
e o conhecimento ocorreria com a experiência do sentir.
O sentido de qualquer coisa dependeria das suas conexões
com outros conhecimentos, com várias lembranças,
nunca se alcançando o que não existe: o verdadeiro
sentido.
Ainda pela Neurociência, os transtornos
mentais seriam corrigidos pelo estudo dos conjuntos neuronais,
suas reações bioquímicas e pelos neurotransmissores.
O conhecimento, com freqüência,
depende estreitamente da prática da vida de sistema
teórico circunscrito. É extremamente difícil
transmitir o que se pode conhecer através de esquema
teórico diverso de outro, bem como equiparar dados
oriundos de experiências com sinopses diferentes. A
prática com doentes que revelam dados concretos, objetivos,
racionais inseridos em curvas estatísticas é
bem diferente daquela experiência bipessoal, analítica,
provida de sentimentos, ricos em conjuntos abstratos, subjetivos,
sem lógica, sem conclusões baseadas em números
e freqüências, mas com abundantes informes pessoais
peculiares.
Diante dessa complexidade, e tocado pela
inquietude de turbulentos impulsos inconscientes, o pesquisador
se instala comodamente no exercício profissional, singular,
da clínica médica, da cirurgia, da psicanálise,
da genética, da bioquímica, etc.
Ao se permitir a fala de um paciente sem
ser interrompido, é possível, após o
seu relato, colher dados de histórias de sua vida,
ora com matiz, predominantemente física, ora com nuança
prevalentemente psíquica, pois o inconsciente, não
sendo estanque, se insinua na consciência tanto em episódios
conhecidos como somáticos, como naqueles entendidos
como psíquicos.
Não se pretende jamais caminhar para
o definir, cujo bojo acolhe fixação e decisão,
nem mesmo conceituar, verdadeiro receptáculo para o
ajuizar, avaliar, organizar idéias, resta-nos uma concepção,
através da qual abrem-se caminhos variados de idéias
em sentido de amplos conhecimentos.
Empolga a concepção unicista,
integradora, com visão global da conduta do homem.
Talvez, ao se pretender sistematizar transformações
evolutivas se esbarre em separações, isolamentos,
fragmentações etc., porque não dispomos,
em nossa consciência, de capacidade de percepção,
em um instante, do homem como um todo. Por essa razão,
usamos técnica puramente somática ou genuinamente
psíquica.
Na prática clínica, seja ela
qual for, tentamos defendê-la através de concepção
com argumentos adaptáveis à realidade, porque
ninguém escapa de utilizar pensamentos em determinada
direção.
Qualquer caso clínico, além
de precisar embeber-se na certeza das incertezas, não
pode ser percebido inteiramente de uma vez, nem por intuição
e nem por lógica. Tem-se um contínuo perder
de vista, repetidas privações de eficácia
para se ganhar algo de novo.
Um dos razoáveis objetivos para a
saúde é a procura da integração,
onde mente e corpo constituem unidade. Por comodismo e por
artefatos, costuma-se repetir que vivemos em reinos separados:
o psíquico e o somático, a ponto de WINNICOTT(12)
afirmar que é muito difícil um cavaleiro cavalgar
dois cavalos ao mesmo tempo. A continuidade da existência
do ser humano constitui ponto comum de todas as correntes
científicas para estreitar a distância entre
mente e corpo. Parece que aguardamos um gênio, um novo
Freud, capaz de descobrir metodologia que permita leitura
única para sintetizar manifestações do
corpo e da mente.
Concepção de Fusão
entre Soma e Psique
Esta concepção baseia-se no pressuposto de que
todos os órgãos podem funcionar como zonas erógenas,
pois todos trazem componente de excitação geral
do instinto sexual. Assim, pode-se dizer que o inconsciente
se mete no estômago, no coração, no cérebro,
nos pulmões, nas articulações etc.
Existem duas cadeias distintas de organização
do conhecimento, como assegura CHIOZZA(5): conhecimento da
realidade somática e conhecimento da realidade psíquica,
ambos registrados no aparelho mental, tanto no sistema consciente
como no inconsciente, percebidos de acordo com o registro
consciente do observador. Tais fontes de conhecimento jamais
se excluem porque compõem a unidade antropológica.
O conhecimento da realidade do corpo (articulações,
baço, fígado etc.) se detecta, em percepção
externa, pelos órgãos dos sentidos (EGO CORPORAL).
O conhecimento da realidade psíquica (afetos, idéias,
pensamentos etc.) se registra, em percepção
interna, pela série prazer-desprazer (EGO PSÍQUICO).
Os experimentos dessas duas realidades estão inscritos
na mente, tanto no nível consciente, como no inconsciente,
sendo o somático pelo sistema de organização
das representações e o psíquico pelas
fantasias.
Todo indivíduo tem representação
mental de seus órgãos e estes possuem equivalentes
psíquicos de algo que lhes ocorre. Seriam duas realidades
do mesmo processo, que se relacionam entre si, se levarmos
em conta as expressões metafóricas de uso habitual.
Não é incomum uma pessoa, ao ser ofendida, afirmar
que sente uma ferida no coração.
A origem da expressão verbal corresponde
à experiência pregressa de sensação
precordial de muito desconforto. Sem tal experimento, a expressão
“ferida no coração” jamais seria
criada. Outra forma verbal expressiva, “não engulo
esse sujeito de forma alguma”, encontra correlatos somático
caracterizado por sensações peculiares de mecanismos
antiperistálticos do trato superior do aparelho digestivo.
Seriam ofensas recebidas sem possibilidade de protesto.
O soma, nos exemplos citados, funcionalmente
se altera graças ao quantum e qualidade do processo
psíquico. Por hipótese, poder-se-ia admitir
que quanto maior a fixação nas etapas precoces
do psiquismo, menor será a mobilidade das cargas instintivas
e, por conseguinte, menor o deslocamento necessário
para simbolização.
A Cisão entre Soma e Psique
O paciente, embora o deseje, defende-se com muitas dissociações.
Pior a atitude do médico, ao se propor a tratá-lo,
é mais fragmentado do que o seu paciente. Não
podemos continuar com a farsa de enganar os nossos doentes,
pois ao propormos integração apelando para o
abandono de defesas que separam o corpo da mente, ao mesmo
tempo, somos divididos, pois no procedimento de um contrato,
antes do início do tratamento psicanalítico,
recomendamos as indispensáveis retaguardas de clínica
médica e clínica psiquiátrica, indiscutíveis
clivagens de nosso trabalho.
O paciente resiste ao apelo da integração
encontrando aliados à sua disposição,
reforçadores de seus conflitos internos. WINNICOTT(13)
cita paciente de meia idade que tinha como ativistas desintegrantes
de sua personalidade: um clínico, um cirurgião,
um dermatologista, um especialista em plástica, um
massagista, um professor de tênis, um cabeleireiro,
uma antiga babá, um motorista e um sacerdote! Ao todo,
incluindo o analista, onze pessoas separadas entre si, sem
uma saber da outra, para reforçar o sistema defensivo.
O ser humano é muito dividido. Talvez
seja fantasia procurar sua coesão, tentando integrar
suas dissociações mentais com o mundo externo
que o cerca. Há muitos anos, em reunião científica,
tive a oportunidade de abordar este tema, quando o inesquecível
Gilberto Freire, presente e colaborador dessa reunião,
me interrompeu dizendo-me, como contraponto, que o brasileiro
é exemplo de integração pela fusão
de três matrizes culturais: o índio, o negro
africano e o branco português. Como reforço da
assertiva do grande mestre, registre-se o acontecimento de
Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, encontrada nas
lamacentas águas do rio com a cabeça separada
do corpo. Em material frágil de terracota surge, aos
olhos de todos, ao longo dos anos, firme e indissoluvelmente
ligados, integrados cabeça e corpo. A visão
desse episódio religioso se presta a inúmeras
observações. Permite-me lembrar do princípio
enunciado por Gustavo Bally, “Rechaçado sempre
aparece”. O psiquismo inconsciente, sempre perturbador,
inquieta continuamente qualquer um de nós. Ouvimos
com freqüência, em trabalho clínico, discordância
e rechaço do psiquismo. Ele retorna sempre, fecundo
e útil, inicialmente admitido como acessório,
de repente, se transforma em fundamental. Caberia um adendo
a essa formulação interpretativa com o milagre
de Nossa Senhora Aparecida: o surgimento da cabeça
que comanda a mente e o corpo.
A experiência tem mostrado, lamentavelmente,
que a pessoa, no momento da integração, teme
seu aniquilamento pelas perseguições do mundo
externo, sentido como ameaçador. Então, se enferma
dividindo sua personalidade e enfraquecendo as ligações
entre psique e soma.
A enfermidade é, ao mesmo tempo, matéria
e história. Matéria como transtorno anatômico,
fisiológico, químico etc., e história
por episódios de vida cujos conflitos não foram
superados. Na Babilônia antiga, enfermidade considerada
como pecado ou culpa seria decorrente de aspectos maus, projetados
no corpo, que deveriam ser eliminados.
O Id como artífice, mola propulsora
de toda enfermidade, imporia, em nossos dias, cobrança
pessoal de seu significado, forma, função e
evolução.
Por outro lado, às vezes o homem enfermo, valendo-se
da cisão, torna-se passivo espectador, aguardando resultado
travado entre o médico e os seus males.
Em exemplo que adiante mostraremos, uma pessoa
sofredora do estômago, órgão objetivamente
concreto e razoavelmente conhecido, projeta sobre ele, inconscientemente,
objetos cujos limites não coincidem com a estrutura
física. A representação mental do estômago
é sua imagem inconsciente. Tal imagem segregada, isolada
e dissociada funciona como objeto frente ao Ego. Quando uma
pessoa, ao referir-se ao estômago, pode, às vezes,
identificar-se ou projetar alguém no órgão.
Nos instantes dessa ocorrência, o estômago recebe
investimento de energia libídica, ganha conteúdo
psicológico participando em suas funções
fisiológicas com carga própria de excitação
sexual. É, pois, uma zona erógena.
A introjeção de um objeto externo
pode não só modificar as características
dessas cargas emanadas do estômago, como dar lugar à
criação de um símbolo do objeto externo,
nesse órgão.
Na úlcera gastroduodenal, GARMA(6)
refere-se à fantasia de introjeção da
mãe má em regressão oral digestiva. Seria
de se supor que fantasias, dependendo da regressão,
fixação e outros mecanismos mentais, poderiam
configurar e caracterizar não só enfermidades
funcionais como estruturais do estômago.
Permito-me o registro nominal do Cardeal
Primaz do Brasil, como católico que sou e pelos magníficos
exemplos de generosidade e incomparáveis votos monásticos
desse extraordinário sacerdote. Internado no Instituto
do Coração, em São Paulo, vítima
de adenocarcinoma do estômago, inteirou-se de sua malignidade,
escrevendo carta onde pede forças ao Senhor para enfrentar
com esperança e realismo a fase em que se pede auxílio
para a alma e para o corpo, quando se passa por sérias
situações de vida. O Cardeal todos os dias rezava
missa no 8º andar do Instituto do Coração,
tendo escrito o poema “Meu Irmão Estômago”:
Pobre irmão estômago!
Estavas doente e eu não sabia.
Há quanto tempo se instalara
O mal no teu regaço?
Seis meses, doze meses?
Ah! Eu não sabia!
Por isso, meu irmão estômago
Nenhuma notícia te podia dar
São revezes da vida! Quem diria?
E tu, pobre estômago, passaste, então,
A ser vítima de anômala situação:
Todos queriam que fosses pródigo
No receber e digerir os alimentos.
E tu, constrangido, te recusavas a fazê-lo,
Dando sinais até de desagrado e desalentos!
No entanto, jamais, jamais se pensou
Que estivesses enfermo solitário
Foi quando o corpo todo, lentamente,
Começou a dar provas de cansaço
E também de magrez, solitário
Com teu sofrer silente
Um dia, chegou a inesperada revelação:
O estômago traz consigo grande ulceração.
E a biópsia, mais tarde, com lisura
Descobriria que o câncer lá estava
Encravado na pequena curvatura.
Perdão, meu velho amigo de 74 anos!
Perdão!
Eu te agradeço, na esperança,
A tua santa paciência, meu irmão.
Triste poema, por onde transita o Cardeal, por ele, pelo outro
(ele mesmo), pelo mundo e por Deus, que confere confiança,
esperança, com misteriosa fé no futuro.
A negação de si próprio
(pobre irmão-estômago) manifesta repressão
interna, de tal modo que o reprimido chegue à consciência
sob a forma negativa. Faz julgamento negativo, considerado
como o substituto intelectual da repressão, enriquecendo
o seu pensamento, mas isolando-o do afeto como recurso para
diminuir o impacto emocional. O Ego evita percepção
de aspectos penosos da realidade diminuindo a ansiedade e
outras manifestações desagradáveis.
Para tentar mitigar a percepção
da realidade, cria fantasia (nunca pensei que estivesse doente)
para eliminar aspectos aborrecidos da situação.
O susto, o desamparo são atenuados pela fantasia, em
si poderosa, onipotente. A negação passageira
constitui reação habitual para quem perde seres
queridos em qualquer idade, como também para aquele
que vislumbra ameaça à sua vida. Abrem-se, às
vezes, caminhos para a loucura do afeto, isto é, para
a psicose, em negações delirantes, como a mãe,
acreditando em pequena estátua no jardim de sua casa
como a filha morta ou o Cardeal - “vendo-se” na
imagem do “pobre irmão estômago”.
Existe uma identificação projetiva
envolvendo, segundo OGDEN(8), relacionamento objetal fantasiado
no “meu irmão estômago”. Partes do
“self” e dos objetos internos são cindidos
e projetados para um objeto externo, o qual se torna identificado
com a parte cindida, assim como possuído e controlado
por ela. A defesa inclui fusão com o objeto externo,
a fim de evitar a separação, o controle do objeto
mau, sempre ameaça persecutória para o Cardeal,
mas também a preservação de partes boas
do “self” e seu uso na missa de todos os dias.
O Primaz introduz o sistema que provoca excludência
pela clivagem esquizóide do objeto e do próprio
Ego, com vivências e relações tão
bem alteadas no poema. Com cisão, separa o corpo e
mente de forma tão nítida pois “não
sabia do irmão doente há 12 meses!” O
corpo, separado da mente, é o receptor dos males que
se agravam, da ulceração até a degeneração.
Cargas ruinosas projetadas são percebidas como injúrias
acarretando culpas, atenuadas com pedido de clemência.
São postos em jogo mecanismos de defesa
para proteção do Cardeal, de afetos extremamente
penosos, recursos inconscientes são reconhecíveis
para apagar ou distorcer aspectos da realidade. São
defesas que também podem funcionar de modo construtivo,
tornando mais eficazes o pensamento e ação,
citando-se a formação reativa que transforma
o inaceitável em aceitável, garantindo a manutenção
eficaz da repressão.
O Processo
O processo é a vida do homem. Porque processo é
o próprio homem, que em sua evolução
comum necessita enfrentar, operar e resolver fenômenos
sucessivos em diferentes períodos, ora com nexo, ora
sem nexo. Ele só pode se desenvolver com mente e soma,
e seria heresia chamá-lo de psicossomático.
Essa designação imprópria é repetida
e utilizada para a compreensão comum. Todavia, surgem
aberrações como a introdução do
prefixo sócio, agravando o inconveniente com a palavra
sócio psicossomático, atraindo desavisados como
se existisse só o mundo externo. WINNICOTT(14) aponta
como “inovadores” de prefixos aqueles sempre distantes
das pesquisas profundas da gênese dos conflitos, comparando-os
com pessoas que estão sempre limpando os óculos,
mas nunca os usam.
É sabido que acontecimentos do mundo
externo provocam toda sorte de agitações com
a característica agravante de ofuscar os objetos do
mundo interno. Importa procurar, no mundo interno, qual a
significação dos objetos da situação
externa. Esta deve ser considerada, segundo Bion, citado por
ROCHA BARROS(10), como uma forma maciça de identificação
projetiva.
Acrescente-se que a análise e a auto-análise
do psicanalista, ao lado do princípio das atividades
comuns e sistemas de controles mútuos, podem mantê-lo
dentro das normas do processo analítico.
O analista não pode ser agnóstico,
apolítico, racista, alheio aos mores (comportamento
onde a consciência moral entra em ação),
ao “folkway” (costume permanente e estandardizado
em determinado grupo), ao processo histórico social(3),
às comoções, crises e a todas as mutações
da sociedade. Ele é receptivo a tudo, como investigador
do mundo inconsciente, diz BICUDO (1). Não pode alhear-se
das alterações da vida social política,
religiosa etc., que influenciam o psiquismo. Sua área
cerebral deve ser livre de prejulgamentos, não doutrinando,
não sendo faccioso ou sectário, porque a pesquisa
analítica não é instrumento estruturante,
tendo recursos úteis para o paciente entender-se e
integrar-se, jamais outorgando qualquer destino.
Assinale-se, por outro lado, que saúde
decorre da leitura harmoniosa e equilibrada procedida pelas
instâncias do aparelho mental ao mediar, no indivíduo,
os acontecimentos do mundo externo com os objetos do seu mundo
interno (4).
Monismo e Visão Multifária
A teoria monista, longe de ser dogmática ou reducionista,
mantendo com sua concepção dinâmica a
unidade de todas as forças da natureza, ilustra o homem
como ser essencialmente psicossomático, pois psique
e soma simultâneos e fundidos pertencem à mesma
realidade.
A visão multifária permite
inúmeras observações dos fenômenos
humanos, considerando-se a nossa incapacidade de percepção
global, simultânea e indeterminada.
Essa visão é aberta, sob todos
os ângulos, na relação do observador e
fenômeno observado. Assim, fenômenos humanos denominados
físicos seriam aquele objetivamente registrados e fenômenos
conhecidos como psíquicos seriam aqueles subjetivamente
percebidos. Ambos, com aspectos diversos, pertencentes à
mesma realidade, o homem, mas abordados em níveis diferentes.
Soma e psiquismo poderiam ser observados inteiramente separados,
ou, então, um lado predominantemente físico
e outro predominantemente mental, epistemologias diferentes,
de acordo com nossa visão consciente.
O homem procura não separar corpo
e psiquismo. Para os analistas, psique e soma, existências
do ser humano, para os físicos, onda e partícula
matéria-prima do átomo, ou, ainda, matéria
e energia, existências do real, como indivisível
unidade, sacramentada pelo católico, no Corpo de Cristo.
Tudo se passa, no processo da vida, como
se corpo e mente se fundissem graças a estímulos
decorrentes de atritos recíprocos, que levam à
produção de força indeterminada, o instinto
que necessita da energia do afeto, como componente de descarga.
Os estímulos recíprocos levam a mente a comandar
a si própria e o trabalho com o corpo.
O instinto, como ponto de partida do processo
de vida, é motor de progresso de todo ato psíquico,
que começa sendo inconsciente.
O caminho da relação bi-objetal
entre paciente e analista inicia-se pelo instinto, cuja descarga
pelo afeto ganha representações psíquicas
e idéias inconscientes. A chegada ao objeto ocorre,
na realidade externa, pelas idéias e afetos do mundo
consciente.
Para manter certo equilíbrio e harmonia
nessa relação bi-objetal, o analista procura
encapsular os diferentes aspectos da personalidade do paciente
(temores, desejos, idéias, sensações,
etc.) que não possuem forças de ligação
entre si.
O psiquismo inseparável e fundido
no corpo, não essencialmente autônomo, é
ocasionado pelos papéis e funções de
seus objetos.
Nada é descorporizante, nada é
mentalizante ou desmentalizante. O psiquismo não se
separa ou se radica no corpo. Funde-se no processo do homem.
Sobre a tese monística, os críticos
acreditam que ela se diversifica, perdendo-se na confusão
daquilo que é psíquico e não psíquico,
quando um monismo diversamente orientado se dispõe
a serviço de misticismo, que faz escapar o psiquismo
de seus determinantes genuinamente humanos.
A distinção corpo e psique
não pode ser, de per si, significativa, salvo se for
ligado a outra dicotomia, aquela das relações
sentimentais amor e ódio, investidas ora no soma, ora
na mente.
Para se entender o tema, BOCKMANN(2) propõe
enquadrá-lo em vinhetas delimitadoras. Compreender
o psiquismo ou o soma significa “prender dentro”,
“conter em si”, “encerrar” o pensamento.
Este tem oscilações de amplitudes infinitas,
podendo caminhar para o inestruturado desconhecido, sempre
ameaçador e desconfortável, do nível
psicótico.
Vestimos com camisas de força ora
o psiquismo, ora o soma, limitando o pensar, prendendo-o em
espaço finito para saturar o entendimento.
Ainda hoje, afirma PAIVA(9), o médico
e o estudante, em geral, continuam colocando “camisas
de força”no físico em um extremo, e no
psiquismo no outro, “como representações
separadas e isoladas, tal qual o dualismo cartesiano”.
Benefícios e Prejuízos
do Processo
O processo de vida do homem se beneficia quando a relação
bi-pessoal é mantida, graças à capacidade
de enfrentar e resolver estados de conflitos, com integridade
do afeto.
Os prejuízos podem começar
a aparecer precocemente, quando a mãe, se afastando,
começa a se distanciar do bebê. O imago da mãe
se esmaece na mente do bebê, cessando, neste, a capacidade
de utilizar o símbolo de união. Se a mãe
se ausenta por muito tempo, o bebê tem o seu afeto ameaçado,
tornando-se aflito, traumatizando-se, não se recompondo
pela ruptura de sua relação. É verdade
que defesas se organizam contra desintegração
da estrutura do Ego.
Dentro da relação bipessoal
desenvolve-se uma vetorização, ou seja, um condutor
de pulsão num vai-e-vem contínuo numa relação
com voz, porque o afeto está íntegro. Quando
na vida de uma dessas pessoas algo intolerável ocorre,
pelo comprometimento do afeto, surge um curto-circuito nas
instalações do aparelho mental. A ligação,
segundo GREEN(7), torna-se sem voz, porque as estruturas mentais
ficaram comprometidas. Não se pode falar em “psicossomática”
sem referências à destruição.
Na sua procura do objeto, ao transpor um
obstáculo, o afeto pode manter-se íntegro por
suportar dor que envolve, como unidade, todo o ser. Essa dor
é descrita como mental por não serem percebidas
alterações entendidas como físicas. Se,
por outro lado, na direção do objeto encontrar
obstáculo frustrante, pode não transpô-lo,
optando por dor descrita como física, quando, então,
o afeto se estilhaça.
O afeto estilhaçado, em função
de obstáculo frustrante não transposto, constitui,
de um lado, o fenômeno somático com todo o colorido
consciente e, de outro, o fenômeno psíquico profundo,
silencioso pela repressão. O fenômeno somático
não deixa de ser, com todas as peculiaridades clínicas,
o próprio afeto, agora consciente, percebido fisicamente.
O afeto inconsciente continua existindo, todavia reprimido,
impedido de se desenvolver, é claro, como fenômeno
psíquico.
Aos nossos olhos, a parte somática
do fenômeno aflora, enquanto a parte psíquica
profunda não é percebida porque se reprime.
Compete ao analista, através das associações
livres do paciente e de outros elementos, ligar os equivalentes
do fenômeno somático com os equivalentes do fenômeno
psíquico, desaparecendo o sintoma físico.
O soma drena tudo para si, encapsulando emoções
profundas, como se o mundo inconsciente fosse posto fora do
circuito. A doença “psicossomática”
reduz ao silêncio o afeto inconsciente levando o indivíduo
ao túmulo do psiquismo, onde se lêem duas lápides:
“aqui jaz uma pessoa aléxica, sem palavras”
e outra “aqui jaz um sujeito atímico, sem emoção”.
No túmulo do psiquismo o afeto estilhaçado
pode ser reduzido a cinzas, chorando o paciente, de um lado,
pelas mágoas de seu sofrimento, pelas suas culpas,
pelo dó de si próprio, e, de outro, lamentações
pela impotência de seu Ego.
Sendo a verdade filha do tempo (Galileu),
o desafio é desnudar a máscara. SEGRE(11) refere-se
à persona com máscara, com falso rosto humano,
mentiroso e escondido. O inconsciente latente passa, através
da análise, a ser pessoa sem máscara, em tentativa
manifesta de rosto humano, tolerando frustrações
e renunciando a certos princípios do prazer.
Caminho do Processo Mental
No processo da vida do homem, o caminho do psiquismo, quando
em sua evolução habitual não consegue
enfrentar, operar e resolver os seus conflitos, é porque
a cena mental não é tolerada.
O conteúdo psíquico insuportável
é rechaçado, e, por conversão ou metanóia,
é transmutado para o soma. A conversão é
intento do Ego de solucionar conflitos, mas de forma inadequada.
A energia libídica é deslocada
dos processos mentais para o corpo, que expressa por sintomas,
de forma imprópria, os derivados dos impulsos instintivos
proibidos e reprimidos.
Os sintomas resultam de conflitos inscritos
e albergados no soma, cuja leitura constitui desafio para
quem pretende compreender a linguagem simbólica do
corpo.
O Contrabando e a Máfia
Através de manifestações dolorosas levando
mensagens secretas de sofrimentos mentais ocultos no corpo
por conversão, os conflitos caminhariam por contrabando.
Assim, o processo da vida do homem, conhecido
como “psicossomático”, é resultado
de mecanismo de máfia, pois o afeto que deveria se
ligar a um objeto é separado e religado a fantasias
de enfermidade física, por compromisso de contrabando
assumido perante a conversão.
Os mafiosos ligados aos piratas da conversão
ocultam todos os sentimentos nos esconderijos dos sintomas,
albergados nos órgãos, sede de contrabando assumido
perante a conversão.
Os mafiosos ligados aos piratas da conversão
ocultam todos os sentimentos nos esconderijos dos sintomas,
albergados nos órgãos, sede da máfia.
Ao analista, como detetive, competirá
descobrir, através da fala do paciente, onde este,
sem o saber, enterra os seus sentimentos.
Em linguagem popular, o paciente, em suas
associações livres, no fundo, interpreta todos
os sinais de códigos, símbolos e mitos universais.
A linguagem das manifestações
somáticas aparentemente nada comunica. Importa, todavia,
entender os códigos de comunicação narcísica
do paciente, mas sempre de cunho pessoal. Na suposta “fala
do órgão”seria preciosismo encontrar um
sentido em si, que nunca percebemos. Esse sentido circula
entre os sintomas, pois a “linguagem do órgão”
serve para produzir sentido.
A compreensão da “linguagem
do órgão” é extremamente difícil
comparando-se com a linguagem verbal que, de per si, como
meio de exprimir o que se sente ou o que se pensa, proporciona,
através da palavra, ambigüidades, duplos sentidos,
portanto difícil de ser entendida. Fico espantado,
esse é o termo, quando alguém procura interpretar
código genético que, a meu ver, até hoje
não tem representação.
Registre-se a linguagem da pele. Ela escreve
sobre si mesma. São mensagens gráficas com variantes
de letras compondo inúmeras expressões.
Outra dificuldade de comunicação
é o triálogo paciente-enfermidade-médico
pelos repetidos mal-entendidos e incompreensões. Seria
o analista o diretor da fusão dessas linguagens onde
o território comum é o psiquismo?
Discorre-se, habitualmente, sobre discurso
filosófico (rechaço de conhecimentos generalizados),
discurso médico (fins seletivos de acordo com seu código),
discurso psicanalítico (através de associações
livres, atenção flutuante e neutralidade benévola),
com desinteresse do discurso do paciente indicativo de êxitos
e logros, com todas as reflexões do homem. Parece existir
variedade de códigos que interessam a cada setor específico
de trabalho.
O ser humano é essencialmente “psicossomático”.
Atende movimentos de todas as forças da natureza, suas
relações na vida são sempre dinâmicas,
a realidade varia a cada instante, níveis de distorção
surgem a cada momento, cada situação presente-passado
agita o dia-a-dia e a doença varia de acordo com o
observador, sendo predominantemente somática ou predominantemente
psíquica.
O Habilitado e o Inabilitado
Em grande número, clínicos usam defesas hipomaníacas
negando que sintomas, conhecidos como físicos, carregam
na bagagem um psiquismo atormentado, cheio de conflitos insolúveis
à espera de solução.
Aguardam-se pessoas habilitadas para decodificar
mensagens secretas do inconsciente metidas nos sintomas físicos,
cujos padecimentos são tentativas estéreis de
comunicação de sofrimento mental.
Para converter em verbo, requer-se trabalho
bipessoal paciente-médico, através de posição
depressiva, para resgate de todos os afetos estilhaçados.
Consegue-se tal resgate pela investigação
dos mecanismos dinâmicos surgidos de pontos múltiplos
de regressão, fixação, componentes pré-genitais,
fálicos, edípicos etc., como fornalha para a
conversão.
O inabilitado, freqüentemente ansioso,
quebra o código de segredo inconsciente que o paciente
tem consigo próprio. Precipita-se por não aguardar
a posição depressiva do paciente e, com isso,
não é capaz de compreender as mensagens inconscientes.
O paciente mergulhado na posição
depressiva consegue, após elaboração
e integração, usar suas próprias palavras
para traduzir as mensagens inconscientes.
Sem “insight” ou com pseudo “insight”ou
“insight”incompleto, o inabilitado promove compreensão
intelectual do material inconsciente.
Pacientes papagueiam palavras que não
são usadas, pois não executam o próprio
trabalho psíquico. Quando conseguem esse objetivo são
capazes de traduzir suas mensagens inconscientes pela aceitação
de elementos reprimidos, ficando livres e tolerantes.
*************** Resumo
O autor segue teoria monista e visão multifária.
Mantém concepção dinâmica ilustrando
o homem como ser onde psique e soma, simultâneos e fundidos,
pertencem à mesma realidade e visão multifária
dos fenômenos humanos, aberta sob todos os ângulos,
na relação do observador e fenômeno observado.
Tudo se passa no processo do homem como corpo
e mente fundidos, graças à estímulos
decorrentes de atritos recíprocos, de tal modo que
levam a mente a comandar a si própria e o trabalho
com o corpo. Nada é descorporizante, nada é
mentalizante ou desmentalizante. O psiquismo não se
separa ou se radica no corpo, funde-se no processo do homem.
Vestimos com camisas de força ora o psiquismo, ora
o soma, limitando o pensar, prendendo-o em espaço finito
para saturar o entendimento.
*************** Referências Bibliográficas
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***************
* Fundador e Ex-Presidente: - da Federação Brasileira
de Medicina Psicossomática, da
Associação Brasileira de Medicina Psicossomática,
da Sociedade Paulista de Medicina Psicossomática, e
da Regional de São Paulo da ABMP.
* Presidente atual do Instituto de Psicossomática de
São Paulo.