Recebi para este Prefácio
vinte e seis títulos e deparo, para seus autores, recomendações
dos Professores Marcelo Zugaib e Júlio de Azevedo Tedesco
sobre utilização de linguagem simples, evitando
o uso de vocabulários técnicos. Procurei atender
esse alerta para feitura deste texto, ordinariamente breve,
antecedendo esta obra escrita e servindo para apresentá-la
ao leitor.
Tarefa pretensiosa seria comentar os conteúdos
de todos os capítulos, restrinjo-me à um denominador
comum presente em todos os temas, o obstetra, sem ele não
haveria razão para este livro.
O vocábulo obstetrícia deriva
do verbo latino “obstare” - estar ao lado, indicando
também a especialidade médica obstetra.
De meus tempos idos, como aluno do Professor
Raul Briquet, lembro-me entre suas publicações
Obstetrícia Normal e Obstetrícia Operatória
o destaque que conferia à sua obra Psicologia Social,
fundamentando os aspectos psicodinâmicos do Processo
da Mulher, autêntica fusão do psíquico
com o somático, englobada, estimulada e comandada pela
mente.
O estar ao lado incumbe ao obstetra função
de assegurar a vida materna e a do nascituro. Período
pré-natal, parto e puerpério cordenados mantém
a unidade do ciclo gravídico-puerperal. O obstetra,
por inclinação vocacional, harmoniza o objetivo
profissional com a adequada estruturação intra-uterina
do nascituro. Um programa de trabalho extenso a executar impondo
inteligência, gerando resistência física,
prudência, tolerância e paciência, decorrentes
de boa organização mental.
A prudência sopita os impulsos da impaciência
e as transigências do cansaço. Ao acompanhar
obstetras que permanecem ao lado de suas pacientes, me foi
dado a observar, entre eles, insigne mestre de obstetrícia,
Professor Joaquim Onofre de Araújo, amigo e compadre,
encostar-se em parede de maternidade, de pé, fechar
os olhos e por instantes recobrar suas forças! Ao obstetra,
chega-se a dizer não dorme, a semelhança da
mãe junto ao recém-nascido!
A mulher, em gestação, olha
em volta e vê, ao seu lado, o obstetra, como se este
fosse criação daquela. Esse fenômeno provém
da grande complexidade de fantasias que abrange o desenvolvimento
mental da gestante em sua relação com o obstetra.
A mulher, que olha para o rosto do obstetra
parece simplesmente olhá-lo. Posso supor, que a gestante
vê, na face do obstetra, ela mesma. O obstetra refletiria
as ansiedades, os receios, as esperanças de gestação
normal e data provável do parto.
Esse relacionamento é significativo,
pois dele, a futura mãe toma conhecimento de inúmeras
informações, o útero ascendendo em média
quatro centímetros por mês, a partir do segundo
mês. Tudo se passa em função de acompanhamento
obstétrico, ao seu lado, centímetro por centímetro,
até o nono mês com 32 a 35 centímetros
acima do púbis.
Essa relação obstetra-gestante
se torna mais profunda desde os primeiros movimentos fetais
e da época da insinuação da cabeça,
principalmente nas primíparas. Elos entre obstetra
e paciente vão ser ainda mais reforçados no
princípio do nono mês e particularmente na última
quinzena da gestação.
Quando do último exame, a gestante
com muita atenção vê refletidas no rosto
do obstetra qual a disposição do feto dentro
do útero, qualidade e altura da apresentação.
Ela bem sabe que desde o sétimo mês a apresentação
cefálica é a normal e torce para ser mantida.
A insinuação da cabeça,
na primípara, na última quinzena, é noção
recebida com grande ansiedade, pois demonstra a boa proporcionalidade
entre cabeça fetal e estreito superior.
Esta alvissareiras notícia, transmitida
pelo obstetra, abre perspectivas felizes de parto normal,
provavelmente de menor duração e isento de intervenções
mas, se necessárias serão ultrapassadas com
facilidade, pois não existe a barreira do estreito
superior.
A mulher parece descobrir a contração
do estado incremente, o de acme e o decremente. No início
contrações cada 30, 20 e 15 minutos e pouco
antes do parto cada minuto com duração de 40
a 50 segundos em processo de 15 horas de duração
e período expulsivo de hora e meia.
Mas, a gestante com todo esse sofrimento
tem o obstetra, sempre ao seu lado, com palavras afetuosas,
carinhosas, simpáticas e animadoras, confortando-a.
Todo obstetra, desde os tempos de Crile,
é sabedor que o medo pode ocasionar até estado
de choque. Mas, ele está ali, ao seu lado, como receptáculo
de sua inquietação ante noções
de perigo real e complacente elaborador de seus perigos imaginários.
Logo após o parto, a mulher mostra-se
esgotada pelo trabalho muscular, rosto coberto de suores,
inspiração costal profunda e ritmo respiratório
diminuído.
O estado impõe repouso, silêncio,
sono e ao despertar um alívio extraordinário,
com grande ânimo, esquecendo do transe pelo qual passou.
Desenvolvem-se vários aspectos: substituição
da expectativa ansiosa pelos traumas do processo de parto,
substituição da inibição pelo
controle pessoal e substituição da informação
pela experiência.
É vivido pela mulher um final de alegria
indescritível: O seu filho! O obstetra ao seu lado,
o pai, demais pessoas, todos juntos, em um elo de imenso valor,
que somente aquela mulher que passou por essa experiência
pode avaliar.
É o parto normal - é o viver
com o filho, com o obstetra e com os demais que a cercam.
Em certas ocasiões, a futura mãe
não teve a felicidade de perceber, em continuidade,
o que é ter o obstetra ao seu lado. Nessa altura, quando
ele esporadicamente aparece, a gestante poderia ver, na face
do obstetra, o seu humor aborrecido e a rigidez de mecanismos
de defesa daquela que tanto dele necessita.
O rosto do obstetra não é um
espelho, mas sua capacidade criativa parece atrofiar-se por
não perceber que precisa estar ao lado dela.
Perde a noção de que poderia
ter uma troca significativa com sua paciente, em processo
de duas direções, no qual o enriquecimento de
ambos se alternaria com a descoberta dos significados, de
que cada um é capaz de ver.
Mas, a gestante não abandona a esperança
de ter o obstetra ao seu lado. Estuda-o e faz o possível
para ver nele algum significado que ali deveria estar.
A gestante que sofre esse tipo de relativo
fracasso pelo obstetra ausente, começa a prever alternativas
quanto ao parto, do mesmo modo que o meteorologista faz previsões
sobre as mudanças de tempo.
Por enquanto, pode ficar tranqüila e
ser espontânea, mas não tardará o momento
em que o obstetra dominará suas próprias necessidades:
perderá acontecimentos esperados, não terá
a tripeça gestante, filho e obstetra e se afastará
das palavras que sua mãe multípara, observadora,
experiente lhe transmitiu.
Alguns anos atrás analisei um obstetra.
Grande defensor de cesáreas, queixava-se de declínio
de sua clínica. Não mantinha relacionamentos
estreitos com suas pacientes. O obstetra tinha, desde criança,
muita inveja da figura da mulher pela capacidade de ter filhos.
Ao ouvir-me pronunciar essas palavras, incontinenti retrucou:
“São as mulheres que invejam meu pênis!”
No progredir do processo analítico, ele descobriu que
a sua inveja pelas mulheres destruía a sua clínica,
os elos com suas pacientes, pois as propostas eram sempre
cesáreas!
Quando elos entre obstetra e gestante estão
rompidos surgem fragmentos de união desfeita: mãe
- filho - obstetra.
É a cesárea - todos separados
- é o desligar-se do filho, do obstetra, de tudo e
de todos para abertura do abdômen e extração
do feto.
Desaparece estar ao lado, o obstetra, e surge
o cirurgião!