É possível
que no ano 2.027, daqui a 30 anos, muitos estarão repetindo
o pensamento de nossos dias, como nós tornamos a dizer
o que foi escrito em 1967, no início da Revista Pais
e Filhos.
É o repetitório pela incapacidade
absoluta de originalidade. Tudo cai no esquecimento. Resta-nos,
pela experiência pessoal, transmitir conhecimentos na
suposição de modificar a conduta humana.
A lembrança de Camilo Castelo Branco
no “Livro Negro do Padre Dinis” onde se lê:
“só a mulher desgraçada sabe ensinar uma
criança, que não é sua, a chamar-lhe
mãe”, coloca-nos, na presunção,
escrever para a Revista Pais e Filhos demanda passar por infortúnios.
Consultor médico é pessoa comum
e não figura idealizada, aquele que supõe conhecer
a técnica do destino e tudo advinha. Hipocrisia é
omissões de quem escreve, esconderijo de onipotência,
não cabem mais em nossos dias.
Vivendo infortúnios com mulher pérfida
e dois filhos ambiciosos, pretendo dirigir-me aos pais na
faixa etária aproximada de 60 a 80 anos e aos filhos
entre 30 e 50 anos.
A diferenciação global entre
pai e filho nessas faixas de idade, reside no primeiro, mais
ligado ao Ego estruturado, desenvolvido e o segundo mais próximo
de seus instintos.
O pai mais altruísta, tem visão
ampla das crises sociais, enxerga o outro, protege os de menos
idade, preserva os sistemas de cultura; o filho procura avidamente
gratificações, é mais egoísta,
busca prazer pessoal, tem perspectiva estreita, nem sempre
percebendo existência e necessidade do outro.
A maturação é cada vez
maior à medida que existe aumento do altruísmo
e do desprendimento, aliada a elevada capacidade de ajudar,
guiar e proteger o próximo.
Na vigência de uma intervenção
cirúrgica outorguei, através de procuração,
plenos poderes à uma filha, antes aquinhoada por mim
com casa própria e automóvel. Anos depois, submeti-me
a nova cirurgia e passei outro instrumento jurídico
com plenos poderes à outro filho, também protegido
com casa para morar e outros favores.
Voltando à ativa, sentia-me amplamente
satisfeito com a confiança neles depositada. Algum
tempo depois, meus outros filhos descobrem mazelas, que vou
me referir e percebo que soldado em frente de combate não
pode ser ao mesmo tempo soldado da reserva.
Em conseqüência de minha generosidade,
a filha monta empresa, sem que eu soubesse e o filho, atingido
por enorme ganância, transfere todos os meus recursos
financeiros para a sua conta bancária! Ninguém
lhes nega qualidades, mas a imaginação foi o
mal, imaginação adusta, cobiçosa, insaciável,
avessa à realidade, sobrepondo às coisas mais
rasas da vida. Egoísmo aspérrimo, faminto de
sensações!
Muitos me consideram homem de boa fé,
fácil de ser enganado, autêntico otário,
com conceito muito idealizado sobre os seus descendentes.
Tendo idéias muito otimistas sobre eles, não
percebendo distorções, não consegui observar
as diferentes linhas de conduta de cada um. Confiança
cega. Iludi-me. Tudo isso é abominável, causa
tormentos, mas não posso negar afeição
dolorosa dos fatos.
Isso tudo não impede impulsionar minha
vida para frente. Se estacionasse, regrediria. Não
posso deixar de ter ambições, novos planos de
trabalhos e estudos, aspirações decorrentes
de fantasias não muito distantes da realidade. Minhas
interrupções ocorreram durante os processos
pós-cirúrgicos. Tão logo foi possível
retornei às minhas tarefas de trabalho no consultório,
nos cursos que ministro, nos estudos, nos livros em preparação,
etc. Contribuo para o meio em que vivo, pois assim recebo
aceitação e admiração daqueles
que me cercam como equivalentes sociais do amor.
Aprendo meu envelhecimento como criança.
Estudo, pesquiso, trabalho, tenho recreações,
ouço músicas, etc., para me sentir mobilizado
a utilizar toda minha gama de possibilidades de vida presente,
legado para o meu futuro.
Meus dois filhos ímprobos, mostram
dificuldades psíquicas fundamentais com conflitos neuróticos
primitivos mascarados durante muitos anos e que vieram à
tona mais tarde; ela com 54 e ele com 48 anos.
Ouço de pessoas amigas: “com
meus filhos isso não vai acontecer”. Afirmativa
esperada e louvável, que pode ser acompanhada de uma
recomendação: “não sejam otários
como eu fui, um soldado da reserva!”
Este escrito foi para mim, extremamente doloroso.
Eu o fiz para Pais e Filhos como alerta para a felicidade
que não consegui, por minha exagerada paciência
e inusitada tolerância.