O conceito habitual de ranzinza
reside no indivíduo, em todas facetas de sua vida,
continuamente teimoso, birrento, impertinente, mal humorado
e irritadiço.
Talvez, esse conceito não seja exato,
ao se considerar o que aconteceu com um paciente de 56 anos.
Sua primeira palavra, em sessão comigo,
foi ranzinza. Julgava-se velho com essa idade, característica
daqueles que avançam nos anos, repetia com ênfase.
Perguntei-lhe se me sentia seguidamente implicante
com o que eu falava, respondendo-me, suponho pra me agradar,
jamais ter tido tal impressão.
Não se sentia tranqüilo enquanto
não fosse a fundo no significado de ranzinza.
- Se trago uma palavra nem sempre tem direção
à sua pessoa, como agora.
- Mas, parece interessado em dialogar sobre
ela!
- Exatamente. Vou principiar dizendo ser
ranzinza há muito tempo, piorando ao longo dos dias.
Sou birrento, não só com a precisão das
palavras, como fico muito irritado quando uma pessoa conta
longa história para chegar a uma abobrinha.
Admite que chegamos aqui, entre nós,
a esse fruto?
- Procuro ser sincero para afirmar ouvi-lo
sintético e incisivo. Eu o quero hoje procurando livrar-me
dessa praga de eu me sentir “chato”. Vou lhe contar
com a maior fidelidade possível a aula de inglês
com participação minha, de minha esposa e claro,
da professora. O assunto versava sobre idade. Nesse ínterim,
a professora faz perguntas sobre uma tia de minha senhora,
indagando sobre sua idade. Minha mulher fica sorridente, alegre,
esvoaçante, passando a descrevê-la com pormenores
prolongados inundando-me de incrível impertinência,
agravando-se, quando ao dizer a idade da tia, titubeava várias
vezes querendo chegar a idade exata.
- Nessa altura, intervenho furioso, não
interessava essa precisão, bastava dizer um número!
Olho para a professora e me surpreendo: calma, receptiva,
semblante de grande alegria, ouvindo minha esposa com doçura
ímpar! Por fim, ouço a conclusão de minha
esposa, tranqüilizando-me.
Intervenho, indagando sobre a descrição
dos semblantes da mulher e da professora.
No meio de toda rabugice, senti impacto profundo
e inesperado: a alegria das duas mulheres. Isso me impressionou
como alguma coisa descoberta dentro de mim, que não
sei explicar!
Vê nelas algo escondido dentro de sua
impertinência?
- Alegria.
O ranzinza seria aquele aparentando teimosia
e irritação escondendo dentro de si muita alegria.
- Como se eu não tivesse o direito
de desfrutar esses magníficos valores de satisfação,
escondo-s dentro de mim. O Birrento que todos dizem conhecer,
ignoram a alegria dentro dele! Sinto-me livre da praga de
ser ranzinza.