No
Processo Humano as doenças rotuladas como "psicossomáticas"
resultam da fuga de psicose transitória. Os pacientes
pelo temor da vida psíquica convertem as manifestações
emocionais reprimidas em lesões do soma, de cujos sintomas
se queixam. Durante tratamento analítico a psicose
vivida entre analisando e analista permite desaparecimento
dos sintomas e abrandamento das lesões estruturais.
Advertência
na Investigação do Doente Psicossomático
Em princípio não existiria relação
de objeto nos transtornos psicossomáticos pelo bloqueio
existente no inconsciente que impede a filtragem de seus produtos.
Estabelece-se uma regressão como se estendesse até
o corpo, dando ilusão de comunicação
direta com o inconsciente, o que é inteiramente falso.
Sabemos
que os sintomas somáticos traduzem irregularidades
no funcionamento mental, todavia não há contato
com o inconsciente, de tal modo que a transferência
supostamente proporcionada pelo paciente é uma armadilha
para o analista, que ouve palavras de simpatia, amor, aversão,
atração, ódio, rejeição,
etc. mas nada de conteúdo inconsciente.
Explica-se
tal ocorrência porque o paciente tem falhas na elaboração
psíquica. Os sintomas somáticos, a semelhança
de um acting traduzem essa lacuna do psiquismo.
Dimensão
do Funcionamento Mental
Nesta altura, para entendimento dos fenômenos psicossomáticos
cabem noções do funcionamento mental, sobretudo
quando se considera a prática clínica do processo
analítico em duas visões: de globalização
e de diferenciação.
No
exercício da analise sob visão de globalização
a pratica se realiza em função da relação
de objeto com mecanismos de transferência e contratransferência,
diminuindo-se o papel da pulsão. Trata-se de comunicação
onde o paciente é tomado como um todo e traduzida em
termos de ansiedade, angústia, fantasias e mecanismos
de defesa, perdendo-se a dimensão do funcionamento
mental pelo não aproveitamento de pormenores dos mecanismos
psíquicos. São a favor dessa pratica da relação
de objeto não só o seu introdutor Fairbarn,
Widlocher e Melanie Klein.
No
exercício da análise sob visão de diferenciação
a prática inclui o conceito de pulsão dispondo-se
o afeto como seu componente de descarga podendo estar ligado
a uma representação como no exemplo clássico
descrito por Joan Riviérie: Um bebê ficava muito
ansioso quando a mãe entrava no quarto. Após
três anos, a criança pode falar sobre esse episódio,
quando encontrou, no armário de sua mãe, um
sapato velho, com sola solta dando impressão que a
genitora poderia comê-lo. Tem-se conceito de energia
na descrição desse episodio, bem como conceito
de representação e de palavra. Freud pode reconhecer
a importância de uma só palavra, fazer analise
em torno dela e concluir que em certo momento o inconsciente
sofre modificações por um só vocábulo.
Reconhece-se
o valor da comunicação pela linguagem em função
dos inúmeros enunciados que uma só palavra encerra.
Leva-se em conta de forma rigorosa o significado das palavras,
pois a cadeia da linguagem nos dá acesso ao inconsciente.
A interpretação segue a trilha dos vocábulos
que a associação livre fornece.
A favor do conceito de pulsão e conseqüentemente
ligados aos conceitos de energia e diferenciação
se alinham Greenl Laplanche e Anzieu.
Procura-se
na prática clinica acoplar a teoria da relação
de objeto com visão globalizada com a teoria da diferenciação
mental.
Representação
Poder-se-ia dizer que alguma excitação pode
partir da esfera somática e ir de encontro a barreira
somatopsíquica e a seguir penetrar no psiquismo, onde
vai encontrar excitação, que chegam derivadas
da pulsão.
Seria
descrito o conceito limite entre o somático e o psíquico
quando aparece a pulsão, que surge como representante
psíquico das excitações que nascem no
interior do corpo e chegam ao psíquico.
A
pulsão surge como medida de exigência de trabalho
imposta ao psíquico devido seu vinculo com o corporal.
Tudo
se passa como mensagem de noticias pouco alvissareiras do
corpo, pedindo ajuda ao se ouvir uma paciente exclamando:
"se o senhor tem méritos, pelo que eu li em revista
cientifica, posso aceitar ter em mim uma perturbação
psicossomática".
A
paciente parece dizer que algo não vai bem com ela.
Seria o primeiro sinal psíquico da pulsão manifestada
sob a forma de tensão, mas sem representação.
E, todavia, mensagem de quem espera uma resposta em função
de sofrimento.
O
que vai ocorrer? O que vai suceder com a tensão da
pulsão? Procurar no psiquismo um objeto que outrora
trouxe alívio? Começamos tirando do latim a
palavra representatione na procura de algo que se reproduz
apreendido pelo pensamento, pela imaginação
ou pelos sentidos.
Assim
o representante psíquico ao aliar-se com a representação
da coisa vai constituir o representante-representação
investido de grande energia econômica, dinâmica
e tópica.
Seria
este o caráter do desejo, o caráter da compulsão,
o caráter da manifestação inconsciente
contra a qual a vontade nada pode fazer.
Mas,
o representante-representação estando ainda
insatisfeito tenta passar para a consciência mas encontra
a segunda barreira somatopsíquica ou o limite inferior
do inconsciente.
O
representante-representação, face às
relações com a repressão, é reprimido
e obrigado a trabalhar porque uma representação
não permanece no inconsciente como estava no inicio.
Há grande dinamismo, pois se transforma, disfarça-se,
condensa-se, desloca-se por ser o único modo de ter
êxito para atravessar a fronteira.
Toda
representação em estado bruto não passa
pela barreira. Será reprimida. Ultrapassará
somente com nome falso.
Na
passagem ao sistema consciente devemos lidar não apenas
com representações de coisas mas com a relação:
representação de palavras
representação de coisa + afeto
quando se dá a passagem para a linguagem do sistema
primário para secundário.
A
representação da coisa inconsciente é
carregada de onda energética e tem relação
com a representação da coisa consciente, que
traz consigo energia, portanto dispondo de potencial dinâmico
e potencial de transferência. Existiria, assim representação
de transferência e transferência de representação.
Todos
esses potenciais se encontram na linguagem. O analista procura
servir-se de todas as ambigüidades possíveis,
pois através da linguagem encontra o único caminho
do inconsciente.
O
trabalho analítico, rico em analise de transferência,
se faz com o confronto da representação da coisa
com a coisa inconsciente.
A
representação da coisa é o único
elemento comum entre o sistema inconsciente e o sistema consciente.
Nesse espaço, nessa diferença encontramos o
acesso aos conflitos inconscientes.
Suas
Lacunas e Necessidade de Ajuda
O doente psicossomático não tendo emoções
foge do mundo interno e faz , adaptaçoes em posição
distante da realidade externa.
Ele
ilude e se ilude, em relação ao principio da
realidade. Não suporta frustrações porque
não agüenta a dor mental e foge da experiência
emocional porque tem medo da vida e chora pelo corpo (3).
Ele
não percebe, não sente, não ouve e não
fala porque não usa a sua mente.
Tudo
é percebido, sentido, ouvido e falado pelo analista,
utilizado como instrutor, que usa sua mente.
O
paciente perdeu tudo, só tem o corpo. Necessita de
ajuda pois encontra- se sem palavras para as emoções
e sem símbolos para os estados somáticos, Montagna
(5).
Agora,
quer recuperar o que o corpo tomou conta, a representação,
mas não sabe recuperar sozinho.
O
analista serve de instrumento. Cabe a ele entrar em sintonia
com o paciente e, ao mesmo tempo, fazer sentir como ter postura,
expressão facial, amor, ódio, fantasias, etc.
O
paciente vai sentir o que o analista sente, onde todos, com
experiência reafirmam essa assertiva Pally (6).
O
analista, quando em sintonia, organiza o paciente anatomicamente,
ao abrir espaço para o psíquico, onde só
havia corpo. Vai substituir a mãe que falhou na função
de pensar e usou o paciente como extensão de si própria,
com características narcisicas MC Dougall (4).
O
analista vai recriar dentro do paciente o que está
morto dentro dele, organizando sua memória, abrindo
espaço para novas representações. O pai
estaria possivelmente, desqualificado e ausente em seu mundo
de representações.
O
paciente e o analista estariam, guardadas as devidas proporções,
a disposição do "reverie", deficiente
ou incapaz de atenção, memória, julgamento,
imagens capazes de propiciar associações, etc.
Estratégia
dos Distúrbios Psicossomáticos
O doente psicossomático faz adaptações
em posição distante da realidade externa, sem
contato emocional e fugindo do mundo interno. Ele ilude o
desenvolvimento do principio da realidade, não tolera
a dor mental e foge da experiência emocional, porque
não sabe falar. O que ele percebe, sente ouve e fala
não é dele. Tudo é percebido, sentido,
ouvido e falado pelo analista. Não usa sua mente, mas
a do analista. Tudo ele perdeu e agora quer recuperar o que
o somático tomou conta, a criação da
representação.
O
analista serve de instrumento. Ele vai sentir, fantasiar,
ter afetos, etc. para o paciente. Tudo vai sendo despertado
dentro do paciente para que este possa perceber dentro de
si e apreender a realidade.
A
chave dos distúrbios psicossomáticos deve ser
procurada no funcionamento pré-natal, que deixa vestígios
na vida uterina, mas obscurecidas pela cisão do nascimento.
Esses
vestígios pré-natais parecem derivados de uma
herança indesejável, porque constituem parte
das forças hostis ao crescimento mental.
Seria
de se supor que a sensibilidade do feto não agüentaria
certas tarefas excessivas por serem ainda muito precoces.
O
bebê intra-uterino, muito sensível ao desprazer,
tenta ficar livre da “proto-idéias", que
possibilitam, no futuro, pôr-se em contato com os “fatos"
da experiência da realidade.
Captar,
em análise, os elementos pré-natais dependeria
da capacidade de percepção, cujo alcance é
muito rudimentar.
Os
estados mentais pré-natais e as proto-emoções
podem romper barreiras (cisões) e produzir manifestações
psicossomáticas.
As
forças hostis ao crescimento mental e ao conhecimento
podem propiciar irrupções psicossomáticas,
uma vez que a mente é aquisição tardia
e pouco evoluída em relação a herança
animal. Talvez, por esse motivo, as manifestações
psicossomáticas compartilham com o funcionamento psicótico,
como o "modelo" da mente constituída por
personagens pré e pós-natais.
Sofrimento
Proporcionando Simbolização
A mente enfrentando o sofrimento ganha o desenvolvimento simbólico.
A oposição entre amor, ódio, conhecimento
e o pensar, acerca da experiência emocional, permite
a construção de símbolos. Tal acontecimento
decorre da possibilidade de tolerar a depressão da
posição depressiva.
Os
símbolos, despojados do significado e da emoção,
criam a desmentalização e a mentira.
O encontro entre a mente do bebê e a mente da mãe
com capacidade de devaneio propicia a operação
mental que é o pensamento. A mentira é vinculo
que destrói a mente de ambas.
Os signos indicam objetos, coisas, etc. e também os
representa.
A
simbolização é uma capacidade inata que
só pode se desenvolver num vinculo humano. As progressivas
qualidades simbólicas partem do corpo com dados sensoriais
em estado bruto e carente de significado. Mas, na seqüência,
com a percepção da experiência emocional
é possível alcançar os ideogramas oníricos,
equiparações simbólicas como o pré-simbolo,
chegando aos pensamentos ligados em narrativas e aos novos
pensamentos.
Essa transformação simbólica é
necessidade básica como atividade primaria.
O
paciente e o analista, diz Bucci (2) põem na sua relação
núcleos afetivos que são
compartilhados na experiência bi-pessoal, que se renova
continuamente, através de códigos de processamentos
sub-simbolico, simbólico não verbal e simbólico
verbal como levando do corpo ao psíquico.
A
satisfação de expressar idéias, e o prazer
de simbolizar constituem capacidades inatas da espécie
humana.
Em
uma relação parasitaria, a mente primitiva despoja
a mente evoluída das conquistas simbólicas.
O
processo de simbolização tem duplo sentido:
por ser observado em uma direção tornando-se
cada vez mais complexo em sua evolução e em
outro sentido caminhando para degradação, deteriorando-se.
É
sabido que a onipotência, a violência e a mentira
exacerbam o ódio à verdade da mente. O desenvolvimento
simbólico pode ser usado a serviço de conseguir
mentiras e enganar as pessoas. Têm-se exemplos nacionais,
o execrável, mestre em criticas destrutivas, desejando
sempre o mal a alguém e a malvadeza, impiedosa provocando
intrigas, confusão e revolta.
A
passagem de alterações do corpo para mente,
tal como o não verbal para expressão simbólica
retira o peso e liberta o fenômeno do processo humano,
antes aderido ao soma.
O
alivio do sofrimento seria desligar, do corpo alterado, o
sintoma, e, conectá-lo ao símbolo não
verbal e depois o símbolo verbal, em última
instância tirando do soma e conduzindo ao psíquico.
Poder-se-ia
supor, dentre múltiplos códigos de pensamentos,
retirar o signo da concretude somática, através
da energia das emoções, para a abstração
simbólica onde há significação.
Considerações
sobre Experiência Clínica
As experiências com o corpo, difíceis de serem
expressas por palavras, seriam como palpá-lo, toca,
cheirá-lo, talvez como elementos sub-simbólicos.
Paciente
de 35 anos, casada, com um filho, engenheira, portadora de
gastroenterocolopatia funcional, chega ao consultório,
e andando, antes de acomodar-se, diz "sua casa é
agradável e gostosa". Logo, a seguir, entra em
narrativa, descrevendo episodio do dia anterior, quando muito
ansiosa, esperava a chegada, com muito atraso, do marido,
para jantar. "o senhor não pode supor, quanta
coisa eu disse, dentro da minha cabeça, sobre essa
espera. Todavia, antes dele chegar, tive diarréia com
três a quatro evacuações pastosas, precedidas
de cólicas abdominais terríveis. Na hora em
que meu marido chegou, não disse uma palavra.
Em
seguida, olha-me dizendo: "ele chegou e tudo foi aqui,
e, aponta o abdômen todo. Olha, foi aqui mesmo e nada
mais".
A-
mostra-me que perdeu tudo, até o bom de sua casa. Possui
somente o corpo, onde o ruim se localiza.
Sua
indicação parece mostrar desejo de transformação
da opção significa para sub-símbolos,
ainda em concretude.
Criação
de Espaço Mental Rara Memorizar
Em outra oportunidade, consegue lembrar-se de palavras proferidas
em sessão e que diziam respeito à pessoa da
paciente, atendida por mim, quando de um impedimento dela.
Por outro lado, acha curioso, em certo dia, ter-se esquecido
de levar seu filho ao escritório do marido, pois ambos
iriam à uma reunião.
Como
analista estaria, como nos conta Montagna (5), em disponibilidade
para recriar em sua mente alguma área obtida por afeto,
para memorizar, ficando surpresa por sentir em sua mente algo
diferente do que acontece com o aparelho digestivo.
Organização
mental
Como moldura dos episódios clínicos dessa paciente,
destaque-se a organização em sua mente, quando
percepção, visão e audição
vinculadas abrem caminho significativo: "ontem, me foi
possível, quando daqui sai, ter percebido, olhando
para o senhor e ouvindo suas palavras, a chegada de uma idéia
jamais ocorrida em minha vida: eu também existo como
meu marido e meu filho".
No
dia seguinte, ao entrar, caminhando para sentar-se, ainda
de pé, disse: "como está muito frio, creio,
para vir para cá, devo-me cobrir com uma manta".
Depois
de acomodada, poucos instantes a seguir, principia a falar:
"não sai da minha cabeça aquele episodio,
já lhe contei quando eu esperava muito inquieta o chegar,
usei o celular e desabafei, mesmo estando longe, falei, falei,
falei,... na hora eu não disse. Formidável o
celular!!!"
Perguntei-Ihe
sobre o receio daquele momento. Responde-me ter medo das palavras,
no sentido geral!!.
Manifestei-me
dizendo: agora, ao chegar, conta-me que percebendo que existe,
pede-me ampara-Ia cobrindo-a com uma manta pelo receio de
que eu possa falar e minhas palavras possam machucá-la,
neste momento.
Comentários
Propõe, pela sua grande ansiedade, que falemos pelo
celular, seu instrumento de proteção, que pode
usá-lo, desligando-se de mim, quando não lhe
agrado ao falar.
A
paciente parece não poder admitir que depende de um
objeto externo. O celular é instrumento, em que ela
produz e consome, de tudo que depende em sua vida, por essa
razão é... formidável.
O
processo psicossomático é dominado por consequências
de fatos físicos. Ficam distantes as seqüências
dos episódios mentais, porque nenhum é conseqüência
de outro.
Pode-se
partir do soma para o psiquismo, como da conseqüência
para a seqüência.
A
paciente esta muito distante para superar a tripeça:
frustrações, depressão e culpa.
A
expectativa de evolução favorável da
paciente consiste na sua capacidade de suportar a dor da frustração,
de ouvir o que não deseja.
Sua
capacidade de verbalizar somente vai aparecer, o que queremos
comprovar, somente depois de passar por depressão e
reconhecer-se culpada pelos acontecimentos específicos
de sua vida.
A
ligação entre paciente e analista não
é mensurável. Há algo profundo na comunicação.
Às vezes, falamos sem saber o que falamos. Talvez,
a conotação mais fácil seria a procura
de palavras simples indicadoras de dois objetos relacionados.
A
interpretação reside na analise das palavras,
sua trajetória e no jogo bi-pessoal analista-analisando
como caminho para o inconsciente.
Quem
é o sujeito?
Na exposição desta experiência clinica
cabe dizer: "você e eu e não você-
isto (abdômen) e eu", numa relação
racional entre dois seres humanos, sem um intruso (abdômen)!
O
intruso interrompe a percepção dela própria
e a minha. A paciente reside em outro município. A
distancia é grande para chegar ao consultório
e nunca chega atrasada. Chegar depois do horário marcado
talvez não agradasse a ela e nem à mim, com
o sinal que estaria errando.
Mas
quem é o sujeito? Ela, o abdômen ou eu?
Abre-se
novo espaço em sua mente
Em nova sessão, introduz-se na sala e ainda de pé,
fala: "tive muitas saudades de sexta-feira para cá.
Não me foi possível vir, pois submeti-me à
uma endoscopia. Nesse intervalo de tempo pensei no que estávamos
conversando aqui e, ao mesmo tempo, o que acontece entre eu
e o meu marido. Eu quando vou responder, procuro antes escolher
as palavras para falar o que é certo. Tenho constantemente
essa preocupação porque fico espremida dentro
de minha cabeça para selecionar aquilo que é
correto".
Respondo-lhe,
que me pede aumentar sua capacidade mental, abrindo espaço,
para receber- e não evacuar pelos intestinos -palavras
por mim pronunciadas, diferentes das suas.
Ao
que, a paciente logo comunica: "se o senhor abre espaço
na minha mente eu não preciso mais ficar espremida,
angustiada!!!"
Então,
poderia me ouvir, sem medo?
Diz
a paciente: '\enquanto o senhor falava de novo espaço
-eu senti qualquer coisa na barriga, mas logo passou..."
A
Violência de nossos dias
Acho terrível a violência nos dias de hoje. Não
poucas vezes, quando saio de carro, de repente paro em um
semáforo. Olho para um lado e vejo alguém -
um sujeito, em outro carro, observando-me como se fosse me
assaltar!
Subitamente,
o sinal verde permite me livrar desse susto! Penso ser um
assalto de brincadeira. Eu entrego o meu relógio e
pago minhas culpas.
Esse
seu relato está ligado a nossa relação
aqui? Eu contei por contar uma brincadeira como outra qualquer...
Parece,
em sua h isto ria, pagar para livrar-se de alguma coisa sua?
Não sei bem o que seja...
Receia
que seja eu o sujeito que assalte por atributos que tem?
Bem,
bem, bem. Temo uma coisa dentro de mim e não sei o
que é. Talvez, um receio que sempre tive, desde moça,
de provocar atenção e ser atraída por
muitos rapazes...
Um
desejo seu posto em mim?
Talvez...
não sei.
Uso
de antidepressivos durante as férias
Um dia antes de entrar em férias esteve em consulta
com gastroenterologista, que lhe receitou antidepressivo,
podendo tomar quando necessário.
A
paciente relata que decidiu tomar desde o primeiro dia de
férias. Começou com meio comprimido tendo diarréia
durante cerca de uma semana. Cessada a diarréia, passou
a tomar um comprimido ao dia, na suposição de
que poderia encurtar o processo analítico.
Chega
no primeiro dia, após as férias, cerca de 30
minutos antes, dizendo que vem fazendo sobre si mesmo um processo
de pressão para abreviar o tratamento comigo, uma vez
que está muito tensa sobrecarregada de tarefas muito
numerosas em seu trabalho, queixando-se da distancia de onde
mora e dificuldades de transito que enfrenta e que isso não
dá para agüentar! A- O que pensa sobre a coincidência
de tomar antidepressivo a partir do primeiro dia de férias? P- Penso que o antidepressivo apressa o processo
do tratamento! A- Sua diarréia coincide com alguma
coisa? P- Não sei. Não tenho idéia! A- Se o antidepressivo melhora o aparelho
digestivo não acha estranho ter diarréia? P- Não sei nada. Apenas tensa, confusa,
ansiosa e preocupada de que não dou conta do trabalho
exatamente, agora, que dispensaram vários funcionários
e tudo cai em cima de mim!*
Descobre
a hostilidade de um homem
Na sessão seguinte, encontra explicações
em um homem agressivo. Desde criança, minha mãe
fazia criticas, porque eu punha tudo para fora, com muita
raiva e ódio! Me transformou em outra mulher que devia
ouvir e não rechaçar as pessoas intempestivamente.
Quando comecei a trabalhar como advogada, tinha colega sócia,
que tolerava desaforos por uma ou duas horas de algum cliente
muito perturbado. Eu seguia no mesmo tom. Desfiz a sociedade.
Passei, em concurso, para Oficial de Justiça. Nessa
função, encontrei hoje, um homem muito agressivo,
quando lhe fiz entrega de uma intimação. Soltou
impropérios que me abalaram incontinente aqui na minha
barriga. Entendi na hora que devo ser diferente e não
aquela que tolera tudo.
A-
Não seria eu o homem agressivo que disse algo que não
gostou, e que lhe teria feito alguma pressão? P- Não o senhor falou o que é
justo. Pode ter sido duro, mas foi carinhoso. Esse homem não,
foi rude, tempestuoso e mau. Senti logo a dor na barriga.
Percebi que devo mudar, não devo continuar assim. Agora,
parece que estou entendendo.
Suas
tarefas
Desde cedo estou preocupada se consigo dar conta do que tenho
afazer durante o dia. Fico ansiosa com o volume de processos
à despachar, e, se tudo vou fazer no prazo que estipulei!
A minha preocupação é desde que acordo
até à noite. Estou sempre assim!
Lembro-me
quando criança tinha alergia bem aqui na barriga. Depois
de desaparecer a alergia veio a coceira no mesmo lugar e é
aqui hoje que estou me lembrando de ter cólicas intestinais
e diarréia. A- Fala-me de coisas e do corpo, que me mostra
tomando conta de tudo. Parece que nada sente ao estar junto
comigo? P- Eu falo sobre as tarefas Que desenho de
manhã até à noite. Sou assim!
* Com essas perguntas, procurei emprestar, sem êxito,
meu Ego para elaboração psíquica de suas
funções somáticas.
Medo
de viver a vida
P- O senhor parece um lorde. ..sua observação
sobre o uso de antidepressivo me pareceu tê-Io chocado
e, ao mesmo tempo, decepcionado com minha evolução
até o inicio das férias. A- O antidepressivo afogou possibilidades
de viver sua separação comigo, mas neste momento
consegue me ver... mas sem dizer o que sente. P- Refleti sobre a tolice que fiz, como se
eu tivesse me proposto a perder minha identidade com o uso
de antidepressivo.
Eu
recebi informação por telefone, que meu sobrinho
sofrera um acidente e fora hospitalizado. De repente, tive
uma sensação estranha dentro de mim, como alguma
coisa já experimentada no passado e que não
sei o que é! Nada senti no abdômen.
Não
tive repercussão alguma no aparelho digestivo. Mas,
essa sensação... Incontinenti, tive desejo de
ir vê-Io no Hospital.
A-
o receio de viver uma emoção foi dissipado
ao fazer alguma coisa concreta: ir ao Hospital? P- Não tinha pensado nisso. Ao chegar
ao Hospital vejo o rosto de meu sobrinho: uma metade cheia
de escoriações, sangue,olho saltado avermelhado,
impressionante, a oub"a metade normal, sem qualquer lesão,
lisa, perfeita. A- Poderia perceber as suas duas metades:
uma, a mente que lhe causa muito medo e a outra, o corpo domesticado
por suas exigências? P- Puxa! Que coisa! Olho para o sobrinho
vejo seus olhos vermelhos como se fosse chorar. Eu me contenho,
faço tudo para não impressioná-lo. Consigo
não chorar! A- Supõe o choro como alguma coisa
má? P- Ele poderia, ao me ver chorando, pensar:
"eu enlouqueci!!!" A- Sentimentos e emoções traduziram
loucura! Por essa razão se empenha na separação
da mente louca com o corpo supostamente sadio? P- Começo a entender o meu medo de
viver a vida! A- Sua experiência parece ajuda-Ia
a conhecer-se um pouco mais.
Considerações
Não se ajustam as mensagens corpo-mente. O soma não
consegue representação simbólica no aparelho
mental. O seu corpo parece anulado como fonte vital de informações
provocando lacunas no crescimento mental.
Em
conseqüência, seu plano de vida, não oferecendo
episódios de sensações e emoções,
gera crises somáticas.
O
imaginado "viver a vida" esconde pulsão de
morte como tributo a ser pago pela sua grande capacidade de
trabalho.
Sua
linguagem pré e paraverbal fornecem dados sobre a cisão
mente-corpo. Quando o corpo não consegue representação
simbólica ( episódios do acidente do sobrinho,
quando hospitalizado) a paciente é impulsionada a fazer
coisa!.
-Perdeu
tudo. Só tem o corpo, parecendo ter vida regida por
código visceral.Talvez, o medo de viver abriria caminho
do soma ao símbolo. A analise, em sua evolução,
pode proporcionar transformações com o surgimento
de mensagens com significados. É idéia estimulante
do crescimento, que pode, segundo Bion, envelhecer rapidamente.
Resumo
O grande desafio da Medicina Psicossomática, de nossos
dias, é descobrir conexões sinápticas
que articulem as emoções geradas pelos sistemas
neurais, ainda não registradas pela nossa percepção
profunda, com as mesmas emoções de nossas constelações
psíquicas que utilizamos nos cuidados bi-pessoais ou
grupais dos transtornos psicossomáticos.
A
grande esperança é transmitir a todas as pessoas
capacitadas para esses cuidados não esqueceram que
o doente psicossomático tem uma impotência régia
: não usa a sua mente e, como tal, foge de toda experiência
emocional porque o que percebe, sente, ouve e fala, não
pertencem a ele.
*************** Referências
1. Bion, W. (2000) Cogitações,
edição Francesca Bion. Tradução
de E.H.Sandler e P.C.Sandler, Imago Ed, 16 -30. 2. Bucci, W (1997) Symptoms and symbols.
A multiple code theory of somatization. psychoanalytic Inquiry,
151- 72. 3. Capisano, H. (1978) Afetos na enfermidade
psicossomática. Contribuições psicanalíticas
a Medicina Psicossomática. II Encontro Argentino Brasileiro
de Medicina Psicossomática.
Vol. 1.21 -49. 4. MC Dougal, J. (2001) Teatros do Corpos,
Ed, Martins Fontes, S.Paulo. 5. Montagna, P (2001) Afeto, somatização,
simbolização e a situação analítica.
Ver. Brás. Psicanalítica, Vol. 35(1) : 77 -88. 6. Pally, R. (1998) Emotional processing:
the mind-body connection. Internat. Joum. Psycho-Anal, 349-
62.