13 - Influências Histórico-Culturais
na Formação do Caráter do Brasileiro e
sua Relação com a Alta Grupal
Introdução
Caráter, impressão traçada na mente,
pode ser conceituado como maneira peculiar de sentir, pensar
e agir.
É marca pessoal impressa no próprio
desenvolvimento, onde o indivíduo observa-se como sua
própria criação. Maneira de agir e reagir
com predomínio de sentimentos dentro das relações
sociais.
O caráter tem, à custa do Ego,
função harmonizadora, organizadora e integradora
das tarefas impostas pelas exigências instintivas com
o mundo externo.
Formação
O aparelho psíquico, diz Freud (2), parece como modelado
à imagem de um organismo flutuando na água.
Sua camada mais externa recolhe estímulos e os transmite
para dentro, mobilizando excitações reativas
para a superfície. A parte externa vai se diferenciando
gradualmente no que respeita às suas funções
de percepção de estímulos como também
de descarga. O produto desta diferenciação se
converte em Ego.
A criança, quando em contato com o
mundo externo, nos conta Fenichel (1), mostra fenômenos
psíquicos derivados da combinação de
forças antagônicas, umas pressionando-a para
motilidade, outras movimentando-as em sentido oposto.
O caráter pode ser entendido como
estilo defensivo, quase um funcionamento contínuo e
padronizado, como tentativa para resolução de
conflito intrapsíquicos.
Considerem-se atitudes do Ego e exigências
instintivas como não mensuráveis. Por outro
lado, influências ambientais poderiam converter exigências
instintivas em atitudes do Ego.
Não se consegue adaptação
às exigências do mundo externo, excluindo as
influências das exigências do mundo interno.
O caráter mostra-se como processo
evolutivo, na maneira pela qual, o Ego admite, repele ou modifica
exigências instintivas influenciadas pelo meio ambiente.
Tem, o caráter, formações
de compromisso se considerarmos os derivados pulsionais do
ID, as defesas do Ego, os componentes do Super Ego como também
um padrão de comportamento desenvolvido e alcançado
através do tempo.
A formação do caráter
começa no útero e as influências arcaicas,
originalmente com os pais, se evidenciam no atendimento à
certas frustrações, no bloqueio de certos modos
de reações às frustrações,
na facilitação de outros recursos, no estilo
de lidar com os conflitos, nos valores e ideais na tentativa
de resolução do Complexo de Édipo, na
introjeção e identificação aos
genitores que possam servir como modelos para formação
do Ego, Ideal do Ego e Super Ego.
O meio ambiente pode criar meios para desejos
com objetivos específicos, como também influencía
valores de tal modo que o indivíduo ajusta suas necessidades
internas à realidade externa.
O ambiente geográfico como natureza,
meio climático, modo de vida rural ou urbano; o círculo
social pela distinção de poder aquisitivo, complicando-se
com a noção de classe, quando se particularizam
hábitos e costumes; o meio cultural quando em certas
situações de indulgência, alguém
sai de barraco de uma favela podendo ser doutor, sem razoável
formação de base, tal como tijolo sem textura
ou argamassa sem cimento para construção de
uma casa, ou em outros termos, para formação
do caráter.
No Brasil, doutor nem sempre significa título
acadêmico, incidência que não ultrapassa
3%, mas alguém poderoso, o “doutor”fazendeiro,
analfabeto que contrata um doutor de verdade, um médico
e lhe paga migalhas pelo seu serviço de salvar e proteger
nossos semelhantes, vivendo unicamente à sombra do
poder.
Em nosso país existem aqueles que
labutam com a cabeça, outros organizam trabalhos para
os demais e terceiros operam com as mãos.
Trabalhadores com as mãos, sem competência,
sem conhecimentos técnicos e culturais podem ter representatividade
alcançando na política, categoria de ser social.
Médico, advogado, engenheiro, agrônomo, odontologista,
economista, sociólogo, psicanalista, piloto, etc.,
são escolhidos em sã consciência, por
critérios técnico-científicos absolutos,
podendo ter competência, mas não necessariamente
representatividade. Grande número de brasileiros vota
na representatividade e não na competência.
A competência fertilizada com a representatividade,
como esclarece Maar(3), alça categoria do ser social
para, em sã consciência, ser escolhido pelo voto.
Corremos enormes riscos com personalidades
inatas, portadoras de fatores genéticos e dinâmicos
que podem ter dois caminhos: a) conflitos solucionados e ajustados à
realidade; b) fixação e regressões
influenciando condutas neuróticas e
mesmo psicóticas com sintomas manifestos e traços
patológicos.
Modificações
O caráter pode se modificar nas manifestações
das variações do equilíbrio fisiológico,
como na menarca, puberdade, menstruação, gravidez,
menopausa, pré-senilidade e senescência com modificações
do tono vital.
Sintomas, supostamente de fontes desconhecidas,
parecem assaltar a personalidade podendo-se falar em caráter
neurótico. Por vezes, perturbações por
este ou aquele episódio da vida podem tornar difícil
discriminar onde aparece o caráter, onde aparece o
sintoma.
Pode-se caminhar da neurose sintomática
para a neurose de caráter neurótico, ambos tentando
manejar exigências do mundo interno, subjetivos. Todavia,
a insuficiência do aparelho psíquico com desiquilíbrio
das instâncias mentais propicia surgimento de fenômenos
neuróticos prejudicando a adaptação adequada
à vida.
Na evolução histórica,
a imagem do Brasil era exótica, “terra dos papagaios”e
dos antropófagos. Em 1502, cartografia feita por portugueses
confirma esses dados. Em 1557 Hans Staden, alemão,
naufraga em nossas costas sendo capturado por índios
Tupinambás. Ele escreveu o livro intitulado “História
Verdadeira”.
Em 1632, fauna e flora do Brasil aparecem
nos livros de Albert Eckhout, mostrando índios cobertos
com plantas ou túnicas. Em 1828 aparecem as primeiras
imagens sobre o Rio de Janeiro através do litógrafo
suísso João Steinmann. Em 1890 surge o café
dando imagem de país próspero. Em 1920 o carnaval
e o samba passam a ser divulgados no exterior e se sedimenta
a imagem do povo brasileiro como cordial e muito alegre. Em
1956, Brasília é construída em 41 meses
como símbolo do progresso, e dois anos depois, com
a primeira conquista do campeonato mundial de futebol, na
Suécia, granjeia novos atributos: o país do
futebol. Acontecimentos políticos (repressão
militar em 1964, movimentos pelas “Diretas Já”em
1984 e a seguir a deposição do Presidente Fernando
Collor) se alternam com duas grandes conquistas mundiais no
futebol 1970 e 1994.
Ao lado desses dados históricos, o
Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São
Paulo procura desmistificar a fome com a escassez de alimentos,
mas resultante da redução da renda; o desemprego
com a precaríssima qualificação profissional;
a cidadania, não simplesmente o conhecer, mas viver,
conquistar a liberdade; o trabalho e a nossa responsabilidade
pelos atos do governo e pelas obrigações diante
das leis, conceito totalmente diferente daquele apregoado
em propaganda eleitoral.
O brasileiro observa modificações
com migrações internas, há cerca de 50
anos. No início, movimentos para as grandes capitais,
a seguir marcha para o oeste e atualmente procura de pólos
regionais no intento de ter emprego para usufruir alimentação,
saúde, educação, água, esgoto,
energia elétrica, telefone, etc.
A troca do campo pela cidade, em acelerado
processo de mutação na procura de novas oportunidades
de vida, trouxe, de um lado, crescimento com aumento do produto
interno bruto e de outro, desesperança, abandono, miséria,
fome, violência e crime.
O caráter do brasileiro, em função
de inúmeras influências, funciona como sanfona,
num vai-e-vem contínuo, trinoteante, ameaçando
sua realidade moral, levando-o ao individualismo e ao paternalismo
do Estado.
Nos países da Europa e nos Estados
Unidos, os contribuintes criam impostos e elaboram leis. Em
conseqüência, pagam tributos, respeitam e cumprem
disposições legais, porque usam a primeira pessoa
do plural: “nós criamos os impostos, estabelecemos
as leis e pela legitimidade dos acontecimentos respondemos
pelo que pensamos e fazemos”. Existe o “Nós”.
No Brasil, não nos sentimos responsáveis.
Todas as obrigações são do governo. Eles
criam impostos e fazem as leis. O povo, em expressão
ponderável, mostra rebeldia e utiliza astúcia,
esperteza, jeitinho para não pagar tributos e não
respeitar as leis. Existe o “Eles”.
Há diferença enorme entre “Nós”e
“Eles”. Presumivelmente, no Brasil de norte à
sul, festas religiosas se sucedem durante todo ano com vibrações
e devoções extraordinárias dos fiéis;
em qualquer reunião social, com toda etiqueta, quando
o samba é tocado terminam os rigores das vestimentas.
Tudo muda. O contágio é alucinante, podendo-se
observar esse fenômeno em outros países; o carnaval
de três dias aumenta para três semanas; o futebol
toca na alma do brasileiro e sente falta quando não
é jogado em um fim-de-semana!
Festas religiosas, samba, carnaval e futebol
transcendem, através de Deus, entre os brasileiros,
inoculando-os de amor, paz, alegria e espírito hospitaleiro.
É o que envolve o filho desta nação incomparável
que respeita, admira e espera o paternalismo do Estado. Entenda-se
agora o “Nós”dos brasileiros como filhos
e “Eles”, os do governo como pais.
A alegria, o amor e a paz do brasileiro superam
revoluções, contra-revoluções,
getulismo, militarismo torturante, integralismo, fascismo,
nazismo, seqüestros, fome, miséria, desemprego,
violência, drogadição, etc., que torna
o Brasil muito diferente de qualquer nação do
mundo. Veja-se a nossa irmã vizinha melancólica,
triste, sem carnaval, com tango melódico de solidão,
ciúmes, ódios, traições...
Caráter do Brasileiro e a
Alta Grupal
Leal(4), expressão de grande inteligência em
Grupanálise em Portugal, propõe para avaliação
do desenvolvimento grupal uma escada, como metáfora.
Nos degraus inferiores são dispostas
as características primitivas de expressão corporal
e sensorial, os equivalentes corporais de emoção,
a linguagem dos órgãos, conversão, relações
e referências de estruturas orgânicas.
Subindo nos degraus mais elevados, alojam-se
conversação corrente, comunicações
gerais, discriminações, pré-concepções,
conceitos, relatos impessoais, linguagem abstrata, simbolismo,
etc.
No alívio, o psicoterapeuta analítico
de grupo considera todos esses dados entre os interlocutores
dos sub-grupos e do grupo como um todo. Põe, em relevo
como saúde mental, a liberdade e a flexibilidade de
subir e descer os degraus como treino ativo do Ego, em cada
momento do aqui-agora-conosco como adaptação
ao ambiente grupal.
Importa avaliar se o paciente registra ou
não fixidez em seus movimentos na escada da comunicação,
pois a alta visa sentido da realidade, capacidade de estar
no lugar do outro como também aproximação
cada vez maior do imaginário com a realidade.
Percebe-se Grupo com visão profunda
quando se inteira das vivências inconscientes ao abordar
a existência do incomunicável que se encontra
bloqueado, como também o incomunicável que de
uma hora para outra pode não ser contido.
O caráter do brasileiro, pela imensidão
de influências tem configuração continental,
mostra flexibilidade em todos os degraus da escada, mas habitualmente
escorrega, quando percebe que o término do processo
grupal não é outorgado pelo Grupo, mas conquistado
por ele no Grupo. Acostumado ao paternalismo do Estado, aguarda
o pronunciamento final do psicoterapeuta analítico
de grupo.
O caráter do brasileiro na Alta Grupal parece, por
vezes, dissociado: “Ele”- psicoterapeuta analítico
de grupo - deve conceder o alívio e não “Nós”.
Resumo
Caráter, entendido como maneira de sentir, pensar,
agir e reagir como marca pessoal, se modela desde o útero
com influências sucessivas de mãe e pai na infância,
além de incontáveis fatores geográficos,
sociais, culturais, etc., interferindo em hábitos e
costumes que podem, pela imensa variabilidade, promover características
particulares do homem brasileiro que vive em país continental
com amor, paz, alegria e espírito hospitaleiro.
O A. acredita na utilidade das escadas, como
metáfora proposta por Leal, para avaliação
das condições de paciente desejoso de conseguir
alívio, ao término do processo analítico
grupal.
O subir e o descer, onde características
arcaicas ocupam os primeiros degraus e as mais evoluídas
os últimos, mostram flexibilidade ou rigidez de movimentos,
índices
de maior ou menor maturidade, sentido de aproximação
ou não da realidade, capacidade de estar ou não
no lugar do outro, etc.
O brasileiro, com seu caráter continental,
sobe e desce todos os degraus com muita flexibilidade, mas
no aqui-agora-conosco no término do processo, habitualmente
escorrega socorrendo-se ao psicoterapeuta analítico
de grupo e ao próprio Grupo como pai e mãe para
a apreciação final. “Eles”decidem
como o Estado paternalista.
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Referências Bibliográficas
1. FENICHEL, O. : A Estrutura Psíquica.
Teoria Psicoanalítica de las Neuro-
sis- 26-29, Editoral Nova, Buenos Aires, 1957.
2. FREUD, S.: O Trabalho
de Condensação- 272-293, Obras Completas de
S.Freud, Editora Standard, Vol. IV, Imago, Rio de Janeiro,
1987.
3. MAAR, W. L. : Competência
e Representatividade - Artigo publicado em
“O Estado de São Paulo”- São Paulo,
1994.
4. LEAL, M. R.: Parâmetros
da Grupanálise - 50-57, Grupanálise - Um Pro-
cesso de 1963-1993, Lisboa, 1994.
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* Trabalho apresentado no VIII Congresso Brasileiro de Psicoterapia
Analítica de Grupo, 13 a 16 de outubro de 1994, Angra
dos Reis, Estado do Rio de Janeiro.
** Professor Analista-Didata Titular do Instituto
de Psicoterapia Analítica de Grupo de São Paulo
- Fundador e ex-diretor do Instituto de Psicoterapia Analítica
de Grupo de São Paulo
- Membro Titular do International Association Group Psychotherapy
- Membro Fundador da Associação Brasileira de
Psicanálise
- Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise
de São Paulo