Quando se ouve de paciente, história
de sua doença, percebem-se recursos para obscurecer omissões
ou distorções nas suas experiências de vida.
Descrição de pormenores, senso firme, convicções
de lembranças podem fornecer poderosa camada protetora,
impedindo importantes fantasias inconscientes de se tornarem
conscientes.
Essa resistência, caracterizada por repressão,
é entendida mo mito pessoal. Assim, narrativa imaginária,
inventiva, de ficção, constitui idéia
falsa, autêntica exploração do paciente,
sem correspondência com a realidade.
Tratam-se de representações de fatos, de experiências
exageradas pela imaginação. O mito pessoal é
mentira, fraude, impostura, lembrando o “mythos”
do gergo, narrativa dos tempos heróicos de significação
simbólica aos deuses encarnadores das forças
da natureza.
São da condição humana habitual, a existência
de fatos inacreditáveis, sem realidade, repetindo-se
a história fabulosa dos heróis da antiguidade.
Não existe paciente que não tenha na história
de sua vida um mito, uma mentira, algo inacreditável,
sem realidade, às vezes, com tendência impulsiva
para a mentira.
Todo indivíduo traz em sua trajetória vital
“Protons Pseudos”, isto é, acontecimentos
anteriores que na aparência não foram importantes
quando ocorridos, mas cujos traços ficaram gravados
na mente. Esses registros são mostrados por Freud em
1895 no Projeto, em 1896 na Etiologia das Neuroses e em 1937
na Análise Terminável e Interminável.
De repente, esses acontecimentos adquirem um poder que não
possuíam antes e passam a ser vivenciados durante tratamento.
Tais passagens são comumentes somatizadas, cabendo
importante tarefa de desmistificar, desnudar na procura da
verdade.
Essas ocorrências mentais podem gerar efeitos sobre
episódios contemporâneos e, segundo sua predominância,
modificam o soma e alteram o psiquismo. São injúrias
ameaçadoras da integridade pessoal.
É um todo - presente e passado - em ação
recíproca.
Impõe-se um alerta: tais conhecimentos não
podem escapar da percepção de quem se propõe
efetuar um tratamento.