11 - Grupos Psicoterápicos
em Medicina Psicossomática
Introdução
Há 17 anos trabalho com Grupos. No início de
minhas atividades, os pacientes, para serem admitidos, eram
selecionados homogeneamente, em função de determinadas
enfermidades orgânicas. O primeiro grupo foi constituído
somente por pacientes portadores de Reto Colite Ulcerativa
Inespecífica; o segundo por sofredores de Úlceras
Duodenais; o terceiro enfermos de Enterocolopatias Funcionais
e o quarto de Enxaquecosos.
Todos os grupos, com pacientes selecionados
por doenças orgânicas, tiveram de cinco a dez
membros, com tempo de duração de um ano e meio
a dois anos e, em todos eles, uma sessão por semana,
de uma hora e meia.
Depois de minha experiência, selecionando
pacientes por enfermidades, passei a organizar grupos heterogêneos,
conduta que constitui minha prática atual.
Os grupos heterogêneos, abrigando pacientes
de qualquer enfermidade orgânica, bem como neuróticos,
sem manifestações físicas características,
são abertos, sem data de conclusão, com duas
sessões por semana, de uma hora de duração.
Em todos os grupos tentei aplicar recursos
que a Psicanálise propicia, particularizando os aspectos
da transferência e da resistência. Utilizei o
método de associações livres para transmitir,
neste trabalho, idéias da mudança progressiva
de minha conduta, em função da experiência
neles adquirida. Procuro mostrar a evolução
da técnica grupal. Na exposição deste
trabalho, a metodologia utilizada é entremeada de resultados
parciais.
Grupos Homogêneos
Os grupos, com integrantes sofredores de determinadas doenças
orgânicas, foram criados com objetivo de aliviar sintomas.
Em linhas gerais, essa meta foi alcançada. Nenhum dado
significativo no que respeita a modificações
na personalidade dos pacientes foi registrado.
A remissão dos sintomas, obtida nos
pacientes com Úlcera Duodenal, poderia ter sido conseguida
espontaneamente, uma vez que, tal resultado parcial, pode
ser obtido sem qualquer tratamento. Todavia, selecionamos
pacientes com processos ulcerosos, sem complicações
primárias, mas com períodos de acalmia muito
reduzidos. Obteve-se, de fato, remissão mais significativa
com períodos de acalmia mais prolongados, mas tal ocorrência
não deve ser considerada como real efeito do tratamento
psicoterápico.
O medo, vinculado às diarréias,
foi progressivamente diminuindo nos pacientes com Enterocolopatias
Funcionais e as cólicas intestinais, ligadas às
sensações culposas e agressivas se tornaram
menos freqüentes.
A remissão das crises de dores de
cabeça, entre os Enxaquecosos, foi muito variável.
Em dois, os períodos de acalmia diminuíram e
as dores se tornaram mais acentuadas; em dois, não
houve qualquer mudança e em três, surgiam cada
vez mais espaçadamente e as dores progressivamente
menos intensas.
Vou particularizar alguns dados gerais referentes
ao trabalho em grupo de pacientes com Reto Colite Ulcerativa
Inespecífica (1). Antes de cada sessão procedia-se
a evolução clínica de pacientes por pacientes,
repetindo-se a anamnese clássica, tal como um clínico
realiza em pacientes, que voltam periodicamente ao consultório.
A seguir, desenvolvia-se a análise individual em grupo,
conduta que progressivamente fomos abandonando e que registramos
como valor histórico. Todos os doentes se inclinavam
a contar pormenores dos sofrimentos, sem qualquer ligação
com os demais integrantes do grupo, como se não existissem.
Durante todo ano de 1958, cinco pacientes
submeteram-se a essa conduta psicoterápica em grupo.
Eram quatro de forma grave e uma de forma média. Os
quatro de forma grave tinham indicação formal
e a paciente de forma média não respondia à
tratamento clínico.
Cada três meses, os pacientes submetiam-se a controle
endoscópico, enema opaco, fezes: parasitológico
e cultura; hemograma, proteínas e frações,
etc.
Progressivamente, durante a psicoterapia,
os pacientes foram abandonando os planos terapêuticos
clássicos e, nos últimos meses, só utilizavam
carbonato de cálcio em crises emocionais leves. Na
última semana de dezembro de 1958 foi concedida alta
parcial.
Nenhuma medida especial a partir de janeiro
de 1959 foi proposta e nenhum medicamento foi recomendado.
Em setembro de 1959, coincidentemente três
dos cinco pacientes tiveram crises de tal ordem, que se tornou
necessário reuni-los outra vez. Os três pacientes
eram os de forma grave que tinham indicação
cirúrgica. Os dois outros nada tiveram, mas foram também
convocados para novas sessões psicoterápicas,
junto com os demais.
Durante todo o mês de setembro de 1959,
foram os pacientes analisados uma vez por semana, em sessão
de uma hora e meia. As eventuais causas emocionais das novas
crises foram devidamente estudadas.
Nova alta foi concedida em outubro de 1959
e, até o presente, não tivemos notícias
de novas crises, que necessitassem recursos médicos.
De janeiro de 1961 e de 1971 todos os pacientes
foram convocados para revisão clínica, evidenciando
episódios diarréicos, que não exigiram
medidas terapêuticas especiais.
Como é de conhecimento de todos, há remissões
clínicas na Reto Colite Ulcerativa Inespecífica,
sem necessidade de recursos médicos e, por essa razão,
poderíamos concluir que as acalmias colhidas nesses
cinco pacientes não apresentam maior valor significativo.
Quatro pacientes haviam recebido em 1957, indicação
cirúrgica para uma colectomia parcial, o que lhes obrigaria
ao uso definitivo do ânus artificial. Todavia, os benefícios
da psicoterapia de grupo permitiram a esses enfermos chegarem
até 1975, sem a programada mutilação
operatória.
Procurou-se nesses grupos, selecionados homogeneamente
por determinadas enfermidades orgânicas, verificar a
relação entre sintomas físicos e sintomas
psíquicos.
Parece que pacientes com determinadas doenças
orgânicas (Reto Colite Ulcerativa Inespecífica,
Úlcera Duodenal, Enterocolopatias Funcionais e Enxaquecas)
não revelam sintomas psíquicos característicos.
Grupos Heterogêneos
Minha experiência com grupos heterogêneos permitiu
abandonar aquela antiga seleção de pacientes
por doença. Em meus primeiros grupos heterogêneos,
muitas sessões foram inundadas por cortejos de sintomas
físicos, única forma dos pacientes se ligarem
com o analista e com os demais integrantes do grupo. À
medida que os sintomas físicos iam desaparecendo, as
dificuldades de comunicação verbal iam surgindo
e, nessa altura, alguns pacientes, não suportando o
tratamento que se inclinara para uma relação
dos sentimentos de pessoa para pessoa e destas para o analista,
começam a abandonar o grupo. O abandono é apontado
como provável receio de viver sem sofrimentos físicos
e impossibilidade do paciente de falar de suas emoções
com os demais integrantes.
Durante algum tempo ouviam-se relatos históricos
passados, onde o analista era o continente das evacuações,
no sentido de Bion. À medida do esvaziamento, o silêncio
foi aparecendo e a inquietude tomando conta do grupo. Nesta
altura, um integrante abandona o grupo e, tal conduta, é
interpretada como medo do paciente começar a tomar
contato consigo mesmo e de correr o risco de morte.
Alguns começam a perceber que ingressaram
no grupo apenas para se livrarem de sintomas orgânicos
e jamais lhes ocorre que manifestações físicas
derivam de perturbações de personalidade doente.
Quando começam a perceber que a causa dos sintomas
deriva de alterações mentais, alguns parecem
não suportar e ameaçam abandonar o tratamento.
Essa conduta é mostrada como possível receio
de ficarem “loucos”.
Aos poucos, o grupo começa a vivenciar
o “aqui, agora, conosco” e passa a entender que
o puro relato histórico do que ocorre fora das sessões
não lhes propicia nenhum avanço verdadeiro.
O silêncio volta a aparecer e a inquietude dos movimentos
das mãos, pés, cabeça, corpo e etc.,
é interpretada como tentativa de comunicação.
Alguns começam a se irritar com os outros apelando
para que falem. Subitamente surgem palavras ásperas
de um paciente contra o outro. Uma paciente é criticada
porque teria desejado liderar o grupo, pontificando entre
os demais. A atacada retruca, dizendo que jamais tivera intento
de ser a “mais saliente”, pois se habitualmente
toma a palavra é porque os outros são mais medrosos
em dizer o que sentem. “Você quer ser a preferida
do analista” - diz a atacante. “Não quero
coisa alguma” assegura a ofendida. “Creio que
você é uma grande invejosa, metida a besta, uma
terrível complexada, sua gordinha barriguda”.
A “gordinha” se levanta, xinga e subitamente abandona
a sessão.
Interpreto o ocorrido dizendo que essa era
a “loucura” que temiam vivenciar no grupo. No
fundo, a “loucura” era uma luta, que até
então se fizera surda, pela preferência ao analista.
Aqui, Agora, Conosco
No início de outra sessão, uma paciente começa
afirmando que nada vai dizer. Outros integrantes do grupo
estranham, uma vez que a paciente sempre se dispunha a falar
livremente. Há silêncio de alguns minutos, acompanhado
de vários olhares fixos dirigidos ao analista, que
presume o silêncio como suposta revolta do grupo ao
“aqui, agora, conosco”.
“É mesmo”, diz outro paciente,
“o senhor de certo modo “proibe” que se
fale de assuntos que trazemos de fora do grupo”. Outro
participante adianta que “as melhores sessões
são aquelas onde o tema surge no momento que o grupo
se reúne e não na “conversa fiada”
que cada um traz de casa”, ao que outro integrante diz:
“o senhor é um verdadeiro bajulador do analista
e está sempre do lado dele”. Nesse momento todos
falam. Os ânimos se acirram. Ouvem-se palavras ásperas
de um para outro.
Observo que minha recomendação
de preservar o “aqui, agora, conosco” sacode o
grupo.
Diz um paciente que chamaremos de Alfredo:
“é verdade... pois há poucos instantes
senti um alívio, que há muito tempo queria conseguir.
Agora, foi possível dizer que eu não gosto de
Lucia. Acho essa senhora muito metodizada, rija e inflexível”.
Ao ouvir essas palavras, Lúcia enrubesce e fica estática.
“É...?” diz Lúcia; “você
está sendo mal-educado e desrespeitoso”. “Aí
está” esclarece Alfredo, “dizer o que se
sente é ser considerado sem educação”.
Miguel, outro integrante, diz: “o grupo está
me permitindo que eu tenha coragem de dizer à Helena
quanto a desejo como mulher e à Ely, quanto eu a acho
aborrecida, irritante e intragável”. Helena se
desconcerta e Ely se enrubesce de raiva e diz: “seu
cretino, mentecapto e idiota” e, ao levantar-se da cadeira,
faz menção de agredi-lo, ao que, os próximos,
impedem-na de exteriorizar sua ira.
O analista observa, dizendo que o grupo valorizando
o “aqui, agora, conosco”, parece exteriorizar,
sem tanto receio, o que um sente pelo outro.
Há silêncio de alguns minutos.
É mostrado o silêncio, como
expressão emocional, do que o grupo sente pelo analista
e que parece ter sido poupado.
“Tem razão”, diz Salvador,
“naqueles momentos de silêncio tive vontade de
falar, mas o medo me invadiu. Agora, que o senhor tocou no
ponto, posso dizer quanto a sua pessoa me infunde sentimentos,
ora de admiração, ora de inveja, ora de raiva”.
“Estou agora à vontade”,
diz Maria Angélica, “para dizer quanto eu gostaria
de casar com o senhor. Por sinal, vejo-o sem aliança
de casado!” “É”, diz Flávia,
“venho notando há tempo esse pormenor”.
“O Dr. Capisano”, diz Valéria, “anda
provocando a gente, pois não é possível
que um homem desses não seja casado!” “O
diabo”, diz Ângelo, “esse homem nunca fala
da vida dele, é um mistério e a gente aqui acaba
falando o que não quer”.
Mostro o grupo mobilizando o que sente por
mim e se frustrando porque não corresponde às
suas expectativas.
“O senhor frustra a Maria Angélica,
mas a mim, não”, diz Ângelo. “Não
se esqueça”, diz Salvador, “que você
Ângelo, me disse uma vez na sala de espera, que queria
ser analista como o Dr. Capisano”. “Ora, desejar
é uma coisa e ser frustrado é outra”.
O grupo mostra que além de exteriorizar
o que sente, começa a evidenciar a qualidade de seus
sentimentos para comigo.
É dentro desse diapasão que
se procede atualmente a vivência em meus grupos.
Reconheço, como forma indireta de
proibir, a recomendação que atualmente faço,
na primeira sessão de um grupo, solicitando aos pacientes,
que evitem, na medida do possível, relatos pessoais,
com históricos intermináveis e convidando-os
para a vivência do “aqui, agora, conosco”.
Os pacientes se sentem pressionados a não
trazer algo de memória. Esta é rejeitada por
trazer coisas do passado e perturbar vivências presentes.
A experiência, com tal recomendação, mostrou,
por outro lado, emergência significativa de sentimentos,
até então, profundamente bloqueados.
Presumo ser trabalho ativo, mas a experiência,
com as modificações evolutivas adotadas, deve
se prolongar por mais tempo e em outra oportunidade, nova
avaliação parece ser tarefa significativa.
Resumo e Conclusões
O A. procura mostrar a evolução
da técnica grupal em 17 anos de trabalho, com grupos
psicoterápicos, em Medicina Psicossomática.
Expõe experiência com grupos homogêneos,
onde os pacientes eram selecionados em função
de determinadas doenças orgânicas: Retocolite
Ulcerativa Inespecífica, Úlcera Duodenal, Enterocolopatia
Funcional e Enxaqueca. Passa a constituir grupos heterogêneos,
abrigando pacientes de qualquer enfermidade orgânica,
bem como neuróticos, sem manifestações
físicas características, conduta que constitui
prática atual.
Em todos os grupos foram utilizados recursos que a Psicanálise
propicia, particularizando os aspectos da transferência
e da resistência.
A evolução na conduta com os
grupos psicoterápicos pode ser melhor avaliada na leitura
dos itens, que se seguem:
1. De grupos
fechados.
1. Para
grupos abertos.
2. De grupos com duração
determinada de um ano e meio a dois anos.
2. Para grupos com duração,
sem data de conclusão.
3. De grupos com sessões
de uma vez por semana, com uma hora e meia de duração.
3. Para grupos com sessões
de Duas vezes por semana vezes por semana, com uma hora
de duração.
4. Do objetivo simples
em eliminar sintomas.
4. Para investigação
voltada para o conhecimento da personalidade total.
5. Da anamnese clínica
antes do início das sessões.
5. Para a técnica
através das associações livres.
6. Do uso de medicamentos
prescritos pelo psicoterapeuta.
6. Para essa função
exercida por médicos, fora dos grupos, como retaguarda
clínica e psiquiátrica.
7. Da técnica
interpretativa em grupo.
7. Para a técnica
interpretativa de grupo.
8. Do apoio aos doentes
antes do início das sessões.
8. Para a técnica
interpretativa visando transferência a resistências.
9. Da permissão
do interminável relato histórico pessoal.
9. Para recomendação
da vivência Do “aqui, agora, conosco”.
10. Da pesquisa do distúrbio
da personalidade por doença orgânica.
10. Para investigação
das modificações do aparelho psíquico,
sem dar ênfase ao tipo de doença orgânica.
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Referência Bibliográfica
01. CAPISANO,H.F. e RUDOLFER, N.S.: Aspectos
Psicossomáticos da Retocolite Ulcerativa Inespecífica,
174-178, I Vol., Anais do I Congresso Latino Americano e II
Internacional e X Brasileiro de Proctologia, 11 a 17 de setembro,
São Paulo, 1960.
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* Trabalho apresentado no 3º Congresso Internacional
de Medicina Psicossomática - 16 à 20 de
setembro de 1975 em Roma.
** Membro do International College of Psychosomatic
Medicine.
Membro Fundador da Associação Brasileira de
Medicina Psicossomática - SP.
Membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São
Paulo.