7 - Significados e Usos de Termos
Correntes em Psicossomática: da organoneurose ao transtorno
somatoforme. - João Paulo Correia Lima
João
Paulo Correia Lima - psicólogo
1.-
Introdução
Dois
fatores colaboram para uma incômoda variedade conceitual
para os que tem interesse na área de Psicossomática,
que dizem respeito ao múltiplo uso do vocábulo.
Um deles é sua origem histórica, que fez surgir,
no seu desenvolvimento, várias concepções
de “psicossomática”, com sutis ou grandes
diferenças. Esse assunto foi abordado com grande
propriedade no artigo presente nessa seção
do site pela psic. Aliene. O segundo motivo, que ora abordamos
no presente escrito é a existência de diversos
termos similares, usados com não muito cuidado e
provenientes de diferentes épocas com seus peculiares
desenvolvimentos e problemas metodológicos. A saber:
O
presente artigo é uma pequena revisão de definições,
não só no sentido de esclarecer quem se inicia
na área e sente dificuldade com o manejo dessa terminologia,
mas também uma colaboração para que
haja maior uniformidade no uso dos mesmos.
Para
isso, vamos observar a concepção psicanalítica
clássica (representada aqui pelos textos do Freud
e Otto Fenichel) e da OMS (CID-10). Penso serem estes os
pontos de vista com maior consenso e/ou penetração
internacional, critérios que considero muito importantes.
A Ciência é uma atividade social e grupal e
a fragmentação em grupos isolados, com linguagens
fechadas, além de improdutivo, me parece suspeitamente
narcísico. A Ciência deve ser exotérica
e não esotérica. E devemos nos esforçar
em falar linguagem comum, se não por método,
pelo menos por gentileza e sociabilidade. Com esse propósito
apresento o resultado do meu esforço.
2.- Significados e Usos de Termos Correntes em Psicossomática
2.1.-
psicogênico: é oposto e par de “somatogênico”.
Esse par de termos assume que a doença, transtorno
ou mal estar, poderiam ter duas origens: no corpo (soma),
de um lado, e de outro, as emoções (o psíquico).
Embora, ainda haja quem defenda esse pensamento, modernamente
há uma forte inclinação a não
usar esses termos, pois carregam a concepção
de monocausalidade, i. e., a etiologia, a gênese,
do transtorno seria ou física ou psíquica,
não sobrando espaço para considerações
multicausais, do tipo físico e psíquico, abordagem
de maior consenso atualmente (RODRIGUES & FRANÇA,
1997). Mas, na prática, sem se esquecer da multicausalidade,
pode se encontrar o termo “indicando que o clínico
considera eventos de vida ou dificuldade óbvios como
tendo um papel importante na gênese do transtorno”
(OMS - CID-10 -1993). Utiliza-se também “psicogênico”
quando não há qualquer lesão tecidual,
atual ou pregressa, que justifique um sintoma físico.
O
poder discriminativo do termo, portanto, se restringe a:
a) dar ênfase ao fator emocional presente no quadro:
em um caso clínico apresentado em um livro clássico
(MELLO Fo., 1992), o autor nos conta de um paciente que
enfrentava uma fase dificílima de sua vida: além
de a esposa ser portadora de lupo eritematoso sistêmico,
somou-se, repentinamente, dificuldades com sua família
de origem, da qual estava distante e nada poderia fazer.
Nesse momento, pensou: “é pressão demais
para mim, não estou podendo suportar, acho que vou
ficar doente!” No dia seguinte, aparece um quadro
de intensa expectoração brônquica, com
extensa lesão pulmonar na radiografia. O quadro desapareceu
poucos dias depois. A utilização de “psicogênica”
para se referir à origem desse quadro não
seria incorreta, pois há um fator de forte stress
envolvido.
b) Ausência de lesão que justifique o sintoma:
um exemplo seria de dor crônica, em que o paciente
relata dor, mas não se encontra uma causa física,
lesão tecidual ou ameaça real à integridade
tecidual, conforme pode-se encontrar no interessante capítulo
sobre dor de Alfred Lemle in MELLO Fo. (1992), que sugerimos
a leitura.
De
qualquer modo, ao se usar esse conceito, seja ao indicar
forte componente emocional na origem ou ausência de
lesão que justifique o sintoma, devemos ter em mente
que o termo acaba enfatizando o conflito “psicogênese
x somatogênese”, alimentando a idéia
de monocausalidade, dificilmente sustentável.
2.2.-
psicossomático: uma explicação completa
sobre a Psicossomática (com “P” maiúsculo)
pode ser encontrada na presente seção no artigo
da atual presidente desta entidade, psic. Maria Rosa Spinelli.
Mas, além do sentido por ela indicado, há
um sentido corriqueiro, menor, que durante um período
serviu para indicar que havia participação
importante de conflitos e emoções na origem,
agravamento e/ou manutenção de um quadro.
Mas, não se usa mais essa palavra com essa conotação,
por uma simples razão: “porque o uso desse
termo poderia ser tomado para implicar que fatores psicológicos
não exercem um papel na ocorrência, curso e
evolução de outros doenças, as quais
não são assim chamadas.” (OMS –
CID-10, 1993).
Há
uma enormidade de modos e maneiras dos fatores psicológicos
estarem presentes em inúmeras síndromes, transtornos
ou doenças:
- seja diretamente, afetando a própria função,
como em transtornos alimentares ou disfunções
sexuais ou como importante fator associado a doenças
não reconhecidas essencialmente como transtornos
emocionais, por exemplo, asma ou hipertensão.
- Seja indiretamente, como por exemplo, hábitos inadequados
ou de risco (como fumar, não adesão a tratamentos,
agressão a terceiros, dirigir com imprudência,
bebida em excesso, etc, etc, etc...). Todos fatores comportamentais
e emocionais fortemente associados na origem de transtornos
somáticos diversos.
Em
resumo, defende-se hoje a posição de que a
doença não é monocausada, mas sim,
multicausada. Todas as doenças ou transtornos têm
múltiplos fatores (RODRIGUES & FRANÇA,
1997). E os fatores emocionais estão envolvidos de
várias maneiras no mesmo quadro, seja como causa,
seja como efeito. Isso porque a doença sempre tem
um impacto na vida da pessoa também. Veja, por exemplo,
a poliomielite ou traumatismos decorrentes de acidentes
automobilísticos com rompimento medular.
Por outro lado, as respostas emocionais de uma pessoa ocorrem
como resposta a um contexto (social). Desse modo, até
as crianças anencefálicas de Cubatão
são passíveis de uma abordagem psicossomática.
A tarefa da psicossomática é determinar quais
e como os múltiplos aspectos da doença se
entrecruzam, dar atenção a todos esses fatores
que gravitam em torno dos fenômenos, portanto, bio-psico-social.
Como disse Danilo Perestrello, “não há
doença psicossomática, todas as doenças
são psicossomáticas” (PERESTRELLO, 1989).
2.3.-
“fundo emocional”: esse termo era usado com
o mesmo sentindo de “psicossomático”
apontado acima ou também “psicogênico”.
Não chegou a ser um termo técnico, mas uma
expressão coroada pelo uso. Mas, obviamente, não
se deixou de notar que há circunstâncias em
que o fator emocional é dominante no quadro e que
há outras em que o mesmo aparece fortemente associado
a um transtorno em que é habitual se considerar outra
origem.
Na
sistemática atual (apresentada na CID-10), as coisas
ficaram assim: temos a classificação internacional
de doenças, divididas em volumes, identificados por
letras, para cada ramo ou especialidade. Desse modo, dentro
do volume dos transtornos mentais e de comportamento, os
transtornos orgânicos com uma influência de
fatores psicológicos foram agrupados da seguinte
maneira:
F10-19
– Transtornos mentais e de comportamento decorrentes
do uso de substância psicoativa: obviamente o uso
desse tipo de substância acarreta problemas físicos
e tem sua origem em fatores psicológicos.
F40-48
– transtornos neuróticos, relacionados ao estresse
e somatoformes:
- transtornos fóbico-ansiosos: agorafobia, fobias
sócias, específicas, etc.
- outros transtornos ansiosos: de pânico, de ansiedade
generalizada, etc.
- transtorno obsessivo-compulsivo: atos e pensamentos, rituais,
etc.
- reação a estresse grave e transtornos de
ajustamento: estresse pós-traumático, reação
aguda a stress, transtornos de ajustamento, etc.
- transtornos dissociativos (ou conversivos): amnésia,
fuga, estupor, transe e possessão, motores, convulsões,
anestesias e perdas sensoriais, etc.
- transtornos somatoformes: somatização, somatoforme
indiferenciado, hipocondríaco, disfunção
autonômica somatoforme, etc.
-
F50-59 – síndromes comportamentais associadas
a perturbações fisiológicas e fatores
físicos:
- transtornos alimentares
- transtornos não-orgânicos do sono
- disfunção sexual, não causada por
transtorno ou doença orgânica
- transtornos mentais e de comportamentos associados ao
puerpério
- fatores psicológicos e de comportamento associados
a transtornos ou doenças classificadas em outros
locais.
- Abuso de substâncias químicas que não
produzem dependência.
Como
se vê, a orientação da comunidade científica
atualmente é a de que toda doença ou transtorno
possui aspectos psicológicos, que podem ocupar diferentes
posições na gênese, manutenção
ou agravamento dos mesmos. Inclusive, propõe uma
metodologia nosográfica para isso. Por essas razões,
os termos “psicossomático” ou “fundo
emocional” acabaram ficando parciais e antiquados,
pois assumem uma “miopia psicogenética”.
Por
outro lado, é importante diferenciar esses termos
da expressão “Psicossomática”,
o estudo cuidadoso dos fatores bio-psico-sociais daquilo
que o paciente traz como queixa e a maneira como se imbricam
na sua produção.
2.4.- conversão e dissociação: talvez
a mais grave confusão terminológica seja a
decorrente do uso descuidado desses termos, da errônea
equivalência pretendida entre “psicossomático”,
“de fundo emocional” e “conversão”.
Para desfazermos esse emaranhado, precisamos voltar aos
primeiros trabalhos de Freud, principalmente o “Estudo
Comparativo das Paralisias Orgânicas e Histérica”,
cuja leitura recomendamos (FREUD, 1973).
“Conversão”
é um termo psicanalítico que não se
pode usá-lo ou compreende-lo fora dessa referência.
Em outras palavras, embora não seja do gosto de algumas
pessoas, a Psicanálise já se estabeleceu,
sendo absorvida pela linguagem e concepções
contemporâneas.
“Conversão”
é o processo de traduzir representações,
imagens, que foram reprimidas, em linguagem corpórea.
Uma espécie de “jogo da mímica”,
por impossibilidade de verbalização. A impecável
apresentação de Otto Fenichel merece a transcrição:
“os sintomas de conversão não são,
contudo, meras expressões somáticas de afetos,
e, sim, representações muito específicas
de pensamentos, que é possível retraduzir
da respectiva ‘linguagem somática’ para
a linguagem verbal original” (FENICHEL, s/d).
Já
“dissociação” é quando
há uma ruptura, uma desconexão, perda da associação,
enfim, entre memória do passado, consciência
de identidade e sensações e controle dos movimentos
corpóreos.
O
texto da CID-10, neste ponto, é um pouco confuso,
pois, apresenta “dissociação”
como equivalente de “conversão” no título
do capítulo correspondente, mas no corpo do texto
dá explicações diferentes para cada
um. Preferimos ficar com a versão do texto:
- dissociação: perda da unidade psíquica.
- conversão: usar o sintoma para expressar afetos
difíceis.
Obviamente,
para haver uma conversão é necessário
que haja uma dissociação, pelo menos entre
o afeto e sua expressão verbal, o afastamento do
afeto da consciência não deixa de ser uma dissociação.
Mas, nem toda dissociação é uma conversão,
o que garante a diferenciação conceitual entre
ambos os termos.
2.5.-
transtorno somatoforme: como o nome indica, são transtornos
neuróticos ou de stress que assumem a forma –
apresentação clínica – de transtorno
somático: o paciente apresenta queixa(s) físicas
e em que não se tranqüiliza com os reasseguramentos
médicos de que não há nada físico
com ela e resiste a associar os sintomas com seus estados
emocionais. Conforme indicado acima, os transtornos somatoformes
listados na CID-10 (OMS, 1993) são: somatização,
somatoforme indiferenciado, hipocondríaco, disfunção
autonômica somatoforme, etc. A idéia básica
que reúne diferentes quadros sob o mesmo termo é
a de que são transtornos emocionais que assumem a
forma de queixa física. Usando esse termo, também
se dá maior relevo à forma da queixa do que
à teoria que constrói as nosografias. Então,
podemos ter na mesma chave diagnóstica quadros como
hipocondria e eructação ou palpitações
cardíacas. Sugere-se a leitura do capítulo
relativo na CID-10 para uma análise mais detalhada
de sintomas e diretrizes para diagnóstico diferencial.
2.6.-
somatização: termo amplo que acabou perdendo
força discriminativa pelo uso excessivo e descuidado.
Pode-se encontrar muitas aplicações em quase
todos os sentidos incluídos no presente trabalho.
É comum encontrar a aplicação dessa
palavra para descrever uma conversão, assim como
para transtornos somatoformes ou mesmo para síndromes
comportamentais associadas a perturbações
fisiológicas. Ou seja: se que quer dizer tudo, não
quer dizer nada. De um modo muito genérico, ficou
a idéia de que há uma descarga somática
de um excesso de energia psíquica, ligada a alguma
representação que não encontrou aplicação
mais adequada. Mas, não fica qualquer indicação
de como isso aconteceu e quais os mecanismos em jogo. O
que existe com significado bem mais delimitado é
a expressão “transtorno de somatização”,
que diz respeito à condição clínica
de apresentação de múltiplos sintomas
físicos e freqüentemente mutáveis, em
geral com uma longa história de procura por muitos
e variados serviços médicos, por vários
anos. Nesses casos também é freqüente
encontrar depressão e ansiedade marcantes e geralmente
está associado a rompimento duradouro de laços
familiares ou interpessoais. Esse termo era empregado maciçamente
nos primeiros tempos da Psicossomática, porque era
absolutamente nova a idéia de que os afetos poderiam
se traduzir em estados orgânicos. De qualquer modo,
o termo é utilizado quando se quer fazer referência
específica a esse movimento.
2.7.-
organoneurose: ou “neurose orgânica”.
No início se buscava a base anatômica dos males
mentais, conforme modelo metodológico do século
XIX. Se procurava relacionar os sinais e sintomas, construir
uma síndrome de curso previsível e, ao final,
se esperava encontrar uma base anatomo-patológica
para explicar a mesma. Esse modelo, como é sabido,
falhou, não conseguindo cumprir suas promessas, pelo
fato de que, nem toda dificuldade, nem todo sofrimento,
é devido a uma circunstância anátomo-patológica.
O susto, por exemplo, acarreta uma modificação
funcional, fisiológica, no batimento cardíaco,
não uma modificação anatômica.
Através principalmente dos trabalhos de Freud, foi-se
descobrir que algumas emoções e conflitos
traduzem-se em bloqueios funcionais de certos órgãos.
Essa noção foi levada ao campo de doenças
como hipertensão arterial, colite ulcerativa com
muito mais sucesso do que a análise anátomo-
patológica. No dizer de Danilo Perestrello: “assim
como os sintomas físicos da histeria, se manifestam
por meio da musculatura voluntária, da vida de relação,
também esses espasmos e outras desordens funcionais
são exteriorizações através
da musculatura lisa, da vida vegetativa, de conflitos pessoais.
Nasceu com isso o conceito de organoneurose” (PERESTRELLO,
1989). Quer dizer, “organoneurose” seria uma
neurose em que os sintomas se manifestam através
da alteração da função de um
órgão ou sistema. Como as pesquisas acabaram
levando ao conceito de que toda doença tem um aspecto
emocional e está, de algum modo, ligada à
história de vida da pessoa, então o termo
acabou perdendo um pouco sua força explicativa e
não é muito usual, soando um pouco antigo.
É, ciência também tem seus modismos.
Quem tiver interesse em algo mais sobre a história
da nosologia e alguns problemas correlatos, vai encontrar
boa leitura em Michel Foucault (1979). Uma importante exposição
sobre uma metodologia própria para a abordagem de
fenômenos em ciências humanas, no estágio
atual, pode ser obtida no completo tratado de Egberto R.
Turato, listado na bibliografia (TURATO, 2003).
2.8.-
transtorno funcional: talvez a melhor maneira de estudar
uma ciência seja através de sua história.
Assim fazendo, poderemos ver a idéia nascendo do
problema e entender sua lógica e circunstância.
O ser humano, no decorrer de sua história no planeta,
sempre esteve à mercê de pragas e doenças
sem outro auxílio que não a superstição
e a fé. Sua luta contra a dor, o sofrimento e a doença
são, talvez, a mais forte constância na história
da raça humana. Na civilização ocidental,
houve um peculiar desenvolvimento das idéias de como
encarar esses fenômenos, que foram incentivados a
partir de sucessos ocasionais que trouxeram alívios
marcantes para nossos padeceres. Um pequeno exemplo, resumido:
- no século XVIII o uso da autópsia leva ao
conhecimento de detalhes do organismo humano, levando a
entender que cada órgão tem um papel e uma
função. Isso ficou conhecido como uma visão
“localista” da doença.
- com o advento do microscópio e do conceito de célula,
torna-se possível sediar a doença. Virchow,
grande patologista, declarou que não havia uma doença
geral, mas somente doenças dos órgãos
e das células. Como nos ensina Franz Alexander: “a
observação de alterações histológicas
nos órgãos doentes (...) determinou o padrão
de pensamento etiológico. A busca da causa da doença
permaneceu por longo tempo limitada à busca de alterações
morfológicas locais, nos tecidos” (ALEXANDER,
1989).
Aqui
temos que a idéia de localização e
alterações morfológico-teciduais como
causa das doenças pode resolver uma série
de dificuldades práticas e orientar a ação
curativa para um grande número de males, trazendo
o alívio a muitas pessoas. A idéia funcionou,
de fato. Esse sucesso determinou a tendência a usar
essa ferramenta metodológica em todas e qualquer
queixa. Porém, não há entusiasmo que
sempre dure: o fato é que essa empolgação
toda teve que admitir que o sistema lesão-doença
era insuficiente para resolver tudo. Várias condições,
algumas nada sutis em sua manifestação (como
a histeria e a esquizofrenia), não apresentavam alteração
anatomo-patológica alguma. Criou-se, então,
a categoria de “transtorno funcional”, em contraste
e oposição à “transtorno orgânico”
ou “estrutural”.
Os mais entusiasmados do modelo virchoviano postulavam (e
alguns até hoje o fazem), que esse fracasso do modelo
anatomo-patológica era somente aparente e temporário,
pois era uma questão de técnica. Com técnicas
mais eficazes se conseguiria diagnósticos mais acurados
que evidenciariam a lesão. A prática nunca
comprovou ou alimentou essa esperança. Desde os trabalhos
de Freud, o que se vê é o triunfo da observação
sobre o entusiasmo. Alguns transtornos não repousam
sobre uma base tecidual telada, mas sobre “ordens”
dos centros superiores que acabam por dificultar a própria
função. Por exemplo: a contenção
de uma raiva pode trazer um estado de estimulação
simpática que leva a uma constipação
ou um conflito psicológico pode levar à amnésia
ou cegueira sem qualquer lesão tecidual.
Aí, as doenças foram divididas em estruturais
ou orgânicas e funcionais.
Só que a discussão não termina por
aí, porque, como nos observa Franz Alexander: “mesmo
em distúrbios fisiologicamente bem compreendidos,
tais como o diabete e a hipertensão essencial, somente
os últimos elos da cadeia causal são conhecidos,
enquanto os fatores etiológicos primários
permanecem obscuros” (ALEXANDER, 1989). É...
nada é tão simples como parece.
3.-
Conclusão & Resumo:
Com
isso, terminamos nossa pequena revisão conceitual
apresentando um resumo:
- psicossomática: atenção cuidadosa
a todo o contexto bio-psico-social do paciente, procurando
determinar a contribuição peculiar de cada
um desses fatores na queixa apresentada.
- psicogênico: usar com cuidado, apenas para dar ênfase
ao papel proeminente de uma situação conflitiva
intensa na origem dos problemas em pauta ou à ausência
de lesão tecidual. Tomar muito cuidado com a incômoda
conotação mono-causal.
- conversão: quando o sintoma é usado como
simbolismo de algo não verbalizável, numa
tradução literal do psíquico para o
físico. Cuidado, porque todo sintoma “conta”
alguma coisa.
- Dissociação: desconexão de processos
mentais normalmente associados, que levam a rendimentos
alterados.
- transtorno somatoforme: sintomas de alta atividade autonômica,
que são “interpretados” pelo paciente
como doença, mas são devidos a stress.
- somatização: termo que indica o movimento
da energia psíquica impedida de se manifestar, descarregando-se
no campo do somático.
- organoneurose: quando o sintoma neurótico se manifesta
por disfunção de um órgão.
- transtorno funcional: quando o transtorno não pode
ser atribuído a lesão tecidual e há
razão para atribuir o transtorno a conflitos psíquicos.
Essas
são as expressões que, atualmente, são
utilizadas e seus sentidos convencionais, segundo pude apreender.
As expressões “fundo emocional” e “somatização”
quase não são usadas, pois acabaram se desgastando
pelo uso indiscriminado. “Organoneurose”, está
“fora de moda”. Todas elas, de um modo ou de
outro, nos remetem à nossa dificuldade histórico-metodológica
de trabalharmos com os embaraços que a dicotomia
corpo/mente nos trouxe, legado cartesiano entranhado na
nossa cultura (TEIXEIRA, 2003).
Com
isso quero indicar que temos dois deveres principais em
relação ao vocabulário que nos utilizamos:
- estejamos sempre certos de que as pessoas entendem do
mesmo modo as palavras que usamos ou que, ao menos, tenhamos
o cuidado básico de definir nosso vocabulário
e
- estejamos sempre conscientes do tanto de problemas epistemológicos
e metodológicos que esse mesmo vocabulário
carrega.
Devemos
sempre ter em mente que o uso cuidadoso do vocabulário
é parte essencial da atividade científica:
para nos entendermos bem com os colegas e para que contemos
com ferramentas mais eficazes para compreendermos o paciente
e orientarmos nosso atendimento.
A
principal ferramenta, o instrumento de maior precisão
de que dispomos não são scanners ou computadores,
são nossas palavras. São os conceitos que
dissecam a realidade, que nos levam até os meandros
mais profundos dos fenômenos. Por isso, para com eles,
nosso maior respeito. Quando se usar uma palavra, num contexto
técnico, deve-se manuseá-la como se o faz
com um bisturi, com luvas e assepsia corretas, que são
a Filosofia e a História.
4.-
Bibliografia:
ALEXANDER,
Franz. Medicina Psicossomática: princípios
e aplicações. Porto Alegre: Ed. Artes
Médicas, 1989.
FENICHEL,
Otto. Teoria Psicanalítica das Neuroses.
Livraria Atheneu Ed., Rio de Janeiro, s/d.
FREUD,
Sigmund. Obras Completas. 3. ed. Madrid: Biblioteca
Nueva, 1973.
FOUCAULT,
Michel. Doença Mental e Psicologia. Rio
de Janeiro: Ed. Tempo Brasileiro – Biblioteca Tempo
Universitário, 1.979.
MELLO
Fo., Júlio de & col. Psicossomática
Hoje. Ed. Artes Médicas, Porto Alegre, 1992.
OMS
- ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. CID-10
- Classificação de Transtornos Mentais
e de Comportamento: descrições clínicas
e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre: Ed.
Artes Médicas, 1993.
PERESTRELLO,
Danilo. A Medicina da Pessoa. 4.ed. Livraria Atheneu
Ed., Rio de Janeiro,1989.
RODRIGUES,
Avelino L. & FRANÇA, Ana C. Stress e Trabalho:
guia básico com abordagem psicossomática.
São Paulo: Ed. Atlas, 1997.
TEIXEIRA,
João de Fernandes. Mente, Cérebro e Cognição.
2. ed. Petrópolis: Ed. Vozes, 2003.
TURATO,
Egberto Ribeiro. Tratado da Metodologia da Pesquisa
Clínico-Qualitativa: construção teórico-epistemológica,
discussão comparada e aplicação nas
áreas de saúde e humanas. Petrópolis:
Ed. Vozes, 2003.
ÜSTÜN,
T. B. et all. Classificação de Transtornos
Mentais e de Comportamento da CID-10: descrições
clínicas e diretrizes diagnósticas: casos
clínicos de adultos – as várias fazes
dos transtornos mentais. Porto Alegre: Ed. Artes Médicas,
1998.