6 - Estilo de Vida e Estresse
- Carlos Laganá de Andrade e Roseli Okabe
Carlos
Laganá de Andrade - Médico Psiquiatra. Psicanalista.
Presidente do Comitê Multidisciplinar de Medicina
Psicossomática da Associação Paulista
de Medicina.
Rosely
Okabe - Psicóloga Clínica. Diretora da Associação
Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional
de São Paulo
Viver
é estar sob estresse. Ser humano é experimentar
mudanças, triunfos, amor, raiva, perdas, prazer,
fracassos, dor, alegria, medo.
O termo estresse aplica-se a qualquer estímulo ou
mudança no meio externo ou interno gerador de tensão,
que ameaça a integridade sócio-psicossomática
da pessoa, seja diretamente, por suas propriedades físico-químicas,
biológicas ou psicossociais, seja indiretamente,
devido a seu significado simbólico.
O
estresse não é um aspecto novo da vida. É
o produto da interação entre um indivíduo
e o meio em que vive. O homem moderno parece viver de modo
a facilitar a criação de um ambiente estressante.
As tensões da vida de hoje refletem sua dificuldade
de adaptar-se com rapidez suficiente às novas mudanças
que ele mesmo está provocando em seu meio ambiente
e na sua maneira de viver.
Os
estressores podem ser únicos ou múltiplos,
recorrentes ou contínuos, podem afetar uma pessoa
em particular, um grupo ou comunidade. Alguns estressores
podem acompanhar acontecimentos específicos do desenvolvimento,
como ir à escola, casar-se, tornar-se pai ou mãe,
aposentar-se.
Outros,
podem relacionar-se a modificações como conflitos
intra-familiares, quebra de laços familiares, acidentes
no trânsito, violência, conflitos sexuais, desemprego,
pressões no trabalho, consumo de drogas, aumento
da densidade demográfica, alta tecnologia, choque
cultural, revolução, guerra, tortura, desastres
naturais e acidentais.
Os
acontecimentos da vida repercutem na mente e no cérebro,
que constitui seu substrato físico. Essas repercussões
propagam-se para o corpo e atingem a saúde como tal.
A gravidade da reação não é
completamente preditável da intensidade do estressor,
dependendo da vulnerabilidade e sensibilidade da pessoa.
As
respostas fisiológicas do organismo ao estresse que
foi filtrado através da percepção e
dos mecanismos psicossociais de defesa e a seguir modificado
pelos apoios e gratificações que a pessoa
obtém na sua vida, são necessários
para a regulação da constância do meio
interno.
Walter
Cannon conceituou essa regulação como sendo
uma função que chamou de homeostasia, que
é a tendência do organismo vivo de reparar
o dano causado por estímulos de qualquer tipo. Estudou
também as reações do organismo à
emoção e delineou o conceito do fenômeno
“luta ou fuga”. As situações de
perigo ativam o sistema nervoso autônomo e a medula
supra-renal, que preparam o corpo para a luta ou fuga.
Quando
um ser humano defronta-se com uma situação
de ameaça, objetiva ou subjetiva, há aumento
da freqüência cardíaca e da pressão
arterial para que cheguem aos tecidos mais oxigênio
e mais nutrientes, aumento da glicose sangüínea,
vasoconstrição da pele e vísceras com
diminuição do fluxo sangüíneo
para estas regiões e aumento do fluxo para músculos
e cérebro, dilatação da pupila, broncodilatação,
fechamento dos esfíncteres, tensão muscular
e ansiedade.
A
adaptabilidade e o desenvolvimento da resistência
aos efeitos do estresse e dos estímulos nocivos são
pré-condições para a vida e a sobrevivência.
Tal adaptação pode envolver reações
específicas de defesa, como o desenvolvimento de
anticorpos para vírus, ou mecanismos envolvidos na
adaptação ao frio ou à vida em grandes
altitudes ou a hipertrofia muscular por trabalho pesado
e prolongado.
A
adaptação também pode ser não
específica, conforme descrito por Hans Selye, outro
grande estudioso do estresse. Demonstrou, que além
dos estressores de natureza física, como calor, frio,
esforço físico, ruído, o organismo
reage também às influências psicossociais
nocivas existentes no ambiente, com um conjunto de modificações
não específicas que chamou de Síndrome
de Adaptação Geral. É representada
por três fases:
1.- reação de alarme: que
se assemelha a reação de emergência
de Cannon.
2.- fase de resistência: que ocorre
pela exposição repetida aos estímulos
estressantes. Caracteriza-se pela hipertrofia do córtex
da supra renal, aumento da atividade parassimpática,
maior secreção de glicocorticóides,
maior atividade secretória da tireóide e ilhotas
de Hangerhans, atrofia do timo, baço e todas as estruturas
linfáticas, leucocitose e formação
de úlceras no aparelho digestivo.
3.- fase de exaustão: quando a exposição
aos estressores é suficientemente prolongada e severa,
a adaptação desenvolvida deixa de ser mantida,
havendo alterações novamente da fase de alarme,
esgotamento, podendo levar a óbito.
Dependendo
da biografia do indivíduo, da sua vulnerabilidade
como ser sócio-psicossomático, o mesmo poderá
reagir a acontecimentos e circunstâncias estressantes
de formas diferentes.
No
estado de estresse, ocorrem alterações funcionais
em todos os mecanismos neuro-reguladores, deprimindo os
mecanismos homeostáticos do organismo e deixando-o
vulnerável a infecções e outros distúrbios.
As
vias neurofisiológicas envolvidas nas reações
de estresse incluem o córtex cerebral, o sistema
límbico, o hipotálamo, a medula, a córtex
supra-renal e os sistemas nervosos simpático e parassimpático.
Como
conseqüência, teremos alteração
das funções motora, secretora, de irrigação
e imunomoduladora, podendo ocorrer vários distúrbios:
Nos
distúrbios citados acima existe uma patologia orgânica
evidente e demonstrável; o estímulo estressor,
psicologicamento significativo, está temporalmente
relacionado ao início ou a exacerbação
do distúrbio físico específico.
Os
estressores biológicos, psicossociais e ambientais
costumam estar associados à maioria dos transtornos
mentais e de comportamento, levando-se em consideração
a vulnerabilidade biológica específica em
cada um deles.
Os
transtornos mentais podem ser descritos em grandes linhas
como:
Psicóticos
Onde têm-se a ruptura dos mecanismos de defesa do
Ego,com perda da capacidade de teste de realidade, com delírios
e alucinações (por exemplo, esquizofrenia).
Neuróticos
Onde empregam-se mecanismos mentais não adaptados
para debelar ou diminuir a ansiedade. Não ocorre
perda da capacidade de teste da realidade, como por exemplo,
neurose obsessiva-compulsiva (transtorno obsessivo-compulsivo).
Funcionais
Sem lesão estrutural observável ou fator etiológico
definido responsável pelo comportamento (por exemplo,
transtorno de personalidade, caracterizado por padrões
desadaptados de comportamento).
Orgânicos
Patologias causadas por um agente específico, que
causam alterações estruturais, habitualmente
associados a comprometimento cognitivo (por exemplo, doença
de Alzheimer).
Além
destas grandes linhas, vale citar alguns transtornos da
CID-10 e do DSM-III-R:
- Transtornos mentais e de comportamento decorrentes do
uso de substância psicoativa - dependência ou
abuso de qualquer droga psicotrópica.
- Transtornos do humor (afetivos) - caracterizados por um
único transtorno de humor, ou seja, depressão
ou euforia.
- Transtornos neuróticos, relacionados ao estresse
e somatoformes devido, principalmente, a conflitos intrapsíquicos
que causam ansiedade.
O
transtorno de ajustamento caracteriza-se por uma reação
desadaptativa a um estresse vital bem definido e apresenta
alguns sub-tipos, dependendo dos sintomas:
reação depressiva breve
reação depressiva prolongada
reação mista, ansiosa e depressiva
com perturbações predominantes de outras emoções
com perturbações predominantes de conduta
Os
transtornos somatoformes são caracterizados pela
apresentação repetida de sintomas físicos,
juntamente com solicitações persistentes de
investigações médicas, apesar de repetidos
achados negativos e de reasseguramento pelos médicos
de que os sintomas não têm base física.
Estão intimamente associados temporalmente a eventos
ou problemas estressantes.
SÍNDROMES
COMPORTAMENTAIS ASSOCIADAS A PERTURBAÇÕES
FISIOLÓGICAS E FATORES FÍSICOS.
Sub-tipos:
Transtornos alimentares (anorexia nervosa e bulimia nervosa).
Transtornos não orgânicos de sono.
Disfunção sexual, não causada por transtorno
ou doença orgânica (falta ou perda de desejo
sexual, aversão sexual, disfunção orgásmica,
ejaculação precoce, vaginismo, dispareumia).
Transtornos mentais e de comportamento associados ao puerpério.
Abuso de substâncias que não produzem dependência
(laxativos,analgésicos, vitaminas, antiácidos,
esteróides e hormônios).
Como
podemos ver, as tensões da vida moderna desempenham
papel importante como causa de diversos níveis de
comprometimento do organismo, de diversos distúrbios
mentais e conflitos sociais. Se o homem primitivo era mais
bem adaptado para enfrentar as tensões de seu meio,
a verdade é que estas adaptações não
são adequadas ao ser humano atual. As tensões
do futuro dificilmente serão menores do que as atuais.
O ritmo da mudança tecnológica de um lado
e a pobreza de outro, alimentarão as tensões,
tanto nos países ricos como nos pobres.
O
homem avançou demais no caminho da inovação
tecnológica, tornando-se escravo desse mundo. Só
saberemos se o ser humano conseguiu adaptar-se às
tensões dessa sociedade moderna quando o consumo
maciço de tranqüilizantes, álcool e drogas
começar a diminuir.
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