4 - Introdução
à Metodologia da Pesquisa Clínico-Qualitativa
- Egberto R. Turato
por
Dr. Egberto Turato , psiquiatra , professor do departamento
de psicologia médica e psiquiatria da Unicamp , doutor
pela mesma universidade,onde coordena o Laboratório
de Pesquisa Qualitativa. É pós-doutor pela
Universidade de Pádua - Itália. Atualmente
terminando o primeiro livro nacional de pesquisa qualitativa
aplicada à saúde.
As Definições na Literatura das Ciências
Humanas e da Saúde
Ponto chave é definirmos com clareza método
qualitativo de pesquisa. Não convém aceitarmos
arremedos de conceituação tais como: método
de pesquisa que não lança mão de recursos
tais como números, cálculos de porcentagem,
técnicas estatísticas, tabelas, amostras numericamente
representativas, ensaios randômicos, questionários
fechados ou escalas. Tentar definir pela via da negação,
no caso, não constitui obviamente uma definição,
mas realmente refletiria uma ausência de conhecimento
sobre o assunto. Começo por reproduzir uma definição
genérica de métodos qualitativos que tem sido
oferecida atualmente com freqüência na literatura
especializada e que podemos considerar bastante satisfatória:
Pesquisa qualitativa é multimetodológica
quanto ao foco, envolvendo uma abordagem interpretativa
e naturalística para seu assunto. Isto significa
que os pesquisadores qualitativistas estudam as coisas em
seu setting natural, tentando dar sentido ou interpretar
fenômenos em termos das significações
que as pessoas trazem para eles (Denzin & Lincoln, 1994,
p. 2).
A mera leitura desta definição pode ser insuficiente
para uma compreensão precisa ao leitor desacostumado
com a prática de pesquisas qualitativas, fazendo-o
manter-se com a concepção hegemônica
das ciências naturais, as quais não têm
por escopo estudar as significações que as
coisas têm para nós, mas, sim, estudar propriamente
“as coisas” (os fenômenos da natureza).
Este posição é um cacoete também
para os profissionais da área da saúde, pois
sua formação universitária de cunho
positivista os conduz espontaneamente para o raciocínio
automático das relações causa-efeito.
Que fique claro que o investigador qualitativo quando vai
a campo estudar “as coisas”, não é
a elas em si que ele vai se ater, pois o termo genérico
“coisas” neste caso é um sinônimo
metodológico de objeto de estudo, que, em se tratando
de pesquisa qualitativa são as pessoas ou comunidades
em sua fala e em seu comportamento (as “coisas”
que acontecem ...). E mais: é sempre no setting natural
que ocorre o estudo, e nunca em um ambiente reprodutor de
situações (laboratórios, gabinetes,
etc.).
Por conseguinte, se não é a coisa que lhe
interessa, o alvo do interesse do estudioso é, por
outro lado, a significação que as coisas ganham,
ou melhor, as significações que um indivíduo
em particular ou um grupo determinado atribuem aos fenômenos
da natureza que lhes dizem respeito. Prosseguindo, em palavras
semelhantes, Bogdan e Biklen entendem a pesquisa qualitativa
como aquela em que os pesquisadores tem como alvo o seguinte:
... melhor compreender o comportamento e a experiência
humanos. Eles procuram entender o processo pelo qual as
pessoas constróem significados e descrevem o que
são aqueles significados. Usam observação
empírica porque é com os eventos concretos
do comportamento humano que os investigadores podem pensar
mais clara e profundamente sobre a condição
humana (1998, p. 38).
Aí também os educadores norte-americanos tomam
significados/significações como uma palavra-chave.
Novamente depreendemos que o pesquisador qualitativista
não querem as entender/interpretar as pessoas em
si mesmas (medindo seus comportamentos ou correlacionando
quantitativamente eventos de suas vidas), explicando o que,
a seu ver, acontece com elas. Assim, vem à frente
a definição do dicionário dos métodos
qualitativos em ciências humanas e sociais, uma obra
francesa, em verbete de responsabilidade do canadense Pierre
Paillé, professor de ciências da educação,
acerca de método qualitativo:
... consiste numa sucessão de operações
e de manipulações técnicas e intelectuais
a que um pesquisador submete um objeto ou um fenômeno
humano para extrair as significações válidas
para si próprio e para os outros homens (Mucchielli,
1999, p. 255).
Sempre presente, os termos significado/significação
aqui se referiu a uma entidade que se busca para ser útil
de alguma forma a tantos quantos. Por outro lado, organizando
uma definição detalhada de métodos
qualitativos, apresentada por Morse e Field, assim as autoras
os caracterizam:
Métodos de pesquisa indutivos, holísticos,
êmicos, subjetivos e orientados para o processo, usados
para compreender, interpretar, descrever e desenvolver teorias
relativas a fenômenos ou a settings (1995, p. 243).
Em particular, o conceito de êmico foi lembrado pelas
autoras como o estudo e análise de um setting ou
comportamento interpretados a partir da perspectiva do autor,
sendo que as explicações culturais e padrões
são indutivamente “descobertos” dentro
do contexto cultural em vez de analisados a partir da perspectiva
do pesquisador ou de um quadro ou teorias prévios
(Morse & Field, 1995, p. 242). O termo vem de (fon)êmico;
forma reduzida do inglês phonemic, e em antropologia
refere-se a categorias e valores internos, próprios
às sociedades e grupos em estudo, e tomados segundo
a lógica e coerência com que aí se apresentam,
vindo do uso analógico na lingüística,
onde diz da maneira de abordar uma língua, ou realizar
seu estudo, considerando-a como um sistema em que a transmissão
de significados se faz por unidades distintivas mínimas
próprias a esse sistema (Ferreira, dicionário
eletrônico).
Neste contexto, o conceito de “êmico”
se contrapõe a “ético”, ou seja,
estudo e análise de eventos e padrões, interpretados
a partir da visão do pesquisador, permitindo que
sejam feitas generalizações transculturais,
como colocam as autoras (Morse & Field, 1995, p. 242).
Neste sentido, ético advém de (fon)ético;
forma reduzida do inglês phonetic, que em antropologia
não correspondem, necessariamente, aos valores em
vigor na sociedade ou cultura sob estudo, havendo analogia
ao seu uso original na lingüística, como uma
valorização da substância dos elementos,
ou seja, de seus aspectos acústicos e articulatórios,
e não seu funcionamento dentro de um sistema específico
de unidades distintivas dotadas de significado (Ferreira,
dicionário eletrônico).
Por outro lado, embora as autoras procurassem ser abrangentes
em sua definição de método qualitativo,
carregando-o de adjetivos, infelizmente deixaram de fora
os termos significado/significação, uma palavra-chave.
No seu alvo amplo, no entanto, ganha força a palavra
“teoria”, as quais, na ênfase de Morse
e Field, devem ser compreendidas (já foram postas
por outros, antes da pesquisa) ou desenvolvidas (o pesquisador
propõe a sua) sobre o objeto de estudo. Por sua vez,
privilegiando uma definição na visão
estrutural e com objetivos contemplando mais o campo da
saúde coletiva, as metodologias da pesquisa qualitativa
podem se entendidas como:
... aquelas capazes de incorporar a questão do
SIGNIFICADO e da INTENCIONALIDADE como inerentes aos atos,
às relações, e às estruturas
sociais, sendo essas últimas tomadas tanto no seu
advento quanto na sua transformação, como
construções humanas significativas (Minayo,
1999, p. 10).
Novamente, os termos significado/significação
ganham presença, a qual passa ser compartilhada com
a palavra “intencionalidade”, pois neste entendimento
a sociedade conteria a possibilidade de todas as ações
humanas tenderem propositadamente em direção
a qualquer coisa diferente de si. Para o campo a que se
dedica a autora, a metodologia qualitativa leva em consideração
os planos das estruturas sociais, querendo saber o que isto
quer dizer. Outra idéia forte, que se harmoniza com
a idéia da origem (o advento), é a de onde
se quer chegar (através da transformação).
Finalmente, ao adotar a expressão “clínico-qualitativo”,
quero de forma clara apresentar como temos definido esta
metodologia: é o estudo teórico - e o correspondente
emprego em investigação - de um conjunto de
métodos científicos, técnicas e procedimentos,
adequados para descrever e interpretar os sentidos e significados
dados aos fenômenos e relacionados à vida da
indivíduo, sejam de um paciente ou de qualquer outra
pessoa participante do setting dos cuidados com a saúde
(equipe de profissionais, familiares, comunidade). O pesquisador
é movido a uma atitude de acolhida das angústias
e ansiedades da pessoa em estudo, com a pesquisa acontecendo
em ambiente natural (settings da saúde), e mostrando-se
particularmente útil nos casos onde tais fenômenos
tenham estruturação complexa, por serem de
foro pessoal íntimo ou de verbalização
emocionalmente difícil. O pesquisador também
procura um enquadramento da relação face a
face, valorizando as trocas afetivas mobilizadas na interação
pessoal e escutando a fala do sujeito, com foco sobre tópicos
ligados à saúde/doença, aos processos
terapêuticos, aos serviços de saúde
e/ou sobre como lidam com suas vidas. Por fim, observa o
global de sua linguagem corporal/comportamental no sentido
de complementar, confirmar ou desmentir o falado. Esta concepção
apresentei anteriormente na Revista Portuguesa de Psicossomática
(Turato, 2000).
Impropriedades do Positivismo para o Estudo do Homem
Foi a partir da corrente iniciada com o francês Auguste
Comte (1798-1857), que foi melhor organizado um modo de
pensamento denominado positivismo, que defendia o conhecimento
das causas e efeitos dos chamados “fatos”, como
sendo o suficiente para todo o entendimento científico.
E ainda hoje incontáveis pesquisadores aceitam e
trabalham neste paradigma, apesar de o mesmo ter sempre
se constituído motivo de severas críticas
por partes de cientistas e filósofos que entendem
a ciência como processo de imaginação.
O positivismo num lato sensu caracteriza-se, em resumo,
pela valorização de um método empirista
e quantitativo, pela defesa da experiência sensível
como fonte principal do conhecimento, pela hostilidade em
relação ao idealismo, e pela consideração
das ciências empírico-formais como paradigmas
de cientificidade e modelos para as demais ciências
(Japiassu & Marcondes, 1996, p. 217). Estes autores
ainda alertam que, em nosso tempos, muitas doutrinas científicas
são classificadas como positivistas por apresentarem
algumas das características descritas, havendo esta
palavra ganho uma conotação pejorativa, o
que pode estar ocorrendo nos Segmentos onde há uma
linguagem mais crítica. Do pensamento comtista, podemos
selecionar trechos ilustrativos da obra “Discurso
sobre o espírito positivo”, publicado em 1844,
dos quais depreendemos as impropriedades que impõem
às ciências em geral, às ciências
humanas em particular, e às proposições
atuais que especialmente fazemos dos métodos qualitativos.
Reconhece de agora em diante, como regra fundamental,
que toda proposição que não seja estritamente
redutível ao simples enunciado de um fato, particular
ou geral, não pode oferecer nenhum sentido real e
inteligível (Comte, 1983, p. 48).
A pura imaginação perde assim, irrevogavelmente
sua antiga supremacia mental, e se subordina necessariamente
à observação, de maneira a constituir
um estado lógico plenamente normal ... (referência
idem).
Assim, o verdadeiro espírito positivo consiste sobretudo
em ver para crer, em estudar o que é, a fim de concluir
disso o que será, segundo o dogma geral da invariabilidade
das leis naturais (idem, p. 50).
O sistema filosófico comtista apresenta como cerne
a Teoria dos Três Estados, de acordo com a qual o
espírito humano passa por três etapas: a teológica,
a metafísica e a positiva. Quando a sociedade humana
rompesse com as primeiras etapas, ela atingiria, na visão
de Comte, a sua maioridade, atingindo a última etapa
quando então emergiriam as chamadas ciências
positivas, que se hierarquizariam do seguinte modo progressivo:
sociologia, biologia, química, física e matemática.
Cada uma se organizaria em cima da anterior, buscando degraus
superiores e mais complexos, fazendo assim parte de grande
complexo político cujo alvo maior seria organizar
toda a cultura com critérios científicos instituídos
pelas tais ciências positivas.
Mas como trabalhar na compreensão do Homem se somente
os fatos por si mesmos poderiam ter sentido real e inteligível?
Como trabalhar sem o uso da imaginação? Em
se tratando de fatos humanos, sejam individuais ou sociais,
como poderíamos só ver para crer e para concluir
o que será? A observação não
é enganadora? Os fenômenos que observamos não
poderiam estar organizados segundo uma ordem invisível
aos olhos humanos? Podemos, como se propala (com riscos)
nas ciências da natureza, dizer o que acontecerá
com as pessoas ou com os grupos sociais? Oldroyd, da Universidade
de Nova Gales do Sul, Austrália, pensa na possibilidade
de referirmo-nos ao positivismo como a um gênero,
uma ordem ou uma classe ao invés de uma espécie,
pois era e é um grupo taxonômico (usando esta
expressão da biologia que fala de classificações
metódicas) muito vasto, amorfo e mal definido (1998,
p. 220). Segundo este professor, o positivismo teve um início
de modo bastante ordenado com Comte que tentou fundar uma
“escola positivista” (ou francamente, ... uma
“religião positivista”) na qual os métodos
das ciências físicas deviam ser estendidos
ao estudo da sociedade (referência idem).
Porém como tudo tem sua razão de existir,
também o positivismo, apesar de toda critica severa
que dele fazemos, há autores que ponderam aspectos
efetivos. Um deles seria o de servir de posição
crítica ao idealismo ou a outras correntes filosóficas
que se deixem levar por sonhos exaltados, mas exigindo ater-se
ao terreno sólido da experiência ... para alcançar
uma interpretação verdadeira das coisas (Mondin,
1992, p. 190), raciocínios porém questionáveis.
Outro polêmico mérito seria o de ter procurado
construir uma ciência dos fenômenos sociais,
que teria lançado as bases da sociologia moderna
(referência idem). Mas esses mesmos avaliadores colocam
que o erro fundamental do positivismo foi (e continua sendo)
ter enaltecido um método, supostamente bom para áreas
certas do conhecimento como aquelas exploradas por abordagens
experimentais, como uma medida para todo os conhecimentos
humanos, descartando como sendo arbitrário tudo aquilo
que com tal medida não podia ser medido, o que, sob
este aspecto, fez com que o positivismo não significasse
algo novo, mas sim um modo de resgate do iluminismo racionalista
do século XVII (idem, p. 189).
E este continua sendo atualmente um equívoco de muitos
pesquisadores de nossas universidades, os quais, embora
tenham o Homem como objeto de seus estudos, como no caso
das ciências da saúde, não admitem o
status de ciência para aquilo que não se apresenta
experimental e colado nos fatos, impedindo que o espaço
universitário atenda à histórica vocação
de ser aberto a todas as formas de buscar e apresentar conhecimentos
em todas as disciplinas. Na literatura da pesquisa qualitativa,
a visão crítica sobre o positivismo esperadamente
ocorre em uníssono. Apenas para citar, Rubin e Rubin,
estudiosos das entrevistas qualitativas, mencionam que,
embora o quadro positivista possa ser apropriado para muitos
tipos de pesquisa, não é útil para
ouvir dados e compreender significados em contextos, enfatizando
que este paradigma, especialmente como visto em pesquisa
de levantamento, nega a importância do contexto e
estandardiza perguntas e respostas, e seu modelo comumente
minimiza a importância de distinções
culturais em sua busca por regras ou leis, como as da física
que aplicam para todos as pessoas todo o tempo (1995, p.
32).
Mas constatamos que mesmo na física, o positivismo
não encontra necessariamente simpatizantes, pois
um dos seus maiores expoentes, Einstein, chegou a escrever
a seu colega e epistemólogo Popper, em 1935, que
não me agrada absolutamente a tendência “positivista”,
ora em moda (modische), de apego ao observável. ...
e penso (como o senhor, aliás) que a teoria não
pode ser fabricada a partir de resultados de observação,
mas há de ser inventada (Popper, 1998, p. 525). Entretanto,
talvez a crítica mais dura contra o positivismo tenha
sido feita por Nietzsche, que disse não haver fatos
propriamente, mas ao contrário, só interpretações,
já que não podemos constatar nenhum fato em
si. Um fato não fala por si mesmo, lembrava o filósofo
em um de seus fragmentos, seu marcante estilo de escrever,
mas nós é que falamos sobre ele e já
aí portamos uma interpretação, já
que nada é dado, mas sim é agregado à
imaginação, e assim uma coisa atribuída
posteriormente (Nietzsche, 1990, p. 299). Pouco antes de
escrever estas considerações, Nietzsche publicava
sua obra “Para Além de Bem e Mal”, apresentada
de forma aforística, onde contribui para epistemologia
da ciência, partindo da Física, ciência
que tem seu papel padronizador nas ciências, criticando,
já nos idos de 1886, a explicação como
tal e declarando-se crer na interpretação.
Assim coloca o pensador:
Há talvez cinco ou seis cérebros que começam
a perceber que a física também não
passa de uma interpretação e adaptação
subjetivas do mundo (à nossa imagem, se me permitem),
e de modo algum uma explicação: mas na medida
em que a física se apoia nessa crença nos
sentidos, atribui-se-lhe mais valor e por muito tempo ainda
valerá mais porque será considerada como explicação.
Tem a seu favor os olhos e os dedos, a aparência visível
e palpável: numa época de gosto predominantemente
plebeu, isto é dum efeito mágico, persuasivo
e convincente, - pois que se segue instintivamente o cânone
de verdades do sensualismo eternamente popular (1998, p.
28).
Temos sido contemplados com muitas reflexões e obras
de sistematização das idéias de Nietzsche,
Babich, professora de filosofia contemporânea da Universidade
Fordham, Nova Iorque, destaca-se pela discussão profunda
da abordagem do pensamento nietzschiano sobre a ciência,
e seus marcantes contrapontos com a arte e a vida. Enfatiza-nos
a autora o significado da filosofia da ciência em
sua tarefa mais autêntica: ela não poderá
ter um caráter analítico, mas deverá
apresentar-se como um projeto fenomenológico regulador,
isto é, o esforço de pôr em dúvida
o projeto científico enquanto tal (1996, p. 45-46).
Um ponto fica sempre repisado: a ciência comporta
sempre o aspecto de ser um método de investigação
e o aspecto de ser uma visão e construção
do mundo, ou seja, não é apenas um estudo
da natureza, mas é uma representação
dela, uma descoberta e expressão dos fatos (idem,
p. 47-48).
Contudo, constatamos claramente a atual força do
positivismo, mantida em múltiplas áreas do
pensamento científico, entre as quais as ciências
médicas, também não escapam de tal
influência. Como comentamos acima, a formação
positivista da grande maioria dos pesquisadores médicos
e a opção comumente pouco refletida por esta
postura que eles mantêm ao longo de suas carreiras,
têm levado infelizmente, como uma das conseqüências
às instituições científicas,
à limitação do uso e do espaço
de divulgação das abordagens qualitativas
sobre o Homem no campo da saúde.
Fundamentações na Fenomenologia para
a Compreensão do Homem em suas Múltiplas Dimensões
Foi a fenomenologia, um método retomado e aprofundado
por Husserl que ganhou consistência procurando estudar
os significados da experiência humana, que contribuiu
decisivamente para garantir às ciências do
Homem tanto a existência como a especificidade de
seus objetos (Chauí, 1995, p. 274). O termo fenomenologia
foi criado por Lambert no Século XVIII para designar
o estudo descritivo do fenômeno como se apresenta
à nossa experiência e tornou-se uma corrente
filosófica do que podemos chamar de “volta
às coisas mesmas” ou daquilo que aparece à
consciência, isto é, à consciência
de alguma coisa (Japiassu & Marcondes, 1996, p.101-102).
O filósofo tcheco, radicado na Alemanha, Edmund Husserl
(1859-1938) é considerado o pai da fenomenologia,
que entendemos ser um método de análise que
busca colher os conteúdos do pensamento, ou seja
as idéias em sua essência, procurando libertar-se
de uma postura natural, que considera tais idéias
como representações do mundo externo, no sentido
de caminhar para uma postura fenomenológica. Os esforços
do pensador parecem ter começado no sentido de reagir
contra um certo psicologismo e um naturalismo, fortes nos
ambientes alemães da época, sendo seu trabalho
considerado, por outro lado, como uma forma de idealismo
transcendental (Japiassu & Marcondes, 1996, p.133).
Husserl dizia-se conhecedor de um mundo que está
sujeito ao espaço e ao tempo, o que significava,
antes de tudo, que ele encontrava um mundo imediatamente
diante de si e que o podia experimentar. Para ele, era graças
às diversas modalidades de percepção
(ver, ouvir, tocar, etc.) é que as coisas estavam
em uma determinada repartição espacial “aqui”
e “à sua mão”, fosse no sentido
literal ou figurado, dando atenção ou não
a estas coisas, ocupando ou não o seu pensamento
ou seu sentimento. Ouçamos o filósofo neste
trecho extraído do texto “Investigações
Lógicas”, publicado pela primeira vez em 1900:
Digo isto e viso justamente o papel que está
na minha frente. É à percepção
que essa palavra deve sua relação a este objeto.
Mas não é na própria percepção
que a significação reside. Quanto digo isto,
não me limito a perceber mas, fundado na percepção
se constrói o ato do visar-isto, um ato novo que
por ela se rege e que dela depende quanto à sua diferença.
Nesse e só nesse visar indicativo é que reside
a significação. (Husserl, 1985, p. 20-21)
... a percepção é um ato que determina
a significação ... (idem, p. 21).
O método fenomenológico contribuiu fortemente
para o desenvolvimento de correntes filosóficas,
como o existencialismo, e de correntes científicas,
como as que nos permitem analisar as experiências
humanas nos muitos aspectos na sua vida psíquica
e na vida social. Percebemos que o conceito de significação
se torna chave, superando-se as amarras, por exemplo, da
psicologia e da sociologia positivistas. Temos que significação
é a produção humana de sinais, é
o meio pelo qual uma pretendida objetivação
ganhe sua peculiaridade e um objeto, na perspectiva teórica
de um certo estudo, seja-nos historicamente identificado.
A primeira tratava (e trata) o psiquismo como uma mera soma
de elementos bioquímicos, fisiológicos e anatômicos,
reduzindo-o a algo neuropsicológico, onde o psíquico
não é objeto em si, mas um conjunto de efeitos
psíquicos de causas não psíquicas.
Com a fenomenologia, a psicologia ganhou autonomia científica
e pode estudar uma série de fenômenos ligados
à consciência que são dotados de significação
própria. Também eram irrelevantes para a psicologia
tradicional certos fenômenos como os lapsos (as chamadas
parapraxias) e os sonhos, mas que para a psicologia dinâmica
ganham marcante significação. A sociologia
positivista, por sua vez, tratava (e trata) a sociedade
como uma mera soma de ações dos indivíduos
causando o social. Com a fenomenologia, surge a sociologia
como ciência autônoma e pode estudar os fatos
sociais como uma realidade observável distinta do
psíquico (Chauí, 1995, p. 273-274).
Como concluímos para uma pesquisa científica,
o campo da experiência não pode ser identificado
com o da realidade, mas o campo da experiência é,
sim, o dos fenômenos, enquanto nos aparece e como
nos aparece. Os fenomenologistas enfatizam os aspectos subjetivos
do comportamento das pessoas, acreditam que múltiplos
modos de entender/interpretar experiências estejam
disponíveis para cada um de nós através
da interação com os outros, bem como que as
significações de nossas experiências
constituem uma realidade construída, conhecidas características
que entendo como pertinentes para a lembrança dos
pesquisadores qualitativistas, como o fazem Bogdan e Biklen
(1998, p.23-24). Na ampla perspectiva cultural, é
importante considerar que foram os alicerces do pensamento
fenomenológico a permitir a abordagem qualitativa,
pois consideraram, como tenho salientado neste tratado,
os significados dados pelos sujeitos aos fenômenos
dependiam essencialmente dos pressupostos próprios
do meio que alimenta sua existência (Triviños,
1987, p. 130).
Deste modo, deixamos claro que a fenomenologia tem sido
a principal base filosófica para as metodologias
qualitativas atuais com o Homem por seu objeto de estudo,
conforme aponta amplamente a literatura, inclusive para
os métodos empregados na área da saúde
e da clínica. Entre nós, também Minayo
aponta que esta abordagem é a que tem tido maior
relevância na área da saúde. (1999,
p. 16), embora a autora possa defender que as aproximações
dialéticas deveriam ter seu debate ampliado no campo
da saúde, considerando a dimensão coletiva
deste campo, a fim de se complementarem as análises
macroeconômicas e histórico-culturais. Morse
e Field, em seu texto voltado para profissionais da saúde
que trabalham como pesquisadores, enfatizam a fenomenologia
como sendo o método de escolha quando se busca compreender,
dar sentido e deduzir o significado de um fenômeno
(1995, p. 208).
Oportuno ainda destacar que a fenomenologia fala numa consciência
imaginativa, cujo conteúdo é o imaginário
ou o objeto-em-imagem. É pela imaginação
que nos relacionamos com o ausente e com o inexistente.
Embora sejam coisas diferentes, percebemos e imaginamos
ao mesmo tempo (Chauí, 1995, p. 134). Ainda mais:
imaginar é negar, pois podemos recusar as teorias
já existentes, e antecipar, pois podemos antever
o significado completo de nossa pesquisa, mesmo que esteja
ainda em andamento, já que a imaginação
também orienta o pensamento (idem, p. 135).
Indo além, podemos aprofundar-nos sobre o uso da
imaginação na reflexões teóricas
e em particular na elaboração d e tantas teorias
científicas, tema explorado por diversos cientistas
e filósofos. Reunindo numa só publicação
eminentes pensadores, entre os quais Feyerabend e Holton,
a psicanalista italiana Lorena Preta, engrossando o coro
dos que ressaltam a eficácia do processo imaginativo
no interno da ciência, pontua que privilegiar um método
de pesquisa que exalte os componentes associativos, que
aparentemente vêm de modo gratuito, permitem colocar
em relevo aqueles aspectos da atividade mental comuns a
cada tipo de pensamento além das várias formas
que ele pode assumir e das diferentes especializações
que o representam (Preta, 1993, p. IX). Concordo que o cientista
(ou qualquer um que se ocupe do pensamento nas diferentes
modalidades, como os literatos, artistas ou filósofos)
participam de um mesmo processo, e no estado que precede
a elaboração conceitual, faz, uma matriz geradora
de eventos que alimentam constantemente o pensamento a partir
de um fundo obscuro e sem forma (referência idem).
Retomando a fenomenologia, podemos então tê-la
como uma sólida base para a descrição
e um valioso instrumento de análise, a imaginação,
pois esta permite sentir o objeto e vê-lo diante dos
olhos, expressando significações, bem como
ir além da percepção, penetrando em
suas propriedades, apreendendo sua essência, e caminhando
na direção do significado articulado (Martins
e Bicudo, 1989, p. 86).
Finalizando com uma comparação, vamos a dois
exemplos práticos de pesquisa no setting dos cuidados
da saúde, que apresentem objetivos distintos e levando
o pesquisador à utilização de métodos
de investigação sob orientações
paradigmáticas também distintas, como respectivamente
são o positivismo e a fenomenologia.
Quadro
das diferenças conceituais e práticas entre
exemplos de pesquisas
no campo dos cuidados com a saúde nos paradigmas
positivista e fenomenológico
PARADIGMA
POSITIVISTA
FENOMENOLÓGICO
OBJETO
E CAMPO ELEITOS
Estudos sobre os fatos em si no campo dos cuidados
com a saúde
Estudos
sobre os fenômenos nocampo dos cuidados com
a saúde
UM
ASSUNTO PARA A PESQUISA
Existência
de relações entre eventos (os fatos)
relativos a certoproblema de saúde
Como
as pessoas vivenciam/lidam com certo problema de saúde
(os fenômenos)
OBJETIVO DA PESQUISA
Estabelecer
as relações de causalidade entre os
fatos definidos pelo estudo
Interpretar
os sentidos e significações dos fenômenos
comoreportados pelos sujeitos em estudo
Certos
eventos de vida têm relação etiológica,
desencadeante, prognóstica, etc., com tal doença?
O
que as pessoas entendem de tal doença? Que
sentidos e significados dão a tal doença?
Como lidamcom ela?
Do
quadro acima podemos depreender o quanto nossa práxis
científica, no cotidiano acadêmico, encontra-se
distante de uma reflexão sobre as normas paradigmáticas
que sustenta esta prática. Na rotina dos debates
científicos nas universidades, nos pareceres aos
projetos de investigação, nas opiniões
em reuniões de professores pesquisadores, com um
olhar profundamente crítico, podemos nos assombrar
com o desdém aos limites das formas do pensamento
que, vindo num fio condutor da história, molda de
fato nossos trabalhos. Uma imediata e trivial reação
por parte do pesquisador comum é negar o emaranhado
de idéias subjacentes a suas investigações
científicas e sua atenção assistencial
à sociedade, alardeando uma (ilusória) conduta
pessoal independente, como que para salvaguardar os mecanismos
de sobrevivência e projeção entre seus
pares. Concluímos que quanto mais se tornam rotineiras
as presenças de teorias e de técnicas na vida
universitária, tanto mais se fazem invisíveis
as relações deste fenômeno com as filosofias
que as sustentam, como se a banalização dos
hábitos do cotidiano do pesquisador reforçasse
a ocultação dos vínculos que ligam
a comunidade acadêmica aos compromissos implícitos
com certos paradigmas.
****
Referências Bibliográficas
BABICH, B. E. - Nietzsche e la scienza: arte, vita, conoscenza.
Traduzione di Fulvia Vimercati. 1ª ed., Milano, Raffaello
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CHAUÍ, M. S. - Convite à filosofia. 3ª
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Autor:
Egberto Ribeiro Turato
E-mail: eturato@hc.unicamp.br
Laboratório de Pesquisa Clínico-Qualitativa
Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria
Faculdade de Ciências Médicas - UNICAMP
Campinas - SP