21 -Registos
sobre a apatia e a indiferença pós-moderna
O indivíduo pede
para ficar só. Cada vez mais só. E, simultaneamente,
não se suporta a si próprio. Odeia estar a sós
consigo. Aqui, o deserto já não tem começo
nem fim.
Quem não está hoje sujeito à dramatização
e ao stress? Envelhecer. Emagrecer. Engordar. Desfear-se.
Dormir. Educar os filhos ou os netos. Partir para férias.
Regressar de férias. Tudo é um problema…
As actividades elementares tornaram-se um problema.
Quanto mais os políticos se explicam e exibem na televisão,
mais toda a gente se está marimbando. Quanto mais comunicados
os sindicatos distribuem, menos lidos são. Quanto mais
os professores se esforçam por fazer com que os alunos
leiam, mais estes deixam de lado os livros… Indiferença,
uma profunda indiferença por saturação
toma-nos todos. Indiferença por saturação,
excesso de informação pueril e de isolamento.
A indiferença identifica-se hoje com a pouca motivação,
com a «anemia emocional» (Riesman), e também
com a desestabilização dos comportamentos e
juízos «flutuantes» na esteira das flutuações
da opinião pública. A comunicação
é efémera e flutuante. Aparece, sobe ao cume,
regressa de pronto à base e desaparece. Efémera,
instável, flutuante, promotora permanente da indiferença.
A apatia já não é uma ausência
de socialização. É uma nova socialização
flexível e económica. É uma descrispação
necessária ao funcionamento do novo capitalismo enquanto
sistema experimental, acelerado, flutuante, sistemático.
No capitalismo moderno a apatia torna possível a aceleração
das experimentações, de todas as experimentações
e não apenas da exploração. Podemos então
perguntar: está a indiferença geral ao serviço
do lucro? Não. Não apenas ao serviço
do lucro. A indiferença que se apossou dos povos atinge
todos os sectores da vida e, por isso, ela é generalizada.
A indiferença é agora meta-política,
meta-económica, permitindo ao capitalismo entrar na
sua fase de funcionamento operacional.
O novo capitalismo apela ao efémero, ao flutuante…
e por isso à desestatização. Maldito
seja o Estado, grita. Acontece que o Império Romano
não construiu as suas estradas, pontes e aquedutos
com os fundos angariados em actos de beneficência organizados
por um grupo de jograis ambulantes.
A vida nas sociedades contemporâneas é doravante
governada por uma nova estratégia. Ela destrona o primado
das relações de produção em proveito
das relações de sedução.
A indiferença cresce. Em lado algum é tão
visível como no ensino. Aqui, em poucos anos, com a
velocidade de um relâmpago, o prestígio e a autoridade
dos docentes desapareceram quase por completo.
Hoje, o discursos do Mestre encontra-se banalizado, dessacralizado,
em pé de igualdade com o dos média. O ensino
é uma máquina neutralizada pela apatia escolar,
feita de atenção dispersa e de cepticismo desenvolto
face ao saber.
Grande desapontamento dos Mestres. É esta desafectação
do saber que é significativa. Muito mais do que o tédio,
de resto variável, que tomou conta dos alunos das escolas.
Agora a escola é menos parecida com uma caserna e mais
parecida com um deserto (ressalvando-se o facto de toda a
caserna ser um deserto), onde os jovens vegetam sem grande
motivação ou interesse.
Perante este desinteresse as autoridades reagem propondo mais
do mesmo. Dizem ser necessário inovar a todo o custo:
mais liberalismo, participação, investigação
pedagógica… E o escândalo está nisso
mesmo, porque, quanto mais a escola se põe a ouvir
os pais e os alunos mais estes últimos desabitam sem
ruído nem convulsões esse lugar vazio.
As lutas, os movimentos, o associativismo pujante e as greves
estudantis do pós-68 desapareceram. Os estudantes são
agora seres inertes. Vivem a moda, o efémero, o absolutamente
transitório, a imitação. Mais do que
agir só importa macaquear os «produtos»
vendidos pelos media. O debate e a contestação
social e política extinguiu-se. A escola é um
corpo mumificado e os docentes corpos fatigados, incapazes
de lhe devolver a vida.
Não se trata, para falar com propriedade, de «despolitização».
Os partidos, as eleições, continuam a «interessar»
a maioria dos cidadãos. Mas interessam-lhe do mesmo
modo (e até em menor medida) que as apostas no totoloto
ou no euromilhões, a meteorologia, a vida dos «famosos»
ou os resultados desportivos. A política entrou na
era do espectáculo…
Nos noticiários passa-se, com naturalidade, da política
às variedades. O relevo e o tempo dado a cada notícia
é determinado pela capacidade de entretenimento que
esta tem. A sociedade actual não conhece a hierarquia,
as codificações definitivas, o centro e a periferia.
Nada mais lhe interessa do que estimulações
e opções equivalentes em cadeia… Daqui
resulta a indiferença pós-moderna. Indiferença
por excesso, não por defeito, por hiper socialização,
não por privação.
O que é que se mostra ainda capaz de nos espantar ou
escandalizar? A apatia que toma conta progressivamente do
ser humano corresponde à velocidade da informação.
Esta, uma vez registada é esquecida. Varrida de cena
por uma outra…
O homem ou a mulher cool assemelham-se ao telespectador que
experimenta «para ver», um a um, todos os programas
da noite. Ao consumidor que enche o carrinho no supermercado.
Ao veraneante que se angústia na escolha entre as praias
espanholas e o campismo na Córsega… A apatia
pós-moderna é induzida pelo campo vertiginoso
dos possíveis.
Gilles Lipovetsky; José Paulo Serralheiro; Jornal a
Página da Educação" , ano 14, nº
149, Outubro 2005, p. 48.