Aliene S. G. dos Santos
Psicóloga Clínica
Pós-Graduada (lato sensu) em Educação
do Excepcional
Dir. Administrativa da Associação Brasileira
de Medicina Psicossomática - SP
"Não sei o que fazer com ele!"- "Ele
não pára um segundo; parece que é movido
por eletricidade!"- "Vive perdendo o interesse pelas
brincadeiras... " Estas são algumas frases rotineiras
que escutamos de pais e educadores que lidam com a criança
hiperativa.
Então? O que é hiperatividade? É um fenômeno
conhecido por todos aqueles que cuidam diretamente com essas
crianças e que muitas vezes (ou quase sempre) não
sabem o que fazer efetivamente. E por causarem cansaço
extremo, geralmente são encaminhadas à psicoterapias
ou para tratamento medicamentoso.
A hiperatividade é um desvio de comportamento que impossibilita
a criança para qualquer participação,
tanto social, familiar e educacional. Na escola, não
consegue concentrar-se em nenhuma atividade; está sempre
agitada; não aceita limites e assim não respeitam
as regras. Dessa forma não consegue se "enturmar",
tornando-se "persona non grata",
A não concentração nas tarefas escolares
possibilita um decréscimo nas notas, embora sejam crianças
inteligentes, pois a maioria apresenta inteligência
normal e algumas podem até apresentar nível
acima da média.
Quem primeiro detecta esse desvio são os professores
que podem comparar o comportamento da criança hiperativa
com as outras. Já em casa, muitas vezes são
consideradas adequadas, pois os pais "acham" que
é apenas "uma criança levada". E como
dizia a vovó: "criança tem que ser levada,
porque mostra que é saudável!" Ledo engano!
Se a hiperatividade não for tratada de forma adequada
por profissionais capacitados, esse desvio pode afetar futuramente,
e de forma grave, a vida dessas crianças.
A hiperatividade, quando detectada, tem que ter um encaminhamento
correto e estas crianças podem ser avaliadas por: Psicólogos,
Neuropediatras ou Psicopedagogos que podem indicar um direcionamento
correto, ou seja, é necessário um tratamento
profilático, para evitar graves problemas no futuro
dessas crianças.
Segundo o Dr. Abram Topczewski (1), a hiperatividade tem conotação
genética, por haver algumas publicações
reforçando esta posição, como: 1) - a
manifestação é mais freqüente no
sexo masculino; 2) - há casos semelhantes nos parentes
próximos, como pai, tio, avô ou irmão.
As meninas podem ser hiperativas, embora a incidência,
no sexo feminino, seja menos freqüente.
Ainda segundo o Dr. Abram (1), a hiperatividade é a
expressão de uma disfunção orgânica,
já que envolve diversas áreas do cérebro
do indivíduo hiperativo. Considera-se haver desequilíbrio
neuroquímico cerebral, provocado pela produção
insuficiente de neurotransmissores (dopamina, noradrenalina)
em certas regiões do cérebro.
A hiperatividade é detectada no período pré-escolar,
mas com o amadurecimento do sistema nervoso central a tendência
é desaparecer, embora possa persistir até o
período escolar.
Algum tempo atrás recebi em meu consultório
um garoto de apenas 6 anos de idade, para avaliação
psicológica. Na entrevista com sua mãe, ela
falou que a escola onde ele estudava pediu que ela "procurasse
uma outra escola" para seu filho, pois o mesmo tinha
comportamentos muito inadequados: batia nos colegas, chutava
os professores, não obedecia ordens e tentou "espetar"
um coleguinha com um lápis. Os professores já
não o "suportavam" e assim a diretora sugeriu
que ela procurasse um psicólogo e uma outra escola.
A mãe referiu que na classe do filho tinha cerca de
30 alunos e que ele vivia dizendo que não "agüentava"
tanto barulho.
Quando esse meu pequeno paciente veio ao meu consultório
para uma primeira entrevista, eu me surpreendi com sua desenvoltura
(eu estava esperando um "monstrinho" e apareceu
uma criança linda e muito inteligente, além
de muito afetivo). Quando questionado sobre sua "expulsão"
da escola, argumentou: -"Eu tô cansado de falar
a mesma coisa prá todo mundo!" Ele lia e escrevia
com apenas 6 anos!
Estipulei cinco sessões para sua avaliação
com duração de 1 hora cada e nestas sessões
foram aplicados alguns testes onde ele participou muito rapidamente,
sem prestar muita atenção. Não parava
nunca! Vivia transpirando de tanto que se movimentava! Mudou
os móveis do meu consultório de lugar e exigiu
que eu os deixasse como ele queria e argumentava muito bem
sobre o seu ponto de vista. Encaminhei-o para um neurologista
para completar a minha avaliação e o diagnóstico
do profissional foi: "Síndrome do Déficit
da Atenção e Hiperatividade". Conversei
com o médico que me explicou sobre a Síndrome
e me informou que havia passado um estimulante para aliviar
a agitação do pequeno paciente.
Após a avaliação, sugeri à mãe
que ela procurasse uma escola onde acolhesse seu filho e que
sua classe deveria ter no máximo seis alunos e também
o encaminhei para ludoterapia para facilitar a elaboração
de seus conflitos através do brincar. (É filho
único).
Hoje, ele está com quase oito anos. Estuda numa escola
onde existe poucos alunos em classe. Tem professores que sabem
como lidar com crianças hiperativas, onde são
ministradas atividades diferenciadas, além de ser um
corpo docente muito afetivo.
Está acompanhando as aulas com mais atenção
e continua fazendo ludoterapia. Ou seja, se a escola anterior
entendesse mais sobre o fenômeno HIPERATIVIDADE e houvesse
profissionais mais conscientes, com certeza não haveria
necessidade de "convidá-lo a procurar outra escola".
Ele é uma criança com inteligência acima
da média. Precisaria de mais atenção,
atividades mais específicas e não ser punido
com a expulsão.
A hiperatividade não é um bicho de sete cabeças!
Pode ser tratada adequadamente e neste tratamento é
imprescindível a participação efetiva
dos pais, professores e terapeutas.
A criança hiperativa sofre com sua agitação
exagerada que lhe causa angústias que ela não
sabe como resolver. São impulsivas, comem exageradamente
e uma das causas desse comer compulsivo é que gastam
muita energia e precisam repô-la constantemente. E o
mais prioritário é dar mais atenção,
afeto e carinho a essa criança e percebê-la como
um todo e não só o seu desvio de comportamento.
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Bibliografia Indicada:
(1) TO. PCZEWSKI, Abram - "Hiperatividade - Como Lidar?"
- Ed. Casa do Psicólogo - São Paulo -1999