3 - Métodos Qualitativos
na Pesquisa Científica - Egberto r. Turato
Publicado Originalmente em
separata da:
REVISTA PORTUGUESA DE PSICOSSOMÁTICA - Volume 2 - Número
1 - Jan/Jun 2000
Edição
Sociedade Portuguesa de Psicossomática
Diretor
Rui Coelho
INTRODUÇÃO À METODOLOGIA DA PESQUISA
CLÍNICO-QUALITATIVA
Definição e Principais Características
Egberto Ribeiro Turato*
Prof.na Universidade Estadual de Campinas, São Paulo.
Resumo
Este artigo apresenta a proposta de uma metodologia de pesquisa
científica do tipo qualitativo para ser aplicada ao
setting dos cuidados com a saúde. Para tanto discute
as principais definições de métodos qualitativos
em geral mais freqüentemente encontradas na literatura
e apresenta o conceito de método clínico-qualitativo.
A seguir enumera doze principais pontos que caracterizam este
método e conclui sobre a necessidade do seu uso para
o cientista da saúde melhor conhecer os sentidos e
significados que as pessoas trazem para os fenômenos
relativos às questões da saúde-doença.
I - CONTEXTUALIZAÇÃO
Enquanto os métodos quantitativos contam com cerca
de quatrocentos anos de história, pois nasceram com
a ciência moderna galileana, os métodos qualitativos
possuem cerca de um século, vindo à luz com
os estudos antropológicos, culturais e psicanalíticos.
Com Galileu, a ciência separou-se da Filosofia e da
Religião e ocupou-se, à custa de enormes resistências
dos (cientistas) aristotélicos e da Igreja da época,
em fazer pesquisa com procedimentos metodológicos próprios,
mas voltada para o estudo das coisas da Natureza. Percebendo
que, no entanto, as manifestações do ser humano
e da sociedade consistiam em objetos com peculiaridades cujo
estudo as Ciências Naturais não davam conta,
os cientistas trataram de dar status às Ciências
do Homem, o que por sua vez não encontrou (e ainda
não encontra) menor resistência por parte da
academia conservadora que adota o paradigma positivista.
Enquanto as ciências naturais têm por base a
matemática e o objetivo é buscar explicações
sobre os fenômenos, ou seja, as relações
causais entre eles, as ciências humanas têm o
escopo de tentar compreender os fenômenos humanos e
sociais, isto é, as relações de significado.
Para o pesquisador qualitativo não bastam os fatos
(os dados), mas é preciso a imaginação
(a interpretação) para compreender o que eles
querem dizer para os indivíduos e para a cultura. A
presente proposta de pesquisa, no entanto, procura refinar
os métodos qualitativos visando a sua aplicação
num universo humano delicado, o setting dos cuidados com a
saúde, onde questões pessoais (muitas vezes
de foro íntimo) são importantes e precisam de
técnicas metodológicas especiais para serem
coletadas. Assim, partindo de bases paradigmáticas
sócio-antropológicas, os métodos clínicos
lançam mão de conhecimentos psicanalíticos,
tanto para a pesquisa de campo (valorização
dos fenômenos transferenciais), como para a discussão
dos resultados (valorização dos mecanismos inconscientes
de adaptação).
II - AS DEFINIÇÕES DE MÉTODOS QUALITATIVOS
NA LITERATURA
O ponto chave é definirmos o método qualitativo
de pesquisa. Não podemos aceitar arremedos de conceituação
como aquele que o define como o método que não
recorre aos seguintes constituintes: números, cálculos
de percentagem, técnicas estatísticas, tabelas,
amostras numericamente representativas, ensaios randomizados,
questionários fechados e escalas. Tentar definir pela
via da negação não é constituir
uma definição, mas de fato refletiria uma ausência
de conhecimento sobre o assunto.
Reproduzo uma definição genérica de métodos
qualitativos que tem sido oferecida atualmente com freqüência
na literatura especializada e que podemos considerar bastante
satisfatória:
A pesquisa qualitativa é multimetodológica quanto
ao foco, envolvendo uma abordagem interpretativa e naturalística
para seu assunto. Isto significa que os pesquisadores qualitativos
estudam as coisas no seu setting natural, tentando dar sentido
ou interpretar fenômenos em termos dos significados
que as pessoas lhes trazem (Denzin e Lincoln, 1994, p. 2).
A mera leitura desta definição pode ser insuficiente
para uma compreensão precisa do leitor desacostumado
com a prática de pesquisas qualitativas, fazendo-o
manter-se com a concepção hegemônica das
ciências naturais, as quais não têm por
escopo estudar os significados que as coisas têm para
nós, mas sim, estudar propriamente "as coisas"
(os fenômenos da natureza). Esta posição
é uma mudança também para os profissionais
da área da saúde, pois a sua formação
universitária de cunho positivista conduz espontaneamente
para o raciocínio automático das correlações
causa-efeito. Que fique claro que quando o investigador qualitativo
vai a campo estudar "as coisas", não é
nelas que ele vai ater-se, pois o termo genérico "coisas"
neste caso é um sinônimo metodológico
de objeto de estudo que tratando-se de uma pesquisa qualitativa,
são as pessoas ou comunidades em sua fala e em seu
comportamento (as "coisas" que acontecem. ..). Por
outro lado, é sempre no setting natural que ocorre
o estudo, e nunca num ambiente reprodutor de situações
(laboratórios, gabinetes, etc.).
Por conseguinte, se não é a coisa que lhe interessa,
o alvo do interesse do estudioso é, por outro lado,
o "significado" que as coisas ganham, ou seja, significados
que um indivíduo em particular ou um grupo determinado
atribuem aos fenômenos da natureza que lhes dizem respeito.
Estas pontuações merecerão cuidado especial
mais a frente, quando apresento as características
dos métodos qualitativos. Prosseguindo, em palavras
semelhantes, Bogdan e Biklen entendem a pesquisa qualitativa
como aquela em que os pesquisadores tem como alvo o seguinte:
"...melhor compreender o comporta- mento e a experiência
humanos. Eles pro- curam entender o processo pelo qual as
pessoas constroem significados e descrevem o que são
aqueles significados. Usam observação empírica
porque é com os eventos concretos do comportamento
humano que os investigadores podem pensar mais clara e profundamente
sobre a condição humana" (1998, p. 38).
Aí também os educadores norte-americanos tomam
"significados" como uma palavra-chave. Novamente
depreendemos que o pesquisador qualitativo não quer
entender / interpretar as pessoas em si mesmas (medindo os
seus comportamentos ou correlacionando quantitativamente eventos
das suas vidas), explicando o que, a seu ver, acontece com
elas. Morse e Field apresentam uma definição
detalhada de métodos qualitativos:
Métodos de pesquisa indutivos, holísticos, êmicos
(emic) , subjetivos e orientados para o processo, usados para
compreender, interpretar, descrever e desenvolver teorias
relativas a fenômenos ou a settings (1995, p. 243).
Na falta de uma tradução precisa para o português,
mantive a palavra "emic" no original, e que deve
ser entendida como o estudo e análise de um setting
ou comportamento interpretados a partir da perspectiva do
autor (sujeito do comportamento). Assim, explicações
culturais e padrões são indutivamente "descobertos”
dentro do contexto cultural em vez de analisados a partir
da perspectiva do pesquisador, de uma estruturação
prévia ou de teorias (Morse e Field, 1995, p. 242).
Este estudo e análise, a partir da visão do
pesquisador, são chamados de "emic" e permitem
que sejam feitas generalizações transculturais
(referência idem). Os autores procuraram ser abrangentes
na sua definição, mas infelizmente deixaram
de fora a palavra "significado", um termo-chave.
No seu alvo amplo, no entanto, ganha força a palavra
"teorias", as quais, na ênfase de Morse e
Field, devem ser compreendidas (já foram postas por
outros, antes da pesquisa) ou desenvolvidas (o pesquisador
propõe a sua) sobre o objeto de estudo.
Privilegiando uma definição na visão
estrutural e com objetivos contemplando mais o campo da saúde
coletiva, as metodologias da pesquisa qualitativa podem ser
entendidas como:
"...aquelas capazes de incorporara questão do
significado e da intencionalidade como inerentes aos atos,
às relações, e às estruturas sociais,
sendo es- sas últimas tomadas tanto no seu advento
quanto na sua transformação, como construções
humanas significativas (Minayo, 1994, p. 10).
Novamente, o termo significado ganha presença, a qual
passa a ser compartilhada com a palavra "intencionalidade",
pois neste entendimento a sociedade conteria a possibilidade
de todas as ações humanas tenderem propositadamente
em direção a qualquer coisa diferente de si.
Para o campo a que se dedica a autora, a metodologia qualitativa
leva em consideração os planos das estruturas
sociais, querendo saber o que isto quer dizer. Outra idéia
forte, que se harmoniza com a idéia da origem (o advento),
é a de onde se quer chegar (através da transformação).
Por fim, ao adotarmos a expressão "clínico-qualitativo",
queremos, de forma clara, apresentar como temos definido esta
metodologia: é o estudo teórico - e o correspondente
emprego em investigação - de um conjunto de
métodos científicos, técnicas e procedimentos,
adequados para descrever e interpretar os sentidos e significados
dados aos fenômenos e relacionados à vida do
indivíduo, sejam de um paciente ou de qualquer outra
pessoa participante do setting dos cuidados com a saúde
(equipa de profissionais, familiares, comunidade). O pesquisador
é movido a uma atitude de acolhimento das angústias
e ansiedades da pessoa em estudo, com a pesquisa acontecendo
em ambiente natural (settings da saúde), e mostrando-se
particularmente útil nos casos onde tais fenômenos
tenham estruturação complexa, por serem de foro
pessoal íntimo ou de verbalização emocionalmente
difícil. O pesquisador também procura um enquadramento
da relação face a face, valorizando as trocas
afetivas mobilizadas na interação pessoal e
escutando a fala do sujeito, com foco sobre tópicos
ligados à saúde / doença, aos processos
terapêuticos, aos serviços de saúde e/ou
sobre como lidam com as suas vidas. Por fim, observa o global
da sua linguagem corporal/comportamental no sentido de complementar,
confirmar ou desmentir o falado.
III - AS CARACTERÍSTICAS DO MÉTODO CLÍNICO-QUALITATIVO
1. Sentidos e significados como cernes do estudo
As características dos métodos qualitativos
gerais de pesquisa são diversas e bem conhecidas pela
literatura. Entre elas, cinco são consagradamente definidas
por Bogdan e Biklen (1998, p. 4-7) e comentadas por Triviftos
(1987 p. 128-130). Os primeiros autores, ressaltando que nem
todas as investigações qualitativas exibem todos
os traços em graus eqüitativos, descrevem cinco
características principais nesta ordem: a pesquisa
é naturalística, tem dados descritivos, a preocupação
é com o processo, é indutiva e a questão
do significado é essencial. Na discussão que
passo a fazer, no entanto, acrescento diversas outras características,
devidamente comentadas, por julgá-las pertinentes para
a concepção da proposta específica do
método clínico-qualitativo.
Destacadamente, temos que os sentidos e os significados dos
fenômenos são o cerne para os pesquisadores qualitativos.
Procurar capturá-los, ouvindo e observando os sujeitos
da pesquisa, bem como dar as interpretações,
são nossos objetivos maiores. Lembro que o termo "fenômeno"
vem do grego phainomenon particípio presente de phainesthai,
que quer dizer "aparecer" (Webster, 1997, CD-ROM).
Recordam-nos que este verbo grego provém de faina,
que por sua vez provém dela, que quer dizer "luz",
aquilo que é brilhante, donde fenômeno é
o que se situa à luz do dia ou que pode ser trazido
à luz (Martins e Bicudo, 1989, p. 22). Uma definição
de vocabulário é o que aparece à consciência,
o que é percebido, tanto na ordem física como
psíquica (Lalande, 1993, p. 394).
A abrangência do conceito de fenômeno pode recair
amplamente sobre todas as realidades, o que nos permite arbitrar
uma codificação em quatro categorias: as coisas
materiais por nós percebidas ou imaginadas; as tantas
coisas da natureza, como as da física ou da química;
as coisas ideais tais como os conceitos da lógica e
os entes matemáticos, os quais são existentes
somente no pensamento; e, por fim, as coisas culturais, assim
criadas pela prática humana, tais como as instituições
sociais e políticas e os valores morais (Chauí,
1995, p. 238). Assim, todo o existente é fenômeno.
Costumamos dizer que o fenômeno e a consciência
são distintos em sua essência, pois o primeiro
recebe os sentidos enquanto a segunda dá os sentidos.
Devemos pontuar que, para pesquisas como aquelas do campo
psicológico, a concepção de fenômeno
chama para si o sentido da entidade que se mostra em um local
situado (Martinse Bicudo, 1989, p. 22).
Assim, por exemplo, as demonstrações de sentimentos
psicológicos de uma pessoa só ocorrem enquanto
situados. Devemos ainda chamar à atenção
a diferença existente entre fato e fenômeno:
este mostra-se a si mesmo, situando-se, enquanto o fato é
controlado após ter sido definido (referência
idem), o que de certo modo nos permite conceber o termo fenômeno
como mais abrangente que o termo fato.
Na seqüência da apresentação desta
característica do método qualitativo, vamos
trazê-la à aplicação no setting
dos cuidados com a saúde. Considerando alguém
que tenha uma vivência pessoal qualquer, como em particular
à de ser ou estar doente, podemos, através da
nossa consciência, conhecer-lhe os sentidos e os significados
de tantos fenômenos ligados ao binômio saúde/
doença que se associam a alguém. São
dois elementos que às vezes são confundidos.
O termo "sentido" vem do latim, sensus, particípio
passado de sentire, que é sentir, perceber (Webster,
1997, CD- -ROM). Um mal-estar, um sintoma físico ou
mental, uma doença, um tratamento médico ou
tantos outros fenômenos têm sentidos: podem ser
percebidos pelo próprio sujeito ou pelo observador
como possuindo uma tendência (tende para um lado) e
pode-se conhecer para onde eles apontam, para que lado (ou
lados) devemos jogar nosso olhar. Isto ocorrendo paralelamente
a conhecimentos estritamente médicos estudados no campo
biológico. Orientam-se (isto é, orientam-nos)
a observar determinadas direções, sejam estas
do campo filosófico, sociológico e/ ou psicológico.
Todos sabem que uma experiência de vida, como um sintoma
ou uma doença, traz sentidos à vida da pessoa
que a comporta, o indivíduo doente, sejam estes sentidos
deseja- dos ou não, sejam ajuizados como bons ou como
maus.
Por sua vez, o termo "significado" (ou significação)
vem do latim significatus, e é a representação,
na linguagem, do significante (Cunha, 1.986, p. 721-722);
de signum, uma marca (Webster, 1997, CD-ROM). Sinal é
aquilo que "representa", é aquilo que “quer
dizer". Uma experiência, como por exemplo uma doença,
traz significados para a pessoa que a vive ou para a pessoa
que a observa no outro, sejam eles conscientes ou inconscientes.
Estes significados são nos permitidos conhecer, tomarmos
consciência enquanto observadores e investigadores,
também paralelamente aos conhecimentos que reunimos
na abordagem do campo médico-biológico. Enfim,
temos que o sentido tem por objeto a própria coisa
enquanto a significação tem por objeto o sinal
da coisa (Jolivet, 1975, p. 202).
Ao queremos conhecer sentidos e significados, buscamos interpretá-los,
voarmos com nossa criatividade para compreender os fenômenos,
recusando assim ficarmos sob o paradigma positivista, cujos
seguidores pretendem ver-nos presos à quantificação
dos fatos. Numa pesquisa com pacientes com enfarte do miocárdio,
por exemplo, apresentei o que pacientes quiseram dizer, fenômenos
associados ao tratamento e prevenção da doença
(Turato, 1988).
2. Ambiente natural como local necessário
Na segunda característica dos métodos qualitativos,
deve ficar claro que o ambiente natural é o local certo
para a colheita dos dados, pois a configuração
ambiental engloba e preserva a configuração
das incontáveis características da pessoa, alvo
de nossos estudos. Chamamos esta pesquisa de naturalística
pois, não sendo experimental, trata-se de uma pesquisa
em settings acontecendo naturalmente (Pope e Mays, 1995, p.
43). Obviamente não devemos confundir a palavra naturalística,
também habitualmente usada para se referir aos estudos
dos elementos da natureza, num paradigma distinto do nosso,
já que não usamos o das ciências naturais.No
caso da pesquisa clínico-qualitativa, consideramos
metodologicamente que o contexto físico-estrutural,
quotidiano, do local da prestação de serviços
clínicos (o setting dos cuidados com a saúde)
configura-se num ambiente natural para as pessoas ali envolvidas
com processos clínicos preventivos e/ ou terapêuticos.
Em oposição, sabemos que a chamada "pesquisa
de gabinete" não traz a autoridade e a validade
que um trabalho de campo tem a capacidade de trazer.
A palavra setting adquire um sentido especial para quem trabalha
nas áreas "psi", sobretudo para os psicoterapeutas
que utilizam referenciais psicodinâmicos. Em contrapartida,
os pesquisadores de áreas sociais, inclusive os da
saúde coletiva, muitas vezes empregam expressões
que falam de escolha do locus e do grupo de observação
e informação (Minayo, 1994, p. 102). Entendo
setting como um ambiente delimitado, um enquadramento, enfim
englobando todos os aspectos incidentais que envolvem as pessoas
num momento particular. Pela acepção rica e
consagrada na língua inglesa, empregamo-la mesmo falando
e escrevendo em outras línguas. Lembro que em inglês,
há ainda o termo environment, também com o significado
de ambiente, mas referindo-se mais amplamente ao "meio",
com todas as situações, eventos e pessoas influenciando
o modo em que se vive e trabalha. Mais especificamente sobre
"ambiente" e "ambientação",
discutirei no final do capítulo seguinte, que trata
das questões imediatas à operacionalização.
3- Valorização das angústias e ansiedades
como fundamentais
Tratando-se do uso do método qualitativo aplicado no
setting dos cuidados com a saúde, é imprescindível
ao pesquisador, acolhendo a pessoa numa atitude clínica,
valorizar a existência das angústias e ansiedades
da pessoa entrevistada como um elemento fundamental de mobilização
do interesse do entrevistador. Recordamos que, do latim, angustia
significa estreiteza, de angere, apertar forte, sufocar (Webster,
1997, CD- -ROM). Considerando a angústia primeiramente
no sentido da atividade clínica, lembramos do que nos
fala sobre ela o psicólogo e filósofo alemão
Karl Jaspers (1883-1969), um pensa-
dor que muito refletiu sobre a questão da existência.
Frisemos que a existência é entendida como a
dimensão do homem que há mais de imediato e
direto, de mais intimo e pessoal de cada um; na qual este
se sente radicado da maneira mais profunda, aquilo que é
mais inseparável da pessoa e mais incomunicável
(Mondin, 1985, p. 194).
Abaixo um significativo trecho de sua obra "Psicopatologia
Geral", editada pela primeira vez em 1913, onde o autor,
ao falar dos fenômenos da vida psíquica, tais
como os sentimentos sem objeto, assim retrata a angústia:
Sentimento freqüente e torturante é a angústia.
O medo se refere a alguma coisa. A angústia é
sem objeto. Como sensação de um sentimento específico
no coração, a angústia é vital.
...Todavia, a angústia é também estado
de alma originário, que, em analogia com à angústia
vital, atinge, penetra e domina sempre toda a existência.
...A angústia está ligada a sensações
corporais, a um sentimento de pressão, sufocação,
estreiteza. Muitas vezes, é localizada, por exemplo,
como angústia precordial, às vezes até
como angústia cefálica (1979, p. 138-139).
Outrossim, tomo o termo angústia no sentido não
apenas clínico, enquanto um sintoma da manifestação
psicológica de uma sensação interna de
opressão, mas principalmente, no sentido existencialista,
como algo que traz inquietação que acaba por
limitar e restringir a vida: angústia como desejo de
algo que se teme e de medo do que se deseja e que como tal
prepara e anuncia uma ruptura, um salto a realizar (Jolivet,
1975, p. 19). Neste sentido filosófico, a angústia
é tida como um estado que traz ao homem uma tensão
não resolvida entre o ser e o nada, entre o finito
e infinito. O existencialismo é uma corrente de pensamento
que ganhou força após a Primeira Guerra Mundial,
tida por muitos como uma renovação necessária,
buscando uma análise minuciosa da experiência
quotidiana em todos os seus aspectos ...sobretudo dos aspectos
irracionais da existência humana (Mondin, 1985, p. 182).
É no existencialismo do filósofo dinamarquês
Sõren Aabye Kierkegaard (1813-1855) que encontramos
reflexões ilustrativas de como consideramos as ansiedades
e angústias presentes no sujeito que queremos estudar.
Embora o pensamento deste autor se tenha ocupado bastante
com a temática teológica, o seu discurso filosófico
alcançou grande valor inegavelmente por examinar a
natureza do indivíduo, os limites do sistema, os conceitos
de existência, de angústia e de interioridade
(Mondin, 1985, p. 74-75). Ouçamos o autor, que em sua
obra "O Desespero Humano", de 1849, diz:
Assim como talvez não haja, dizem os médicos,
ninguém completamente são, também se
poderia dizer, conhecendo bem o homem, que nem um só
existe que este- já isento de desespero, que não
tenha lá no fundo uma inquietação, uma
perturbação, uma desarmonia, um receio de não
se sabe o quê de desconhecido ou que ele nem ousa conhecer,
receio duma eventualidade exterior ou receio de si próprio;
tal como os médicos dizem duma doença, o homem
traz em estado latente uma enfermidade, da qual, num relâmpago,
raramente um medo inexplicável lhe revela a presença
interna (Kierkegaard, 1984, p. 203).
A fala e o comportamento humanos demonstram angústias
e ansiedades da pessoa que devem ser encaradas e acolhidas
pelo pesquisador qualitativo. Quem não tiver esta sensibilidade
e disponibilidade interna de acolher angústias e ansiedades
do outro não será um bom investigador clínico.
Na realidade, a angústia humana é a força
motriz, de origem interna ao cientista, que o persuade e o
impulsiona à investigação. Desta perspectiva,
a atividade científica parte com um interesse secundário
por fatores socioeconômicos e históricos, mas
mais condicionada pelas emoções e pela razão
da pessoa do investigador.
4. Valorização de elementos psicodinâmicos
como ferramentas
Particularizemos as influências que recebemos da teoria
e da prática da psicanálise, como desenvolvida
por Freud, e de onde devemos, obrigatoriamente, tanto extrair
alguns elementos como contribuição para discussão
de material colhido no contexto de uma pesquisa clínico-qualitativa,
como, antes, aprender condutas para se colocar o mais adequadamente
no setting de uma entrevista, tendo esta como técnica-chave
do modelo pesquisa aqui proposto visando uma rica colheita
de dados. Não se tratando exatamente de uma investigação
psicanalítica no sentido estrito desta concepção,
a investigação na psicologia dos settings dos
cuidados com a saúde, vai emprestar conceitos da psicanálise
para serem utilizados como uma ferramenta, entre outras, a
fim de empreender suas pesquisas científicas. Analogamente,
como se cunhou a expressão Psiquiatria Clínica
Psicodinâmica, que não é Psicanálise,
mas é a prática psiquiátrica que recorre
a conhecimentos selecionados desta, podemos também
pensar numa psicologia médica tom recursos psicodinâmicos,
referindo-se a uma determinada prática investigadora
psicológica que se beneficia de conceitos trazidos
da psicanálise.
5. Pesquisador como instrumento
Uma quinta característica é termos o pesquisador-como-instrumento,
concordando (e acompanhado de tantos autores) com as educadoras
Lüdke e André que mencionam que o pesquisador
pode recorrer aos conhecimentos e experiências pessoais
como auxiliares no processo de compreensão e interpretação
do fenômeno estudado, considerando importantes a introspecção
e a reflexão pessoal na pesquisa naturalística
(1986 p. 26). Com o intuito de entender os elementos emocionais
envolvidos numa entrevista para aplicá-los, tanto na
clínica assistencial como na investigação
científica, tenho predileção, desde o
início de minha carreira de pesquisador e clínico,
pelas discussões literárias do psicanalista
argentino José Eleger. Este autor privilegia de modo
claro e objetivo a discussão da participação
do entrevistador no resultado da entrevista. Sobre a característica
do pesquisador aqui enfocado, diz este autor:
O instrumento de trabalho do entrevistador é ele mesmo,
sua própria personalidade, que participa inevitavelmente
da relação interpessoal, com o agravante de
que o objeto que deve estudar é outro ser humano, de
tal maneira que, ao examinar a vida dos demais, se acha diretamente
implicada a revisão e o exame de sua própria
vida, de sua personalidade, conflito e frustrações
(1985, p. 26).
6. Pesquisador como bricoleur
Outra característica é termos o pesquisador-como-bricoleur.
A pesquisa qualitativa envolve o uso de uma coleção
variada de materiais empíricos, dentre os quais a entrevista
e o observacional, que devem descrever os momentos rotineiros
e problemáticos e os significados nas vidas dos indivíduos,
sendo que as múltiplas metodologias da pesquisa qualitativa
podem ser vistas como uma 'bricolage' e o pesquisador como
um 'bricoleur'. (Denzin e Lincoln, 1994, p. 2). Os autores
lembram que a pesquisa qualitativa comporta eminentemente
múltiplos métodos de abordagem para tentar assegurar
uma compreensão em profundidade dos fenômenos
em questão, embora sabemos que a realidade objetiva
como tal jamais pode ser capturada (idem, p.2). O bricoleur,
na concepção de Lévi-Strauss e comentada
por Chauí, produz um objeto novo a partir de pedaços
e fragmentos de outros objetos. Vai reunindo, sem um plano
muito rígido, tudo o que encontra e que serve para
o objeto que está compondo (1995 p. 161). No vernáculo
francês, bricolage é a ação de
fazer qualquer espécie de trabalho, consertar ou remendar
de forma pouco elaborada. Denzin e Lincoln lembram que o bricoleur
é versado sobre muitos paradigmas interpretativos que
podem ser trazidos para um problema particular (1994 p. 2);
compreende que a pesquisa é um processo interativo
moldado pela sua história pessoal, biografia, gênero,
classe social, raça e etnicidade, e que sabe ainda
que ciência é poder, que para todos os achados
há uma implicação política (idem,
p. 3).
Assim diz o antropólogo acerca da figura do bricoleur,
em trechos extraídos de sua obra "O Pensamento
Selvagem", inicialmente publicado em francês em
1962, e que ressaltam o princípio de serventia de quaisquer
elementos como meios da pesquisa, a escolha prévia
de uma resposta ao problema e uma reflexão sobre a
precariedade de equilíbrios das condições
numa pesquisa:
O conjunto de meios do bricoleur não é, portanto,
definível por um projeto...; ele se define apenas por
sua instrumentalidade e, para empregar a própria linguagem
do bricoleur, porque os elementos são recolhidos ou
conservados em função do princípio de
que "isso sempre pode servir" (Lévi-Strauss,
1989, p 33).
...mesmo estimulado pelo seu projeto, o seu primeiro passo
prático é retrospectivo, ele deve voltar-se
para um conjunto já constituído,formado por
utensílios e materiais, fazer ou refazer seu inventário,
enfim e sobretudo, entabular uma espécie de diálogo
com ele, para listar, antes de escolher entre elas, as respostas
possíveis que o conjunto pode oferecer ao problema
colocado (idem, p. 34).
É preciso acrescentar, enfim, que o equilíbrio
entre estrutura e fato, necessidade e contingência,
interioridade e exterioridade é um equilíbrio
precário, constantemente ameaçado pelas trações
exercidas num e noutro sentido, segundo as flutuações
da moda, do estilo e das condições sociais gerais
(idem, p. 45-46).
Esta característica de atividade do pesquisador-bricoleur
não se atém apenas na fase da colheita de dados
de uma pesquisa, mas também no momento de lidar com
eles, quando é preciso também ter certa destreza
em usar tantos referenciais teóricos como ferramentas
de interpretação de resultados. Por exemplo,
no caso de muitos profissionais "psi", devemos reconhecer
que estes, quando acostumados à prática de atendimento
clínico ou psicoterápico nas linhas psicodinâmicas,
terão obviamente maior desembaraço para concretizar
as diversas etapas do método. Penso que, mesmo não
tendo uma formação institucionalizada, no sentido
de concretizada através de cursos específicos
para estudos em profundidade, e nem se ocupando com a prática
regular de psicoterapia de orientação analítica,
todos os estudiosos do ser humano deveriam se sentir à
vontade em buscar os recursos do saber psicológico
profundo, a fim de trabalhar com estes conhecimentos nos seus
estudos.
Embora a leitura de obras da literatura psicológica
concernente seja altamente recomendada para os pesquisadores
de modelos qualitativos em geral, sabemos que este conhecimento
pode ser adquirido empiricamente. Embora, via de regra, possam
não atingir uma sistematização de maior
complexidade, estes conhecimentos advêm de modo razoavelmente
consistentes com as vivências em campo. Vejamos o bom
exemplo de Camargo, pesquisadora da Unicamp, com formação
básica em Biologia e professora da área de Educação,
que nos relata a sua ilustrativa experiência neste sentido,
ao realizar seu trabalho de doutorado sobre a questão
da Síndrome de Imunodeficiência Adquirida. Seu
trabalho destacava o discurso científico como dualista
ao tomar categorias como contrárias (doença
/ saúde, razão / emoção, vida
/ morte), percebendo que os depoimentos tomados dos sujeitos
da pesquisa mostravam o que chamou de um movimento constante
onde a razão transparece através da emoção
e a vida através da morte (1994, p. 19).
Mas o interessante é assinalar que já em campo,
como freqüentemente observamos em muitos casos de pesquisadores
das Ciências do Homem, Camargo, no seu contacto com
o ambiente do hospital onde realizou a sua investigação
(e que a levava à familiarização com
o setting) constatou um fenômeno havido o qual denominou
de preparo interior, tido como deveras útil para conseguir
maior aproximação com os pacientes e profissionais.
Notou também, mesmo após ter havido um período
de ambientação, outro fenômeno durante
as entrevistas: percebia em si (e registrava nas suas notas)
uma ansiedade face à desconhecida reação
dos entrevistados (idem, p. 21). Após a realização
dos primeiros contactos, notou mais um fenômeno o qual,
por sua vez, chamou de desempenho implícito de diversos
papéis nas entrevistas que conduzia (idem, p. 22).
A pesquisadora relata, outrossim, ter aprendido em campo que
a história pessoal referida pelos sujeitos não
apresentava necessariamente a realidade de como a vida tinha
sido vivida exatamente, mas que os depoimentos retratavam
como a vida lhes fazia sentido. Camargo concluiu que o ato
de falar sobre a própria vida podia levar o entrevistado
a reorganizá-la, pois percebeu a fala como um ato criativo,
fazendo o indivíduo repensar os eventos de vida, dando-lhes
sentido (idem, p. 24). Por fim, a colega enumerou uma série
de características do conteúdo e da forma da
fala, nas quais viu significados e enfatizou que devem ser
devidamente considerados (idem, p. 25). Neste simples e rico
exemplo, constatamos autênticas páginas da psicologia
médica, mostrando como um investigador sensível
pode chegar, também pela via intuitiva, aos mesmos
conhecimentos, embora talvez não de forma tão
complexa ou sofisticada. Sobretudo, faz-nos pensar, que o
pesquisador, quando pluralista (eclético), poderá
dominar o suficiente de certas áreas do conhecimento
para lançar mão dos seus conceitos para lidar
com os dados.
7. Processo como norteador do interesse do pesquisador
Uma característica relevante do método é
que os pesquisadores qualitativos ocupam-se tanto (ou mais)
com o processo do que com o produto, ou seja, querem saber
como os fenômenos ocorrem importando as suas relações.
Por conta disto, o pesquisador qualitativo quer penetrar na
sua estrutura íntima, latente. Por isso, as perguntas
colocadas aos entrevistados, via de regra, devem iniciar pelo
pronome "como" e menos com o "por- quê".
A primeira forma de indagar, sobre um tópico tende
a levar o sujeito a pensar no processo, descobrindo-o, isto
é, "como" estaria ocorrendo o fenômeno,
que tantos eventos mantêm alguma relação
com ele, buscando raciocínios de uma rede de múltiplas
e recíprocas causalidades. Ao contrário, perguntar
"porquê", além de poder ser sentida
a pergunta com um tanto de caráter persecutório,
pode levar o entrevistado a pensar de maneira mais linear,
no raciocínio de uma relação causa-efeito,
buscando somente "produtos".
8. Naturezas teórica e prática como pontos de
partida simultâneos
Uma característica interessante do método diz
respeito às suas concomitantes naturezas teórica
e prática, pois o pesquisador deve ter como ponto de
partida tanto as teorias onde aprendeu sobre as observações
empíricas, como as experiências por ele vividas
(Martins e Bicudo, 1989, p. 25).
9. Raciocínios indutivo e dedutivo como métodos
seqüenciais de trabalho
Além das características apontadas acima, vemos
que a literatura é consensual em apontar os métodos
qualitativos como integrando o conjunto dos métodos
indutivos. Seguindo a visão da literatura em geral,
também Morse e Field pontuam que, na pesquisa qualitativa,
a teoria seria construída para explicar as relações
observadas do modo como elas emergem a partir dos dados, ao
contrário do que ocorreria nos métodos dedutivos,
onde seria mencionado que as variáveis, conceitos,
constructos e hipóteses são derivados de relações
observadas durante o processo de codificação
dos dados (1995 p. 242). Entretanto, não penso bem
assim, pois parece-me cair num certo cartesianismo dizer que
os métodos quantitativos são dedutivos, enquanto
os qualitativos são indutivos. Falamos nos métodos
indutivos entendidos teoricamente como aqueles que partem
do particular para o geral e nos dedutivos, ao contrário,
que partem do geral para o particular. Concordo com Triviños,
acerca dos fenômenos, ao comentar que podem ser explicados
num processo dialético indutivo-dedutivo. É
compreendido em sua totalidade, inclusive, intuitivamente.
(1987, p. 130).
10. Validade dos dados como força do método
Podemos dizer que os estudos qualitativos têm a sua
maior força na validade, isto é, no alcance
para o qual a medição reflete autenticamente
o fenômeno sob exame, em contraste com a força
maior dos estudos quantitativos que se encontra na fidedignidade
(confiabilidade, reprodutibilidade, qualidade do que é
receptível), ou seja, no alcance para o qual a medição
produz a mesma resposta a cada vez que é usada (Pope
e Mays, 1995, p. 43). Bogdan e Biklen pontuam que pesquisadores
qualitativos não partilham a expectativa de que deva
haver a mesma consistência nos resultados de observações
feitas por diferentes autores ou pelo mesmo autor todo o tempo,
mas estão preocupados com a precisão e a compreensão
de seus dados (1998 p. 35-36). Para as educadoras Lüdke
e André, o que se espera nos estudos qualitativos não
é que os observadores totalmente isentos cheguem às
mesmas representações dos mesmos eventos, mas
sim que haja alguma concordância, pelo menos temporária,
de que essa forma de representação da realidade
é aceitável, embora possam existir outras igualmente
aceitáveis, sendo que o importante é manter
uma atitude flexível e aberta, admitindo que outras
interpretações podem ser sugeridas, discutidas
e igualmente aceitas (1986 p. 52). Appleton lembra-nos que
a validade dos dados da entrevista qualitativa acontece na
medida que o estudo revela uma descrição acurada
das experiências dos indivíduos e que as pessoas
ao terem esta experiência reconheceriam imediatamente
aquelas descrições ou interpretações
como sendo delas próprias (1995 p. 995).
11. Descrição dos dados e interpretação
como fases concomitantes
Podemos falar que a pesquisa qualitativa apresenta dados descritivos
e as descrições são tratadas interpretativamente
(Martins e Bicudo, 1989, p. 28). Os dados coletados levam
a forma de palavras, os resultados escritos devem conter citações
literais ilustrativas que dão vida à apresentação,
bem como as interpretações, com toda a sua riqueza,
devem estar tão próximas quanto possível
da for- ma como aparecem gravadas (Bogdan e Biklen, 1998,
p. 5). Além de que o pesquisador qualitativo deve complementar
a redação com as observações emergentes
no setting da entrevista, sempre perguntando a si próprio
o porquê dos detalhes da linguagem verbal e não
verbal daquele entrevistado.
12. Pressupostos conclusivos como passíveis de generalização
Por fim, fecho o quadro com a seguinte característica:
ao contrário dos métodos quantitativos que são
tidos para generalizar seus achados para outros campos, os
métodos qualitativos permitem generalizar os pressupostos
finais levantados como conclusões do respectivo trabalho.
Lembra- mos que generalizar significa atribuir um valor geral
ou partir dos casos particulares para o geral, ou seja, para
aquilo que concerne a todos os indivíduos, coisas ou
fatos que formam um gênero, uma categoria ou um conjunto
(Zingarelli, 1998,CD-ROM).Cabe ao leitor, consumidor da pesquisa
realizada, empregar tais pressupostos conclusivos para novos
casos, situação onde fenômenos e fatos
semelhantes se apresentam a ele, no sentido de ver se seriam
úteis na sua compreensão. Portanto, incabível
seria a crítica de que os seus resultados não
são reprodutíveis. Primeiramente, porque fenômenos
e fatos, sejam individuais ou na amplitude social, os quais
se manifestam no campo das Ciências do Homem, por razões
obviamente conhecidas, simplesmente não são
reprodutíveis.
Em segundo lugar, porque o que se quer na pesquisa qualitativa
é, de modo deliberado, conhecer cientificamente o particular.
Seríamos ingênuos em querer ver toda a forma
de ciência como preocupada com a característica
da reprodutibilidade. Mais do que isso significaria ficarmos
presos na armadilha da própria pretensa esperteza mental.
Pior, estaríamos estagnados a cem anos atrás.
Bogdan e Biklen lamentam que algumas pessoas têm a possibilidade
de usar uma definição extremamente tacanha de
ciência, qualificando de pesquisa somente o que é
dedutivo e possa testar hipóteses, mas por outro lado,
parte da atitude científica é para ser mente
aberta sobre métodos e evidências (1998 p. 38).
IV-CONCLUSÕES
E o que se apresentaria, de fato, como novo nesta proposta
de trabalho de investigação científica
que temos denominado clínico-qualitativa? Digo que
temos uma proposta não somente teórica, mas
também, e, sobretudo, prática e concreta de
união, numa postura que se quer eclética entre
duas áreas.
De um lado, as concepções epistemológicas
dos métodos qualitativos de pesquisa desenvolvidos
a partir das Ciências do Homem, e, de outro lado, os
conhecimentos e atitudes clínico-psicológicas
desenvolvidos tanto no enfoque psicodinâmico das relações
pessoais, como historicamente no campo da prática da
medicina clínica.
Em outras palavras: o método de que aqui falamos não
se situa apenas sob os referenciais paradigmáticos
convencionalmente usados na sociologia compreensiva e na antropologia
cultural, mas a partir deles, e diferentemente do que constatamos
na literatura da pesquisa destas duas disciplinas, busca lançar
mão de conceitos emprestados da psicanálise,
para se marcar o desenho da pesquisa, a definição
dos pressupostos e objetivos, a construção e
aplicação dos instrumentos em campo e, finalmente,
a interpretação dos resultados do trabalho.
E como força motriz para o cientista na pesquisa clínico-qualitativa
está a sua posição existencialista, isto
é, o pesquisador é movido pelas suas angústias
e ansiedades pessoais para querer compreender a questão
humana e, identificando-se com o outro (o sujeito alvo de
seu estudo), acolhe as angústias e ansiedades deste.
Embora possamos pensar que estes elementos existenciais estejam
presentes em todos os cientistas, nesta abordagem metodológica,
o investigador tem consciência desta realidade e usa-a
na escolha do assunto da sua pesquisa, na aproximação
para com as pessoas em estudo e na discussão que fará
com os resultados do seu trabalho.
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Abstract
This article presents the proposal of a methodology of qualitative
scientific research to be applied to the health care 5etting.
Thus, it discusses the main definitions of qualitative methods
in general as usually seen in literature and presents the
concept of clinical-qualitative method. Next, it enumerates
twelve main points that characterize this method and concludes
about the necessity of using it so that the health scientist
can fully understand the meanings that people attribute to
health-illness questions.
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