Antigamente, quando se pensava em “saúde”
se pensava em alguém que não estivesse doente.
Não estar doente era não ter sintomas como
febre ou dor de cabeça.
Mas, essa é uma visão bastante antiga e desatualizada.
Além, de restrita.
Ela é própria de uma época em que havia
grande entusiasmo em relação às descobertas
de bacilos e do poder dos micro-organismos causarem doenças.
A gente não faz idéia do que era descobrir
isso numa época em que não se podia fazer
quase nada pelas pessoas doentes... A doença era
um mistério profundo e a medicina ficava desconfortavelmente
em cima do muro, entre a superstição de um
lado e práticas duvidosas e aleatórias do
outro... como sangrias ou banhos.
Simplesmente, os médicos não sabiam o que
estava acontecendo direito com as pessoas doentes e tentavam
fazer o que podiam, baseados nos melhores esquemas teóricos
da época e em práticas que pareciam dar algum
resultado, que os colegas tentavam e pareciam melhorar o
estado do paciente.
Aí, veio alguém que resolveu uma parte do
mistério todo! Existiam micróbios!!!
Seres vivos invisíveis de tão pequenos que
podiam causar doenças, atacando nosso organismo para
poder viverem, para tirar dele seus nutrientes. Isso resolvia
“tudo”!
De repente, você tinha a chave na mão! Podia
entender e realmente fazer ALGO por aquelas pessoas...Esse
entusiasmo levou todo mundo a encarar a idéia de
saúde como uma questão básica de micróbios
atacando o organismo. E uma idéia que funciona bem
em uma coisa, logo a usamos para abordar tudo... Aquela
pessoa que não podia fazer muita coisa pelos seus
pacientes, agora tinha um recurso muito forte!! Não
é de se estranhar que todo o serviço de saúde
tenha se identificado como “caçadores de micróbios”.
Era a única idéia que – até então
– era realmente eficaz contra as doenças. Isso
gerou toda uma tecnologia de identificar os micróbios
e ajudar nosso organismo a combate-los e toda a linha de
pesquisa foi calcada nessa idéia.
Por isso, idéias de higiene e bons hábitos
alimentares foram tão difundidas e estão presentes
em todos os currículos escolares. Higiene para eliminar
micróbios e bons hábitos para termos um organismo
forte para enfrentar os microorganismos. Ter saúde,
então, era nos vermos livres da ação
dos micro-organismos. Essa descoberta – do micróbio
como causa da doença – foi uma grande idéia.
Trouxe grande avanço e ajudou muita gente e até
hoje ajuda, obviamente. A quantidade de mortes, sofrimentos
e mutilações que isso evitou, evita e evitará
é uma coisa incalculável...
Só o que aconteceu foi que o entusiasmo por essa
idéia micróbio-doença ocupou toda a
cena, não restando espaço para mais nada.
Como tudo que dá certo... todo o ensino, treinamento,
preparo dos profissionais da saúde davam ênfase
na área em que eles realmente podiam fazer alguma
coisa... Com o passar do tempo, essa ênfase virou
exclusividade, com o tempo essa animação toda
com a nova descoberta dos micróbios fez com que as
pessoas se acostumassem a pensar em doença só
em termos de micróbios e em saúde só
em termos de não se estar doente, isto é,
livre de micróbios. As pessoas acabaram esquecendo
um monte de coisas e a não procurar mais nada. Ai
se criou uma séria rigidez em torno do raciocínio
dos profissionais da saúde: doença era sinônimo
de micróbio, basicamente. Fora disso... era bobagem...
fingimento... frescura...
Embora, hoje em dia o pensamento geral seja ainda esse,
assim como dos profissionais mais desatualizados ou apegados
a esquemas antigos, a comunidade científica internacional,
há décadas, tem encarado as coisas de modo
diferente: saúde é o bem estar físico,
psíquico e social da pessoa. Não se pensa
mais em saúde como “aquele estado sem doença”,
aquela coisa de que “você está bem se
não tem nada”...
Hoje, todo bom profissional de saúde encara a saúde
como uma coisa muito complexa, fruto de um bom funcionamento
bio-psico-social, que produz a maior riqueza da vida: o
bem estar!!!