O ESTADO DE S.PAULO
Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2005
Quando a doença vem da emoção a somatização
tem de ser tratada, pois pode enfraquecer as defesas do organismo
Simone Iwasso
Basta passar por uma situação muito difícil,
estressante ou problemática que o corpo fica diferente:
a cabeça dói, o resfriado aparece, a digestão
se complica, a respiração fica difícil
ou a pele se enche de alergias. O fato não é
uma simples coincidência, mas um processo chamado pela
medicina de somatização, ou seja, a transferência
para o corpo do que deveria ser vivido e suportado apenas
na mente.Segundo os profissionais que trabalham com a medicina
psicossomática, todas as pessoas acabam provocando
mudanças no corpo ao enfrentar determinadas situações
emocionais, principalmente as que produzem stress e ansiedade.
O que muda é a intensidade e a freqüência
com que isso acontece - de eventos ocasionais a transtornos
repetitivos, que acabam se tornando crônicos.
Desse modo, cada vez que uma pessoa não consegue suportar
no plano psíquico uma situação, ela acaba
produzindo ou agravando sintomas e doenças que se manifestam
no corpo. Palpitações, gastrite e dores de cabeça
estão entre os sintomas mais comuns, mas a somatização
pode deixar o organismo com menos defesas para doenças
sérias, como câncer, além de prejudicar
a recuperação de uma cirurgia, por exemplo.
"O stress e a ansiedade são os principais fatores
que acabam por influenciar no aparecimento, na manutenção
ou repetição de uma doença física,
porque eles alteram o funcionamento de vários sistemas
do nosso organismo", explica o psiquiatra Carlos Andrade,
diretor-científico do Comitê de Medicina Psicossomática
da Associação Paulista de Medicina.
No entanto, é possível controlar e até
mesmo evitar que isso aconteça. Mas a receita, que
não é fácil e muito menos rápida,
inclui o autoconhecimento, a descoberta de válvulas
de escape e uma mudança na maneira de encarar os problemas
e reagir a eles, de preferência com acompanhamento de
um psicoterapeuta.
SINAIS CEREBRAIS
Apesar de mudar de pessoa para pessoa, a somatização
é explicada cientificamente. Raiva, paixão,
tristeza, medo e uma série de emoções
causam alterações no organismo, liberando ou
inibindo a produção de substâncias, como
adrenalina, cortisol e serotonina.
Quando a pessoa fica durante muito tempo submetida a uma situação
diferente, ela desencadeia mudanças no sistema nervoso
autônomo, responsável pelos batimentos cardíacos,
pela temperatura corporal, pela digestão, pela respiração
e pela sexualidade. Além disso, provoca mudanças
no sistema endocrinológico, que produz uma série
de hormônios, e no sistema imunológico, responsável
pela defesa do organismo.
Desse modo, a bagunça no corpo começa e os sintomas
aparecerem - o local escolhido depende da herança genética
e racial de cada pessoa. "O indivíduo tende a
somatizar nas áreas do corpo que já estão
mais fragilizadas ou já tiveram um problema no passado.
Depende das reações e da composição
física de cada pessoa", afirma Andrade.
Mesmo assim, os médicos afirmam que existe um perfil
geral do somatizador: pessoas extremamente ligadas ao mundo
real, que dão pouco espaço para elaborações
psíquicas e em cuja vida não há muito
espaço para fantasias e imaginação. Sendo
assim, acabam tendo pouco contato e tempo para suas questões
psicológicas.
"Como não conseguem eliminar as tensões
de uma forma natural, aparecem essas válvulas artificiais
e as pessoas desenvolvem doenças físicas que
têm certamente origem emocional. A gastrite, por exemplo,
pode ser uma patologia do aparelho digestivo que se desenvolve
à medida que aumentam o stress e o desgaste do paciente",
diz o psiquiatra Leonard Verea, especialista em psicossomática.
Em algumas pessoas, o problema se acentua e aparece de uma
outra maneira. Ou seja, a pessoa sente sintomas de várias
doenças, é examinada pelos médicos, faz
exames, mas não encontra nada no corpo que explique
o que sente. Nesse caso, não há doença
física com o problema emocional. É o transtorno
de somatização, estudado pela psiquiatria.
"O paciente sente sintomas no corpo sem que haja uma
causa física que explique aquilo. E ele sofre porque
não encontra uma causa. Geralmente, são pessoas
que recusam fazer um acompanhamento psicológico",
explica o psiquiatra José Atílio Bombana, do
Programa de Atendimento e Estudos de Somatização
da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
TRATAMENTO
Há cerca de dois anos, ao passar por problemas familiares,
a estudante de administração hoteleira Júlia
Moraes Ramos, de 22 anos, começou a sentir dores do
estômago e a vomitar constantemente. Foi ao médico
e teve o diagnóstico: gastrite. "Ele me receitou
remédios e um calmante natural, para eu tomar quando
ficasse muito nervosa. Era muito rápido. Eu ficava
nervosa, preocupada e uma hora depois começa a doer
meu estômago, apareciam aftas na minha boca, eu chorava",
conta.
Logo depois, e seguindo a recomendação do médico,
Júlia procurou uma terapeuta. "Ela falou para
mim que quando tenho um problema que não consigo digerir
acabo atacando o meu estômago. Depois da terapia melhorei
bastante, aprendi a não ficar fazendo mal para mim,
tento me entender e me controlar", diz.
A estudante seguiu o caminho mais recomendado pelos médicos.
Segundo eles, apenas tomar remédios para aliviar os
sintomas ou curar a doença não são suficientes.
Sem mexer na origem do problema, a somatização
continuará. "A pessoa precisa ter a humildade
de se olhar no espelho e dizer: eu preciso mudar. E ter a
coragem para mudar. Senão ficará se repetindo
para sempre", observa o psiquiatra Verea.
"A mudança acontece quando consigo conhecer minha
capacidade, incapacidade, bondade e maldade. Aí a pessoa
pode discernir o que sente, o que é dela e o que está
absorvendo do ambiente em que está", diz a psicóloga
Maria Rosa Spinelli, da Associação Brasileira
de Medicina Psicossomática.