A finalidade deste trabalho
é mostrar as causas de diversas doenças psicossomáticas
observadas em grupanálise e a maneira de abordá-las
na transferência terapêutica.
O autor inicia fazendo uma revisão literária
sobre a importância do lobo pré-frontal, lateralização
cerebral (conflito entre hemisfério direito e esquerdo,
Apolioniano e Dionisiano), cérebro reptiliano (superego
ancestral, neurose obsessiva e tendência paranóide
do homem - Koestler) e Homo mythicus (elaboração
das fantasias inconscientes, paleológica e princípios
de Von Domarus e Matte Blanco, assim como o conflito seria
uma inibição contra lateral, cooperação,
ativação inter-hemisferial e criatividade, a
ligação inter-hemisferial).
Na psicossomática a mente está em todo o corpo
e não só no crânio; está na célula
(libido do ego célulo-humoral) e no grupo (mente grupal,
matriz dinâmica, psiquismo grupal ou aparelho psíquico
grupal) principalmente teleonômica (a que enfatiza o
nosso comportamento dado pelo código genético).
Cada pessoa reage de acordo com a sua estidade.
Através da tomografia computadorizada tipo PET (emissão
positron) marcada com fluorodesoxiglicose, poderemos constatar
se o pensamento é bom, mau, confuso, etc., principalmente
se dosarmos os alucinogênios no sangue.
O autor mostra a importância da educação
dos pais nos períodos de molde (falta de afeto, amor,
reverie e abandono) na grande maioria das doenças psicossomáticas.
Cita exemplos:
1) na cardiologia: hipertensão arterial, aterosclerose
coronariana (ignomínia desencadeando um infarto do
miocárdio,emoção e HDL, personalidade
do tipo A e modo de falar, orgasmo genital e medo de ter infarto);
2) nos distúrbios ginecológicos (amenorréia
por fantasiar ausência de falo, metrorragia por eliminar
fantasias sexuais proibidas, tensão pré-menstrual,
reação às pílulas anti-concepcionais
como reação ao objeto aletargado, esterilidade,
hipogalactia, aborto e himeneufobia por fantasias filicidas,
parto sem medo, transexualismo e homossexualismo, proteína
alfa-feto e instinto de morte, síndrome da insensibilidade
androgênica, impotência e baixa da VIP);
3) nas afecções reumáticas: dor, endorfina,
encefalina e substância P. Dor e auto-punição.
Depressão mascarada. Perfil álgido. Nevralgias
rebeldes e tanatismo;
4) exercício e relaxamento: endorfina e Zenbudismo;
** Presented in CONGRESSO LUSO-BRASILEIRO
DE GRUPANÁLISE - LISBÔA - 1993
5)Gastroenterologia: ulcus e gastrite como
situação conflitante; retocolite ulcerativa
como eliminar o objeto mau e anorexia nervosa, como não
tolerar a mãe sentida como má. A colecistocinina
e o peptídeo Y na obesidade. Síndrome hipoglicemica
e astenia neuro-circulatória;
6) aparelho respiratório: asma e mãe sufocante
Teste de Walter Trinca;
7)Psiquiatria: estados depressivos e neurotransmissores. Esquizofrenias
e hormônios (bufotenina, taraxeina, monometil-cadaverina,
etc.). Pânico (antigabamodulina, norepinefrina e tiramina);
desenho de criança - sem formalização
(imaturidade do lobo pré-frontal como nas pinturas
dos esquizofrênicos). Cenestopatias (vermes saindo da
face) por alucinogênicos. Epistaxi simulando menstruação
(estar enfraquecido), usar chapéu para não perder
a massa encefálica. Espaço mental único
- angústia na gravidez;
8) Imunocompetência e câncer: vírus RNA,
"gone-haywire", timosinas, interferon, LAK, hemorragia
no leucêmico. "Macaco lutador" e paciente
com ego forte. Câncer e períodos de molde e testes
psicológicos. Teoria de La Barba e Pettingale. Conflito
com a "figura combinada" e ódio intenso,
inconsciente, à pessoa que não deveria ser odiada
- predomínio do instinto de morte, causado pelo tanatismo.
O tratamento para estas doenças psicossomáticas
deverá ser, em nossa experiência, grupanálise
ou psicanálise, associada ao clínico ou psiquiatra
de retaguarda, através de drogas de acordo com cada
caso.
O autor julga que seja onipotência do terapêuta
utilizar somente a grupanálise em casos de estados
depressivos (que pode levar ao suicídio), pânico,
ulcus, tensão pré-menstrual, algias e nas psicoses.
O LÁTEGO NEMÉSICO, MATRIMÔNIO FILICÍDICO,
ORGASMO-MORTE EM GRUPANÁLISE.
Prof. Dr. Luiz Miller de Paiva
São Paulo - Brasil
1. INTRODUÇÃO
Observando os quadros de Dorothea Tanning
"O aniversário" ou "Noite Nupcial",
ficamos pensando no por que pintar u'a mulher linda impregnada
de galhos de árvores com monstro vampiresco ao seu
lado?
Outrossim, outros quadros têm temática semelhante:
Henry Fussli em 1854 pintou "O pesadelo", no qual
u'a linda mulher em posição lasciva, sonhando
com monstros (cavalos alados, etc.) e se contorcendo em desespero;
todavia, parecendo ter muito desejo genital, acompanhado de
pavor ao ato, transformando o prazer em sofrimento.
Paul Delvaux em "Vênus Adormecida", nos mostra,
em ambiente de classicismo grego, u'a mulher nua, deitada
e outra mulher, vestida de cerimônia aponta a caveira
ao lado daquela. O significado analítico seria o de
mostrar como o prazer sexual deve estar ligado à morte.
Aliás, Salvador Dali na escultura "La Licorne",
mostra o cavalo com um só chifre (símbolo fálico
de pureza e neutralizador de venenos) como potência
masculina (horse-power) penetrando de maneira delicada na
muralha em forma de coração, com o intuito de
retirar sangue (deflorar), da medrosa rapariga nua, prostrada
no chão.
"O canibalismo de outono", de Salvador Dali, no
qual um homem e u'a mulher se entranham, um comendo o outro.
No quadro observa-se facas, garfos, etc., tudo "engavetado"
de maneira canibal. Estas fantasias podem permanecer, até
a vida adulta se houveram derriças, brigas e separação
dos pais.
"O balcão" de R. Magritte, em um balcão-caixote
de defunto, sentados. Fantasia do predomínio do instinto
de morte.
2. a) MATERIAL CLÍNICO
Com esses quadros e esculturas em nossa mente,
tivemos uma sessão grupal na qual passou-se o seguinte
fato:
Sra. infeliz no casamento, com vários filhos, marido
chauvinista, dominador, avarento, bruto e agressivo, vivendo
em derriças frequentes e sempre frígida. Ela
sentia o ato sexual como se fosse entre dois homens. Jamais
se masturbara; excessivamente religiosa. Desde criança
sentiu-se marginalizada por não ter nascido homem causando
desilusão ao pai e teve inveja do irmão, o "figlio
maschi", o possuidor de todos os direitos. Com o evoluir
da grupanálise, tomou conhecimento das elaborações
de suas fantasias inconscientes de agressividade ao seu pai,
também déspota (superpondo-o à imagem
do marido) e do forte ressentimento que tinha da mãe
por ter sido fraca e muito submissa. Por ocasião de
uma sessão de grupanálise disse: "Ontem
tive um sonho, bem curto, mas que me impressionou muito. Estava
na sala de jantar da minha casa, sentada e vestida com uma
camisa-de-força. Lembro-me de que meus filhos estavam
perto de mim. O que mais me impressionou foi que todos estavam
sorrindo tranquilamente, inclusive eu. Em dado momento, pedi,
com serenidade, que tirassem um pouco a camisa para que eu
pudesse me coçar". O grupo interpreta que aquela
cena representava que a paciente estava atrapalhando a harmonia
do seu lar com tanta agressividade e hostilidade controladas,
porém sem desespero. A paciente diz: "Realmente
não só tenho medo de ficar louca, mas, ultimamente,
tenho me sentido perseguida pelo medo da morte". A paciente
passa a relatar um segundo fato que tinha acontecido na véspera:
"Fui influenciada por amigas a ir à Ópera,
resolvi, então, ir à costureira fazer uma roupa,
pois dia 1º faço 40 anos e coincide com a inauguração
da temporada lírica. Escolhi um vestido de cor roxa,
mas me deu a impressão de morte. A cor me lembrou caixão
de defunto; enfim, tive a impressão de que estava comprando
um vestido porque ia morrer no dia do meu aniversário
com a morte naquele momento.
Outra paciente do grupo, (que perdera a mãe quando
tinha 3 anos e seu pai, aos 6 anos, internou-a em um colégio,
sentindo-se abandonada, revoltada, tornou-se uma pessoa invejosa,
pseudofrigida e insatisfeita com tudo e com todos), diz também
ter tido dois sonhos:
Eu estava tendo um coito com o meu marido e não sabia
se era anal ou vaginal. Ao lado, uma freira (que me mimou
muito no tempo de internato) pergunta: dói muito? Eu
disse que sim, que doía muito, mas falei rindo. A freira
ficou confusa e trouxe-me uma toalha e sabão para eu
me limpar. Neste momento, a freira, com saia transparente,
deixa ver um enorme pênis; quando a olhei de novo, ela
transformou-se no padre do filme de Buñuel que havia
matado o jardineiro. Apavorada, vi, de relance, o revólver
do meu marido, peguei-o e atirei bem no meio do crânio.
O outro sonho:
Eu passeava na Estação da Luz com o pênis
do meu marido colocando-o na boca, como se fosse chupeta.
Resolvi chupá-lo e como saísse esperma, fiquei
com raiva e acabei mordendo. Nisso o marido (que já
estava possuidor do pênis) reclamou de dor. Com ódio,
retirei de novo o pênis e joguei-o na latrina (nesse
momento já estava em meu apartamento).
Estes sonhos foram interpretados que as pacientes sentiam
o coito como agressivo, sujo, mas que causava certo prazer,
conquanto as fizesse sofrer. A freira seria o analista-mãe
que tenta ajudá-las, porém, este passa a ser
perseguidor quando verifica ser ele a mãe combinada
com o pai (figura combinada) (8,a). O grupo como um todo,
mostrou fantasias inconscientes, assassinas ao analista ou
de eliminá-lo, também. A mãe da paciente
A falecera de tumor cerebral, daí o seu pavor de sofrer
o mesmo mal da genitora, se tivesse tido orgasmo - medo da
Pena de Talião.
O segundo sonho também foi interpretado como inveja
do pênis. O sair com ele para passear seria ter a sua
posse total tornando-se, assim, mais segura e sem tanta censura;
a Estação da Luz representaria a gestação
incestuosa (pois, seu pai morava no interior do Estado de
São Paulo) e, como tivesse sentimento matricida, agride
e, na vigência de ser agredida, castra o homem-analista,
possuidor de algo forte que causa inveja.
Estas fantasias vieram esclarecer que, se obtivessem o prazer
genital, seriam por dois motivos castigadas: primeiro, por
medo de ser agredida pela mãe se obtivesse orgasmo
(não se sentia no direito de ter prazer genital), e,
segundo, por sentir-se possuidora de vagina dentada castradora
do pênis tão invejado (ódio à figura
masculina)(20,i).
Por outro lado, as pacientes não sentiam, também,
satisfação em viver (as suas crises depressivas
eram acompanhadas de idéias de suicídio) e,
frequentemente, uma delas tinha amenorréia (interpretado
como desejo inconsciente de não ser mulher devido ao
seu conceito de sexo frágil)(20,i).
A associação entre a morte e a vida, veio em
seguida a diversas considerações feitas pelo
grupo. O analista mostrou, então, que o medo que se
sentia pela morte, não era medo da morte física
e sim medo da morte de um tabu. do que resultava o nascimento
da realidade.
b) CASUÍSTICA
Constatamos em 254 casos, a falta ou deficiência
de afeto, isto é, dos elementos libídicos paternais
(amor, carinho, reverie, paciência, tolerância,
ou então, pais ensimesmados e com ego frágil)
em 67 casos, acarretou maior frequência de instabilidade
de humor, podendo chegar a 41.1% (24 em 67 casos) de insatisfação
vital total ou afânise. Os indivíduos só
não se tornaram esquizofrênicos, porque faltava
a predisposição genética a essa doença.
A himeneufobia (medo do matrimônio) para ambos os sexos,
é mais acentuada quando o lar onde foram educados,
era infeliz.
3. COMENTÁRIOS
A frustração, não é
só insatisfação do sujeito, mas do objeto
onde seu desejo está alienado. Exemplifiquemos: "paciente
com ejaculação precoce. Por que ele se permitiria
uma suspensão mais prolongada do seu desejo? Como pensá-lo,
se é precisamente do fato de que o seu desejo está
suspenso, na função imaginária do ego,
que se deve o curto circuito do ato? A clínica psicanalítica
mostra claramente que ele está ligado à identificação
narcísica com o parceiro. A frustração
do objeto onde seu desejo está alienado representa
a frustração diante da mulher, sentida como
"vagina dentada".
Ele está entranhado com a mulher agressiva, através
do sistema bumerangue. Por outro lado, se essa situação
perigosa perdurar, ele, paciente, sentir-se-á com o
mal maior - castrado pelos pais (prefere o mal menor - orgasmo
rápido com insatisfação). Outro exemplo
é o do homossexual que procura o desejo do Outro, em
cujo pênis o seu desejo está alienado. Se a culpa
é grande , há o sodomismo sádico, em
cujo ato genital, estaria a punição por ter
querido roubar a mãe do pai ou cometer o parricídio
- daí, o orgasmo e morte (20,f).
Assim, é a mulher por trás do seu véu:
é a ausência do pênis que faz falo, objeto
do desejo, aplicável para os casos de homens travestis
que se identificam com a figura forte, no caso a mãe.
Na dialética do desejo, a criança solicita um
doce, desejando satisfazer sua necessidade de amor. Ela não
quer a bala e sim, a atenção e o afago da mãe.
Através desta metáfora (bala = amor), se ela
não for satisfeita, advém ódio, daí
o anorético (na anorexia nervosa e na falta de apetite
do bebê caso da nossa paciente, com impaciência
e mesmo ódio aos filhos, um deles, bebê de 3
meses, parou de mamar durante dias, pois não recebendo
amor, respondeu com ódio, sinal de protesto). O Outro
(mãe) intervém em suas idéias a respeito
de suas necessidades, ultrapassa o seu território;
sufocando-lhe com mingau, quando está precisando de
amor. É a solicitação de amor, um apelo
ao Outro.
Só resta à criança uma única solução
para forçar o reconhecimento de sua solicitação,
recusar o alimento. Assim, no caso de anorexia nervosa tratada
em grupo (20,e), a paciente toma consciência de estar
cometendo um suicídio lento: para não matar
a mãe (analista), ela se mata lentamente, para se fazer
sofrer (assim como o analista). O seio é mau, o alimento
(leite) é seio, seio é mãe, alimento
é mãe-analista, mãe é má,
logo todo alimento e interpretação são
ruins.
O esquizofrênico pode ter origem na relação
mãe-bebê. O comportamento da criança dependeria
do não-desejo de um desejo ou de um não-desejo
de um prazer que refletiria tanto a "uma criança",
quanto a esta criança. No primeiro caso, a mãe
diria, abertamente, que não desejava filhos; no segundo
caso, que o ato procriador, que deu origem a esta criança
não foi fonte de prazer, assim como nenhum prazer acompanhou
a gravidez, vivida como experiência penosa.
Diz Aulagnier (2): "este não
desejo de um desejo, que se manifesta através da recusa
em sentir prazer a respeito de qualquer coisa que dê
prova da singularidade da criança, vai exprimir-se
no registro do Eu: se o Eu materno desconhece o que se passa
no seu inconsciente, este mesmo Eu sobe e enuncia que o ato
procriador, ou bem não foi fundado em um desejo, ou
então, ele se recusa a reconhecer no pai um desejo
legítimo de ter filho, que poderia ser realizado pela
mãe". Este fato levaria ao fracasso do desejo
de ser mãe. Há tipo de patologia materna que
reforça os riscos de uma esquizofrenia, como a patologia
paterna reforçaria o risco da produção
de uma paranóia (20).
O filicídio atenuado, sentimento decorrente de fantasias
inconscientes de destruir a prole, pelas repreensões,
censuras drásticas com agressões físicas,
irá prejudicar o desenvolvimento mental da criança
ou do jovem.
Estes sentimentos, por vezes, tornam-se conscientes, porém
na maioria das vezes, são inconscientes. Constatamos,
em inúmeras mães, sentimentos filicidas atenuados,
manifestados conscientemente, em não querer engravidar
e em não gostar de crianças; contudo, durante
o coito o rompimento do método anti-concepcional levaria
à gravidez; elas não querendo fazer aborto por
este ser ilegal e contra os princípios religiosos,
fazem com que o filho nascido desta união, sinta não
ter sido desejado, motivo pelo qual, torna-se insatisfeito
com a vida, por mais que esta lhe ofereça, vivendo
infeliz (afânise). Contudo, dependeria, também,
do grau de rejeição desta mães nos períodos
de molde. O mesmo fato ocorre com o homem.
O sentimento filicida do homem pode manifestar-se, principalmente,
pelo medo do matrimônio; ele tem as relações
genitais normais, ama a mulher, mas torna-se incapaz de decidir
se casa, o que significaria ter filho. Se a mulher engravidar,
obriga-a a abortar, sem justificativas razoáveis.
Exemplo de um sonho de um paciente:
Estava fazendo um pedido ao prefeito de São Paulo,
Dr. Jânio Quadros e este negou-lhe e insultou-o. O paciente
da um tapa no rosto do prefeito e este transformou-se em uma
múmia-caveira que desagrega em pedacinhos (semelhante
a um filme de terror). Sua esposa, ao lado, diz: o nosso filho
está lhe esperando para ir ao clube. O paciente comenta
que seu pai era louco como o Jânio e ainda bem que podia
dar ao seu filho o que ele (pai) não lhe dera..."
Interpretamos sua agressividade ao analista por ter mostrado
tais sentimentos hostis.
O paciente iniciou sua análise há 4 anos (3
vezes por semana) por não ter coragem de se casar.
Teve várias namoradas, com relações sexuais
e sociais boas, porém no momento de se falar em casamento,
fugia. Se a moça engravidava, obrigava-a a praticar
aborto. Após 1 ano de tratamento, resolveu casar-se.
O seu filho foi muito bem recebido, porém absolutamente,
não tinha paciência em ouví-lo chorar,
ficava ansioso e agressivo. Durante sua análise, na
qual foi exaustivamente trabalhada esta hostilidade ao filho
e as suas maléficas consequências, o paciente
continua gritando e agredindo fisicamente seu filho, apesar
de ter consultado uma especialista em dinâmica familiar;
contudo, não seguiu suas instruções.
O instinto de morte, sentimento filicida atenuado, continua
predominando em sua conduta.
Outra paciente mostra, através de
um sonho, o seu sentimento filicida:
A paciente estava na estrada, em um comboio com muitas pessoas,
atravessando uma montanha. De repente, estava a pé
com outras pessoas; sua irmã alugou um helicóptero
para salvar as crianças. Ela perguntou: "Onde
estão meus filhos?". A irmã não
respondeu. Perguntou a outras pessoas e ninguém respondeu.
Chegou um helicóptero com os filhos dentro de sacos;
ao abrí-los, só enxergava as suas calcinhas
molhadas e não via os filhos. Acordou desesperada.
Associando as idéias: nos dias anteriores, seu marido
(que não é pai dos filhos) durante o coito havia
dito: "pára, não dá, não
continuo mais..." (não havia ereção).
No dia seguinte, aborrecida, se chegou ao marido e durante
o novo coito, ele teve ejaculação precoce.
Durante sua análise ficou evidente que a paciente não
desejava, conscientemente, os filhos. Certa vez, amamentava
a 2ª filha e o outro chorava - teve ódio intenso
ao filho. Sua mãe, paraplégica, jamais deu-lhe
carinho. A paciente associou o momento que seu marido teve
impotência e depois ejaculação precoce,
como resultado de sua própria agressão a ele
(e ele à ela, pelo sistema bumerangue). Sentindo-se
responsável pela agressão ao marido e para não
hostilizá-lo, derivou-a aos filhos (filicídio
por lei de Talião - minha mãe não gostava
de mim e em represália, agrido meus filhos).
Segundo a escola francesa, o nascimento não é
a origem de um sujeito (nova vida), mas sim a repetição
de uma vida já existente (2)(8)(9) (16)(18).
Abordaremos, agora, a gênese dos sentimentos filicidas.
Há muitos anos temos observado a correlação
entre doenças mentais ou psicossomáticas e o
desamor entre os pais. O filho, produto deste matrimônio,
torna-se em geral, insatisfeito na vida, por mais que esta
lhe favoreça.
Nós não tinhamos segurança em aceitar
que a falta de amor parental, assim como, os casamentos sem
amor e os sentimentos filicidas atenuados, pudessem influenciar
tanto no comportamento de um indivíduo. Contudo, os
casos observados foram crescendo em número e profundidade,
assim como os nossos conhecimentos teóricos sobre heredologia,
etologia, psicossomática, psicanálise e psiquiatria
biológica. Resolvemos, agora, expôr a nossa experiência,
encorajados, como vimos, pelas pesquisas recentes sobre o
não desejo do desejo, da escola francesa de Lacan (16)(18),
os ousados trabalhos dos físicos neognósticos
teóricos (7) e das observações de Wilheim
(31) sobre o registro em nossos gametos no momento da concepção,
constituindo-se a nossa fantasia básica inconsciente.
Nessas condições, a mente humana se torna perturbada
pelos registros tanáticos trazidos desde a concepção
e depois pelas mensagens bruxas e contraditórias parentais
(20,a). A agressividade por predisposição genética,
recebimento de mensagens bruxas e double-bind dos pais, por
um mecanismo "bumerangue", para não ser dirigida
aos pais esta hostilidade se somatiza, manifestando esterilidade,
impotência, aborto, psicoses funcionais e, principalmente,
pelo medo inconsciente que seus filhos façam o mesmo
e tenham a fantasia de destruí-los (20,b,c,e,f).
No indivíduo exacerbado pelo estresse,
decorrente da luta pela vida, com angústia existencial,
aparece a insatisfação da vida, acarretando
infelicidade e podendo levá-lo à afânise
(a falta de prazer total por tudo e por todos, inclusive genital)
ou doença do neutro.
Existem as chamadas pré-disposições genéticas,
isto é, os distúrbios genéticos podem
aparecer ou não, dependendo do ambiente (20,c,f). Nos
animais, temos o exemplo da neurospora grassa que só
se desenvolve em ambiente propício e, no homem, as
doenças do comportamento em geral, nas quais o fator
genético, por exemplo, o distúrbio enzimático
(metiltransferase), ou bioquímico (MAO plaquetária,
grupo sanguíneo O para PMD e grupo sanguíneo
A para a esquizofrenia) só manifestar-se-á se
os períodos de molde (lactação e ambiente
familiar) forem desfavoráveis (repletos de mensagens
bruxas ou double-bind, "esquismo" ou divórcio
emocional ou ausência do Nome da Lei ou Paternal) e
se houver estresse no período de adolescência
(20,a,b,c,d,e,f,).
Jung (12) já lançara como hipótese, a
nossa herança do comportamento, proveniente de nossos
antepassados, através dos arquétipos.
Melanie Klein (13) se refere à inveja inata, isto é,
todos nós nascemos com maior ou menor intensidade de
sentimento invejoso; em última análise, maior
ou menor agressividade destrutiva, manifestada pelos sentimentos
odiosos. Quando esse ódio é muito intenso, causaria
o ego esburacado (1) ou a personalidade psicótica (5).
Heimann, Isaacs e Segal (10)(11)(27) acham que as fantasias
inconscientes, agressivas ou não, são manifestações
instintivas e portanto, genéticas.
Há luta constante entre o instinto de vida e o de morte.
Somos favoráveis à teoria monística dos
instintos. Existe um instinto único, do qual derivariam
os outros dois, tal como ocorre no núcleo peridrociclofenantreno
no qual uma mudança na posição de C =
O ou OH pode produzir tanto hormônios masculinos como
femininos. A nossa educação, principalmente
no período de molde (lactação e ambiente
familiar), é que irá exacerbar o já existente
instinto de morte.
Wilheim (31) lançou uma ousada hipótese sobre
a fantasia inconsciente; ela seria a expressão de uma
"memória celular", estruturante da matriz
básica do inconsciente, constituida por registros de
todas as experiências biológicas pelas quais,
de fato, passou o ser, desde a gênese de cada uma de
suas células básicas componentes, espermatozóides
e óvulo, até o seu nascimento. Nesse local,
formar-se-ia o núcleo do sado-masoquismo e não
no seio mau, como queria Melanie Klein (13).
A fantasia inconsciente seria uma memória e não
uma invenção criada pela mente; somente que,
nos gametos, como não existe ainda cérebro (mente),
os fatos seriam registrados pelo DNR da memória, ressurgindo
posteriormente. Ao contrário dos kleinianos, onde a
primeira relação objetal (seio) seria já
decorrente de situações secundárias,
e não primárias.
Outrossim, o espermatozóide, uma vez
eleito, é sacrificado e sua cauda é, também,
cortada. Trata-se de luta tanática, relembrando o protótipo
da fantasia da cena primária (canibalismo, entre pai
e mãe). O instinto de morte pode ser constituido por
enzimas e hormônios e estes por elétrons (teoria
da física teórica neo-gnóstica de Charon
e outros) (7) que por sua vez, podem atingir o novo concepto,
principalmente se ele não estiver bem constituido (se
não tiver ego forte).
Wilheim (31) baseia essa hipótese citando exemplos
clínicos em situação psicanalítica
cujo acesso foi possível, através de sonhos
que se encontravam devidamente arquivados no cérebro
de seus pacientes.
Rascowsky (24) já assinalou, de maneira minuciosa,
o psiquismo fetal. Tivemos oportunidade de confirmar suas
observações por inúmeras vezes (20,e,f,h,i).
Certa paciente, após 5 anos de psicanálise,
no 7º mês de gravidez, teve intensa crise de pânico,
de nada adiantando as interpretações transferenciais.
Na sua 2ª gravidez, no sétimo mês, começaram
novamente as crises de pânico, quando sua mãe
lhe dissera: "quando eu estava te esperando no 7º
mês, sofri de pavor diante das bombas nazistas".
Desde esse momento, a crise de pânico da paciente, desaparecera.
Por outro lado, experiências em coelhinhos recém-nados
revelam que, se eles foram sacrificados, em cada assassinato
com sofrimento, a mãe percebe à distância,
exteriorizando-se no traçado anormal da encefalografia
(21).
A psicologia pré-perinatal está tentando nos
esclarecer algo mais na relação mãe-feto,
inclusive no reconhecimento das músicas cantadas pela
mãe, durante a gestação. Odent (22) cita
que as ocitocinas têm efeitos amnesiantes e as endorfinas
anestesiantes, sobre o feto. Segundo Klauss e Kennel (14),
o eixo central de inter-dependência entre mãe-bebê
é o fenômeno "bonding", regulado pela
endorfina. De Mause (8) acha que a vida mental começa
no útero, por um drama fetal(não seria um Nirvana,
como antes se pensava), que é lembrado e que será
elaborado através de posteriores acontecimentos infantís,
servindo de base para a história e cultura de cada
época, podendo ser modificado pela educação.
O drama fetal pode ser traumático, repetindo-se através
de fantasias grupais que até hoje atingem nossa vida
política e social.
Lake (17) acha que os acontecimentos pré e perinatais
influenciam no desenvolvimento de nossa personalidade e no
nosso comportamento, produzindo esterilidade, aborto e principalmente
fobia (claustrofobia, agorafobia, zoofobia, etc.).
Van Husen (30) constatou o medo e até o pânico
nos indivíduos que sobreviveram às tentativas
de aborto dentro do útero materno, e relata (apud Wilheim)(31):
"as situações pré-natais uterinas
de perigo parecem ser sobretudo físicas quanto à
sua natureza, interferindo no desenvolvimento pré-natal.
Elas, no entanto, persistem, manifestando os seus efeitos
fisiológicos e psicológicos na vida pós-natal.
As descrições minuciosas feitas
pelos pacientes apontam para a existência de restrições
especiais, advindas de anomalias uterinas, ou de ação
da mãe. Graças ao fato do concepto ter conseguido
reagir a essas circunstâncias, ele pôde sobreviver
intra-uterinamente. Mais tarde, porém, no período
pós-natal, começarão a se manifestar
os seus efeitos, sob a forma de desajustes de comportamento
(desenvolvimento de medos e fobias, em sobreviventes de tentativas
de aborto)".
Esses fatos vêm confirmar o nosso modo de pensar: as
claustrofobias estariam muito ligadas às fantasias
inconscientes de assassinato da própria mãe,
assim como, certas zoofobias (frequência da fobia pelas
baratas, principalmente nas mulheres; seria expressão
desse conflito).
Laing (15) diz: "muitos de nós, devem ter sido
recebidos contra a vontade dos pais e estiveram pendentes
por um fio no ventre materno, enquanto se processavam tentativas
conscientes e inconscientes para destruí-los, antes
ou após implante". "As secreções
da cavidade uterina podem ser calmas ou tempestuosas".
Piontelli (23), estudando fatos através do ultra-som
e pela técnica de Ester Bick, após o nascimento,
observou que o feto sofre as emoções da mãe,
assim como pode ouvir, responder ao toque, engolir, ter paladar,
reagir à dor e ter ereção.
Klein (13) dissera: "para o psicótico, o mundo
é ainda um ventre povoado de objetos perigosos"
e "você (referindo-se ao Dr. Bion) se sente mutilado
ou castrado, na medida em que emerge do ventre de sua mãe..."
(apud Wilheim) (31). Laing (15) também acha: "para
mim é pelo menos concebível que os mitos, as
lendas, as histórias, as fantasias e a conduta possam
conter fortes reverberações de nossa experiência
uterina". Outrossim, o comportamento do indivíduo
dependeria somente do não desejo de um desejo ou de
um não desejo de um prazer, que se dirige tanto a "um
indivíduo", como a "este indivíduo"
(20,h). No 1º caso, a mãe diria abertamente que
não desejava filhos; no 2º caso, que o ato procriador,
que deu origem a esse indivíduo, não foi fonte
de prazer, assim como que nenhum prazer acompanhou a gravidez,
vivida como experiência penosa.
Estes conceitos estariam explícitos na lenda japonesa
que se denomina Complexo de Ajase (20.i):
Nesta antiga lenda japonesa, a espôsa, percebendo a
perda do amor do marido, consulta um oráculo e este
lhe diz: "depois que o ermitão da montanha morrer,
você terá um filho". Ela mandou matar o
ermitão. Nasce Ajase, terrível, delinquente,
hostil, agredindo os pais, até conseguindo aprisioná-los.
Apareceu-lhe o "ruxu", doença similar ao
penfigo foliáceo. Sua mãe, com extrema dedicação,
cuidou de suas pústulas. Ajase, que pensava ter sido
produto de desamor (por interesse), acabou amando os pais.
O sofrimento da criança a impede de se defender das
injunções impostas nos períodos de molde;
ela pode se utilizar, portanto, do pensamento delirante primário.
Este tem como causa essencial a presença de atividade
ou discurso materno, faltando nesse discurso o conceito-que-se-refere-a-ela-mesma".
A chamada função materna restringe-se
somente à mãe alimentícia, frustrante
ou absorvente, isto é, à imagem que ela atribua
ao desejo de sua própria mãe. A mãe esquizofrênica
não delira no sentido clínico, mas estilhaça
a criança na expressão de Capisano (6) ou "corps
morcelés", pela nomenclatura lacaneana.
Certa mães, enquanto não existe a criança,
mesmo durante a gestação, podem ignorar que
lhes faltam os enunciados que dão sentido ao conceito
de função materna; uma vez em contato com o
filho (o encontro real), irá ficar perturbada, aparecendo
certos tipos de neurose esquizomorfa e até mesmo a
psicose puerperal. Nesse tipo de mãe, a recusa de ter
um filho é defesa para o seu equilíbrio identificatório,
mas se o desejo de maternidade se impõe, poderá
entrar em conflito, devido ao forte sentimento filicida. Através
da psicanálise, a paciente deve utilizar-se do Mito
de Pócris, isto é, deixar de ser mãe
má (Parsifae), tornando-se Pócris, a mãe
que permite a concepção.
O excesso do instinto de morte daria, a nosso ver, a ilusão
do sósia: o paciente diz: "acho que não
sou filha (ou filho) de minha mãe (ou pai)". Defende-se
pela foraclusão do Nome da Mãe ou do Pai; mostrando
o fracasso da metáfora materna ou paterna. O desejo
é a ilusão de sósia. O não desejo
é ser filha da mãe (pai), pois captou o seu
sentimento filicida. Esse sentimento impedirá que o
indivíduo tenha prazer de viver, ficará portanto,
sob a égide do instinto de morte (destrutividade).
Como já expusemos em outro trabalho (20,f) os estados
depressivos, as idéias de suicídio e o próprio
suicídio estão na razão direta de conflitos
conscientes e inconscientes com as imagos parentais, muitas
vezes superpostas à figura de conjugês, chefes,
etc.
As experiências de Olds (20,f) evidenciam as zonas de
prazer no hipotálamo anterior e desprazer no posterior
e agora, sabemos, que certas substâncias regulam o humor
do indivíduo: endorfina, destirosina-gama-endorfina,
encefalina, serotonina, epinefrina e nor-epinefrina, cortisol,
17OHCTS, tireoglobulinas, insulina, estrogênios, testosterona
e os alucinogênicos (bufotenina, taraxeina, monoacetilcadaverina,
exorfina, etc.) sendo assim, o desamor poderia ser manifestado
pela diminuição de um ou mais destes hormônios,
acarretando a insatisfação vital. Outrossim,
em outros trabalhos (20,c) procuramos demonstrar que as doenças
mentais funcionais (psicoses esquizofrênicas e P.M.D.)
têm as suas origens já nos avós, pois
seus conflitos psíquicos influenciam os filhos e explodem
nos netos - são as psicoses da 3ª geração
(20,d,e,).
Após a exposição desses trabalhos, dessas
hipóteses e dessas teorias, estaremos agora, mais aptos
a compreender como herdamos dos nossos pais, sentimentos tanáticos
que podem alterar os nossos próprios sentimentos e
comportamentos. Além do mais, as teorias neognósticas
dos físicos modernos, tendo à frente Charom
(7), nos dizem que "as radiações contidas
no micro-universo do elétron não permanecem
sempre pura radiação "negra" (sem
expansão), elas são capazes de aumentar, sem
cessar, sua ordem (os físicos dirão sua neguentropia),
coletando informações cada vez mais ricas.
O elétron pode trocar essas informações
à distância com outros elétrons, visto
que se trata de natureza "espiritual". Da mesma
forma que um elétron sofre a influência eletrostática
de um outro elétron, qualquer que seja a distância
entre eles, a troca de informações entre dois
elétrons (troca "espiritual") poderá
acontecer, qualquer que seja a distância. Esta seria
a base científica para a explicação das
doenças de comportamento e da telepatia. O elétron
forma uma individualidade autônoma, possuindo um espaço
e tempo próprios. O espaço-tempo do elétron
difere dos nossos espaço-tempo ordinários.
O elétron é um verdadeiro micro-universo que
contém, em si mesmo, o espaço-tempo do "espírito".
O self se comunica com os elétrons do ego. O nosso
conceito de estidade (individuação)(20,i), pode
ser melhor entendido, partindo-se dessa individualidade autônoma
do elétron, com espaço-tempo próprio,
pois na estidade, o indivíduo apresenta algo que lhe
é peculiar e só a ele pertence, mas não
deixa de se comunicar com os outros. O nosso ego está
contido, inteiro, dentro de cada um dos elétrons do
nosso corpo - é o ego célulo-humoral.
Dentro de cada homem há individualidades microscópicas
que transportam a libido ("espírito") dentro
do universo, denominados de eons (ou elétron pensante).
Estes conhecem o saber humano, visto que são eles que
"pensam este saber", que ultrapassam o saber humano.
Este é parte minúscula do saber total dos eons,
que pode, todavia, ser expresso através da linguagem
humana.
O desejo anterior do desejo pode ser mais forte que o desejo
- é a comunicação de inconsciente para
inconsciente, tal como em Pentecostes (4):
"Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram
a falar em outras línguas, conforme o Espírito
os impelia que falassem"
(Atos, 2,2-4).
"Não, esses homens não estão bêbados,
como pensais".
"Essa atitude nova, uma verdadeira transformação
de vida".
"Se este sinal não consegue levar os cristãos
à unidade, pode realizar ao menos, o milagre da compreensão
e do amor".
Esses conceitos da física neo-gnóstica
e os outros citados, são de utilidade para podermos
compreender os processos de transmissão de inconsciente
para inconsciente, dos pais aos filhos ou telepático,
e assim, poderiamos agrupar certas doenças psicossomáticas
e mentais em insuficiências ontológicas, isto
é, os indivíduos já nascem inseguros
e seus defeitos seriam exacerbados pelos erros de educação
(20,e).
O indivíduo que sofreu no concepto,
na vida intra-uterina e nos períodos de molde, o predomínio
do instinto de morte, isto é, não desejado,
sofrendo mensagens bruxas, com tensão emocional-depressiva,
levando a uma desregularização hormonal e enzimática
pode tornar-se frágil, não suportando a angústia
vital, descambando para a himeneufobia ou a outras neuroses,
podendo chegar à afânise - a falta de prazer
no viver - o "eterno pessimista" ou doença
do neutro ou do insatisfeito.
"O mundo é tal como se nos parece, feito de coisas
que não aparecem", dizia Sto. Agostinho (26).
Newton apud Zafiropulo e Monod (33) e Rattensi (25), distinguem
dois tipos de luz: a que vemos, fenomenológica e a
luz numênica, que seria a luz virtual, intervindo mais
particularmente nos mecanismos do ser vivo e portadora do
que chamamos "espírito", sendo este acessível
à experiência.
"Deixe o seu coração,
como o sol, brilhar igualmente sobre todos".
"O amor revela fatos que, sem ele, permaneceriam secretos".
(22, pg. 117 e 168).
4. RESUMO
O autor observou nas sessões de grupanálise
o aparecimento de sentimentos ou fantasias filicidas em decorrência,
sejam de fantasias parri ou matricidas projetadas no terapeuta
ou por vivências do instinto de morte no próprio
grupo, constituindo uma matriz perversa.
Inicia o trabalho fazendo comentários teóricos
sobre a dialética do desejo (o desejo do desejo e o
não desejo do desejo que seria o desejo negativo, proveniente
do Outro e sentido pelo self, isto é, o dhvani indú,
a fala de fazer ouvir o que ela não diz) focando o
sentimento filicida na esterilidade, aborto e fobia ao matrimônio.
O filicidio atenuado, sentimento decorrente de fantasias inconscientes
de destruir a prole, pelas repreensões, mensagens bruxas,
censuras drásticas com agressões físicas,
irá prejudicar o desenvolvimento mental da criança
ou do jovem.
Estes sentimentos, por vezes, tornam-se conscientes, porém
na maioria das vezes, são inconscientes. Constatamos
em inúmeras mães, sentimentos filicidas atenuados
manifestados conscientemente, em não querer engravidar
e em não gostar de crianças, contudo, durante
o coito o rompimento do método anti-concepcional levaria
a gravidez; elas não querendo fazer aborto por este
ser ilegal e contra os princípios religiosos, fazem
com que o filho, nascido desta união, sinta não
ter sido desejado, motivo pelo qual torna-se insatisfeito
com a vida por mais que esta lhe ofereça, vivendo infeliz
(afânise). Contudo, dependeria, também, do grau
de rejeição destas mães nos períodos
de molde. O mesmo fato ocorre com o homem.
Foram utilizados 254 pacientes dos quais 67 casos apresentavam
deficiência de afeto paternal, 41.1% com afânise,
e, himeneufobia era mais acentuada nos lares infelizes.
O autor faz uma revisão bibliográfica sobre
a psicologia pré-natal, cita o complexo de Ajase, a
ilusão de sósia, as psicoses da 3ª geração
e aborda a temática "orgasmo e morte" dando
exemplos de sessões grupais e de pinturas célebres
("Noite Nupcial" de Dorothéa Tanning; "O
Pesadelo" de Henry Fussli; "Venus Adormecida"
de Paul Delvaux e "La Licorne" e "Canibalismo
de Outono" de Salvador Dali).
Refere-se ainda ao não desejo do desejo no orgasmo
precoce(vagina dentada), transexualismo, homossexualismo,
anorexia nervosa, a criança como o falo que falta à
mãe ou como objeto transicional, foraclusão
do Nome do Pai e desejo de maturidade como expressão
do desejo de viver (reversão da perspectiva) e, finalmente,
o desejo anterior do desejo, comunicação de
inconsciente para inconsciente (fenômeno Pentecostal).
O predomínio do instinto de morte impede o amor e o
orgasmo e a capacidade de amar. Se essa culpa inconsciente
for menos intensa, ela não impedirá o orgasmo
clitorídeo ou a introdução do pênis
(orgasmo precoce) ou certo prazer em viver; todavia, se a
culpa for acentuada, ela dificultará para a mulher
o orgasmo com o pênis dentro da vagina ou levará
à impotência no caso do homem, devido à
forte agressividade à parceira; na mulher essa culpa
é reforçada pela culpa falocêntrica (mulher-serva),
portanto o indivíduo se defende diante de um mal maior
(a morte) preferindo um mal menor (a pseudo-frigidez, impotência,
himeneufobia e afânise).
A grupanálise, nestes casos, é demorada, trabalhosa,
frustrante para o paciente, dependendo principalmente da habilidade
do analista em saber lidar com essa força tanática,
precisando ser analista-latrina (Meltzer) e um bom continente,
repleto de Eros Terapêutico.
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. AMMON, G. Die Psychodynamik der Psychosen, der Symbiosekomplex
und das Spektrum der archaischen Ich-Krankreiten. Dynam. Psychiat.
(Berlin). 6: 255-372,1973.
2. AULAGNIER, P. A violência da interpretação.
M.C. Pelegrini. Imago. Rio, 1979.
3. BALINT, M. Basic fault: therapeutic aspects of regression.
Tavistock. London, 1968.