(Estidade, função beta, reversão da
perspectiva, alexitimia e lateralização cerebral).
O analista como "sujeito do suposto saber".
Prof. Dr. Luiz Miller de Paiva
Analista Didata
I. INTRODUÇÃO
Um paciente vai a um médico muito recomendado e elogiado:
ao conhecê-lo, enxerga-o tal como um Xamã ou
"Pai Bom", confirmando a expectativa; todavia,
não consegue seguir as suas prescrições.
Este paciente pode comportar-se dividido, isto é,
em "splitting": u'a sua parte boa aceita o médico
como bom e a outra parte, dominada pelo instinto destrutivo
sente-o como mau. Ele irá repetir ou vivenciar o
que ocorrera em sua infância; por vezes, sentia os
pais como bons e outras vezes, como ruins. A sua parte dominada
pelo instinto de morte se dá na saída do consultório,
ao dizer:" Ah! não vou tomar o remédio
prescrito!"
A Matriz Grupal comporta-se, principalmente quando contaminada
pela destrutividade de vários membros do grupo, exatamente
como este exemplo.
II. CONCEITO DE MATRIZ GRUPAL E ESTIDADE
O conceito de matriz grupal de Foulkes (1,a,b) desenvolvido
por Leal e Passos (2), é matriz ou mãe, fonte
onde brotam idéia, sede específica de intercomunicação,
inter-relação e interação que
integra o comportamento grupal e fomenta a evolução
do processo analítico. Os níveis mutáveis
não só porque sugerem modificações
de um grupo e leis de comunicação, mas também
porque seguem o próprio analista, pois desde que
o grupo se originou, o analista conduz para dentro dele
moldes específicos que não são impostos
contra natura.
Esses moldes não devem ser modelo estereotipado.
Segundo Foulkes e Anthony (1), o conceito de matriz de grupo
ou rede transpessoal seria: "A matriz é a teia
hipotética de comunicação e relação
num dado grupo. É o terreno partilhado em conjunto
que, em última instância, determina o sentido
e a significação de todos os acontecimentos,
e no qual se integram todas comunicações e
interpretações, verbais e não-verbais.
Para Cortesão (3), "a matriz grupanalítica
é a rede específica de comunicação,
relação e elaboração, a qual,
pela integração do padrão grupanalítico,
fomenta a evolução do processo grupanalítico
dentro das dimensões teóricas e técnicas
que o informam".
Penso que a matriz individual e a matriz grupal podem ser
consideradas como um processo de estidade, peculiar e específico
a cada grupo.
** Presented in CONGRESSO LUSO BRASILEIRO DE GRUPANÁLISE
- SÃO PAULO - 1991
Cortesão (3,a,b,c,) estudou, também, o padrão
psicanalítico definindo-o como se segue: "Padrão
é derivado do termo francês medieval patron,
e este, por seu turno. é originário do latim
pater e patronus. Neste sentido, padrão pode significar
imitação, copiar, parecer-se com, esboçar,
desenhar, planear um padrão (para) ou prefigurar.
Contudo, em latim, coloca-se a hipótese de que o
tronco sematológico seja oriundo de pã, que
provavelmente vem do sânscrito, onde pã (a
semente) teria a conotação de semear, nutrir
e fomentar. Nesta última concepção,
cunhei o conceito de padrão grupanalítico,
no sentido de algo que o grupanalista transmite à
matriz grupanalítica. As conotações
derivadas da primeira significação - de pater
e patronus - não são pertinentes a minha definição.
Realmente, o grupanalista não se deve oferecer como
um protetor, ou modelo, nem deve dirigir ativa ou didaticamente.
Quando Cortesão, no Workshop de Londres, clarificou
o conceito de padrão grupanalítico, tendo
ocasião de referir que a designação
de atitude do grupanalista (que incluía suas comunicações
verbais e não-verbais, intervenções,
interpretações e procedimento analítico)
constituía um fator específico, dentro de
um contexto característico - a matriz do grupo.
Sugeriu, então, que tal atitude poder-se-ia designar
como padrão (tendo descrito algumas das implicações
semânticas). Porque, argumentava, existem qualidades
mais específicas na atitude grupanalítica,
que se traduzem essencialmente pelo padrão analítico
que o analista transmite ao grupo".
CORRELAÇÃO DE MATRIZ PADRÃO E PROCESSO
GRUPANALÍTICOS
1. Cada membro do grupo possui, quando inicia a grupanálise,
a representação internalizada de matrizes
sócio-culturais e familiares.
2. Pela elaboração terapêutica, na neurose
de transferência grupal, tais representações
são gradualmente assimiladas - nas dimensões
de tempo e de espaço - e analisadas na contextura
de processos comuns, em dimensões meta-psicológicas
e de relação de objeto.
3. O processo grupanalítico fomenta, concomitantemente,
a significação individual da diferenciação
do self de feição única e específica
para cada membro do grupo. Não há dois selves
idênticos, ainda que o processo analítico ponha
em foco similitudes de forma e conteúdo na gênese
de estruturas e funções.
4. O grupanalista assume uma configuração
e significação específicas pela transmissão,
indução e sustimento do padrão grupanalítico.
A explicação de situações intoleráveis
leva a um splitting ou mesmo à fragmentação
de certos membros jovens do grupo, por não poderem
compreender ainda a atitude dos mais velhos e a interpretação
do próprio analista. É a situação
mais difícil de evitar em psicoterapia analítica
de grupo.
Penso que as matrizes individual e grupal podem ser consideradas
como um processo de estidade (haecceitas) (4), peculiar
e específico de cada indivíduo e de cada grupo.
É a internalização por identificação,
o que faz ser o grupo mesmo e não o outro e estar
em seu mundo particular, reviver os períodos de molde,
para atualizá-los e vivenciar assim, as fantasias
destrutivas contra os pais e família, e enfim, perdoá-los.
Não existem doenças, e sim doentes. Cada
indivíduo e cada grupo têm o seu modo específico
de se expressar. Conclue-se então, que se o grupo
estiver sob o domínio do instinto de morte (destrutividade),
ele terá u'a matriz pervertida como fontes de idéias
destrutivas (os elementos beta bionianos).
A identificação projetiva é modo de
ação para ser entendido para que o analista
experimente e tome consciência de como eles, os pacientes,
sofrem; são sentimentos projetados depois de serem
"psicologicamente" processados.
A transferência, como fuga ao novo, refere-se aos
riscos inerentes à transformação de
K em O (K - O) (O seria a realidade última e K o
conhecimento)(5). Essa transformação necessária,
que decorre do trabalho interpretativo, ameaça o
grupo, quando este se vê na contingência de
ser a doença em lugar de saber a respeito dela. A
transformação em O (realidade última)
ameaça a megalomania, e só as interpretações,
que promovem essa transformação, geram o amadurecimento
mental. No vir-a-ser, na realidade última, incluiu-se
também, o risco da mudança catastrófica.
O é a realidade última, o novo, o desconhecido,
o que ainda não evoluiu. A evolução
para O (realidade última), através de K (conhecimento),
é a que se capta na transferência.
Semelhante conceituação do fenômeno
transferencial, dinamicamente referida e definida por fuga
ao presente, ao novo, difere da noção clássica
de transferência, que vai buscar no fenômeno
da compulsão seu fator de propulsão.
A "matriz grupal" do tipo onipotente e narcísica,
é para evitar sentimentos intensos de raiva invejosa
à capacidade do analista. Melhorar é ceder-se
ao analista, portanto, é humilhar-se. Se o analista
não evidenciar esta situação, o membro
ou o grupo fica estagnado ou abandona a terapia.
Se diante das acusações, o analista permanecer
firme, pode, por vezes, levar alguns membros do grupo a
estimularem a contínua devolução de
coisas ruins (elementos beta bioniano) até sentirem,
através das interpretações transferênciais,
que estão usando um tipo de comunicação
especial, que estariam encontrando para salva-guardarem-se.
III. MATERIAL CLÍNICO
O.P.G. ficava no grupo agredindo a mim e aos outros, através
de palavras asperas, dizendo que o Analista não era
de nada, somente sabia ganhar dinheiro e a gente, aqui nesta
"bosta de vida" (ele era médico clínico
e não sabia lidar com os clientes e diretores, pois
possuindo ego narcisista e onipotente, não se conformava
com a sua situação conflitiva, produzida pelos
próprios erros), fazendo força para impregnar
toda a matriz grupal no sentido de tornar-lá perversa,
repleta de elementos beta bioniano.
A meta inconsciente do paciente se opõe a meta da
grupanálise, similar a horda primeva - o grupo não
quer necessitar da figura do pai-analista e, então,
o grupo procura assassinar o pai analista tão invejado
e, ao mesmo tempo, destruir o grupo. (Precisa-se muita experiência
de grupanálise para se perceber esse fenômeno).
"É difícil conseguir que os pacientes
se disponham a renunciar, ao estado de doença pela
qual se sentem protegidos" (6).
O ódio aniquila, por isso precisa ser mantido fora
do indivíduo e do grupo (projeta nas pessoas, na
política, nas instituições, etc.) e
se mobiliza através do instinto de vida no sentido
de colocá-lo, destilá-lo sempre ao exterior
por intermédio das projeções nos membros
do grupo ou fora dele (conjugê, diretor, etc.). Se
a pessoa projeta muito fora, não sendo, portanto,
suficientemente auxiliada pelo instinto de vida, pode ficar
sem contato consigo próprio (alienar-se) ou serve
ao propósito de desvalorizar-se para tornar-se algo
menos atraente à destruição, ou então,
idealiza o analista por não poder receber as coisas
boas desejáveis (6), porque é projetado o
seu próprio ódio, daí a idealização
do analista, estabelecendo-o como salvador. Isto tudo para
evitar de acharem-se sem ajuda, portanto, sem salvação.
O endeusamento do analista é para evitar destruí-lo.
É o exemplo do grupo com matriz perversa. Os elementos
grupais utilizam-se do mal menor (continuar com uma somatização,
pequena que seja: ansiedade crônica, derriça
conjugal, somatizações, etc.) para não
enfrentar o mal maior, que é sentir a raiva invejosa
ao analista; por identificação projetiva maciça
poderia até assassiná-lo. Fica, portanto,
com o mal menor (asma, obesidade, neurose de êxito,
derriças), somente para ter apoio e defesa.
Viver mal (posição esquizoparanóide)
representa uma garantia contra o ataque maciço do
instinto de morte. O analista precisa ter devoção
total ao grupo durante o seu trabalho para sobrepujar esta
dificuldade. O medo do analisando de despertar inveja ao
analista estagna o tratamento. Eis dois exemplos:
Um engenheiro, bem sucedido, sentia medo e raiva do pai,
portador de neurose obsessiva grave. Custou a aceitá-lo,
pois o pai embora fosse culto e bom engenheiro, não
gostava de conversar com indivíduos superiores a
ele. Quando este saia, usava a urdidura tanática.
O paciente sofria muito com esta situação
porque, com a mesma profissão paterna, não
queria, de jeito algum, superar o pai. Em suas fantasias
almejava colocá-lo, novamente, em sanatório.
É como diz Werneck (6): "A situação
de não existência, atende a necessidade de
contornar a inveja, uma vez que, quem não existe,
porque não nasceu e não vai morrer, não
experimenta nem desperta inveja. O grupanalista sentido
como bom, desperta muita inveja, a dor da inveja do bom
torna-se insuportável, a tal ponto que os invejosos
não oferecem quitutes, artigos científicos,
detestam as instituições ou colegas que apresentam
trabalho elogiável, etc., porque não toleram
que o outro tenha prazer, situações características
de neuroses obsessivas graves.
Tivemos um paciente tão avarento que, quando percebia
que a esposa ia ter o orgasmo, ele gozava rápido,
não a satisfazendo, por sadismo à figura feminina,
principalmente, se ela estivesse superposta a imago materna
agressiva.
É como na matriz perversa, os pacientes não
trazem materiais de progressos alcançados e sim só
falam das dores e insucessos, impedindo o crescimento mental.
Outros não aguentam que um membro usufrua dos benefícios
auferidos pela grupanálise.
Um paciente nos disse: "cuspi no prato que ela me fez
com tanto carinho". A grupanálise mostrou que
ele não merecia ter o bom, viria contaminá-lo
com o ruim, para não acarretar tanto mal que poderia
destruí-lo.
Os pacientes com matrizes perversas, isto é, núcleos
psicóticos, procuram destruir o analista e o grupo,
como já demonstramos no capítulo "Calamidade
edípica" (4,b) ou então, eles preservariam
a vida se atacando, através de manterem a grupanálise
longa e sem resultados. É um tributo que pagam para
pouparem-se da destruição total (suicídio),
constituindo a neurose de sucesso e a vitimologia.
IV. MATRIZ GRUPAL, ALEXITIMIA E LATERALIZAÇÃO
HEMISFERIAL
Outrossim, a matriz grupal pode ser constituída pela
comunicação alexitímica (7), constituindo
o "grupo chá das 5", no qual a formação
de ilhotas de egos grupais por membros do grupo, fica condicionada
e estagnada. Tropeçando no limite do espaço
grupal, os membros elaboram discursos ou palavras não
pensadas nem sentidas (fala falada) e fazem frequentes atuações
transferenciais.
O indivíduo que fala por falar, como se fora um papagaio
(alexitimia, de a = sem; lexis = expressão e thymus
= humor, afeto), "no words for mood", não
obtém resultados, pois "fala pelo Outro",
não foi, portanto, sentido, produzindo resultado
algum por não haver "insight". É
como se estivesse falando como que constituído de
um só hemisfério. Como se tivesse seccionado
seu corpo caloso, segundo uma das teorias da esquizofrenia,
na qual se tenta explicar o "splitting" por meio
do mecanismo da "disfunção entre os hemisférios
direito e esquerdo (que, no nosso modo de ver, poderia ser
um processo bioquímico, por intermédio de
alucinógenos (4,c). O "Outro" seria o outro
hemisfério).
O hemisfério direito é o cérebro dominante
caracterizado pela lógica, pensamento concreto e
dificuldade de simbolização. Estes fenômenos
podem dominar a dinâmica grupal no sentido catastrófico.
O grupo como lateralização do hemisfério
se comporta como se fosse o "Outro", a outra parte
do grupo.
V. MATRIZ GRUPAL E REVERSÃO DA PERSPECTIVA
Em trabalho anterior (4)(8) mostramos como o terapeuta deve
estar atento às mensagens contraditórias do
grupo, sendo necessário reverter a perspectiva para
poder entender a dinâmica grupal, naquele momento,
e como usar a interpretação.
Os pacientes nos oferecem o material (tese) e, em contrapartida,
lhe oferecemos uma antítese que os confronta com
a verdade da qual eles estão fugindo (seria o latente)
- e os conduz a um novo envolvimento da verdade. Um exemplo
é o caso de homossexualismo de Dora, que Freud (9),
não conseguiu detectar. Ele deveria impor a Lei do
Pai (falo forte) e separar Dora da sra. K. Dora, por oposição,
poderia ser orientada na direção favorável.
Lacan (10) contrapõe o excesso do aqui e agora porque
não é só tu-eu, há algo mais.
Ficar no "espelhismo" é enganar-nos duplamente
porque nos mantém em planos do imaginário
(estágio do espelho) e não leva à inversão
dialética (reversão da perspectiva).
VI. O SUJEITO DO SUPOSTO SABER NA TRANSFERÊNCIA
A transferência é um "espelhismo"
que o analista tem de desenganchar. Os membros do grupo
podem imaginar o analista como sujeito do suposto saber
e acabar transformando-o em sujeito do suposto saber, pois
no início há a idealização (útil
na fase inicial da terapia), mas o terapeuta tem de ir tirando
a ilusão do paciente até fazê-lo compreender
que esse objeto que tudo sabe não existe. O suposto
saber deve ser evacuado no final - principalmente quando
ocupa o lugar do Outro (pai fálico com autoridade).
Se o analista não se colocar como o terceiro que
tem de operar o corte (castração), ingressa
em um campo imaginário onde a situação
eu-tu reverbera indefinidamente.
Eis um exemplo similar àquele ocorrido com a paciente
Dora, analisada por Freud (9):
Antes de iniciar a grupanálise, nossa paciente submeteu-se
a psicoterapia com outro terapeuta. Durante a terapia, ela
dissera que o pai tinha uma amante e que acabara conhecendo
o marido desta e simpatizando com ele. O grupo mostrara
que ela estava superpondo a imago paterna com a do marido
da amante do pai.
Ela protestou veementemente, porém, com o decorrer
das sessões, passou a admitir essa hipótese,
por ter tido atração sexual consciente por
ele, o que foi interpretado como se houvesse uma ligação
também com o analista naquele exato momento. O terapeuta
anterior deixou de assinalar o vínculo sexual dessa
paciente com a amante do pai. No grupo, trabalhou-se no
sentido de mostrar como ela estava enamorada (componente
homossexual), não do marido da amante do pai, mas
sim da amante do pai. Essa inversão dialética
fez a paciente enfrentar o mistério do próprio
ser, de sua feminilidade.
Ela havia permanecido fixada oralmente na própria
mãe e, nesse sentido, expressava o estágio
do espelho, no qual o sujeito reconhece seu ego no outro.
No início da terapia, ela não conseguia ser
aceita como objeto do desejo do homem, demorando longo tempo
para sentir seu desejo homossexual, isto é, de ter
uma mãe boa, possuidora de maternagem, na pessoa
da amante do pai. Ela necessitava, primeiramente, adquirir
confiança (falo) no analista, para que depois do
beneplácito da mãe-analista pudesse aceitar
a figura do homem.
Cortesão (9) fala de uma paciente com elementos punitivos
e proibitivos da homossexualidade. Não podia gostar
do analista-pai porque isto significaria o abandono da relação
primitiva com a mãe; por outro lado, não conseguia
amar o analista-homem, pois não sabia como era amar
um homem; assim, o conflito era projetado nas outras pessoas
que a acusariam de homossexualidade. Acabou reconhecendo
que os colegas realmente não falavam dela.
O processo, nesse caso, é paleológico, pelo
princípio de Von Damarus, como já descrevemos
em trabalho anterior (4), e que Matte-Blanco denomina lógica
simétrica do sistema inconsciente. Somente por esse
caminho a análise grupal terá resultado.
VII. TRANSFERÊNCIA ESPECULAR
Quando o analista utiliza a técnica de Lacan (10)
e passa a intervir como o Outro, rompe-se então a
fascinação especular do grupo pelo analista
idealizado. Através da transferência especular,
abre-se caminho para que o paciente regresse e repare os
danos que o self sofreu no processo de desenvolvimento (12),
como ocorreu com o caso citado anteriormente.
A transferência grupal envolve uma nova dimensão,
distinta da evolução libídica e das
dos níveis de fixação, sendo denominada
por Foulkes e Rita Leal (1)(2), reação especular
múltipla. Essa reação é fundamental
no mecanismo da formação da personalidade,
na diferenciação do self, no passado das ligações
do self com outros membros, imersos na matriz grupal. Rita
Leal (2) vê no processo de grupanálise uma
regressão ao estágio anterior ao do espelho,
com a reativação emocional primitiva da experienciação
interna do self.
VIII. CONCLUSÕES
O grupanalista deve sempre estar atento à formação
da matriz grupal perversa e dar conhecimento claramente,
de sua existência alexitímica, ambivalente,
destrutiva maquiavélica (usa a desvalorização
para salva-guardar-se). Ele deve ser continente, firme,
repleto de Eros terapêutico, utilizar-se da revisão
da perspectiva para poder suportar toda essa malignidade
e ter especial devoção para conseguir apaziguar
a intensa inveja grupal.
A grupanálise é lenta, necessita caminhar
intrepidamente porém não será tão
má assim se for coxeando. É pena que as gazelas
não possam ensinar velocidade às tartarugas...
Não sou a luz, sou as trevas, mas no fundo das minhas
entranhas brota u'a chama que me devora. Eu sou a morte
devorada pela luz...", escreve Kazantzakis (13).
É assim que se sentem, algumas vezes, os analisandos
ou todos aqueles que desejam adquirir a verdade, embora
esta jamais possa ser atingida em sua totalidade, isto é,
como a coisa-em-si, no dizer kantiano e bioniano. A angústia
existencial tem uma de suas causas no fato de o homem ser
oriundo de um antro escuro, o útero, e encaminhar-se
para outro antro, mais escuro ainda, o túmulo. O
pessimista, com medo da verdade, julga que a primeira mãe
arranca-o do abismo tenebroso e a segunda atira-o para o
tenebroso abismo... Contudo, através da visão
interior bem conduzida, o homem poderá enxergar um
turbilhão de forças libídicas e, de
uma criatura débil e efêmera (de fantasias
culposas), poderá transformar-se em um "hominidae"
vigoroso e com superego forte, tranquilo e sem mácula,
cada vez mais distante de seu primo macaco... "Não
é a verdade que torna grande o homem, mas o homem
que torna grande a verdade", no dizer de Confúcio..
Para a matriz grupal perversa finalizamos com a citação
de Foulkes (1):
Quando tudo é dito, sobrará um núcleo,
que a ciência não poderá reduzir mais,
porque está mais perto da arte e da religião,
ligado com sua própria personalidade, uma relação
primária... baseada no amor, respeito e fé".
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